Morri como mineral e tornei-me planta.
Morri como planta e renasci animal.
Morri como animal e tornei-me Homem.
Por que devo temer? Quando fui eu diminuído por morrer?
Ainda outra vez morrerei, como Homem, para me elevar
com os anjos abençoados; mas até da angelitude
terei de sair. Tudo, excepto Deus, perece.
Quando tiver sacrificado a minha alma angélica,
Tornar-me-ei aquilo que nenhuma mente jamais concebeu.
Oh, deixem-me não existir! Porque a Não-Existência
proclama, em sons melodiosos,
que a Ele regressaremos.
(Rumi)

 

Eu estava no ginásio no início da década de 80 – na verdade não era mais ginásio mas a mudança da nomenclatura era ainda tão recente que aquela segunda parte do recém nomeado 1º. Grau era ainda chamada assim – quando as aulas de religião deixaram de existir, por uma decisão do Conselho Nacional de Educação do regime militar. A piedosa senhora que nos dava aula, preocupada com nossas almas, ofereceu-se para dar aulas em sua casa aos que estivesse interessados.

Eu estava na meia dúzia que atendeu ao chamado, enquanto outras centenas de colegas acharam coisas melhores para fazer.  Tudo ia bem até que lá pela terceira aula a professora ataca violentamente a teoria da evolução, com aqueles argumentos simplórios queainda se houve por aí.

Eu tinha uma formação científica e uma ligação tão grande com o tema que até, mesmo com 12-13 anos de idade, tinha até a chave dos laboratórios inativos da escola que tentava reativar e alguma fama de cientista louco entre os colegas. Tinha lido uma versão condensada do livro de Julian Huxley buscando popularizar a teoria da evolução, de uma edição distribuída nas escolas na década de 60 (por sinal comecei a reler a versão integral agora, na ressaca destas lembranças). Para mim aquele debate era uma do passado, já deixada para trás há tempos, distante como as afirmações de Galileu, cujos opositores tinham ficado para trás e virado piada.

Então aquele ataque a Evolução foi um choque para mim, algo inesperado, algo que me dizia que tinha de escolher entre ciência e religião em uma disputa na qual não era possível ser neutro ou aproveitar o melhor dos dois mundos. Deixei as aulas de religião, o catecismo para a primeira comunhão e levei mais de uma década para reconciliar-me com a religião e ela voltar a minha vida.

Ouvir os mesmos argumentos contra a evolução nos dias de hoje – cena comum nesta onda de obscurantismo pela qual passamos – inclusive de pessoas que respeito muito ainda produzem algum incômodo, mas não aquela “ira santa” que me afastou da fé no passado. Meditando sobre isto chego a conclusão que ter resolvido dentro de mim estes conflitos – o que não ocorreu naquela mente de adolescente – é que provocou uma sobrerreação.

Uma década e meia depois, lendo a Muqadimma de Ibn Khaldun fiquei impressionada que ele mencione naquele texto do século XV a evolução com naturalidade. Tentando entender achei uma conclusão quase lógica aquele pioneirismo porque o que havia dado a Darwin o insight sobre a “Seleção Natural” antes de qualquer conhecimento sobre genética havia sido exatamente a criação seletiva pelo homem de espécies animais e vegetais – aquilo que se chama hoje de “melhoramento genético” ou “seleção genética” mas que acompanha enquanto prática o homem desde as primeiras plantações e criações do neolítico.

E, particularmente, a civilização islâmica, ponte entre vários climas e biomas, tinha uma vasta experiência prática neste processo de seleção. Não só pelo controle proverbial das linhagens de cavalos árabes buscando desenvolver as qualidades necessárias de disciplina, docilidade e agilidade, mas também em cosias muito mais prosaicas como limões e laranjas – não fiquem chocados, mas a vida não te dá limões, como diz o provérbio, porque o limão não é uma fruta “natural” mas uma criação humana a partir da seleção genética da cidra, assim como as demais frutas cítricas, daí o nome.

É evidente que em uma cultura em expansão, confiante em si mesma, na vanguarda do conhecimento tanto quanto do domínio político e econômico,  a reação a esta questão da ciência e da fé é uma – confiança expressa por exemplo pela frase do filósofo Ibn Rushd de “que a verdade não contradiz a verdade” e portanto qualquer discordância é apenas uma imperfeição de observação. Muito distinta é a reação séculos depois quando a civilização islâmica é acorrentada pelo colonialismo europeu – a discussão sobre os motivos desta reviravolta, ainda mais que do ponto de vista do conhecimento científico que é o foco todos os elementos que dão origem a revolução científica, e portanto a industrial, na Europa passaram  pelo mundo islâmico, escapam do objetivo deste pequeno texto, quem sabe se possa voltar a ele em outro momento. Ainda mais distinta é esta visão em um momento daquilo que vem sido chamado de “Ressurgimento islâmico”. No próprio ocidente há movimentos similares e é sintomático que as negações da evolução que hoje ressoam no mundo muçulmano sejam em grande parte inspiradas e copiadas dos fundamentalistas cristãos, dos jecas do Cinturão da Bíblia, não mais do esforço de síntese dos grandes pensadores clássicos.

Também não é paradoxal que o esforço antievolucionista do pensamento islâmico – para além de Isis, Wahabis e Boko Haram que são casos patogênicos à parte – venha de pessoas que vem se notabilizando pela desonestidade intelectual, pelos truques e trapaças no esforço de provar seu ponto de vista, como se os fins justificassem os meios e negando um elemento essencial do Islam que é o apreço a verdade como elemento essencial da ética.

Não é paradoxal que uma das vozes mais sensatas, ainda que angustiadas, nesta discussão entre Islam e evolução venha justamente de uma biólogo cujo campo de pesquisa é exatamente a antropologia física, Fatima Jackson. Uma convertida cujo campo de atuação antes da conversão era, e continua sendo, justamente a evolução e particularmente a evolução humana – o topo de todas as polêmicas teológicas sobre o assunto.

Ser “ocidental” e cientista não a impediu de se tornar muçulmana, pesquisar e ensinar evolução não tolheu sua fé, pelo contrário a impulsionou a descobri-la. Mas certamente sua condição a ajudou em muitos pontos a encontrar suas respostas, aquela superação do conflito interno que mencionei acima, pois seu foco é exclusivamente a busca da verdade com aquele rigor da ciência, sem preocupações políticas, econômicas, sociais. Impossível imaginar melhor descrição do exercício recomendado pelo sagrado alcorão nos versículos 6-7 da Sura Al Mulk: “tu não acharás imperfeição alguma na criação do Clemente! Volta, pois, a olhar! Vês, acaso, alguma fenda? 4 Novamente, olha e torna a fazê-lo, e o teu olhar voltará a ti, confuso e fatigado” ou às muitas passagens que santificam o conhecimento e atestam que aquilo que o homem sabe foi um presente divino.

A explicação singela de Fatima Jackson de que a ciência diz “como” enquanto a fé diz “porque” talvez satisfaça pouco tanto a cientistas quanto teólogos, mas certamente concilia o elemento essencial a ambas: a verdade.