(publicado originalmente em 23  de maio, 2006, reproduzido pela passagem do aniversário de Naguib Mahfouz)

Não aguentei esperar até quarta, dia no qual costuma escrever sobre literatura, tão presente estava o livro na minha cabeça.

Eu não sou um leitor preconceituoso, leio quase tudo que me cai na mão – até os panfletos que voam pela rua, como dizia Cervantes – mas como nem sempre se tem tempo para ler tudo o que se deseja muitas vezes acaba-se por fazer um pré-julgamento de algum autor e colocando-o no final da fila. Foi este o meu caso com Naguib Mahfouz, tão saudado em críticas e resenhas como defensor da modernização do mundo islâmico e vítima dos extremistas, que ainda que me despertasse alguma curiosidade ia sempre adiando a leitura por imaginar tratar-se de mais um daqueles “brown sahibs”, ainda que goste de vários deles como Tariq ‘Ali e o próprio Amin maalouf.

Tirou-me desta visão equivocada uma irmã muçulmana que insistiu para que eu o lesse e indicou um livro “Noites das Mil e Uma Noites” – em inglês, onde as Mil e Uma Noites são mais conhecidas como “Noites Árabes” ele tem o também sugestivo título de “Arabian Nights and days”, dias e noites árabes, menos fiel ao título original árabe mas preservando em parte o espírito, ainda que não destaque justamente o aspecto de trevas expresso no original.

Mal consegui largar o livro até terminá-lo e cheguei à conclusão que tanto extremistas muçulmanos quanto os que o elogiam, pelos motivos errados, no Ocidente não devem tê-lo lido ou se leram não entenderam. O mesmo diria de um crítico que disse que ele tentava ser árabe mas só conseguia ser egípcio, epigrama reciclado há décadas que talvez possa ser aplicado a outros livros mas de forma alguma a este, que mais que árabe, esta ficção copiada pelos políticos demagogos do nacionalismo ocidental, é islâmico.

Não posso falar pelas outras obras, em especial Midaq Alley, a qual dizem ter sido condenada por blasfêmia, mas também serviu de base a um belo filme mexicano, mas se houve algo que me impressionou no livro de Mahfouz foi justamente a profunda piedade e religiosidade. “Não se esqueça que terá de prestar contas Àquele que lê os corações”, diz um dos djins; “Quando chamados a fazer o bem se dizem fracos, quando comandados a fazer o mal dizem que cumpriram ordens”, diz outro.

Para usar uma expressão popular, diria que os críticos religiosos “passam recibo” – como aqueles que o esfaquearam em um atentado, e extremistas que tentam em bando matar um velhinho de 92 anos somam a habitual covardia dos terroristas uma dose adicional de vileza e falta de amor a Deus – ao condená-lo porque seu alvo não é a religião, mas a hipocrisia, a mesma hipocrisia que todas as pessoas que se voltaram verdadeiramente para Deus, em qualquer religião, sempre tentaram exorcizar de suas sociedades.

Quanto à obra em si, a despeito das outras considerações, considerei realmente brilhante a forma com a qual ele entrelaça diversas histórias tradicionais das mil e uma noites em histórias que podem ser lidas de várias formas, tanto pelo seu sentido filosófico, como pelo seu ensinamento religioso e até como fábula política. O entrelaçamento ocorre não só no eixo central da história – que tem como cenário justamente onde terminam as mil e uma noites, ou seja, quando Shariar, depois de ouvir as histórias de Sherazade, desiste em definitivo de matar as esposas, mas também nas histórias de diversos personagens, arriscaria dizer na de todos, nas quais estão enxertados cenários das Noites.

Algumas vezes este processo é evidente, como no caso de Sindbad, O Marujo. Mas ás vezes é oculto – até porque as múltiplas edições das Noites variam muito e as quatro que eu tenho chegam ás vezes a não se aparecer uma com a outra – como no caso do belo casal que os gênios transportam para passarem a noite juntos, no homem pobre que gasta um tesouro para criar uma falsa corte na qual, por oposição a real, é feita a justiça, nos passeios do soberano pelas noites. Para não falar nos djinns que tem papel relevante – ainda que nem tanto quanto pareça à primeira vista, no desenrolar das histórias, afinal com todos os seus poderes são coadjuvantes cujos planos dependem dos corações dos homens para serem bem ou mal sucedidos.

Nesta transposição o autor consegue manter muito do caráter cruel, arbitrário até, que existe no “original”, ainda que ás vezes tornadas mais prosaicas, e com isto mais humanas, como no caso das preocupações em esconder a gravidez da irmã de Sherazade, sujeita à brincadeira dos gênios mencionada acima. Em outros casos alguns símbolos velados nas Noites são colocados de forma mais evidente, em particular no caso do sheikh sufi que mesmo surgindo pouco é um dos centros e de certa forma o protagonista da história porque quase tudo gira de alguma forma em torno dele, inclusive como tendo sido ele a ensinar as histórias que Sherazade, sua antiga pupila, conta para conter Shariar.

A morte, a loucura, uma certa sensação de caráter inelutável do destino dão certo tom sombrio à obra em uma leitura inicial, mas a mensagem geral pareceu-me muito otimista porque de uma forma geral diz que o homem sempre pode libertar-se e salvar-se, dependendo apenas de si e de sua capacidade de enfrentar a falsidade e as conveniências com a Verdade. Que um dia os governantes, em especial os do mundo islâmico mas também os de toda parte, possam ter o destino de Shariar.

É evidente que sem ler outros livros não posso traçar um perfil mais preciso, mas pelo que pude sentir em Noite das Mil e Uma Noites – assim como em Akhnaton, o Faraó Herege, que no título original tem o subtítulo relacionado à morador da verdade – no qual mergulhei em seguida, onde um jovem escriba entrevista diversos personagens para tentar descobrir a verdadeira história do Faraó proscrito – há um profundo amor do autor pela verdade, combinado com um grande estilo de contador de histórias, assim como a preocupação de não ser nem do Oriente, nem do Ocidente, mas do lugar onde more a verdade.