Na nova edição do Festival de Besteiras que Assola o País a perspectiva de oficialização de uma ideologia reacionária, irracionalista e agressiva está naquele limite perigoso entre o trágico e o cômico. Ao mesmo tempo em que as declarações pomposamente ridículas de metafísica e gosto duvidoso do novo chanceler provocam risos pelo mundo, ela também tem o caráter aterrador de dar ao novo regime uma das coisas que faltavam para que ele se caracterize como fascismo: uma ideologia totalitária que elogia a violência, condena a razão e diviniza o líder.

Certamente não se pode cobrar de quem nega a lógica e a razão o rigor argumentativo, mas ao menos para aqueles que ainda se consideram parte da longa tradição ocidental é essencial mostrar o quanto o raciocínio desta mistificação visa destruir e não salvar o Ocidente. Usando uma fonte insuspeita mesmo para conservadores (por economia de argumentação ao não precisar validar a fonte), Samuel Huntington no polêmico “O choque de Civilizações” – documento que tem gravitado na definição de doutrinas diplomáticas pelo ocidente e em especial nos Estados Unidos – lista uma ´serie de elementos políticos, históricos e epistemológicos que, ao estarem presentes em conjunto, caracterizam o que ele considera a “Civilização Ocidental”.

A lista de Huntington, na qual ele aponta que um ou outro elemento tmbém está rpesente nas outras civilizações mas só a Ocidental reúne todos, estão:

  1. O Legado Clássico, em especial o racionalismo e a filosofia grega;
  2. A Reforma Protestante e a posterior acomodação com o catolicismo em um estado laico;
  3. Os idiomas vernáculos europeus, em oposição à adoção de um língua de alta cultura diversa da linguagem popular;
  4. Separação entre autoridade espiritual e temporal;
  5. Império da lei;
  6. Pluralismo social, caracterizado por ele especialmente como a existência de associações que não fossem fundadas em laços comunitários familiares e nos quais o ingresso não era limitado pela situação social de nascimento;
  7. Parlamentos;
  8. Individualismo

 

Outro autor conservador, Ortega Y Gasset (o qual curiosamente foi desaparecendo das referências “de direita” na última década) igualmente fala de um Ocidente muito diferente daqueles que os delírios reacionários querem “salvar”. Reproduzindo um trecho de A Rebelião das Massas:

“A forma que na política representou a mais alta vontade de convivência é a democracia liberal. Ela leva ao extremo a resolução de contar com o próximo e é protótipo da “ação indireta”. O liberalismo é o princípio de direito político segundo o qual o Poder público, não obstante ser onipotente, limita-se a si mesmo e procura, ainda à sua custa, deixar espaço no Estado que ele impera para que possam viver os que nem pensam nem sentem como ele, quer dizer, como os mais fortes, como a maioria. O liberalismo — convém hoje recordar isto — é a suprema generosidade: é o direito que a maioria outorga à minoria e é, portanto, o mais nobre grito que soou no planeta. Proclama a decisão de conviver com o inimigo; mais ainda, com o inimigo débil. Era inverossímil que a espécie humana houvesse chegado a uma coisa tão bonita, tão paradoxal, tão elegante, tão acrobática, tão antinatural. Por isso, não deve surpreender que tão rapidamente pareça essa mesma espécie decidida a abandoná-la. E um exercício demasiado difícil e complicado para que se consolide na terra.

Conviver com o inimigo! Governar com a oposição! Não começa a ser já incompreensível semelhante ternura? Nada acusa com maior clareza a fisionomia do presente como o fato de que vão sendo tão poucos os países onde existe a oposição. Em quase todos, uma massa homogênea pesa sobre o Poder público e esmaga, aniquila todo o grupo opositor. A massa — quem o diria ao ver seu aspecto compacto e multitudinário? — não deseja a convivência com o que não é ela. Odeia de morte o que não é ela.”

O “Ocidente” não está, como pensam os reacionários, nos combates nas prais de Tróia como aprece pensar nosso futuro chanceler, mas em tais fatos míticos terem sido transformados em poemas. O Ocidente não está na barbárie dos cruzados mas no intercâmbio cultural e econômico que surgiu quando os fanáticos e ambiciosos carniceiros foram substituídos pro gerações aculturadas. O Ocidente não está nas legiões romanas destruídas na sua eficiência pelo latifúndio e corrompidas pela demagogia dos tiranos, tampouco está na primitiva selvageria dos bárbaros, mas na síntese do império da lei romano com o alto apreço pelo liberdade individual e limitação do poder dos bárbaros.

O Ocidente, definitivamente, não está no Antigo Regime e sua política de privilégios e cargos restritos pelo nascimento, mas sim nas revoluções Inglesa, Americana e Francesa que tornou a todos cidadãos livres e iguais perante a lei. O Ocidente pouco está nas guildas e no comércio, mas está sobretudo na revolução industrial e no desenvolvimento tecnológico que deu o salto de produtividade essencial a esta era das massas.

Finalmente, o Ocidente está com Galileu, Bruno, Darwin, Scopes e não com Torquemada, Butler e Jennings. Nada pode ser tão frontalmente contra o que chamamos de Ocidente quanto o obscurantismo e a negação das Luzes invocadas pelo novo governo.