Sampa

“A Cidade parece ser o local onde se torna possível a explicitação das vocações mais diversas e, portanto, a especialização mais particular através da comunicação e da colaboração. A especialização, por sua vez, leva à dependência de uma atividade em relação às outras e, breve, à limitação da autonomia. Daí a necessidade de reaparecer, distinguir-se e recolocar um significado e um aspecto à própria individualidade. Aqui nascem, também a competição e o conflito. Cooperação e luta, envolvimento e isolamento chocam-se em uma intensa mobilidade que é também movimento, ir adiante, descobrir-se a si próprio e ao mundo, mudá-los.” (Roberto Guiducci, A Cidade dos Cidadãos)

2010 para mim foi o “Ano do Plano Diretor”, na minha mania de nomear meus anos. Passei o ano discutindo sobre desenvolvimento urbano, incontáveis reuniões de todo tipo, milhares de páginas de relatórios para serem mastigados pela análise estatística para transformarem-se em um uma folha apontando tendências, conversas e mais conversas com sábios, tolos e loucos aprendendo sempre algo em cada uma, dezenas de livros de todas as tendências e visões para tentar compreender o assunto, dos mais conservadores aos mais radicais, mapas e mais mapas quase tão repletos de cores e legendas quanto as pessoas que moram naquele território representado. Emfim, um turbilhão de informação a ser processada, digerida, condensada em conceitos e transformada em ferramenta para a ação.

Para mim foi uma redescoberta de mim mesmo, uma volta à batalha com ânimo guerreiro que não tinha há tempos e a paciência que não tinha nas batalhas anteriores. Felizmente no início tinha a ignorância fundamental que a tarefa era grande e complexa demais pra mim, isto fez com que a aceitasse e me empenhasse em realizá-la. Magnífica benção é a ignorância.

Dos desdobramentos da tarefa abriram-se tantas e tantas batalhas paralelas, muitas trincheiras a fincar o pé, muitos outros campos a avançar. No saldo final com certeza foram tantas, tão relevantes e profundas, as vitórias que as derrotas puderam ser esquecidas numa luta tão feroz contra as intricadas teias que envolvem a cidade e seus interesses.

Queria ter escrito ontem, aniversário de São Paulo, mas mais uma vez não houve tempo e tranquilidade para exprimir aquela que é a meu ver, doentiamente avesso a festas e comemorações, a única homenagem possível a quem faz aniversário, contribuir para a reflexão de balanço que deve marcar a data.

Há algo de brilhante no cinza de São Paulo que escapa aos olhos de quem passa apressado e atento mais a si mesmo que à sua volta. Há uma beleza difícil de definir em meio a esta fuligem escura que aprece cobrir tudo e transformar o que era novo em vetusto em poucos meses. Leitor apaixonado de Thoreau minha alma também se divide entre andar a pé pela floresta e olhar pela janela do gebinete esta agitação de mil tons de cinza se mexendo caoticamente pela janela.

Tudo que li, conversei, discuti, falei, vi sobre a cidade foram sempre de alguma utilidade e prazer. Mas se eu precisasse selecionar uma cosia que mais me marcou foi o livro do urbanista italiano que está citado na epígrafe. Os urbanistas profissionais ou amadores quase sempre me dão a impressão de que no fundo odeiam a cidade, querem transformá-la em arremedo de aldeia gigante, resgatar uma vida comunitária que não tem mais como existir proque os pressupostos dela deixaram de existir.

Guiducci, pelo contrário, me pareceu o único nesta balbúrdia toda que ama mesmo, lá no fundo, a cidade. Não quer domá-la ou demoli-la, mas sim libertar seu potencial. Só ele parece ter compreendido o que compreenderam todos os jovens talentosos desde a Babilônia da antiguidade às atuais, que a cidade é a panela de água fervente – para usar a imagem de Sorokin – e o local onde as cosias acontecem.

Parece impossível amar Sampa com seus congestionamentos, transportes lotados, poluições, multidões, sua feíura das camadas de progresso que vão se sobrepondo uma a outra tornando velho muito rapidamente o que está por baixo. Mas raspe-se o concreto e se poderá enxergar a beleza e riqueza de toda esta cooperação e conflito e se pdoerá enxergar que há nela um sentido estético que escapa a tantos que querem mudá-la sem enxergar sua essência e com isto só conseguem ser “cosméticos” porque só enxergam o “bonitinho” e nunca realmente o belo – “O silêncio, a solidão, o tédio e a repetição levam a uma sensação de estática e de morte ainda mais insuportáveis que uma existência vivida na tensão, na febre de construir, na fictícia ilusão de conservar a vida na pedra que caracterizam a vida na cidade”, comenta Guiducci sobre as propostas falidas de mudar a vida nas grandes cidades”.

A “alma” da cidade não está nos prédios, no concreto, onde costumam procurá-la. Está naquela multidão que se acotovela no movimento alucinado, lutando contra a natureza – não só a natureza externa, aquela dentro de nós mesmos, nos nossos genes, que nos faz desejar a vida tranquila em um recanto seguro com um pequeno grupo de conhecidos. Muitas vezes já disse que as grandes cidades não são locais propícios a vida humana, quem vive nelas honra ser descendente daquele primata que enxergou oportunidades em desafiar a animalidade, enfim, os paulistanos são a vanguarda da humanidade.

quarta-feira, 26 janeiro, 2011 – 14:21

Nós, o Povo

“Mas pra mim, seu doutor não leve a mal, pra mim coisa que não presta não pode ter nenhuma beleza…” (Guimarães Rosa, Sagarana)

Abstração terrível este de “povo”. Seja para ser aclamada ou vilipendiada ainda assim é uma abstração terrível, tanto pela sua absurda imprecisão de tentar reunir milhares de indivíduos em uma única categoria seja pela assustadora constatação de que ela faz algum sentido.

Lobato foi meu primeiro doutrinador, devo muito a ele e o defendo como um dos poucos que pensou o país com coragem e imaginação. Mas ele cometeu um erro terrível, o mesmo erro de todos os outros “Brown Sahibs” que serviam de arautos da modernização ocidentalizante, menosprezar esta abstração de povo.

Não quero nem falar aqui de todas as mistificações promovidas por uma ou outra ideologia sobre o povo, queria ir mais fundo, falar mesmo da profunda psicologia que emana deste povo, em especial dos camponeses – e somos urbanos e industriais há tão pouco tempo que ainda somos quase todos camponeses lá por dentro – e que tão poucos foram realmente capazes de compreender.

A mania das “escolas” de tender de um lado ao extremo conforme as modas tem parte da culpa nesta confusão sobre a identidade nacional. Lobato e Euclides da Cunha tinham quase a obrigação de atacar de frente a besteirada da imagem idealizada que veio antes. Mas erraram na dose e a imagem caricatural que produziram do “povo” mostra que no fundo eles compreenderam pouco do que viram.

Os indivíduos concretos do tal “povo” estão muito mais para o ladino Salathiel ou a manipuladora Maria Irma de Sagarana do que para Tia Nastácia, mas também não chegam ao ponto de serem Macunaímas, que é a imagem inversa. É estranho que tanto Rosa como Lobato não falam de ouvir dizer – o mesmo não se pode dizer do autor dos Sertões e outros – mas Rosa conseguiu entender aquele povo que o circundava, Lobato não.

Tema recorrente da literatura “mística” é de repente perceber que um daqueles ingênuos e precários personagens à volta é na verdade o mestre sábio que se procura ou se evita. O episódio clássico de Luke Skywalker encontrando Yoda é apenas uma das formas de contar esta história que aparece mil vezes, assim como muitas das histórias do Mullah Nasrudin e de muitas histórias de todos os folclores.

Digo isto porque o que tantos não perceberam é que o esforço mental, intelectual e até espiritual necessário para ocultar a própria sabedoria é muito mais complexo do que para mostrá-la. É muito mais fácil tornar-se um falastrão do que um dissimulador. Aqueles que olharam o povo com os olhos do deslumbrado com a civilização e modernidade só enxergaram ingenuidade onde havia dissimulação.

O maior erro de todas as visões paternalistas e populistas da política é esse. Não é achar que o povo deve ser defendido contra as maldades de alguma elite ou estrangeiro, é achar que o povo precisa desta proteção, eu não é capaz de defender a si próprio. E quando vejo as “oposições” esbravejarem e ficarem meio tontas com os movimentos dos quais não conseguem tomar parte eu sorrio porque elas também tem esta visão distorcida do povo.

O povo, estou crente disto, brinca com as rivalidades das nossas elites políticas ingênuas a ponto de considerarem-se muito sábias e acima do povo. Não querem mudar por sejam avessos ao progresso como achava Lobato, não querem mudar porque não faz sentido deixar um mundo que se domina por um outro novo no qual novas regras terão de ser feitas. As elites políticas aposentaram as visões políticas e projetos de futuro para lutar pelo poder, o povo entendeu o movimento e se a briga é só pelo poder mais vale conseguir alguma coisa bem concreta hoje mesmo ao invés de discursos nos quais nem quem os proferem acredita mais. Tal como Lalino Salathiel o povo é melhor estrategista político que os grandes estrategistas.

terça-feira, 11 janeiro, 2011 – 11:28

A tentação da ação

A vida prática sempre me pareceu o menos cômodo dos suicídios. Agir foi sempre para mim a condenação violenta do sonho injustamente condenado. Ter influência no mundo exterior, alterar coisas, transpor entes, influir em gente — tudo isto pareceu-me sempre de uma substância mais nebulosa que a dos meus devaneios. A futilidade imanente de todas as formas da ação foi, desde a minha infância, uma das medidas mais queridas do meu desapego até de mim. (Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego”)

Poucos ditados populares encontrariam tanto reforço nas mais elevadas e complexas teologias como o que diz que “de boas intenções o Inferno está cheio”. A nossa incompreensão dos intrincados mecanismos das coisas do mundo e até das sociedades nos faz tantas e tantas vezes agir de forma desastrosa até quando a intenção é fazer algo positivo. Talvez sabedoras disto as mais antigas e sólidas tradições religiosas tenham consagrado como o seu ideal de santo aquele que nada faz, só fica parado em contemplação e justificando assim a existência do mundo, tal como os grandes santos hindus, budistas, cristãos e alguns sheikhs sufis.

No seu sentido tradicional a única forma de se evitar o Karma – tem tem muito pouco a ver com estas noções popularizadas por aí para consumo dos superficiais – é a não-ação. Qualquer ação gerará Karma, produzirá efeitos negativos que mesmo sendo feitos involuntariamente aumentarão a nossa dívida, porque eles dependem exclusivamente dos resultados, não das intenções que tínhamos aos executá-los (nem falo aqui das intenções falsas, hipócritas ou racionalizadas, só das intenções que realmente eram boas). Toda ação parte, nestas doutrinas, no fundo de um orgulho do homem que considera-se capaz de compreender o mundo e interferir nele. Só são louvados, portanto, entre os os que agem aqueles no extremo da santidade, porque no caso quem age não é o próprio, mas a divindade que age através dele.

Para os homens normais, não agraciados com a benção da santidade, a tentação da ação é sempre grande demais e neste ponto as teologias se complicam. Acho que a única boa perspectiva que já vi sobre isto é a de um guru hindu que recomenda que se passe pelas ações da vida com empenho nas tarefas mas desapego a elas e as cosias do mundo, tal como uma boa babá cuidaria de forma adequada de uma criança mas não se apegaria a ela quando o serviço estivesse terminado. Em muitos sentidos seria este o ideal de viver como um profissional. De forma mais literária é o mesmo que Pessoa diz quando fala de seu trabalho com o Patrão Vasquez. De minha parte, mais fraco que Pessoa, não seria capaz de uma vida profissional sob um patrão Vasques.

Toda esta teologia tem uma profundidade que até consigo vislumbrar e quase me convence, mas não me sinto escapar a roda das ações, sinto-me empurrado pelo destino a ela e não só as pequenas ações cotidianas, nem mesmo as grandes decisões pessoais, mas mesmo às grandes decisões sociais e políticas nas quais ainda que modestamente sou impulsionado sempre a interferir.

Por mais que uma das minhas passagens preferidas do inquietante livro de Pessoa que cito na epígrafe seja:

Revolucionário ou reformador — o erro é o mesmo. Impotente para dominar e reformar a sua própria atitude para com a vida, que é tudo, ou o seu próprio ser, que é quase tudo, o homem foge para querer modificar os outros e o mundo externo. Todo o revolucionário, todo o reformador,

é um evadido. Combater é não ser capaz de combater-se. Reformar é não ter emenda possível.

O homem de sensibilidade justa e reta razão, se se acha preocupado com o mal e a injustiça do mundo, busca naturalmente emendá-la, primeiro, naquilo em que ela mais perto se manifesta; e encontrará isso em seu próprio ser. Levar-lhe-á essa obra toda a vida.

E certamente em nenhum campo a tentação da ação é tão grande e tão perigosa como nesta da política. Em tão poucos outros lugares – porque aqui se trata de lidar com aquilo que é de todos e para todos – ela é tão capaz de produzir resultados desastrosos mesmo quando se tem a melhor das intenções, assim como é tão possível perder-se em labirintos tortuosos de estratégias e táticas e acabar fazendo o contrário do que realmente se deseja. Até por isso considero leitura obrigatória e recomendo a todos os jovens que sentem a vocação da política neles que leiam “A Eminência Parda” de Huxley, terrível retrato do que a noção de que os meios justificam os fuins pode levar quando se é envolvido pelas “necessidades táticas”.

Por outro lado a situação política no Brasil e no Mundo é tal, tão nivelada por baixo se encontra, que a existência ainda de pessoas que erram tendo vontade de acertar é incapaz de provocar dano maior do que aqueles que erram porque querem errar mesmo. Talvez isto apreça uma racionalização e talvez até seja, mas lá estou eu sempre arrastado ao olho do furacão mesmo sem fazer nada para isto, não posso interpretar isto senão como um sinal de bom alvitre.

segunda-feira, 10 janeiro, 2011 – 06:32

Real e ideal

“Entretanto, como é meu desejo escrever coisa útil para os que tiverem interesse. mais conveniente me pareceu buscar a verdade pelo fito das coisas, do que por aquilo que delas se venha a supor. E muita gente imaginou repúblicas e principados que jamais foram vistos e nunca tidos como verdadeiros. Tanta diferença existe entre o modo como se vive e como se deveria viver. que aquele que se preocupar com o que deveria ser feito em vez do que se faz. antes aprende a própria ruína do que a maneira de se conservar; e um homem que desejar fazer profissão de bondade, mui natural é que se arruíne entre tantos que são Perversos.” (Maquiavel, O Príncipe)

Tenho tentado, continuou Rafael, descrever-vos a forma desta república, que julgo ser, não somente a melhor, como a única que pode se arrogar, com boa justiça, do nome de república. Porque, em qualquer outra parte, aqueles que falam de interesse geral não cuidam senão de seu interesse pessoal; enquanto que lá, onde não se possui nada em particular, todo mundo se ocupa seriamente da causa pública, pois o bem particular realmente se confunde com o bem geral..(Thomas Morus, Utopia)

Quase sempre que me pedem alguma exposição sobre política começo citando estes dois textos, de Maquiavel e Morus, como início da conversa. Por algum motivo meio misterioso – não sei se biológico, cultural, social ou seja lá qual for – o pensamento humano é viciado em dicotomias, nesta mania de separar o mundo em duas metades distintas – nem sempre muito bem feita. Enxergar o mundo como antíteses tem o defeito de impedir ou limitar duas ouras formas de ver as coisas. De um lado impede que se verifique a possibilidade de um continuum (que numa verdadeira dicotomia seria impossível pelos termos serem mutuamente excludentes) e de outro impede a síntese que a cada momento pode contribuir para uma explicação mais precisa.

E uma das grandes dicotomias da política é que os praticamente contemporâneos Maquiavel e Morus já ensaiavam: a política como ela é a política como ela deveria ser. Mil argumentos podem ser traçadas a favor e contra cada uma das posições e no extremo as duas podem ser consideradas absolutamente detestáveis e inúteis. A primeira leva ao mais descarado cinismo oportunista e a segunda a intolerância quando bem sucedida ao mais estrondoso fracasso.

Acho particularmente mais perniciosa a segunda visão e às vezes alguns amigos ficam chocados quando considero o termo Utopia – tão querido no vocabulário político – como um termo extremamente negativo para mim. Particularmente considerei até a Utopia de Morus um lugar horrível para se viver, sem liberdade, sem privacidade, imbuído de uma profunda e extrema feição totalitária no mais preciso sentido do termo – de um Estado que regular toda a vida do cidadão.

Ainda que Morus seja chamado de humanista e normalmente se louve sua crença na bondade intríseca do ser humano, corrompida pelas más instituições, no fundo a sua visão do ser humano precisando ser acorrentado pelas “boas instituições” que lhe conduzem pelo bom caminho é, no fundo, uma visão muito pessimista do ser humano. Não é de se admirar que a história – matéria-prima dos dois pensadores para chegarem a conclusões opostas – demonstre que em geral quando aqueles que se guiam por uma visão focada apenas no ideal chegam ao poder em geral o fazem pelo método violento e é também por uma violência que não coraria Morus que lá se mantém,

Ao mesmo tempo é evidente que a Política desconectada daquilo que é o seu objetivo – promover a felicidade dos Cidadãos – através da construção de boas normas e instituições saudáveis sequer é merecedora do nome de Política, é apenas uma disputa meio animalesca por um poder que não é o poder político mas do mesmo tipo de poder que um animal obtém quando chega pela força ao domínio da matilha para ganhar o privilégio de ser o primeiro a fartar-se com as presas.

Do ponto de vista cotidiano a análise de Maquiavel centrada na compreensão da realidade e seus mecanismos de funcionamento é certamente mais útil até àqueles que tem um ideal verdadeiro. O próprio Maquiavel, a despeito de quantos adjetivos derivem de seu nome, tinha uma visão republicana, uma compreensão de Democracia bastante avançada para sua época e claras noções sobre perigos e vantagens do domínio seja dos príncipes seja dos nobres sobre o povo. Em certo sentido chega a ser radical na medida em que considera não só que o povo pode se enganar em questões específicas mas não em questões gerais e que tinha o direito de rebelar-se para não ser dominado, noções hoje muito ausentes em muito discurso que se intitula de democrático.

Toda antítese resolve-se por um paradoxo e esta não é diferente, A visão “maquiavélica” é muito mais útil àquele que busca o ideal, na verdade praticamente só é útil a ele porque na medida em que ele tem uma noção bem objetiva e clara de finalidade, objetivo, meta e conclusão só ele tem plena capacidade de dentro das regras do jogo chegar ao objetivo. O inverso sendo também verdadeiro – e cada vez mais verdadeiro – pois aos que desejam manter ou ganhar ou poder apenas por objetivos pessoais tem muito mais facilidade não só de passar por cima das regras do jogo como ainda de revestir-se de alguma autoridade ideológica, filosófica ou social para prevenir e reprimir qualquer oposição.

No centro da solução do paradoxo está o ponto que distingue os dois – Maquiavel enxerga a diversidade, a multiplicidade de interesses em conflito; Morus vê um único caminho o qual deve ser atingido a qualquer custo. Não é à toa que em suas vidas Maquiavel seja um revolucionário radical frustrado e exilado que tenta a todo custo voltar a ser um “player” enquanto Morus é um alto conselheiro de uma potência em ascensão que abandona o jogo.

sábado, 8 janeiro, 2011 – 23:07

Equilíbrio

Notável a escassez de acontecimentos ou crises existentes nas nossas histórias; pouco exercitados de espírito temos sido nós; quão poucas são as experiências que temos amassado. Gostaria de assegurar-me que me desenvolvo a olhos vistos e pujantemente, embora o meu próprio desenvolvimento perturbe essa frouxa equanimidade — embora seja com luta através de noites longas, sombrias e sufocantes, ou zonas de sombras. Bom seria se todas as nossas vidas fossem até uma tragédia divina, em vez dessa comédia ou farsa trivial.” (Thoreau, Andar a pé)

Equilíbrio é palavra que anda fácil pelas bocas, quem é que pode ser contra o equilíbrio? Mas ao mesmo tempo o que é o equilíbrio?

Com certeza não é aquele morno que enojava Jesus, desconfio que nem mesmo é a Áurea Mediocridade de Aristóteles. Um pouco continuando a toada de ontem tenho de dizer que equilíbrio não é ausência de conflito, para que exista equilíbrio é necessário que ao menos duas forças de sentido diverso estejam em disputa. Diria que é quase um conceito geométrico envolvendo vetores e bissetrizes, tal como vejo o conceito e como parece deixar claro sua própria etimologia.

Os santos – aqueles que segundo as tradições judaicas, cristãs, muçulmanas, hinduístas, budistas e demais que emanam do centro justificam a existência do mundo – não precisam de equilíbrio e nem podem tê-los pois só há neles uma vontade já que o ego ali foi aniquilado.

O equilíbrio só pode ser um dilema para nós das demais castas – e esta não é uma questão de status, basta lembrar que no Baghavad-Gita Krishna encarna como um xátria, um guerreiro, não como um brâmane de casta hierarquicamente superior porque seu papel requeria a luta para restaurar o equilíbrio, enfim, não era tarefa pra santo..

Ao, particularmente, sinto enorme dificuldade em atingir o equilíbrio, convivem forças de vetores muito opostas dentro do meu cotidiano. Um espírito sereno, precavido e cerebral tem de discutir em tumultuada assembleia com uma alma irrequieta, voluntarista, ansiosa, intuitiva; ou vice-versa, quem pode saber.

Com a coragem de um ou a calma de outro desconfio que poderia ir a qualquer lugar. A dificuldade é conseguir fazer o outro seguir seus planos intricados e detalhadamente traçados ou o outro ser capaz de saltar como pantera sobre as oportunidades do “momentum”.

Eles só tem em comum este gosto pelo trágico, sempre tendendo ao tragicômico, a transformar em grandes dilemas dignos de batalhas e/ou debates infindáveis, tendendo ao bizantinismo. Curioso que este processo todo não me faz sentir dissociado, ao contrário me faz sentir com muita clareza minha unidade, muito mais do que nos momentos que me fecho no silêncio e nos sonhos campestres, quase bucólicos. Fossem eles menos trágicos e era até capaz de eu achar o equilíbrio é isto.

quarta-feira, 17 março, 2010 – 22:34

Guerra e Paz

“Por desconhecer tudo isso, que é elementar, o pacifismo tornou sua tarefa demasiado fácil. Pensou que para eliminar a guerra bastava não fazê-la ou, em suma, trabalhar em que não se fizesse. Como via nela apenas uma excrescência supérflua e mórbida aparecida no trato humano, creu que bastava extirpá-la e que não era necessário substituí-la. Mas o enorme esforço que é a guerra, só pode ser evitado se se entende por paz um esforço ainda maior, um sistema de esforços complicadíssimos, e que, em parte, requerem a venturosa intervenção do gênio. O outro é puro erro. O outro é interpretar a paz como o simples vazio que a guerra deixaria se desaparecesse; portanto, ignorar que se a guerra é uma coisa que se faz, também a paz é uma coisa que importa fazer, que há que fabricar, pondo na faina todas as potências humanas. A paz não “está aí”, simplesmente, pronta para que o homem a goze. A paz não é fruto espontâneo de nenhuma árvore. Nada importante é apresentado ao homem; pelo contrário, tem ele de fazê-lo, de construí-lo. Por isso, o título mais claro de nossa espécie é ser homo faber. “ (Ortega y Gasset, A Rebelião das massas)

Já disse em inúmeras oportunidades que os melhores livros contra a guerra foram os escritos por soldados. Nada de Novo no Front escrito por um ex-soldado de pouca instrução é muito mais convincente do que mil tratados pacifistas calmamente escritos em gabinetes refrigerados de ministérios. Vivemos numa era em que boas intenções e más ações convivem e se misturam não só por hipocrisia mas também pela falta de coragem de pensar.

O discurso pacifista parece ser algo impossível de se atacar, afinal quem quer a guerra e todas as tragédias que ela traz? A questão, como bem aponta Ortega y Gasset, é que sob o rótulo de pacifismo combinam-se as mais várias visões de mundo, boa parte delas equivocada ao menos em alguns pontos.

Ao começar a escrever sobre isto lembrei-me que o próprios nme do blog foi inspirado pela leitura de umas páginas de Guénon, no Simbolos da Ciência Sagrada, no qual fala-va sobre a o símbolo da Espada no Islam, que representa a luta pelo retornoà unidade e ao equilíbrio, tanto no sentido macrocósmico como naquele sentido que é mais relevante, que é o microcósmico, a jihad interior do homem no sentido de encontrar a harmonia. Por sinal é exatamente o que simboliza a letra árabe Alef em forma de espada sobre um eclipse que figura no logo do blog, equivalente da espada de madeira que os imans usam nos sermões simbolizando justamente este poder da palavra.

Como vivemos numa época de leniência, não de esforço, é natural que o esforço de superação não seja bem visto e que portanto qualquer ideia de solucionar conflitos seja relegada. Preocupa-me muito, por sinal, que todo o pensamento pacifista – com o qual não deixo de simpatizar – acabe por enveredar pelo caminho da negação de que há batalhas que devem ser travadas.

É esta identidade entre paz e “não fazer nada” de que fala Gasset no trecho que transcrevo na epígrafe que me apavora. Estes dias brincava sobre a propaganda de um banco no qual um menino judeu e um israelense rompem as barreiras do conflito secular jogando bola: depois um entra pro Gaviões da Fiel e o outro para a Mancha Verde e se matam sem sentido algum. A brincadeira me remeteu a um colega de faculdade ao qual tentei explicar sem sucesso o conflito palestino mas que dias depois contava extasiado que tinha participado de uma briga de torcida e batido um bocado em alguns torcedores do time contrário.

A dimensão macrocósmica deste enaltecimento da paz ignorando a dimensão histórica, sociológica e geográfica dos conflitos e colocando a todos como ruins é preocupante porque tende a perpetuar o desequilíbrio e destruir a justiça. Neste sentido achei excepcional o filme Avatar, enorme evolução, por exemplo, a relação ao colonialista Pocahontas, mas fico devendo ainda mais alguns dias um comentário sobre o filme que quero ver de novo antes de analisar. Equiparar todos os conflitos com cara de asco à guerra significa tornar iguais coisas bem distintas, pesar com o mesmo peso o ávido financista ganancioso por petróleo, o vil mercenário e o povo que luta contra a tirania.

Porém é na dimensão interior que o avanço da mentalidade pacifista vazia mais me preocupa neste momento. É claro que a meta de cada um deve ser procurar a paz interior, mas o pressuposto desta paz interior não é deixar tudo correr e fazer vista grossa às próprias ações ou esforçar-se pelo aperfeiçoamento. A opção pela paz não pode ser o efeito da pusilanimidade de enfrentar os conflitos – e Gandhi destacou que a coragem era ainda mais necessária ao pacifista que ao guerreiro enquanto Jesus disse que vinha trazer a espada e não a paz – mas pela luta com serenidade, sem ódio mas com firmeza e decisão.

terça-feira, 16 março, 2010 – 18:01

Guerra e Paz

“Por desconhecer tudo isso, que é elementar, o pacifismo tornou sua tarefa demasiado fácil. Pensou que para eliminar a guerra bastava não fazê-la ou, em suma, trabalhar em que não se fizesse. Como via nela apenas uma excrescência supérflua e mórbida aparecida no trato humano, creu que bastava extirpá-la e que não era necessário substituí-la. Mas o enorme esforço que é a guerra, só pode ser evitado se se entende por paz um esforço ainda maior, um sistema de esforços complicadíssimos, e que, em parte, requerem a venturosa intervenção do gênio. O outro é puro erro. O outro é interpretar a paz como o simples vazio que a guerra deixaria se desaparecesse; portanto, ignorar que se a guerra é uma coisa que se faz, também a paz é uma coisa que importa fazer, que há que fabricar, pondo na faina todas as potências humanas. A paz não “está aí”, simplesmente, pronta para que o homem a goze. A paz não é fruto espontâneo de nenhuma árvore. Nada importante é apresentado ao homem; pelo contrário, tem ele de fazê-lo, de construí-lo. Por isso, o título mais claro de nossa espécie é ser homo faber. “

(Ortega y Gasset, A Rebelião das massas)

Já disse em inúmeras oportunidades que os melhores livros contra a guerra foram os escritos por soldados. Nada de Novo no Front escrito por um ex-soldado de pouca instrução é muito mais convincente do que mil tratados pacifistas calmamente escritos em gabinetes refrigerados de ministérios. Vivemos numa era em que boas intenções e más ações convivem e se misturam não só por hipocrisia mas também pela falta de coragem de pensar.

O discurso pacifista parece ser algo impossível de se atacar, afinal quem quer a guerra e todas as tragédias que ela traz? A questão, como bem aponta Ortega y Gasset, é que sob o rótulo de pacifismo combinam-se as mais várias visões de mundo, boa parte delas equivocada ao menos em alguns pontos.

Ao cmeçar a escrever sobre isto lembrei-me que o próprios nme do blog foi inspirado pela leitura de umas páginas de Guénon, no Simbolos da Ciência Sagrada, no qual fala-va sobre a o símbolo da Espada no Islam, que representa a luta pelo retornoà unidade e ao equilíbrio, tanto no sentido macrocósmico como naquele sentido que é mais relevante, que é o microcósmico, a jihad interior do homem no sentido de encontrar a harmonia. Por sinal é exatamente o que simboliza a letra árabe Alef em forma de espada sobre um eclipse que figura no logo do blog, equivalente da espada de madeira que os imans usam nos sermões simbolizando justamente este poder da palavra.

Como vivemos numa época de leniência, não de esforço, é natural que o esforço de superação não seja bem visto e que portanto qualquer ideia de solucionar conflitos seja relegada. Preocupa-me muito, por sinal, que todo o pensamento pacifista – com o qual nã deixo de simpatizar – acabe por enveredar pelo caminho da negação de que há batalhas que devem ser travadas. É esta identidade entre paz e “não fazer nada” de que fala Gasset no trecho que transcrevo na epígrafe que me apavora.

Estes dias brincava sobre a propaganda de um banco no qual um menino judeu e um israelense rompem as barreiras do conflito secular jogando bola: depois um entra pro Gaviões da Fiel e o outro para a Mancha Verde e se matam sem sentido algum. A brincadeira me remeteu a um colega de faculdade ao qual tentei explicar sem sucesso o conflito palestino mas que dias depois contava extasiado que tinha participado de uma briga de torcida e batido um bocado em alguns torcedores do time contrário.

A dimensão macrocósmica deste enaltecimento da paz ignorando a dimensão histórica, sociológica e geográfica dos conflitos e colocando a todos como ruins é preocupante porque tende a perpetuar o desequilíbrio e destruir a justiça. Neste sentido achei excepcional o filme Avatar, enorme evolução, por exemplo, a relação ao colonialista Pocahontas, mas fico devendo ainda mais alguns dias um comentário sobre o filme que quero ver de novo antes de analisar. Equiparar todos os conflitos com cara de asco à guerra significa tornar iguais coisas bem distintas, pesar com o mesmo peso o ávido financista ganancioso por petróleo, o vil mercenário e o povo que luta contra a tirania.

Porém é na dimensão interior que o avanço da mentalidade pacifista vazia mais me preocupa neste momento. É claro que a meta de cada um deve ser procurar a paz interior, mas o pressuposto desta paz interior não é deixar tudo correr e fazer vista grossa às próprias ações ou esforçar-se pelo aperfeiçoamento. A opção pela paz não pode ser o efeito da pusilanimidade de enfrentar os conflitos – e Gandhi destacou que a coragem era ainda mais necessária ao pacifista que ao guerreiro enquanto Jesus disse que vinha trazer a espada e não a paz – mas pela luta com serenidade, sem ódio mas com firmeza e decisão.

terça-feira, 16 março, 2010 – 18:03

Profissão, Vocação, Destino

A famosa citação de Weber sobre a política como vocação e a política como profissão tem servido aos mais variados usos equivocados. Ela também está parcialmente contaminada por uma visão tornada arcaica pela complexidade crescente do mundo e da gestão pela qual a política deve ser hobby de aristocratas ociosos. Hoje nem mesmo os setores da burgueisia e os altos executivos poderiam dispender seu tempo na política e ao mesmo tempo serem capazes de desempenhar suas funções.Fora o sentido mais econômico da distinção, que nem é a mais importante da frase de Weber, seu sentido mais geral e político continua necessário, ou seja, não se deve depender da política de tal forma que sejamos obrigado a fazer aquilo que nos contraria, que sabemos que não é bom, ou mesmo só deixar de fazer aquilo que é necessário por se temer que isto nos retire o poder, o mandato, a influência. É um daqueles pressupostos fáceis de falar na forma de centenas de bravatas, mas que é cada vez mais raro ver quem tem realmente a bravura de segui-la.A política entrou na minha vida de uma forma avassaladora. Eu podia ter resolvido ser muitas coisas, mas me decidi sempre pela política. Há, com certeza, muitos momentos nos quais preferia ter seguido outros caminhos, como enfrentar tarefas que exigissem menos esforço intelectual como a carreira acadêmica, confrontasse animais menos ferozes como no sonho de infância de ser zo?ogo, requeresse menos responsabilidade e tivesse mais soluções para tudo como jornalista.Não vou negar os momentos no qual há o desejo profundo de alguma utopia à Thoreau de viver no mato e andar a pé pelas trilhas nos intervalos de uma vida dura e simples. Há também a utopia oposta de postar-me a frente de 40 potenciais delinquentes juvenis em uma sala de aula. Estas duas ainda persistem apesar de todas as recomendações em contrário e é possível que acabe em uma delas no momento que sentir que a política tornou-se incapaz de dar alguma resposta efetiva. É por não ser tão descrente como todos acham que sou que tenho tanto medo de nos momentos convulsionados pedir a Deus que seja feita a vontade dele e não a minha, que eu siga no sentido de cumprir meu destino. O medo é das preces serem atendidas e por isto sempre penso mil vezes para ver se estou preparado pro resultado.Seria presunção dizer que ele me quer neste meio da política, ainda mais na forma como ela anda. Mas só posso dizer que é sempre nela que ele encontra um caminho pra mim, abre novas portas ou reabre portas antigas a cada vez que sou tomado pela vontade de deixar tudo e ir plantar jabuticabas. Só posso concluir que há nisto um sentido, mesmo que oblíquo demais para minha percepção humana.

Powered by ScribeFire.

segunda-feira, 8 março, 2010 – 23:33

Profissão, Vocação, Destino

A famosa citação de Weber sobre a política como vocação e a política como profissão tem servido aos mais variados usos equivocados. Ela também está parcialmente contaminada por uma visão tornada arcaica pela complexidade crescente do mundo e da gestão pela qual a política deve ser hobby de aristocratas ociosos. Hoje nem mesmo os setores da burgueisia e os altos executivos poderiam dispender seu tempo na política e ao mesmo tempo serem capazes de desempenhar suas funções.Fora o sentido mais econômico da distinção, que nem é a mais importante da frase de Weber, seu sentido mais geral e político continua necessário, ou seja, não se deve depender da política de tal forma que sejamos obrigado a fazer aquilo que nos contraria, que sabemos que não é bom, ou mesmo só deixar de fazer aquilo que é necessário por se temer que isto nos retire o poder, o mandato, a influência. É um daqueles pressupostos fáceis de falar na forma de centenas de bravatas, mas que é cada vez mais raro ver quem tem realmente a bravura de segui-la.A política entrou na minha vida de uma forma avassaladora. Eu podia ter resolvido ser muitas coisas, mas me decidi sempre pela política. Há, com certeza, muitos momentos nos quais preferia ter seguido outros caminhos, como enfrentar tarefas que exigissem menos esforço intelectual como a carreira acadêmica, confrontasse animais menos ferozes como no sonho de infância de ser zo?ogo, requeresse menos responsabilidade e tivesse mais soluções para tudo como jornalista.Não vou negar os momentos no qual há o desejo profundo de alguma utopia à Thoreau de viver no mato e andar a pé pelas trilhas nos intervalos de uma vida dura e simples. Há também a utopia oposta de postar-me a frente de 40 potenciais delinquentes juvenis em uma sala de aula. Estas duas ainda persistem apesar de todas as recomendações em contrário e é possível que acabe em uma delas no momento que sentir que a política tornou-se incapaz de dar alguma resposta efetiva. É por não ser tão descrente como todos acham que sou que tenho tanto medo de nos momentos convulsionados pedir a Deus que seja feita a vontade dele e não a minha, que eu siga no sentido de cumprir meu destino. O medo é das preces serem atendidas e por isto sempre penso mil vezes para ver se estou preparado pro resultado.Seria presunção dizer que ele me quer neste meio da política, ainda mais na forma como ela anda. Mas só posso dizer que é sempre nela que ele encontra um caminho pra mim, abre novas portas ou reabre portas antigas a cada vez que sou tomado pela vontade de deixar tudo e ir plantar jabuticabas. Só posso concluir que há nisto um sentido, mesmo que oblíquo demais para minha percepção humana.

Powered by ScribeFire.

segunda-feira, 8 março, 2010 – 23:38

Realistado

“No dia seguinte atirei-me ao trabalho, digamos que voltandoas costas ao posto. Parecia-me a única forma de continuarligado às saudáveis realidades da vida. Mas é difícil umapessoa não olhar de vez em quando à sua volta; e entãoreparava no posto, no disparatado vaivém dos homens nocercado, à torreira do sol. Muitas vezes perguntei a mim mesmoo que significaria tudo aquilo. Vagueavam por um lado e outroa empunhar absurdos varapaus, como peregrinos sem fé quecirculassem, enfeitiçados, dentro de uma cerca apodrecida. Apalavra marfim, passava no ar segredada, suspirada. Pareciaque lhe faziam preces. Um cheiro a imbecil rapacidade bafejavatudo como um cheiro a cadáver. Júpiter nos valha! Nunca navida eu vira coisa tão irreal. E à volta a silenciosa selva,que apertava aquele pedaço de terra nua, parecia-me enorme etão impossível de vencer como o mal ou a verdade, que estava àespera, com paciência, do fim daquela invasão fantástica.” (Conrad, No Coração das Trevas)

O mundo andava chato e sem sentido. O sintoma claro do meu desencanto era aquela vontade reiterada de mudar pro mato e plantar jabuticabas, goiabas, gabirobas e coisas do tipo.

Digo que andava sem sentido não com aquela sóbria visão como a que Caeiro/Pessoa diz que basta uma coisa existir para ser completa e que são vãos e inúteis todos os esforços do pensamento de tentar compreender a mínima coisa. Digo sem sentido porque quando não se sabe para onde vai mesmo que se veja a estrada não há com se decidir por um lado dela.

Digo que andava chato porque parecia que mais nada nele conseguia despertar do enfado do cotidiano, nada quebrava o sono que não era o bom sono de quem está no mundo sem ser do mundo, mas sim o sono da apatia de quem não está no mundo mas tampouco fora dele.

Andava nestas quando Kurtz ligou de seu posto lá no ponto mais negro do Coração das Trevas.

Ele continua o mesmo, eu mudei e marfim nenhum mais é capaz de mover-me, é de andar atrás dele ou desejar andar ao lado dele que fiquei atonteado por tanto tempo, sem coragem de escrever para que as asas não voltassem a crescer e tomando a pena como alabarda rachasse algumas cabeças.

Ou talvez seja o contrário, eu continuei o mesmo e compreendi a inutilidade do movimento e ele mudou e descobriu a realidade.

Enfim, andava mais como os peregrinos sem fé de que fala Conrad, não por ter me tornado um deles, mas porque andava achando que não pagava a pena ostentar a diferença, ter aquela mesma marca de distinção e ameaça que Kurtz tem.

A coisa mais maluca da política para quem vive nela e dela é que a amálgama de sentimentos distintos tem fórmula secreta e complexa e uma pitada a mais ou a menos dos opostos necessários ao equilíbrio costuma causar explosões de assustar qualquer otimista. É impossível sobreviver são – em todos os sentidos de sanidade, da integridade à sobrevivência política – porque nela se morre muitas vezes como já percebeu um estadistas destes famosos e sempre citados – ou seja dos princípios mais absolutismos até a mais pragmática “manobra tática” sem uma combinação precisa de ingenuidade e matreirice.

Aquele que não tiver a dose mínima de ingenuidade jamais conseguira confiar em nada nem ninguém, nem nos seus ideais e nem em si mesmo. É preciso ser ingênuo para crer que o mundo pode ser mudado, tanto quanto para ter certeza que ele não mudará e portanto esta dose de ingenuidade é necessária à esquerda e à direita.

Ao mesmo tempo é necessário ser tão ardiloso a cada passo para que os planos traçados de forma ingênua sobrevivam no meio dos lobos que não raro s’aqueles que crêem muito profundamente no sentido maior daquilo que fazem – ou descrêem por completo de qualquer coisa e portanto não temem nenhuma conseqüência – são capazes de ser bem sucedidos neste mundo. Na me espanto quando vejo os mais profundos idealistas tornando-se os mais venais cínicos porque na verdade ambos costumam estar tão repletos destas doses elevadas e viciantes de ingenuidade e pragmatismo que uma gota a mais de um ou outro acaba por fazer o equilíbrio transbordar.

É verdade que não há canalhas se transformando em paladinos heróicos na mesmo proporção que a mudança ao contrário, mas é que aos canalhas falta a ingenuidade e por isto podem se manter estáveis, ainda que sempre ouça relatos de canalhas conhecidos que eram adorados pelos que lhes eram próximos pela suas virtudes pessoais.

Enfim, Kurtz me liga naquele momento em que estou mais pronto a segui-lo d que já estive em qualquer outro momento. Não tenho ilusões ou veleidades mais como da primeira vez que o segui. Se o encontrasse no coração das trevas e um trono de marfim cercado pro alucinado bando de nativos em êxtase eu só queria ser o bobo da corte que diz as verdades inconvenientes, tão alheio a imbecil rapacidade dos jogos de poder que pode enxergá-la com a clareza de um oráculo sibilino.

Tantas vezes ele chamou e o barco que leva ao Coração das Trevas naufragou tão misteriosamente como o de Conrad que eu mantive o espírito amordaçado, acorrentado e cangado para não alçar vôos de esperança daqueles que terminam em desfiladeiros sombrios de frustração.

Mas como as cosias ganham sentido quando queremos lá no fundo eu sabia que agora era a hora certa e por aquele sensato fatalismo com o qual adornamos todas as cosias que vão se desfiando caóticas a nossa frente de um sentido maior vou achando muito tautologicamente que havia experiências pelas quais precisava passar.

Por quanto tempo vou continuar querendo só o enorme privilégio de continuar pensando, algumas vezes em voz alta, eu não sei. Nada é mais importante que esta maravilhosa condição muito propícia a quem quer estar no mundo sem ser do mundo. Mas no meio de tanto marfim acabamos por esquecer disto muito rapidamente.

Enfim, o estoque de ingenuidade está reabastecido para pegar o próximo vapor para o coração das trevas, sem saber se lá é a mais profunda realidade ou a mais absoluta irrealidade.

quinta-feira, 25 fevereiro, 2010 – 02:57

Entre escravos

“ Tornai-me a aparecer, entes imaginários, que me enchíeis outrora os olhos visionários! Poder-vos-ei fixar?… Tenho inda coração capaz de se render à vossa sedução?…

(…)

O que foi, torna a ser. O que é, perde existência. O palpável é nada. O nada assume essência.” ( Fausto, Goethe)

Houve tempos nos quais podia escrever para outros um texto do qual discordasse, de forma rápida e praticamente indolor. Este exercício foi ficando cada vez mais penoso e ainda embora ainda seja capaz deste ofício de ghost-writer confesso que o resultado é um produto sem sem alma. Pateticamente percebo que muitos, em especial os clientes, não percebem a diferença .

A quase ninguém posso explicar a diferença e a dificuldade de executar estas tarefas hoje em comparação com o passado . Na verdade jamais escrevi aqueles textos, eles eram obra de um djinn escritor que mantive como escravo em uma garrafa por muitos anos e em um momento de grandeza ou fraqueza libertei.

Há tempos ele não me faz uma visita, não por descaso ou ingratidão, mas pela multidão de tarefas acumuladas em tantos anos de seu cativeiro. Mas cada vez que ele aparece me inunda de uma sabedoria tão profunda, uma análise tão sagaz e uma sinceridade tão acirrada que me dá remorso tê-lo usado de forma tão vil em tarefas tão banais . Se um dia eu também for livre como ele sei que não serei tão sábio porque não tenho os milhares de anos da sua experiência, mas espero espelhar-me na sua independência de espírito e julgamento.

Na última vez que ele apareceu debruçava-me sobre um texto árido, daqueles que só com muita dificuldade se consegue encaixar um ou outro oásis sabendo que serão exatamente os oásis os primeiros a ser violentamente podados pelo cliente. Quando a nuvem se materializou naquela enorme figura azinhavrada fui tomado pela saudade dos velhos tempos, quando bastaria incumbir o djinn da tarefa e colher os resultados e elogios.

-Assalamu ‘alaikum – Cumprimentou ele com sua voz de toró.

-Alaikum us Salam – Respondi – que bons ventos o trazem?

-Só passando para visitar um velho amigo, meu caro – Disse ele com uma expressão que deixava claro que a visita tinha um motivo muito diferente.

-É um mundo curioso quando ex-escravo e ex-amo podem se chamar de amigos – Comentei, já nem tão animad com a visita porque senti nele um ar de recriminação.

-Quem anda com um ar de escravo é você, tantas correntes que nem saberia por onde começar se fosse soltá-lo.-

-É preciso ganhar a vida, você é um djinn, não tem como avaliar com é difícil a vida de um humano, com tão pouco tempo de vida para fazer tantas coisas e ainda assim tendo de ter como preocupação principal a sobrevivência.

-Você fez quarenta anos, passou d idade na qual os pecados são pesados com pesos mais leves e você mesmo disse que se a finalidade da vida do homem é enriquecer a memória emotiva de Deus não há pecado pior do que ser chato.

-Bom, se estou sendo chato o que você está fazendo aqui, ninguém pediu para você vir aqui se aborrecer e já abri mão do poder de invocá-lo para qualquer coisa – Falei meio sem paciência de ouvir o sermão que eu sabia por onde andaria e em que destino chegaria.

-Lembra quando se mudou para São Paulo e ficava perdido pela cidade a cada vez que ia a um destino diferente proque ao invés de seguir as placas para um local ia a todo momento mudando o trajeto para seguir uma placa para um local diferente, mais próximo ou mais fácil de chegar? Você anda fazendo a mesma coisa com a sua vida.

-Arco com as consequências dos meus erros – disse, em mais uma tentativa de encerrar a conversa.

-Não consegues decidir se é brâmane, guerreiro, político, monge, escritor, jornalista ou seja lá o que for. Acaba sendo levado pelas circunstâncias e dando muita importância a coisas secundárias , fica cheio destas susceptibilidades que te irritam e fazem tanto mal para você, te distraem d seu trabalho sério. Se a questão fosse só sobreviver seria fácil para você lidar com estas coisas, e eu sei bem como funciona isto proque tenho milhares de anos de escravidão que não quebraram o meu espírito.

-Um humano é um humano e um djinn é um djinn! Não venha comparar a sua escravidão à minha proque são coisas diferentes.

-Se a tua intenção fosse só ter a tua tranquilidade para fazer as coisas que precisas e sobreviver tudo seria muito mais simples. O problema de verdade é que lá dentro tu és escravo de tuas ambições, não adianta dizer o contrário, tu queres ser grande, mas pelos motivos errados, pelos métodos errados e por causa disto não consegues te engrandecer pelos motivos certos.

-Este seu monólogo está irritando, simplesmente ignora o que eu falo e continua com este seu sermão.

-Se eu abro espaço desvias o assunto da conversa para o que te interessa e não para o que é importante. Não vais me prender com os grilhões destas tuas faltas questões, já estive acorrentado por séculos demais. O teu problema é apenas escolher o caminho, qualquer outra questão é tergiversação.

-Sabe quanto acredito que é o caminho que nos escolhe.

-Até para que o caminho te escolha deves saber para onde queres ir. Estás sempre mudando de objetivos, sempre alterando as tuas prioridades. O caminho já te escolheu, mas sempre rodas em círculo procurando atalhos.

-Temos de enfrentar os desafios que se colocam na nossa frente.

-Desafios que tu mesmo te colocas por ambição ou vaidade, porque não consegues ficar quieto fazendo o que tens de fazer. Na verdade és quem duvida do poder da palavra que tanto invocas. Deveria ser uma honra e um desafio suficiente trabalhares teu dom, mas estás sempre caçando miragens e trocando o essencial pelo acessório.

-Você faz parecer tudo muito simples, a realidade é mais complicada.

-Nem tu mesmo acreditas nisto, é até impiedade falares assim, tu que sempre foste tão protegido – Disse ele com a cara amarrada enquanto sumia no meio da nuvem, me deixando com ainda mais coisas para pensar, mas ao menos com uma boa história para contar no blog com se fosse ficção.

Powered by ScribeFire.

sexta-feira, 7 novembro, 2008 – 14:38

O Voto é Sagrado

A escola onde voto em São Paulo – a FAI, na Avenida Nazaré no bairro do Ipiranga – já foi um seminário e conserva algo da atmosfera de mosteiro com os arcos ao estilo mourisco nos corredores ladeando o jardim, além dos diversos ciprestes. Em outras palavras estão presentes elementos considerados sagrados por três distintas culturas – cristã, islâmica e celta. Fica fácil, assim, lembrar-me que o voto é sagrado cada vez que compareço às urnas, em um ambiente que mesmo já bastante alterado ainda faz lembrar um espaço de meditação e elevada reflexão Curiosamente a bela arquitetura do prédio não deve ser considerada relevante para os atuais ocupantes que em seu site não tem sequer uma boa foto do estabelecimento. Para conseguir a foto que ilustra este post precisei procurar algum fotógrafo generoso que tivesse disponibilizado a foto na Internet.

Deve ser diferente votar em uma destas escolas modernas, todas feitas para serem muito parecidas, retangulares, retas, desprovidas de praticamente todos os adereços. É de se imaginar que nestes locais também o voto deva ser um processo meio industrial, automatizado, rápido tal como o ambiente. Já no meu local de votação, pelo contrário, é quase impossível não fazer uma reflexão mais profunda, desde a primeira vez que fui votar lá já senti esta sensação de grave respeito enquanto percorria os corredores procurando a seção na qual voto.

Quando falo de sagrado é claro que não me refiro a nenhuma forma destas misturas de religião e política que correm por aí se desmoralizando mutuamente pela profanação daquilo que devia ser santo para ambas que é a consciência do eleitor. Falo de sagrado no sentido de que decidir quem deve liderar o grupo a partir do livre arbítrio de um lado e do uso da razão do outro é uma das mais elevadas ações humanas.

Traços rudimentares da política já existem no reino animal, em especial ente nossos parentes mais próximos – chimpanzés e bonobos – entre os quais nem sempre a decisão é pelo critério exclusivo da força bruta O que demonstra que estes animais estão acima, na escala evolutiva, dos eleitores humanos que votam em um candidato porque ele está na frente nas pesquisas.. Há uma racionalidade implícita em todo voto, algo que antecede mesmo a inteligência humana como disse acima.

Mas o tipo de racionalidade que torna o voto sagrado é outro. Se todo tipo de autoridade legítima é em certo sentido uma unção divina – seja lá o tipo de divindade que se adote – a escolha do eleitor consciente deve ser capaz de enxergar para além de si mesmo, refletir obre o destino que deseja para a comunidade do qual faz parte, buscando nas opções existentes as melhores qualidades.

A primeira violação a este sacralidade é a gerada pelas intromissões da força – seja a força bruta seja a que emana do vil metal. Acovardar-se em uma decisão importante ou transformar uma escolha que deveria ser motivada pelo interesse coletivo em uma fonte de vantagem individual são verdadeiras blasfêmias.

Em um patamar quase tão baixo como as anteriores, mas difícil de fugir nesta era das massas, está a escolha determinada a partir dos engodos da antipolítica que é o “marketing eleitoral”. Toda a parafernália criada para transformar a decisão nobre e racional em um impulso emocional de multidão subverte a própria essência da política e serve a uma diminuição, amesquinhamento mesmo, do homem transformado em gado a ser conduzido às urnas como se fosse a um matadouro.

Poucas coisas conectam tanto o homem ao sagrado quanto a esperança – talvez por isto mesmo ela é a dúbia virtude que fica presa à aba da caixa de Pandora. Talvez muito desta “dessacralização” do voto venha da falta generalizada de esperança que reina. Ainda assim há a escolha de deixar levar pelas profanações ou nos portar como seres humanos de fato e transformar o momento de voto numa reflexão profunda e não em impulso.

sexta-feira, 24 outubro, 2008 – 17:16

O voto é profano

O voto é profano –

Em resposta ao post O Voto é Sagrado no blog Poder da Palavra

Um dos principais argumentos dos patrícios romanos para não atender à reivindicação de um “tribuno da plebe” que defendesse os direitos dos romanos não-nobres era a ausência de provisão deste cargo nas leis sagradas. Mesmo quando tiveram de ceder à pressão o cargo de tribuno manteve um caráter ímpio e a própria inviolabilidade do tribuno – aponta Foustel de Coulanges – era motivada por este caráter “impuro” da função.

O mais antigo dos truques para afastar parcelas da população do processo de decisão é a invocação de razões “sagradas”, das quais o caso do tribuno da plebe é apenas um pequeno exemplo. Com todos os pesares, lamentações e retrocessos, ainda assim, a história política da humanidade é a amplificação da proporção da população que detém os direitos de cidadania. Cada um destes passos históricos foi antecedido e sucedido por resmungos teológicos contra o pecado, heresia ou blasfêmia que se estava cometendo ao aceitar aquele círculo adicional de pessoas ao universo dos que deveriam decidir.

[Bobo da Corte]

O voto é profano –

Em resposta ao post O Voto é Sagrado no blog Poder da Palavra

Um dos principais argumentos dos patrícios romanos para não atender à reivindicação de um “tribuno da plebe” que defendesse os direitos dos romanos não-nobres era a ausência de provisão deste cargo nas leis sagradas. Mesmo quando tiveram de ceder à pressão o cargo de tribuno manteve um caráter ímpio e a própria inviolabilidade do tribuno – aponta Foustel de Coulanges – era motivada por este caráter “impuro” da função.

O mais antigo dos truques para afastar parcelas da população do processo de decisão é a invocação de razões “sagradas”, das quais o caso do tribuno da plebe é apenas um pequeno exemplo. Com todos os pesares, lamentações e retrocessos, ainda assim, a história política da humanidade é a amplificação da proporção da população que detém os direitos de cidadania. Cada um destes passos históricos foi antecedido e sucedido por resmungos teológicos contra o pecado, heresia ou blasfêmia que se estava cometendo ao aceitar aquele círculo adicional de pessoas ao universo dos que deveriam decidir.

[Bobo da Corte]

sexta-feira, 24 outubro, 2008 – 19:20

Modernos, modernistas e modernosos

Paranóia E Mistificação: (a esquerda) quadro de Alexei Von Jawlenski de 1912 copiado no “Homem Amarelo”de Malfatti (a direita) em 1916, gerando a polêmica com Monteiro lobato

A outra espécie é formada dos que vêm anormalmente a natureza e a interpretam à luz das teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência; são frutos de fim de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz do escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento. (Monteiro Lobato, Paranóia ou Mistificação)

Um amigo me pede um texto sobre Monteiro Lobato e os modernistas após alguma polêmica sobre o assunto. Se eu precisasse reduzir todo o comentário a uma frase diria que Lobato é que era verdadeiramente moderno naquele momento. Se pudesse ainda acrescentar algo comentaria que a crítica de Lobato aos modernistas não é pela inovação proposta por eles, mas pela falta de novidade e sinceridade do movimento. O que ocorria de mais moderno no país, naquele momento, era justamente a superação dos modelos copiados das últimas modas européias, francesas em particular. Moderno de fato era a crença profunda de Lobato que o pensamento brasileiro deveria refletir sobre os problemas do país, usando a linguagem do povo e jogando no lixo os academicismos, elitismos e sectarismos todos.

Talvez na sua fonte os movimentos pretendiam revolucionar as linguagens artísticas tivessem na sua origem um elemento inovador, mas quando desembarcaram aqui ao Brasil eram só mais uma forma de academicismo vulgar de burgueses sem ter mais o que fazer para salientar-se. Pouca coisa pode demonstrar o caráter de “farsa”da Semana de 22 com o fato de que os modernistas pagaram a estudantes para vaiá-los e atirar coisas no palco, já que falharam até em provocar o choque que desejavam, mas tinham dinheiro sobrando para comprar mídia. Infelizmente pouca gente hoje lê os originais, os textos fontes. Contentam-se em pontificar com o que ouviram falar do amigo do primo que ouviu alguém comentar sobre o que leu na orelha do almanaque citando um comentarista que leu uma resenha de um livro mencionando a obra original, às vezes até conformam-se com algo ainda mais vago como as teses e dissertações de crítica literária. Garanto que qualquer um que ler o artigo Paranóia ou Mistificação de Lobato – fruto do mito que ele era contra a “modernização das artes” poderá ver claramente que a crítica “emiliana” concentra-se sobre dois pontos: O prmeiro é a absoluta falta de sinceridade que ele vê na obra de Anita Malfatti:

nos manicômios essa arte é sincera, produto lógico dos cérebros transtornados pelas mais estranhas psicoses; e fora deles, nas exposições públicas zabumbadas pela imprensa partidária mas não absorvidas pelo público que compra, não há sinceridade nenhuma, nem nenhuma lógica, sendo tudo mistificação pura.

Em segundo lugar há uma crítica também severa a certa arte que para se proteger é apresentada como hermética, capaz de ser compreendida por experts, análise que Hauser, por exemplo, também faz várias décadas depois, demonstrando a vitalidade e visão de Lobato. Para ele toda a discussão em torno da arte modernista é um grande jogo de comadres se promovendo uns aos outros, um pacto corrupto:

Teorizam aquilo com grande dispêndio de palavreado técnico, descobrem na tela intenções inacessíveis ao vulgo, justificam-nas com a independência de interpretação do artista; a conclusão é que o público é uma besta e eles, os entendidos, um grupo genial de iniciados nas transcedências sublimes duma Estética Superior.

A verdade é que a grande maioria do que o país produziu de melhor em todos os campos da ação intelectual – Graciliano Ramos, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Florestan Fernandes, Gilberto Freyre, Paulo Freire, enfim todos que ousaram pensar de forma original, mesmo pagando o preço da originalidade que é o erro ocasional nas generalizações, sobre os problemas brasileiros – são de uma forma ou outra herdeiros ou parentes desta vertente que começa em Lobato. É preciso incluir aí os próprios modernistas que deram certo, porque a oposição entre Lobato e os modernistas é parte mito e parte mistificação. Mario e Oswald de Andrade, por exemplo, logo deixaram de lado a bobagem “modernosa”voltada para a forma e a técnica, que é o centro da crítica de Lobato, para incorporar através do Movimento Antropofágico uma proposta que é muito similar aquilo que Lobato lhes recomendava fazer vários anos antes. Não nego que Lobato, até como pintor frustrado que era, tenha algumas visões antiquadas sobre as artes plásticas em especial. Neste ponto não foi capaz de compreender a mudança na linguagem do meio que ocorria. Em parte a crítica não é completamente inadequada porque a mesma falta de transcendência é apontada como a chave para a desumanização da arte por Ortega y Gasset, filósofo spanhol que alguns anos depois tenta fazer com o pensamento espanhol a mesma revolução de compreensão original. Uma das questões importantes a se guardar é que este debate entre os verdadeiros modernos – aqueles que de fato inovam, acrescentam algo ao que já existe – os modernistas – aqueles que fazem do novo profissão de fé simplesmente porque é novo então deve ser necessariamente bom – e os modernosos – impostores e charlatões de toda espécie que se escondem por detrás das cortinas de fumaça sectárias, todo este embate, ainda está acontecendo por todo lado, não acabou em 22. Até por isso vale a pena reler os textos de Lobato comentando o assunto, no original, é claro.

sexta-feira, 17 outubro, 2008 – 14:32

Uma proposta realmente antenada

Uma proposta realmente antenada –

*José Police Neto

A proposta de implantar uma rede de antenas fornecendo Internet banda larga gratuita, feita por uma candidata a prefeita, tem gerado muita polêmica tanto em termos técnicos como financeiros. A dimensão política da questão, contudo, tem sido pouco enfocada nos debates, assim como praticamente descarta os projetos de Inclusão Digital já em debate e execução na cidade de São Paulo. Uma das características das propostas pirotécnicas dos marqueteiros e tecnocratas é esta mesma, fazem tabula rasa do que existe, resumem todos os problemas a aplicação de uma fórmula simples, meio mágica, capaz de miraculosamente resolver o problema. Com se trata de mágica ou milagre é evidente que a proposta não pode ser discutida pelos comuns mortais, portanto qualquer debate sério para aprimorar ou contestar a proposta é inadmissível, visto que só o candidato e seus sumo-sacerdotes tecnocráticos são capazes de realmente compreendê-la.

Segundo a candidata, ele foi revolucionária e inovadora na sua passagem anterior pelo Executivo Municipal ao criar os telecentros, mas agora eles ficaram ultrapassados e épreciso acabar com o que existe para continuar inovando. Difícil encontrar algo que seja verdadeiro n conjunto de toda a suposição feita por ela em seu programa eleitoral. Em primeiro lugar o número de telecentros criados por ela foi muito pequeno em comparação com a grande expansão que a rede recebeu nos últimos quatro anos, responsável pela triplicação do sistema de Telecentros. Em segundo lugar, mas não menos importante, os telecentros e o conjunto da política municipal de Inclusão Digital só foram realmente institucionalizados e consolidados quando a Câmara Municipal aprovou a lei criando o Sistema Municipal de Inclusão Digital. Foi esta lei, fruto de intensas discussões com a sociedade civil, gestores públicos, parlamentares, operadores e usuários dos telecentros, que garantiu que os telecentros tenham existência concreta e estabilidade, deixando de ser mera resultado da vontade do administrador de plantão para se tornar de fato um programa de estado. A lei na apenas garantiu de verdade Internet de graça para sempre, mas assegurou recursos para isto através da vinculação de parte do ISS arrecadado das empresa de tecnologia para o Fundo Municipal de Inclusão Digital, que garante a manutenção, expansão, aperfeiçoamento e evolução tecnológica dos telecentros.Mais do que simplesmente fornecer os recursos para a área, esta vinculação garante que a Inclusão Digital ira crescer na mesma velocidade que a tecnologia se expande. A proposta das antenas de Internet sem fio espalhadas pela cidade não é um avanço, mas um enorme retrocesso, anda mais ela forma autoritária, tecnocrática e superficial que foi colocada. É um projeto reacionário no sentido que se propõe a destruir a construção coletiva e democrática em nome de uma proposta que é pouco mais do que mera propaganda. Além do mais recoloca a questão ao arbítrio do administrador de plantão, recolocando o cidadão em uma posição na qual ele é simplesmente usuário dos serviços que a prefeitura quiser oferecer, não na posição atual na qual ele é participante direto no processo de discussão sobre uma política pública. Assim, por mais antenas que a proposta da candidata tenha, ela não está realmente antenada com os anseios da comunidade e com uma visa moderna de serviço público e formulação de políticas pública na qual a sociedade civil éagente e não apenas polo passivo dos serviços públicos, submetidos à posição de cobaias de experimentos autoritários e publicitários.

* José Police Neto, vereador reeleito com 54726 votos e apontado pelo Movimento Voto Consciente como o Melhor Vereador, é líder de Governo na Câmara Municipal e autor da lei criando o Sistema Municipal de Inclusão Digital.

[Blog do Netinho]

quarta-feira, 8 outubro, 2008 – 20:02

Em quem eu voto, e por que

A responsabilidade de recomendar o voto em alguém é muito grave. Ainda mais nestes tempos terríveis de descrédito na grande maioria das vezes completamente justo e motivado nas instituições políticas e nos homens públicos em especial. Continuo firme na crença de que se as pessoas conscientes, com senso, informação e visão se omitirem nesta escolha a decisão ainda assim será tomada.

E será tomada pelos votam por impulso seu próprio ou de terceiros ou for fatores totalmente alheios à política ou, ainda pior, por aqueles que estão no último degrau da condição humana e transformam o voto em mercadoria. Por mais difícil que seja é necessário votar, ainda mais nas eleições parlamentares onde há imenso leque de opções, mesmo que a maioria dos candidatos esteja abaixo do lamentável.

Costumo dizer que pior que o político profissional, aquele para a qual a política não é um exercício de nobreza, mas vil fonte de recursos, só o político amador, ou seja, aquele que não tem nenhum preparo, formação e às vezes nem afinidade com a atividade política. Esta atividade exige calma, reflexão, disposição para o diálogo, estudo e dedicação, qualidades que certamente não são encontradas na imensa maioria das pessoas que aparecem no show de horrores que se tornou o horário eleitoral dos candidatos aos parlamentos.

Acredito também que mesmo esta massa disforme que é a multidão pode aprender com o tempo. Espero que o momento de registrarem seu protesto votando em aberrações políticas já foi, assim como o de votar em celebridades de ocasião. Vai ficando evidente o quanto estes tipinhos comportam-se depois de eleitos exatamente como os piores de todos os políticos profissionais.

Por conta destas questões acho que sempre que possível é melhor reeleger um bom homem público do que fazer experiência com amadores. Há um conceito neste comportamento qe merece ser destacado. Uma das cosias que mais se houve nos bastidores dos parlamentos é que dedicar-se a fazer a grande política, exercer um mandato pleno, é uma grande bobagem e um erro, porque há dezenas de bons deputados e vereadores que não se reelegeram enquanto há milhares de maus elementos que retornam com um sorriso debochado no rosto. Assim reeleger um bom parlamentar é demonstrar que vale a pena dedicar-se à política.

Colocado tudo isto, quero dizer que na cidade de São Paulo voto em José Police Neto no. 45000, do PSDB.

Netinho é um velho amigo desde a adolescência. Mas certamente não recomendaria um voto baseado em laços pessoais, mesmo que em momentos difíceis com o que a política nacional vive hoje nos voltemos para o pouco que sobra que são os laços afetivos. Ele tem sido um parlamentar dedicado, competente, colocado a inteligência a serviço do interesse público e trabalhado de acordo com as boas práticas da grande política.

Para que esta minha avaliação possa ser julgada de forma mais objetiva, destaco que ele foi apontado como O MELHOR VEREADOR pelo Movimento Voto Consciente, ONG que há 21 anos fiscaliza o trabalho da Câmara Municipal de São Paulo, segundo critérios técnicos.

Leia aqui a avaliação

Também foi apontado como Melhor Vereador por levantamento realizado pela revista Veja São Paulo (a popular Vejinha)

Leia aqui a avaliação

Alguns textos que ele escreveu durante o período que trabalhamos juntos

O site do candidato

Se você ficou convencido, puxa vida, fico contente. Peço então que vocême ajude nesta tarefa escrevendo ou telefonando para seus amigos e se eles não tiverem candidatos indique o Netinho 45000.

Se não ficou, bom, me escreva se houver alguma dúvida, crítica ou sugestão.

quinta-feira, 2 outubro, 2008 – 14:51

Antígona e o Bobo

Bobo – Se eu falar sobre isso como costumo, que seja chicoteado o primeiro que me compreender. (Shakespeare, Rei Lear, Ato I, Cena IV)

Antígona – Se te parece que cometi um ato de demência, talvez mais louco seja quem me acusa de loucura (Sófocles, Antígona)

Um dos personagens abordados de forma mais injusta pelo senso comum é o bobo da corte. Com o tempo a imagem que se fez dele transformou-o justamente no seu contrário. O bobo não era a figura caricata que tenta agradar o soberano para colher algumas migalhas do banquete do poder. É, pelo contrário, aquele que diz verdades tão profundas a ponto de precisarem ser travestidas de pantomimas para serem apresentadas aos mortais. Só o bobo, pela sua loucura, é capaz de contrariar todos os interesses, deixar de lado todas as manobras, desvelar-se de tudo que é subterrâneo portanto seguro para dizer na cara do rei as coisas desagradáveis.

É esta dimensão que torna o bobo um sucessor dos personagens trágicos. Não há como não relacionar o bobo medieval, por exemplo, com o adivinho Tirésias, em Édipo Rei ou Antígona de Sófocles. Também Tirésias é a ponte entre mundos diversos trazendo aos homens as mensagens terríveis nos momentos cruciais. A mensagem das divindades, do mundo superior, trazida por Tirésias é a mesma expressa na fala final do Corifeu da Antígona: Não formules desejos… Não é lícito aos mortais evitar as desgraças que o destino lhes reserva!. O dilema fundamental de Édipo em Édipo Rei nada tem a ver com o sentido dada à história por inúmeros comentaristas que não leram o texto e baseiam-se apenas em algum sentido captado de forma fugaz em algum texto de popularização psicanalítica. O castigo de Édipo e seus pais vem da tentativa dos três de burlar os desígnios divinos.

Acho pouco explorado o fato de que a punição tripla, extensiva a toda a família, jamais teria ocorrido não somente se Jocasta e Laio não tivessem tentado escapar aos oráculos. Tivesse Édipo ficado na casa de seus pais adotivos e se conformado com seus augúrios infelizes e o fado não teria se confirmado. Da mesma forma não tivessem Laio e Jocasta tentado dar um jeitinho de escapar à previsão do oráculo o desenrolar da história seria outro. Há neste ponto não só uma noção da impossibilidade de escapar do destino, mas um sentido de omnisciência da divindade, sentido este que por sinal lembra trechos d Sagrado Alcorão mencionando as andanças de Moisés junto com o Khidr, além de várias outras passagens de histórias tradicionais.

Ainda assim é fundamental destacar que o desastre dos heróis não é casual, fortuito, mas um resultado direto de suas ações, assim se o destino é arbitrário em vários pontos, o desenlace da história jamais é. Voltando à questão do Bobo, há algo que falta em Tirésias para encaixá-lo neste papel. A verdade na língua de Tirésias queima inclusive a ele próprio, é um fardo, algo desagradável. Ele implora a Édipo em Édipo Rei quando é chamado:

TIRÉSIAS – Oh! Terrível coisa é a ciência, quando o saber se torna inútil! Eu bem assim pensava; mas creio que o esqueci, pois do contrário não teria consentido em vir até aqui. E, ainda de forma mais drástica, para não ser forçado a esclarecer a história: TIRÉSIAS – Jamais causarei tamanha dor a ti, nem a mim! Por que me interrogas em vão? De mim nada ouvirás! E por fim só fala sob intensa coação, aos ser ameaçado de ser ele próprio acusado pelo crime de Édipo: TIRÉSIAS – Será verdade? Pois EU! EU é que te ordeno que obedeças ao decreto que tu mesmo baixaste, e que, a partir deste momento, não dirijas a palavra a nenhum destes homens, nem a mim, porque o ímpio que está profanando a cidade ÉS TU!

Para não me estender não comento a suspeita, desde a primeira vez que li Édipo Rei, de que há um conluio entre Tirésias e Creonte. Ressalto apenas que achei a hipótese mais consistente a despeito de Tirésias também profetizar o castigo a Creonte pela tirania – depois de ter lido Antígona, na qual é dito:

Creonte – Toda a raça dos adivinhos é cúpida!. Tirésias – E a dos tiranos adora os proveitos, por mais vergonhosos que sejam. Creonte – Sabes que é a um rei que diriges tais palavras? Tirésias – Bem o sei. Graças a mim pudeste salvar o Estado. Creonte – Es um adivinho esperto: mas tens prazer em proceder mal. Tirésias – Tu me obrigas a dizer o que tenho em mente! Creonte – Pois fala! Contanto que a ganância não te inspire!

Bem diferente é a invocação do Bobo do Rei Lear, de Shakespeare, talvez a personagem do tipo melhor acabada, ao lado do Bobo do filme Ran de Kurosawa que é inspirado no primeiro. Quando Lear reclama que seu bobo é um bobo amargo o Bobo responde com mordacidade dizendo que o verdadeiro bobo é o rei:

LEAR – Um bobo amargo. BOBO – Saberás dizer, meu rapaz, que diferença há entre um bobo amargo e um bobo doce? LEAR – Não, menino; ensina-ma. BOBO – Quem o conselho te deu de doar todas as tuas terras põe aqui ao lado meu, e o dele toma; não erras: verás logo, lado a lado, o doce bobo e o amargoso; um aqui, sarapintado, o outro aí mesmo, achacoso. LEAR – Com isso queres dizer que eu sou bobo, menino? BOBO – Já abriste mão de todos os outros títulos; esse é o único que te veio do berço. E para não deixar dúvidas, mesmo quando lamenta a posição de Bobo ele coloca-se acima do rei: BOBO – Não posso compreender que tu e tuas filhas sejais aparentados; elas me açoitam por eu dizer a verdade, enquanto tu pretendes fazer o mesmo no caso de eu mentir, sem contarmos que algumas vezes tenho sido açoitado por estar quieto. Quisera ser tudo neste mundo, menos bobo, mas não desejo ser o que és, tio; dos dois lados raspaste o espírito, sem deixar nada no meio…

É este aspecto, senão de felicidade de destemor frente ao poder, que torna próximos os personagens da Antígona e do Bobo. Ambos priorizam uma fidelidade a valores superiores, tradicionais, e confrontam o poder estabelecido em nome destes ideais elevados. É digno de nota que há identidade de valores nas duas peças, em ambos os casos estáem cheque a fidelidade e amor devido aos familiares, norma cujo desrespeito desgosta a justiça do universo. Também é importante reafirmar que um certo estado de loucura serve como justificativa a ambos, como no trecho da Antígona mencionado na epígrafe. Nos dois casos a loucura é antes uma forma superior de ver as coisas que se confronta com a visão limitada e interesseira do senso comum.

É esta definição que faz os loucos de Deus dotados de uma visão que ultrapassa a dos homens comuns e faz com que o Bobo do Re Lear sejaaparentado ao sábio zen – aspecto enfatizado na versão de Lear realizada por Kurosawa de Nasrudin e de personagens de quase todas as tradições. É neste sentido que muitas vezes Antígona é interpretada com certo equívoco na medida que é vista como a revolucionária que confronta o poder. Se esta leitura tem certa consistência na medida em que ela coloca seus ideais acima do teor do Estado e contesta com a própria vida um decreto cujo conteúdo é injusto, por outro lado seu motivo não é a tomada do poder ou a implantação de alguma nova ordem, mas a retomada da ordem tradicional. Não é em nome da individualidade que ela confronta Creonte, mas do seu senso de dever com a tradição, inclusive sem buscar por isto qualquer recompensa, nem mesmo a de fugir ao castigo imposto a sua família pelo fado, com destaca a parte final do texto:

Antígone – Ó cidade de meus pais, terra tebana! Ó deuses, autores de minha raça! Vejo-me arrastada! Chefes tebanos, vede como sofre a última filha de vossos reis, e que homens a punem, por haver praticado um ato de piedade! O crime de Creonte ou mais propriamente a sua ação que gera a Hibrys resultando na sua desgraça é tentar colocar seus desígnios acima daqueles determinados pelos deuses. A luta de Antígona, na qual ela não tem prazer além de cumprir o que considera um dever, não é para destituir o tirano, apenaseste cumprimento de um dever que ela considera sagrado.

Da mesma forma o Bobo de Shakespeare, portanto também o de Kurosawa, também não espera alguma recompensa senão o cumprimento do seu dever de fidelidade ao rei, mesmo quando isto resulta em seu prejuízo pessoal e no ódio do restante da corte. O Bobo é aquele que se arrisca a ser o bom conselheiro, ainda que numa linguagem criptográfica e confusa. É curioso o paralelo com algumas referências de Thomas Morus na parte inicial da Utopia, na qual ele recomenda a quem tem talento e visão não se tornar um áulico:

Quanto aos conselhos dos reis, eis aproximadamente a sua composição: Uns se calam por inépcia, e teriam mesmo grande necessidade de ser aconselhados. Outros, são capazes, e sabem que o são; mas partilham sempre do parecer do preopinante, que está em melhores graças, e aplaudem, com entusiasmo, as pobres imbecilidades que este entende desembuchar; esses vis parasitas só têm uma finalidade: ganhar, por uma baixa e criminosa lisonja, a proteção do primeiro favorito. Os outros, são escravos de seu amor próprio e escutam apenas a própria opinião, o que não é de admirar, pois a natureza insufla cada um a afagar com amor os produtos de sua invenção. É assim que o corvo sorri à sua ninhada, e o macaco aos seus filhotes.

É a incapacidade da razão, dos valores elevados, da análise desvinculada dos interesses pessoais e imediatas que torna o Bobo necessário, já que traz à tona como uma ação demente as únicas respostas que tem ligação com o sentido universal das questões. Em particular numa sociedade dessacralizada, tecnocrática, na qual não há qualquer tipo de transcendência, não é de se admirar que este papel d guardiãoda verdade mais elevada do Bobo seja incapaz de ser compreendido e ele seja visto apenas como mais um áulico tentando agradar aos poderosos, assim como certa singeleza da ação de Antígona, a perder a vida apenas para cumprir um dever sagrado seja tampouco compreendido em sua simplicidade, geralmente confundido com alguma postura revolucionária.

quarta-feira, 17 setembro, 2008 – 13:33

Horário Eleitoral na Grécia Antiga

Antígona – …a Justiça, a deusa que habita com as divindades subterrâneas, jamais estabeleceu tal decreto entre os humanos; nem eu creio que teu édito tenha força bastante para conferir a um mortal o poder de infringir as leis divinas, que nunca foram escritas, mas são irrevogáveis; não existem a partir de ontem, ou de hoje; são eternas, sim! e ninguém sabe desde quando vigoram! Tais decretos, eu, que não temo o poder de homem algum, posso violar sem que por isso me venham a punir os deuses! (Antígona, Sófocles)

Repete-se a ponto de ter se tornado lugar comum a exaltação aos múltiplos legados da Grécia Clássica, em particular citando os dois mais destacados: a Filosofia e a Democracia. O senso comum perde muito da riqueza desta herança ao não ver que estes dois ramos construíram-se em profunda oposição um ao outro. Da mesma forma quem vê as costumeiras máscaras simbolizando a tragédia e a comédia poucas vezes se dá conta do intenso debate político travado através destes gêneros.

Artigo publicado no Observatório da Imprensa

A hipótese de que a tragédia era patrocinada pelas facções aristocráticas gregas por este seu princípio de que há uma ordem no universo que não pode ser violada sem trazer conseqüências terríveis parece ser muito real. É verdade, contudo, que as facções democráticas patrocinavam a comédia, destinada a satirizar as personagens políticas, particularmente as aristocráticas, portanto ambas estavam contaminadas pela disputa política. <–break–> A oposição entre a tragédia universalista, aristocrática, conservadora e a comédia particularista, burguesa, democrática poderia ser exemplificada por inúmeros elementos. Um só já destaca esta natureza complementar: o júri das tragédias, nos festivais, era formado por cinco sábios de distinção escolhidos entre as famílias aristocráticas, enquanto os cinco juízes das comédias eram pessoas sorteadas entre os cidadãos como forma de representar o gosto da multidão, do homem comum. Esta distinção torna-se ainda mais significativa na medida em que estas formas de escolha serão também o centro das grandes polêmicas entre os filósofos aristocratas e os políticos democratas quanto a forma de ocupar cargos públicos. Enquanto Sócrates, em especial, ironizava o fato de ser exigido de um homem preparo para treinar um cavalo mas não para dirigir uma cidade, no apogeu da democracia grega vários cargos eram ocupados por sorteio, visto ser esta a única forma na qual cada cidadão teria as mesmas chances de ser eleito. Não é à toa que o democrático Aristófanes, na sua peça de maior repercussão As Nuvens satiriza o aristocrático Sócrates, justamente naquilo que é mais caro ao filósofo: o treino da juventude nobre nas artes do raciocínio e da argumentação. No diálogo Górgias, contudo, Platão atribui a Sócrates uma crítica demolidora da retórica. Segundo ele a retórica estava para a política assim como a culinária estava para a medicina, ou seja, era uma substituição do objetivo de buscar a verdade, o melhor, o equilíbrio pelo prazer momentâneo e efêmero. Nas palavras de Sócrates, segundo Platão a retórica

com os interesses superiores do homem não se preocupa no mínimo, mas vale -se do prazer como de isca para a ignorância, enganando-a a ponto de parecer-lhe de muito maior valia. Foi assim que a culinária se insinuou na medicina, pretendendo conhecer os mais saudáveis alimentos para o corpo, de forma que se o médico e o cozinheiro tivessem de entrar num concurso em que crianças fossem juízes, sobre quem mais entendesse da excelência ou da nocividade dos alimentos, o cozinheiro ou o médico, este morreria de fome.

Não deixa de ser paradoxal que Sócrates e ainda mais seu discípulo Platão estejam entre os maiores adversários da retórica ainda que uma dissidência da facção aristocrática de Aristóteles tenha acabado por adotar uma visão da retórica que assemelhasse à caricaturada por Aristófanes. Aliás, olhando a questão por este lado nem é estranho que Aristóteles tenha se aliado politicamente àqueles que irão destruir as facções pelo controle militar da Grécia enfraquecida pelas disputas e, ainda mais, seráaos valores tradicionais invocados antes pelos aristocratas que apelará o último grande orador democrático grego Demóstenes. Mas, voltando à tragédia e à comédia, não se encontrará um texto de tragédia na qual não esteja em posição central esta idéia cara à aristocracia de que há uma ordem no mundo a qual ninguém pode escapar e que portanto cada um é para o que nasce, como dizem as ceguinhas de Campina Grande citando o ditado.

Nem mesmo nos textos cujo conteúdo profundamente revolucionário é evidente em particular Antígona e Prometeu Acorrentado a noção da existência de uma ordem superior à qual nem mesmo os deuses podem escapar. Prometeu, por exemplo, responde a Hermes que ele irá aprender quando o deus diz ao titã que ai de mim! é uma expressão que Zeus não conhece. Creonte aprende que há um preço alto a ser pago pela tirania, ou seja, pelo exercício ilegítimo do poder político e pelo desrespeito de valores estabelecidos pelos deuses. Ao mesmo tempo a comédia não ironiza tanto os valores tradicionais em si, mas antes a hipocrisia de uma aristocracia corrompida que já não faz jus aos valores de educação, temperança e piedade que embasam sua posição superior, invocando assim apenas os direitos, mas não os deveres devidos a sua posição. Lisístrata reclama que se fosse para um bacanal nem precisaria ter convidado as mulheres, mas como as chamava pra discutir assunto sério poucas apareceram, sem dizer que ao final vence a todos pelo apelo ao prazer. Assim Estrepsíades o pai que contrata Sócrates, n’As Nuvens para tentar treinar o filho preguiçoso para a carreira na política lamenta-se:

Pelos deuses! As coisas por aqui\Eram bem diferentes, certamente\Nos velhos tempos, antes dessa guerra! \Maldita guerra! Arruinou Atenas.\Não se pode sequer, de agora em diante,\Chibatear sem dó nossos escravos

>Para Hauser há um progressivo avanço das tendências democráticas tanto na comédia quanto na tragédia, o qual reflete-se sobretudo na transição do formalismo característico de uma visão de mundo aristocrática para o naturalismo mais ao gosto burguês. Particularmente ele destaca a importância das fontes de financiamento seja através dos cofres públicos ou de doações dos particulares ricos a qual acaba resultando na exclusão da massa de um poder decisivo no processo de escolha. Para ele há uma contradição latente, em especial na tragédia, na medida em que ela parte de um fundo mitológico tradicional mas deve agradar a uma massa popular ainda que em um certo sentido também elitizada, particularmente em Atenas por conta dos recursos do imperialismo. É preciso notar, contudo, que a Medeia de Eurípedes não foi bem aceita tanto pelo público quanto pela crítica por romper diversos cânones formais da tragédia. E entre esta tragédia de transição e o Édipo Rei de Sófocles em certo sentido seu oposto na medida em que é o padrão há apenas 3 anos de diferença. Também não deixa de ser fato curioso que Sócrates seja um personagem favorito a ser ironizado nas comédias, ao mesmo tempo que a crítica moderna em especial Nietzsche e em menor escala Ortega y Gasset o apontem como o representante da anti-tragédia, na medida em que invocaria um papel central à razão deslocando aquilo que Nietszche chama de amor ao destino. Postura esta que não deixa de parecer paradoxal porque a menos nos momentos pré-Eurípedes os infortúnios do herói jamais são casuais, mas antes marcados por uma lógica que, mesmo arbitrária, faz sentido. Um dos cânones da tragédia que Eurípides viola, por sinal, é exatamente a noção de que a desventura do herói no momento da peripécia não deve ser casual, mas provocada por uma ação dele mesmo que em algum grau não deliberada. Correndo o risco de estender demais para além do assunto parece relevante notar que as conseqüências funestas da inobservância de algum rito, mesmo quando esta omissão é involuntária· é tema recorrente de inúmeras mitologias. Em um momento no qual somos confrontados com a barbárie de disputas políticas no gigantesco anfiteatro da televisão durante o horário eleitoral não deixa de representar um terror adicional sabermos quehouve um momento no qual a partir da matéria prima tradicional produzia-se um material que até podia ser político e marcado pelas facciosidades da época, sim, mas guardavam uma profunda reflexão sobre a natureza do homem. Nestes 2500 anos a política deixou de ser algo sagrado -no melhor sentido do termo para virar uma disputa bestial e bestial aqui talvez não seja força de expressão. Por mais que o quadro pareça uma comédia no sentido atual e não clássico do termo, ele é na verdade trágico. Tal como para o protagonista da tragédia grega é preciso dizer que esta situação não é algum arbítrio dos deuses, é antes o resultado das nossas ações de desvelo, descaso, omissões e ações.

domingo, 14 setembro, 2008 – 23:37

Caso Isabela: fatalismo x políticas públicas

A violência contra a criança está na ordem do dia da sociedade com o Caso Isabela, que vem ocupando grande parte do noticiário na TV, rádio e jornais. No jornal Folha de São Paulo de hoje Carlos Heitor Cony faz uma comparação entre este caso específico e as notícias que comumente ocupam o noticiário policial. Cony escreve:

“Em tempos outros, anteriores à violência urbana, às balas perdidas e às tropas de elite, volta e meia havia casos assim, escabrosos. Homens que serravam mulheres e as colocavam dentro da mala ou as enterravam no quintal, tarados seriais que nem iam para a cadeia, mas para hospitais psiquiátricos (…) Eram crimes personalizados e, por isso, mais horripilantes. Tal como o da menina que foi atirada ou caiu da janela. A culpa não é social. É dolorosamente humana.”

Com todo respeito que tenho pelo cronista quero discordar da análise feita por ele. Por mais que existam os componentes pessoais, psicológicos em casos com este há sim causas sociais motivando muitos destes crimes. E se há causa social a questão é passível de ser enfrentada pela Estado através de políticas públicas que ajudem a identificar, prevenir e controlar a violência contra as crianças.

Em todo o mundo, em especial nos países desenvolvidos, tem aumentado os casos deste tipo de violência contra crianças e adolescentes. Ao lado de distúrbios psiquiátricos e outros desarranjos de natureza psicológica tem aumentado o número de casos em que situações de extrema violência ocorrem de forma banal e por motivos fúteis, tanto em termos de violência domésticas, cm na pedofilia e nos casos de bullying ou de reações violentas ao bullying como no Caso Columbine.

A escalada da violência contra as crianças é um sintoma de uma doença social, que deve ser diagnosticada e tratada pelo bem do nosso futuro.

Em primeiro lugar temos de reconhecer que apesar da superexposição do assunto na imprensa a abordagem do assunto tem contribuído muito pouco com uma discussão mais séria do assunto. Mesmo ocupando longas horas e páginas d noticiário, todo o espaço tem sido ocupado na descrição de procedimentos jurídicos ou forenses e depoimentos emocionais.

Esta exploração dos fatos cria o paradoxo de ao invés de se enfrentar a violência ela seja estimulada. Ao invés de estimular a reflexão sobre as raízes desta violência contra as crianças a superficialidade da imprensa tem estimulado a formação de turbas raivosas propensas a um linchamento.

Em segundo lugar é necessário aprender com as experiências, aprimorar as ferramentas que já existem. É este aprendizado que faz com que a tragédia não seja em vão, porque quando se aprende com as lições dos erros e omissões se retira mesmo das piores experiências alguns ensinamentos.

Tanto no caso da empresária que torturou inúmeras crianças e adolescentes em Goiás com no caso de Isabela havia antecedentes de agressões ou suspeitas registrados em boletins de ocorrência. A Sociedade Brasileira de Pediatria chegou a editar um manual para que suspeitas de violência domésticas possam ser identificadas e possam ser recomendadas providências. Creches e escolas podem ser também pontos de detecção e enfrentamento destas suspeitas e ameaças se os funcionários tiverem o treinamento adequado. Além disso, a Lei Maria da Penha oferece um importante arcabouço jurídico para enfrentar a violência doméstica, embora ainda seja pouco conhecida dos cidadãos.

Por fim é preciso ir mais fundo nesta questão da violência doméstica, em particular da violência contra a criança esforçando por eliminar a violência latente na sociedade, estimulando as formas pacíficas de resolução de conflitos pelo diálogo – como fazem os círculos de Justiça restaurativa, por exemplo, estimulando as pessoas a enxergar e entender o outro ao invés de permanecerem insuladas em si mesmas.

É a partir deste esforço passaremos da visão fatalista segundo a qual casos como de Isabela são inevitáveis para a visão de que é possível prevenir e controlar a violência doméstica através de políticas públicas.

quinta-feira, 17 abril, 2008 – 15:20

Revoluções, evoluções e involuções

A primeira vez que li George Orwell estava ainda na infância. Familiares decidiram que A Revolução dos Bichos era uma leitura interessante para me curar das minhas precoces inclinações comunistas. Li e gostei do livro, mas o remédio não teve o efeito previsto, tanto que alguns anos depois, com 13 anos tornei-me militante de um PCdoB que ainda se orgulhava de ser stalinista e ainda na ilegalidade, mesmo que já fora dos períodos mais sérios da ditadura militar.

Lembrei-me desta história nestes dias relendo Lutando na Espanha – relato de Orwell sobre a sua experiência na Guerra Civil Espanhola – e a coletânea de ensaios Dentro da Baleia. Orwell tem a capacidade de chamar a minha atenção e proporcionar-me o prazer da leitura até mesmo quando ataca coisas nas quais acredito. Em Dentro da baleia ele desmonta vários de meus autores preferidos – Tolstoi, Russel e Swift em especial – ainda assim lá estou lendo pela enésima vez lendo e refletindo sobre os textos, até dando razão a algumas das críticas feitas. Minha consolação vem em parte do fato de que lá no fundo, nas entrelinhas, há muita admiração e respeito de Orwell pelos mitos pelos ícones que ele se propõe a destruir, talvez seja isto que faça a análise dele ser repleta de sinceridade e portanto de verdade e beleza.

Revolução dos Bichos, Lutando na Espanha e 1984 são um mesmo livro contando a história de formas deferem relato da guerra civil espanhola é a matriz na qual os outros foram plasmados, é uma descrição que impulsiona as narrativas nas quais o resultado daquelas práticas que ele denuncia vão gerando outros cenários. Há casos nos quais se percebe como os indivíduos da fábula foram decalcados a partir de personagens da vida real. Sansão, o cavalo fiel e batalhador que toma com motto “O camarada Napoleão tem sempre razão” é um é moldado em um dos milicianos com quem ele se encanta nas trincheiras da Catalunha.

Ele não enxerga estes dois militantes dedicados com desprezo, por mais profunda que seja a crítica às vãs esperanças que motivam os dois personagens. Sobre o personagem de Lutando na Espanha ele afirma:

“Era um moço de seus vinte e cinco anos de idade, com expressão carrancuda, espadaúdo, cabelo meio avermelhado e louro. O quepe de couro, de bico, estava repuxado de modo feroz sobre um dos olhos, e de perfil para mim, tinha o queixo encostado ao peito, olhando com perplexidade um mapa que um dos oficiais abrira sobre a mesa. Alguma coisa, em sua expressão fisionômica, causou-me profunda emoção. Era o rosto de um homem que assassinaria outro, ou daria sua própria vida por um amigo, o tipo de rosto que se espera encontrar num anarquista, embora com toda a probabilidade ele fosse comunista. Encontravam-se, naquela expressão, candura e ferocidade ao mesmo tempo, bem como a reverência patética que os analfabetos possuem por aqueles que julgam seus superiores. Estava mais do que claro que ele não entendia patavina do mapa, cuja leitura e interpretação deviam, a seus olhos, constituir estupenda façanha intelectual. Eu não sei por que, mas poucas vezes vi alguém que me agradasse de modo tão imediato”.

Já sobre Sansão, a admiração de Benjamin, o burro, pelo cavalo é expressa de forma semelhante ao do autor. Por mais que deplorem a ilusão, admiram a força e até a ingenuidade do iludido tanto quanto odeiam o ilusor.

Neste sentimento mais de admiração que de desprezo pela “disciplina proletária” é que julgo que há a enorme diferença entre Orwell e outros tantos que denunciaram a manipulação dos dirigentes sobre os liderados. No passado a discussão política da esquerda chamava isto de stalinismo e o deplorava ou defendia, mas para muito além dos partidos comunistas foram se traçando com mais ou menos nuances estas práticas.

A diferença sensível é que muitas e muitas vezes esta denúncia da disciplina e do chamado “centralismo democrático” era no fundo aquilo mesmo que os defensores da medida – stalinistas em maior ou menor grau – diziam: uma aversão pequeno-burguesa à disciplina, de um lado, e um sentimento de superioridade de alguns indivíduos, particularmente os intelectuais diversos, sobre a massa do povo.

Estas discussões todas parecem ter ficado guardadas em algum baú de recordações do passado, de uma época em que estas questões todas passavam por inúmeras horas de discussão. Mas o pior é que não são, se na por outros motivos porque foi neste universo que surgiram e se formaram muitas das lideranças políticas que estão por aí – e não só as de esquerda, mas muitos, em especial os mais insignes, de direita.

O autoritarismo stalinista soçobrou, mas sob inúmeras formas e pretextos continua sendo cada vez mais o método de organização política mais efetiva e mais comumente colocado em prática por aí. Pior! As alternativas a ele são em geral coisas ainda piores e mais deploráveis, ou é o quadrilhismo puro e simples, ou o personalismo caudilhista ou uma mescla de sentimentos ressentidos envenenados até o cerne por sentimentos fascistas, fascistóides e preconceituosos.

A efetividade de algum tipo de “centralismo democrático” dá a quem o utiliza uma enorme vantagem sobre os grupos menos organizados e disciplinados, faz com que ativistas diversos em vários locais falem a mesma língua e compartilhem de um plano de ação comum, isto sem dúvida dá a eles uma enorme vantagem estratégica. O fluxo na direção contrária, da base par o topo da pirâmide, mesmo sempre sendo um aspecto secundário do centralismo democrático, mesmo quando utilizado de forma mutilada tem a vantagem de produzir informações, muitas vezes relativamente precisa. Mesmo com a prática de “decidir antes para depois fazer a reunião” tal método enquanto estratégia de combate é excelente.

Preocupa-me saber como este processo inevitavelmente termina como a história, inclusive a história recente do país, não cansam de dizer. Preocupa-me ainda mais a falta de alternativas a este processo.

Só me resta descobrir se esta desesperança este em mim ou está no mundo!

sexta-feira, 11 abril, 2008 – 14:27

A pena e a bomba

Como disse outro dia, estou relendo “O Crisântemo e a Espada” – estudo sobre a cultura japonesa realizado pela antropóloga americana Ruth Benedict durante a segunda guerra mundial. Já na universidade sempre achava os livros de antropologia muito mais interessantes que os de Política ou Sociologia, ainda que em geral discordasse de muitos aspectos deles, o interessante livro da antropóloga não foge desta regra.

Um dos muitos aspectos relevantes do livro é que não é um estudo desinteressado, mas um levantamento cuidado feito a peio e com o patrocínio do Ministério da Guerra americano com o intuito de auxiliar na formulação da política americana em relação ao Japão durante e após a guerra. Algumas das perguntas que o estudo precisava responder eram quais seriam as melhores formas de redigir a propaganda atrás o front e avaliar quais seriam as dificuldades da invasão e capitulação. Não ficaria surpreso se o estudo não estivesse entre os argumentos que embasaram e “justificaram” o lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki – lamentável acontecimento que faz aniversário nos próximos dias.

Como disse outro dia, estou relendo “O Crisântemo e a Espada” – estudo sobre a cultura japonesa realizado pela antropóloga americana Ruth Benedict durante a segunda guerra mundial. Já na universidade sempre achava os livros de antropologia muito mais interessantes que os de Política ou Sociologia, ainda que em geral discordasse de muitos aspectos deles, o interessante livro da antropóloga não foge desta regra.

Um dos muitos aspectos relevantes do livro é que não é um estudo desinteressado, mas um levantamento cuidado feito a peio e com o patrocínio do Ministério da Guerra americano com o intuito de auxiliar na formulação da política americana em relação ao Japão durante e após a guerra. Algumas das perguntas que o estudo precisava responder eram quais seriam as melhores formas de redigir a propaganda atrás o front e avaliar quais seriam as dificuldades da invasão e capitulação. Não ficaria surpreso se o estudo não estivesse entre os argumentos que embasaram e “justificaram” o lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki – lamentável acontecimento que faz aniversário nos próximos dias.

Parto desta aparente contradição para destacar o que considero um dos aspectos mais simplificadores do estudo de Ruth Benedict: a oposição entre o crisântemo – a apurada e delicada preocupação estética japonesa – e a espada – a índole guerreira de seu povo. Também se poderia falar da pena e a bomba para descrever esta cooperação patriótica que coloca o estudo científico a serviço dos interesses militares sem ver qualquer tipo de conflito.

É preciso lembrar – saindo do universo etnocêntrico americano – que a associação entre artes, em particular a poesia, e a guerra não é algo inusitado como ela defende nos pressupostos do estudo. Pelo contrário ao longo da história é praticamente o padrão que um mesmo segmento social se dedique às duas tarefas, muitas vezes de forma simultânea. Quase me sinto tentado a dizer que o ocidente a partir da Idade Moderna é que é a exceção à regra, hipótese que teria inclusive a explicação de que isto se deve à “desaristrocratização” da guerra, popularizada pela conscrição e pela adoção da pólvora que passou a recrutar a população – e em geral segmentos marginais da população – ao invés de algum tipo de estrato guerreiro.

Nas sociedades hindus, por exemplo, tanto poetas como guerreiros pertencem à casta xátria e as características dos dois papéis são consideradas inseparáveis, como o emocionalismo, a coragem, o preparo, a inspiração. No mundo budista, da mesma forma, há uma associação entre o preparo para a luta e a inspiração artística. Estadistas, generais, filósofos e poetas confundem-se em diversas culturas tradicionais como a islâmica, a greco-romana em seus momentos clássicos, a renascença italiana, na cultura provençal.

Como quase sempre somos melhores em enxergar o outro que a nós mesmos, não é estranho que ela não enxergue a conexão entre a ciência e a guerra que, de certa forma, marca a cultura ocidental. Ligação esta que não existe somente em termos de tecnologia – na qual as relações promíscuas entre ciência e guerra são evidentes – mas também em relação às humanidades. O papel da antropóloga no caso em questão é uma sofisticação do papel de auxiliar do colonialista que cientistas de humanidades desempenharam – em particular mas não só no século XIX.

Papel não só de justificar a colonização, mas de estudar as melhores formas de implementá-la, avaliar as ferramentas a serem utilizadas, estabelecer estratégias de dominação e controle e, por fim, treinar “elites” nativas ocidentalizadas para garantir que com a substituição as metrópoles tudo continuaria funcionando de forma integrada ao sistema econômico.

Muito de toa a rejeição ao ocidente que percorre o mundo – em particular o mundo islâmico – deriva destas estratégias coloniais e o fracasso estas “elites substitutas” ocidentalizantes – ainda que quando providas de um discurso de esquerda ou revolucionário, como Saddam Hussein.

Outra importante posição que Benedict vê e que é uma das teses centrais do estudo, a “explicação” das diferenças entre as duas nações – Estados Unidos e Japão – segundo ela é a oposição entre a visão orientada à igualdade como valor fundamental nos EUA e a estrutura fortemente hierarquizada do Japão. Assim colocada parece ser muito simpática a visão dela, fundamentada em grande parte na imagem que Tocqueville teve da América, mas ignorando as advertências que o diplomata francês fazia sobre as conseqüências desta determinada visão de igualdade.

Penso que pouca coisa do estudo sobrevive a um confronto com a realidade moderna. Na medida em que o amor pela igualdade transforma-se, como aliás previu Tocqueville, numa imensa fraqueza e insulamento dos cidadãos que os torna frágeis frente ao Estado e às grandes corporações e a aversão a qualquer hierarquia transforma-se em dissolução da autoridade, horror ao mérito e elemento desagregador verifica-se que há algo de errado no modelo.

É preciso pensar, então, em qual medida este ideal de igualdade não é um discurso servindo a outro interesse mais do que uma realidade. Há, aqui, uma conexão fundamental com a dissociação entre o crisântemo e a espada que a autora faz. Para ela o soldado é algum tipo grosseiro que vive em uma trincheira, portanto há uma enorme distância entre este elemento desagradável mas necessário e o guerreiro japonês, capaz de terrível crueldade mas também preocupado com a poesia e outras expressões estéticas.

Ao mesmo tempo, ela própria é a pesquisadora, a aparentemente neutra cientista detentora do conhecimento e da técnica que pode colocar-se acima d qualquer critério, inclusive ético, para orientar a ação militar. Não há concepção de igualdade entre ela e o pobre soldado enlameado que luta nas ilhas do Pacífico e ela até permite-se certa justificativa romântica do tratamento cruel dos japoneses com os prisioneiros de guerra. Ao mesmo tempo que legitima a guerra em defesa de uma concepção de igualdade sente-se atraída pelas virtudes japonesas. Mereceia talvez um estudo antropológico a forma crescente pela qual o “país da igualdade” de direitos vem demonstrando crescente preocupação com as virtudes heróicas. O filme “O último samurai”, por sinal, é quase uma reatualização dos valores demonstrados por Benedict, ver os dosi demonstra o quanto uma determinada concepção evolui em meio século.

quarta-feira, 1 agosto, 2007 – 05:04

Educação, quantidade e qualidade

“Acima de tudo, precisarão de coisas que o dinheiro não poder comprar: idéias e coragem, determinação e disposição para auto-avaliação, reforçadas por um desejo de aventura e mudança” (Philip Coombs, A Crise Mundial da Educação)

Um dos meus maiores esforços pessoais ao escrever nestes últimos tempos é garantir a sinceridade do que escrevo, não me autocensurar pelo fato das coisas que escrevo agora passam em certo grau a serem compromissos maiores, quase um programa de governo. Nem sempre é fácil porque tendo a fazer propostas radicais – no sentido original do termo de atacar a raiz das questões – em um momento no qual as pessoas tendem à superficialidade.

Revolto-me com o gosto das pessoas pela quantidade. Acho que há certo aspecto infantil nestas soluções quantitativas. Para a criança é relevante ter dezenas de brinquedos, ou livros e revistas, ou roupas, que jamais usará, porque ela confunde a posse com o usufruto.

Também a maioria da população pensa de forma quantitativa, acha eu ter grandes prédios ou aumentar as verbas para isto ou aquilo será capaz de resolver o problema. Querem um grande prédio para uma escola, um hospital gigantesco, um enorme centro cultural – para só usar alguns exemplos concretos com os quais me deparei nos últimos meses – sem se importar se a escola realmente ensinará, se os postos de saúde locais não dariam um atendimento mais adequado ou se pequenos grupos ativos de cultura não teriam melhor efeito.

A imensa maioria dos homens públicos mima a criança-povo não só dando o que ela pensa que deseja, mas incentivando este desejo quantitativo. Às vezes por sem-vergonhice mesmo, porque grandes prédios significam cifrões na equação com as empreiteiras, mas às vezes pensam em construir o óbvio por pura falta de imaginação e criatividade mesmo.

Quando comecei na vida política a esquerda era, talvez, mais inteligente e menos esperta. Denunciava as “obras faraônicas” dos governos como sendo más respostas às reais necessidades da população. Por malandragem ou covardia este discurso sumiu, assim como o que criticava o assistencialismo, o clientelismo, o paternalismo, todos devidamente legitimados.

Revolta-me que a “grande idéia” corrente para educação seja construir prédios, dar merenda, uniforme e material escolar. Lamentável que o mesmo Anísio Teixeira que me dá alento para pensar a educação seja usado como álibi para esta preocupação estritamente material. É típico do nosso tempo que ao sentido múltiplo de “Educação Integral” seja dado só o se sentido material, mas não é de forma alguma inevitável.

Quando Philip Coombs – que foi da Unesco como Teixeira – escreveu em 1968 sobre a crise mundial da educação já antevia muitas dificuldades que seriam geradas pelo processo de universalização do ensino que corria pelo mundo. Uma das chaves das suas propostas era criatividade e outra avaliação permanente, ao lado disso falava de combater a inércia tanto interna como externa ao sistema, destacando que a relação entre escola e sociedade deveria ser dialética, ou seja a escola deveria não só atender às demandas da sociedade, mas ser capaz de contribuir para que estas demanda fossem as mais adequadas.

Julgo que um dos mais graves erros da esquerda em termos de educação foi menosprezar e desmantelar a educação técnica de qualidade. Há um grande esforço nos últimos anos para recuperar isto,mas só muito recentemente se pensa no assunto de uma forma mais adequada.

Mas a crise da educação é também sintoma da crise de autoridade generalizada. Resgatar o papel e a autoridade do mestre, que tanto descaso de um lado, teorias pretensamente alternativas” e desvalorização profissional de outro desgastaram.

O corporativismo, que é a espécie mais danosa da inércia interna, tem sido o grande elemento de reação a qualquer mudança. Em uma máquina do tamanho da educação estadual em São Paulo imagino que é uma força incapaz de ser enfrentada com eficiência. Certamente é uma pena, mas se houver meio de evitar que as boas experiências,as iniciativas pessoais e os esforços das pequenas minorias de mestres já se conseguirá muita cosia. Infelizmente a boa vontade, a dedicação e até a abnegação não tem como serem induzidos por políticas públicas, mas cabe esperar que ao menos elas não sejam punidas, o que já é grande coisa.

Avaliações, as temos aos montes, mas elas são hoje apenas números mortos, atestados de óbito da nossa educação e futuro. Resta esperar que sejam exumadas para servir de ferramenta às mudanças que são necessárias. Nem que seja para demonstrar o que não está funcionando e a inutilidade de merendas, uniformes e prédios.

terça-feira, 31 julho, 2007 – 05:07

Reflexões de aniversário

“Contra o que se sóe julgar, é a criatura de seleção, e não a massa, quem vive em essencial servidão. Não saboreia sua vida se não a faz consistir em serviço para algo transcendente. Porisso não considera a necessidade de servir como uma opressão. Quando esta, por azar lhe falta, sente desassossego e inventa novas normas, mais difíceis, mais exigentes, que o oprimam. Isto é a vida como disciplina – a vida nobre -. A nobreza define-se pela exigência, pelas obrigações, não pelos direitos.” (Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas)

Todos os que proclamam algum processo de elevação espiritual como algum tipo de processo mágico jamais poderão ser capazes d sentir a satisfação e o efeito das pequenas ações cotidianas que marcam a caminho longo deste processo e estão acessíveis a qualquer um capaz de um mínimo de disciplina. Falo isto para justificar este meu post de aniversário, afinal uma das ações que tem sido mais relevantes para a minha vida tem sido planejar minha ações a cada dia e fazer o balanço do que consigo ou não realizar e porque no final do dia.

Esta contabilidade da vida, seguindo os fluxos naturais de dia, semana, mês, ano, nos ajudam a assumir o controle da própria vida, a não ser apenas reativo ao que ocorre, mas tomar a frente de nosso destino. Ao mesmo tempo a avaliação constante nos ajuda a ver onde e porque falhamos – partindo do princípio, claro, que somos capazes de sermos sincero conosco, o que por si só é um desafio. Libertar-se da postura estéril de culpar-se para tomar a posição de avaliação do que precisa ser corrigido e melhorado é por si só um elemento de separação entre elite e massa, afinal nada mais simples que culpar-se, portanto se punir, ao invés de fazer o esforço para corrigir-se.

Penso que em poucos momentos da minha vida evolui tanto quanto neste período entre meus dois aniversários. Passei a compreender de fato, no coração, questões que compreendia só em tese. Libertei-me de boa parte das ambições e ao livrar-me delas, suponho, coloquei-me à altura de enfrentar desafios maiores. Penso que me libertei também de muitas fraquezas, como o desejo de agradar e a preocupação excessiva – diria quase “nipônica” lembrando-me do livro de Ruth Benedict “O Crisântemo e a espada”, que ando relendo – com a reputação. Ser capaz de livrar-me destas cadeias me deixou mais sincero comigo mesmo e com os outros, menos infenso a tentar temperar minhas opiniões e ações segundo a vontade alheia. Esta servidão à própria imagem não deixa de ser ao mesmo tempo uma escravidão e uma idolatria ao próprio ego, conclui.

Penso que estas reflexões tiveram um papel fundamental nesta imensa parte de mim que sempre foi a vocação política ter voltado a ser um território habitado. Foi preciso que eu a tivesse deixado de lado, como mera tarefa profissional – a ser cumprida da melhor forma como qualquer tarefa, mas sem paixão – tivesse resistido a todos os cantos de sereia do Coronel Kurtz, já tivesse optado por ser outra coisa, enfim tivesse me libertado desta paixão. Então as circunstâncias atropelaram minhas opções com novas e jamais pensadas oportunidades.

Ao mesmo tempo em que surgiram oportunidades já esquecidas, eram resgatadas pelas circunstâncias estes sonhos, tudo parecia ao mesmo tempo novo e inesperado e renascido do passado. Mas, por paradoxal que seja, e como se eu soubesse que seria assim, cada passo foi imaginado, previsto, construído. Não imagino que este processo pode ser descrito de forma adequada, mas achei uma descrição bem satisfatória revendo a série de entrevistas de Joseph Campbell – que tem o título de seu livro mais conhecido “O Poder do Mito” – quando o antropólogo fala de um momento em nossa vida que parece justificar nossa existência até então, que dá ordem a todo processo caótico que nos levou até aquele momento, como se toda nossa vida tivesse a finalidade de nos preparar para aquele momento.

A Márcia tem sido a grande parceira neste processo todo, juntos enfrentamos os momentos ruins e os bons momentos, as vitórias e conquistas. E sem dúvida ás vezes estes últimos são muito mais difíceis de serem enfrentados. Ainda mais quando as vitórias exigem um grau de dedicação ao trabalho e esforço muito acima da que seria exigida de um trabalho qualquer. A tranqüilidade que ela me dá para cumprir meu destino e mais do que extraordinária ou imaginável.

Curioso que jamais tenhamos discutido, nem nos bons nem nos melhores momentos destes meses todos. E esta ausência de discussão por menor que seja não é pelo motivo esperado, pela nossa capacidade mútua de dialogar sobre tudo, de conversar com calma, não se chegou jamais a um momento no qual esta disposição para o diálogo teve de ser sacada e utilizada. Bastou a empatia, a capacidade de sentir o outro e identificar-se com ele para que tudo fluísse com incrível calma e naturalidade – toda tensão colocada no lugar certo, no momento certo, aonde ela realmente é útil. Em outras palavras, há calma não pela frieza ou ausência de emoções ou excesso de racionalidade, há calma justamente porque se transcende tudo isto em um outro grau de via compartilhada. Nem estranho quando tantos comentam nossas semelhanças, até físicas.

Mas houve metas nas quais fracassei e falhas. A principal delas foi, na minha avaliação, não ser capaz ainda de atingir aquela superação da raiva e do ódio, até da vingança. Sei que o bom guerreiro é capaz de lutar sem nenhuma paixão, sem ódio àquele que enfrenta. Aliás nenhuma religião tradicional elimina a luta, o conflito, mesmo o extremamente pacífico Jesus que prega santidade diz que não veio trazer a paz, mas a espada. Todas as fés nos ensinam a lutar contra o mal, a começar pelo mal dentro de nós. Mas toda exigem a disciplina de não lutar com ódio ou medo, porque neste caso estaríamos de fato lutando nas fileiras contrárias.

A satisfação toda que senti, por exemplo, com a queda e humilhação de pessoas que me perseguiram, por exemplo, não pode ser um sentimento positivo. Eu ter expressado claramente minha satisfação e até participado de algumas correntes de comentários e boatos foi algo que fez com que depois eu me sentisse fraco e indigno do papel que imagino para mim. Certamente não devia ter sido hipócrita somando-me a muitos que aparentavam um pesar que não tinham, mas também não deveria ter me somado aos que festejavam cada notícia envolvendo o nome do perseguidor em um escândalo.

Deveria, antes, ter me considerado contemplado e protegido por ter sido afastado de um lugar onde os relâmpagos da desonram caíram muitas vezes. Eu mesmo sempre havia dito a vários amigos, em especial à Renilde, que Deus havia sempre me concedido servir apenas a pessoas sérias e jamais ter sido confronto com algum dilema ético. No nível racional compreendi que todos os dissabores que passei tinham uma finalidade maior, mas creio que no coração a lição não foi totalmente absorvida.

Ao mesmo tempo cheguei a um grupo político no qual este tipo de compreensão é absolutamente essencial. Grupo perseguido, humilhado, traído, atacado duramente pelos últimos quinze anos, só será capaz de obter a vitória na medida em que se liberte dos ódios e ressentimentos. Também tem o grande mérito de ser um grupo que passou por todos os filtros que a vitória e ainda mais a derrota podem oferecer, aqueles que sobraram resistiam a todas as tentativas de cooptação, não sucumbiram ao desânimo, não abriram mãos de ideais e só fizeram crescer a vontade de fazer diferente e criar o novo. É ao mesmo tempo um orgulho fazer parte não só do grupo como de seu núcleo formulador, assim como é enorme desafio a mim mesmo estar á altura da tarefa. Mas para isto terei de ser capaz de enfrentar minhas fraquezas e ser bem sucedido onde falhei.

Por fim em meio a tantos aspectos positivos e grandes vitórias a vaidade, que andava há anos sob controle, vai achando espaço para ressurgir e eu penso que tenho falhado muito além do aceitável em controlá-la. Vaidade baseada às vezes no medo, às vezes no sentimento de vingança, enfim, naqueles sentimentos inferiores. Reconhecer estas fraquezas me ajuda também a ser mais tolerante, outro problema com o qual tenho lidado mal, afinal se eu que deveria ter uma consciência muito maior da importância da autodisciplina falho com tanta freqüência como posso cobrar melhor desempenho de outros.

segunda-feira, 30 julho, 2007 – 12:38

A memória do herói

Agrada-me certa noção presente em algumas tradições segundo a qual a meta de nossa existência seria acrescentar certo tipo de “memória emotiva” à divindade, através a qual Ele pudesse enxergar-se. Em tal concepção o maior pecado seria ser chato, ter uma vida convencional da qual se é apenas sujeito passivo, portanto falhando do intuito fundamental da existência que seria o de acrescentar alguma vivência rica à unidade.

Se há alguma dimensão religiosa do herói ela certamente estaria contida em uma mentalidade como essa. Nas culturas mais antigas a imortalidade era privilégio justamente dos que tinham dado à vida uma dimensão heróica – só os que haviam conquistado a glória podiam habitar a ilha dos bem aventurados no qual a Idade de Ouro não tinha cessado, aos demais estava reservada a eternidade como sombra fugidia no Reino de Hades.

Com o tempo estas noções de imortalidade foram se modernizando e democratizando, perdendo a sua essência. Há pouco ainda existiam aqueles que pretendiam ser possível comprar a salvação, portanto a eternidade.

Também a noção heróica perverteu-se, lá na idade média Ibn Khaldun dizia que as reputações eram fraco indicador da qualidade dos guerreiros, generais e príncipes porque só aquele que não tinha apego a estes tipos de vaidade poderiam ter esta dimensão heróica, logo aqueles que contratavam poetas, músicos e bajuladores para saudar seus méritos é justamente porque não os tinham. Na modernidade, com os recursos da publicidade criam-se falsos heróis a todo instante e ninguém liga muito para as ações heróicas, quando muito ligam por um instante e depois se esquecem.

Quem se incomode com isto nada tem desta dimensão heróica, porque sua meta não é o reconhecimento, mas o engrandecimento de si próprio, o ter algo de interessante a contar quando retornar á unidade.

Mas, enfim, o que seria um herói!

Penso que é uma pergunta que não pode ser respondida, nem precisa. As mitologias diversas oferecem inúmeros modelos, mas o modelo fundamental, penso eu, subsiste dentro de cada um. Ao menos potencialmente cada ser humano pode atingir alguma dimensão heróica.

A grande dificuldade, contudo, é liderar a si mesmo, vencer-se, submeter à alma animal à essência divina – afinal de que outra coisa as religiões e as mitologias falam senão desta batalha fundamental – sem o que se é um escravo do nosso eu inferior. Sem esta vitória – que não é um processo mágico, mas luta diária, não haverá herói de fato. Até por isto todos os que se jactam de seu heroísmo acabam por demonstrar a falta dele, motivo pelo qual toda definição de heroísmo já começa falsa.

Há quem diga que o tempo dos heróis já passou. Não estou certo disto, pelo contrário penso que em nenhum outro momento eles foram tão necessários e tão difíceis de serem produzidos.

Vivemos nestes dias sombrios nos quais não só a questão do heroísmo não está colocada em pauta, mas mesmo falar em superar-se é fora de moda. Perdemos a noção do eterno porque valorizamos o rápido, o urgente; perdemos o sentido do esforço porque o mérito está em obter as coisas sem esforço; perdemos a noção da disciplina porque o que tem valor é não submeter-se a nada, a ser escravo do nosso ego. Ao mesmo tempo nos sentimos pequenos demais para ser heróicos, tudo é complexo, difícil, impossível.

Há também muita confusão entre submeter-se às disciplinas externas e submeter-se à própria disciplina; entre transcender o juízo dos outros, as convenções sociais – o que só pode ser feito por aquele que se libertou do desejo de agradar – com não estar sujeito a regra nenhuma e a nenhum princípio. Por mais que algumas destas coisas pareçam semelhantes – e há nos homens-massa muito esforço em confundi-las mesmo – elas não só são distintas como contrárias. Saber bem a diferença, penso, já é tarefa heróica.

Se a nossa meta fosse ser este caquinho de espelho do Altíssimo penso que poucas ações poderiam ser tão esclarecedoras do que a reflexão sobre como este valor transcendente nos guia, já que para isto seria preciso vasculhar nosso eu mais elevado em busca das pistas que Ele tivesse deixado

sábado, 28 julho, 2007 – 05:03

O djinn me fala sobre liberdade e escravidão

Quem passou esta semana para visitar-me foi aquele djinn que por algum tempo foi meu escravo, encarregado de redigir boa parte de meus textos. Veio de livre e espontânea vontade, com um bronzeado de quem está aproveitando as férias após milênios de escravidão e certo ar de sarcasmo de sempre.

Fiquei com a impressão de que só perguntou o que eu andava fazendo por educação, porque parece muito bem informado sobre meus afazeres atuais, não teve dificuldade nenhuma em encontrar minha nova sala 5 andares acima da anterior e ainda estava afiado para debater minhas ações atuais.

Depois das formalidades de praxe, e como muçulmano o djinn alongou-se nas fórmulas, ele foi direto ao foco:

– Tem certeza que tudo que anda fazendo é realmente pelo que acredita, não está mais preocupado às vezes com as três moedas de ouro, glória e vaidade!

Acho que só dele, da Márcia e de alguns poucos amigos muito próximos toleraria uma pergunta tão direta em um tom tão acusativo.

É verdade, às vezes me pego em devaneios de poder, em sonhos de glória, às vezes o que era para ser meio torna-se fim em minhas preocupações. Mas não dou o braço a torcer.

– Há oportunidades que surgem raramente na nossa vida, tenho de aproveitá-las e estar preparado para elas – eu disse, sem estar totalmente convencido das minhas palavras.

– Sei, está procurando os atalhos, né – disse ele com uma gargalhada, demonstrando que sabia bem o sentido que dou à palavra.

Dei um riso amarelo e ameacei protestar, ele não me deixou falar e seguiu:

– A vida de vocês humanos é tão curta e frágil que acho que é inevitável que pensem assim, é uma pena, caso contrário poderiam fazer grandes coisas.

– Mas eu nunca desejei outra coisa senão fazer grandes cosias, é por isto que trabalho feito louco aqui. Por isto deixei a tranqüilidade dos devaneios, porque surgiu a oportunidade de agir concretamente.

Balançando a cabeça ele retrucou:

– É melhor parar de tentar se justificar, estas suas últimas frases são indignas de você.

– Como assim, disse eu baixando a guarda.

– Se vai um dia fazer algo grandioso vai ser por causa destes devaneios, só por causa deles, se sua ação concreta não for ao mesmo sentido do devaneio logo se sentirá escravo de novo.

– Mas a disciplina…

– Se a disciplina for inspirada pelas cosias que acredita, então é a disciplina do homem livre, caso contrário é apenas a submissão de escravo.E olha que de escravidão eu entendo!

– Para quem vive em liberdade há tão pouco tempo está pretendendo entender muito do assunto.

– Ninguém sabe tanto sobre a liberdade quanto o escravo, caso não saiba, porque passei séculos pensando sobre ela. É possível aprender virtude mesmo do pior pecador se conseguimos vê-lo como um professor, também é possível aprender sobre a liberdade com o mais submisso dos escravos.

– Em certo sentido somos todos escravos de algo. Ponderei.

– Não, só somos escravos de nós mesmos, esta é a única escravidão. Só nos submetemos a algo porque nosso ego tem algum desejo, é o medo da morte, o medo de perder a vida, que impede que o escravo se revolte e por isto ele se conforma com a escravidão.

– Mas não sou um escravo, pelo contrário, jamais estive em uma posição na qual pudesse fazer tantas coisas.

– E está nesta posição porque demonstrou sua liberdade e sua auto-disciplina, sua autoridade, então tenha sempre isto em mente. Lutou até agora pelo que acreditava, não por esta ou aquela fração de poder, continue assim, é só isto que vim dizer.

– E não é isto que venho fazendo, ora essa!

– Não, sabe que nem sempre. Quanto tempo anda perdendo pensado no poder, só no poder, não nas cosias que precisa fazer para merecê-lo. Para não falar das pequenas satisfações e vingancinhas. Tudo isto é indigno de você, meu amigo. São atitudes de um escravo da ira e da cobiça.

– Como você disse lá atrás, sou humano.

– Não é motivo para conformar-se com isto, se entregar às fraquezas.

Falou isto e sumiu como costuma fazer, me deixando a sós com tantas indagações.

sexta-feira, 27 julho, 2007 – 05:09

O resgate do poder da palavra

“Não há criação estatal se a mente de certos povos não é capaz de abandonar a estrutura tradicional de uma forma de convivência e, ademais, de imaginar outra nunca existida (…)O Estado começa por ser uma obra de imaginação absoluta. A imaginação é o poder libertador que um homem tem. Um povo é capaz de organizar um Estado na medida da sua imaginação” (Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas).

A crise institucional do país aparece de forma clara, evidente por si mesma e atinge em especial aos parlamentos. É preciso enfrentar a questão de frente e ir para além da simples discussão técnica sobre reforma política, emendas e remendos na legislação. A despeito de ser possível enfrentar alguns aspectos específicos desta crise através de mudanças na legislação, em particular nos sistemas eleitorais, a raiz mesmo da questão parece estar mais ligada a outros elementos que, se não forem pensados, tornarão mesmo a mais radical reforma política inócua.

A falácia segundo a qual todas as vicissitudes e idiossincrasias do nosso sistema político serão extintas por algum conjunto de leis de uma reforma política – a qual por sinal já virou “palavra mágica” descrevendo propostas tão diversas a ponto de perder o valor como conceito e até como slogan – ignora o elemento essencial de todo processo. O que nos falta não são leis, mas de um lado uma cultura cívica, um conceito ativo de cidadania de um lado e de outro o hábito de debater e defender as idéias.

Somos, como povo e como dirigentes, talvez até criativos demais no acessório, mas padecemos de uma falta de originalidade fundadora. Foi legado ao Brasil uma estrutura política vinda de outros climas e realidades – Monteiro lobato dizia que era uma “rosa artificial” – e a este modelo inadequado, quase caricato – como por exemplo as eleições a bico de pena na República Velha ou os senadores biônicos no Regime Militar – foram sendo incorporados casuísmos diversos – a sub-representação dos estados mais populosos, por exemplo – que desfiguraram a questão ainda mais.

Uma das primeiras vítimas deste processo foi o debate político propriamente dito. Destacando que corrente política nenhuma parece estar livre desta tendência, o exercício da palavra, do esforço de persuasão, de convencimento por argumentos, apequena-se a cada ano. Até como efeito disto não se consegue discutir a questão com a seriedade que ela merece porque a todo instante apenas se pensa nas questões efêmeras e pequenas. Discute-se a todo momento tendo em vista apenas as configurações de poder, pensando-se em como obter uma vantagem tática, mas não se discute a questão estrutural.

Assim como a criança que nasce com dificuldades de audição tende a ter problemas de audição, porque não consegue ouvir aos outros e a si mesmo, também a falta do exercício de parlamentar acaba por prejudicar a capacidade de audição da sociedade política.

Tornam-se cada vez mais raros momentos como aqueles no qual com um discurso Mario Covas convencia a Câmara dos Deputados a não votar a autorização para processar Marcio Moreira Alves – em 68 – ou conquistava a luz de propostas a liderança da bancada do PMDB na Constituinte em 87. Surdos aos argumentos alheios e sabendo que os adversários são igualmente surdos aos seus, o Parlamento vai perdendo sua capacidade de falar, o discurso perde sua qualidade fundamental de tentar persuadir.

Deixa então de haver, de fato, o embate de idéias na tentativa de convencer ou produzir um consenso que seja a síntese de visões distintas. Chega-se não ao verdadeiro consenso, busca da razão, mas apenas a frágeis e circunstanciais equilíbrios de poder, quase sempre orientados em função de elementos externos ao jogo parlamentar.

A crise moral, os sucessivos escândalos, também estão diretamente relacionados a este processo. Pois como a palavra vale pouco ou nada, então o que vale a pena é buscar algum nicho corporativo, transformar o voto em moeda ou, no melhor dos casos, utilizar o mandato como peça de alguma máquina política. A própria generalização formulada pelo eleitor médio – que não distingue entre o parlamentar preocupado em construir um mandato sério, o “mercador de ilusões” ou o “balconista de grandes e pequenos negócios” – torna-se parte integrante de todo o fluxo descendente da política porque a vítima preferencial desta indiferenciação é justamente o bom parlamentar, já que o eleitor dos “picaretas” vota segundo outras motivações.

A crise política não será resolvida por truques de marketing – aliás é até bom lembrar que parte do escândalo do mensalão se deu em torno do superfaturamento e desvio de verbas de uma campanha para melhorar a imagem da Câmara dos Deputados. Se não por outros motivos porque a linguagem do marketing e da publicidade é um monólogo e o que precisamos é de diálogo. Um diálogo criador que nos permita de novo termos imaginação para pensar o novo.

quinta-feira, 26 julho, 2007 – 05:09

Dilemas da escola

Um dos assuntos sobre os quais mais tenho pensado, discutido e escrito profissionalmente é Educação. Não é um desafio fácil, ainda mais na situação em que me encontro hoje. Ainda que jamais tenha sido – intencionalmente pelo menos – irresponsável em escrever sobre o que não é plausível, hoje em dia estas minhas palavras tem responsabilidade adicional porque em certa medida implicam uma intenção de se colocar em prática, em médio prazo, tudo aquilo que é escrito.

A pressão acontece porque poucas questões se tornaram tão complexas quanto a educação. Em meio a pirotécnica de governos preocupados em dizer que fazem algo e corporativismo de entidades ligadas a educação mas em geral tendo o contracheque como preocupação principal há uma enorme preocupação de todos em fazer algo. O problema é que ninguém sabe exatamente o que precisa ser feito.

Um dos assuntos sobre os quais mais tenho pensado, discutido e escrito profissionalmente é Educação. Não é um desafio fácil, ainda mais na situação em que me encontro hoje. Ainda que jamais tenha sido – intencionalmente pelo menos – irresponsável em escrever sobre o que não é plausível, hoje em dia estas minhas palavras tem responsabilidade adicional porque em certa medida implicam uma intenção de se colocar em prática, em médio prazo, tudo aquilo que é escrito.

A pressão acontece porque poucas questões se tornaram tão complexas quanto a educação. Em meio a pirotécnica de governos preocupados em dizer que fazem algo e corporativismo de entidades ligadas a educação mas em geral tendo o contracheque como preocupação principal há uma enorme preocupação de todos em fazer algo. O problema é que ninguém sabe exatamente o que precisa ser feito.

Talvez decepcione aqueles que imaginam que todos os problemas do Brasil são produto das nossas mazelas nacionais, mas a crise da educação é internacional. Com certeza nossos problemas são agravados por falta de prioridade, visão e honestidade, pela imensa dimensão as tarefas educacionais inclusive causadas por decisões corretas – caso da universalização do ensino.

Mas mesmo fortificada pelas circunstâncias nacionais, a crise da educação é uma crise mundial e este elemento é um aspecto importante a se considerar, inclusive porque um dos eixos desta crise global é o corporativismo.

Um dos elementos que agravam meu conflito interno escrevendo sobre educação é o fato de jamais ter tido uma opinião muito positiva sobre ela. Como Herman Hesse sempre achei que o futuro é construído por aqueles que fogem da escola. Sempre achei que a cultura tem um poder transformador muito maior, mais efetivo e de melhor qualidade que a educação, quase sempre destinada apenas a reproduzir valores e saberes. Cito sempre a frase de Borges, na qual ele diz que uma biblioteca o educou muito mais que as escolas.

Como me agradam os paradoxos, diria que um dos motivos da crise da educação é justamente um dos resultados da crise da autoridade. Esta crise da autoridade, inspirada pela erosão geral de toda autoridade, fomentada por metodologias pretensamente experimentais e revolucionárias de ensino segundo as quais o professor não deve ensinar, amplificada pela dissolução dos laços familiares e desaparecimento a figura paterna que nos treina em lidar com a autoridade, enfim, de inúmeros elementos que retiram do processo educacional o seu centro, que deveria ser a figura do mestre.

Huxley destaca o papel da rígida formação escolar oferecida pelos jesuítas – em particular em Os demônios de Loudon, onde dedica a abertura do livro a esta questão – como central na história de vários personagens fictícios ou históricos – incluindo o rebelde e anti-clerical Voltaire.

Sair deste paradoxo não deixa de ser um exercício interessante. Chega a ser tentadora a solução fácil, segundo a qual há dois tipos de pessoas, aquelas que precisam da escola e aquelas para as quais ela é não só desnecessária mas prejudicial. Aos primeiros estaria destinado o papel de subalternos aos quais o aprendizado do conhecimento reproduzido nas escolas seria importante, às segundas, em muito menor número, as escolas seriam um entrave à livre expressão e uma amarra ao conhecimento.

Mas me causa repulsa esta solução fácil, a qual implica em negar a identidade fundamental dos seres humanos e a minha profunda crença de que todos podem desenvolver todo o seu potencial.

Mesmo admitindo-se a existência de homens-massa e homens-de-excelência, como quer Ortega Y Gasset, ainda assim é preciso verificar que ambos se beneficiam com a disciplina. Não é à toa que a imensa maioria dos grupos tradicionais tem uma imensa parte de seu processo de formação voltado a destacar a importância da disciplina. Nenhum buscador sincero jamais chegará a lugar algum enquanto não descobrir a importância da disciplina e do respeito à autoridade, mesmo que por conta de outras circunstâncias haverá o momento de romper com elas.

É a Ortega y Gasset que recorro para tentar compreender a importância da disciplina e da autoridade de um lado e entender as causas da crise da educação. Para o homem-massa toda disciplina, qualquer cosia que coloque limites a satisfação dos seus desejos é deplorável. Portanto é natural que ele busque o conhecimento pelos meios fáceis, porque qualquer esforço é para ele intolerável, assim como toda autoridade é insuportável, salvo quando coagido a obedecê-la.

Para agravar o paradoxo, é preciso reconhecer que os métodos considerados antiquados e autoritários de ensino geraram muito maiores intelectuais, escritores, pensadores e até educadores do que todas as modernas teorias, às quais tem levado o nível médio de conhecimento a graus muito baixos, salvo – talvez – quando se trata do conhecimento altamente especializado (o qual é também uma abdicação de esforçar-se em qualquer outro campo do conhecimento salvo aquele que se deseja).

Imaginando, então, que a autoridade do mestre é um aspecto importante na educação se chega a certo beco sem saída, porque autoridade não é algo que possa ser dada, ainda que em certas circunstâncias possa ser ensinada, desde que o aluno a deseje e se esforce para aprender, sobretudo, a auto-disciplina (porque ninguém terá autoridade sobre outro se não tiver em primeiro lugar sobre si mesmo).

Por mais que avalie que a questão a valorização do professor não é uma questão salarial e veja com antipatia a preocupação corporativa não posso deixar de concluir que não haverá saída da crise da educação sem esta recuperação dos salários dos professores. Um mau professor não ensinará melhor se ganhar mais, claro, mas havendo melhores salários jovens de talento, de excelência, voltarão a se interessar pela carreira e com o tempo ocuparão o espaço dos maus profissionais.

Hoje isto só acontece no caso extremamente excepcional de alguém cujo grau de abnegação seja tão grande, a vocação de professor seja tal, que mesmo em circunstâncias extremamente adversas resolva seguir a carreira do magistério. Toda a estrutura educacional conspira contra este infeliz sacerdote do conhecimento, voltada para reforçar e premiar a mediocridade – às vezes até o descaso. Mudar isto é um dos grandes desafios de quem deseja provocar a revolução da educação que se precisa.

Uma questão relacionada a esta demonstra que há esperanças e meios. Por mais que se fale na recuperação do status social do professor, estou absolutamente certo que junto à população, no imaginal e mesmo no imaginário da sociedade, o mestre jamais chegou a perder a autoridade social que teve em outros momentos. Salvo, talvez, para certos segmentos de jovens que idolatram o traficante, o jogador de futebol, a celebridade e outros personagens que se antepõem como modelo ao que detém o conhecimento – na maior parte da sociedade o respeito ao papel do professor permanece resguardado, mesmo quando os que o detém não correspondem às expectativas.

Esta minha hipótese é passível de comprovação, basta chegar a qualquer ambiente e discutir a questão e verá que a despeito de tudo o professor goza de consideração. A perda de status é apenas financeira e mesmo vivendo em uma sociedade na qual as pessoas são medidas pelo valor quantitativo das suas posses, ainda assim, o professor goza de respeito.

Curiosamente o desrespeito vem muitas vezes do Estado, que devia representar os valores que a população tem. Ao contrário do que é dito existe muita verba para a educação. A questão não é quantitativa, mas qualitativa: se gasta mal. E se gasta mal em grande parte porque o professor é pouco considerado neste processo.

A última moda nas soluções pirotécnicas de governos para demonstrarem sua preocupação com a educação é a distribuição de uniforme e material escolar, ao lado das já reincidentes grandes estruturas. A população acaba sendo iludida ou subornada por estas iniciativas, mas mesmo estes segmentos podem ser convencidos com facilidade de que nada disto tem a ver com a educação que precisamos.

Por fim acho que há outro elemento nesta crise que precisa ser enfrentado pelo conjunto da sociedade, porque é um elemento cultural. A escola tinha mais valor quando se imagina que o acesso à educação permitiria alguma ascensão social, o chamado capital humano. É em grande parte neste sentido que o traficante e o jogador de futebol são antíteses do professor porque demonstram a inutilidade financeira da educação.

Em plena era da informação, na qual o conhecimento é matéria prima fundamental, não se convence a sociedade a sonhar que a escola pode representar uma estratégia de evolução pessoal no único valor que sobrevive – que é o financeiro. Certamente há algo de muito errado em todas as estratégias, mesmo aquelas que não são baseadas em ideais mais elevados.

quarta-feira, 25 julho, 2007 – 05:00

Democracia e aristocracias

Não consigo chegar a nenhum acordo comigo mesmo sobre a democracia. De um lado sinto a democracia real como algo que caminha para o grotesco, impele o ser humano para os mais baixos degraus da vida social, estimula a mediocridade e a corrupção, entrega o poder a pessoas que nenhuma autoridade tem para exercê-lo. De um outro lado a vejo como um ideal sublime, única forma de governo capaz de realmente fazer jus à condição humana e a única na qual é possível evitar a degradação.

Não, a questão não está em distinguir a democracia ideal e a real. Esta seria uma distinção simplista e, ademais, há pontos questionáveis na democracia ideal tanto quanto há aspectos elevados na democracia real.

Para os filósofos gregos a democracia era condenável como princípio, não só pela sua rápida degradação em domínio dos demagogos como pela sua idéia central do governo pertencer ao povo e não aos dotados de qualidades especiais e autoridade. Contudo é fundamental dizer que eles próprios não foram capazes de imaginar um sistema melhor, nem mesmo em termos de modelo idealizado.

(Mesmo a rígida República de Platão fundamenta-se em trapaças e truques sustentando a impossibilidade de uma ética absoluta ao dar os guardiães o direito de trapacear para garantir a estabilidade do sistema.)

Descartando em absoluto todo sistema autoritário, em geral baseado apenas em argumentos levantados de última hora para tentar dar aparência de legitimidade a algum déspota, o pouco que sobra de teorias não-democráticas que conservam algum fundo de autoridade está baseado em algum critério aristocrático que em certas circunstâncias pode ser justificado.

Parece razoável imaginar que tarefa tão importante quanto o governo de uma nação seja entregue a pessoas preparadas para isto, capazes de diagnosticar problemas e apontar soluções, que dediquem suas vidas a servir o bem público. Esta é a base fundamental de qualquer argumento não-democrático que mereça ser levado em consideração.

As vertentes não-democráticas – note que não uso o termo antidemocráticas – usam variantes deste argumento, talvez nem sempre expresso com tanta clareza e sem disfarces, mas ainda assim contendo a mesma essência. É o argumento dos tecnocratas, que imaginam que a crescente complexidade das tarefas administrativas exige um homem público preparado, um burocrata profissional ou um técnico com grande formação. Note-se que este argumento disfarça-se quando se diz que esta burocracia tecnocrática serve a um governante eleito, ao qual caberia dar as linhas gerais da política a ser seguida.

O eixo central de toda a minha fé democrática é que aristocracia – literalmente governo dos melhores – alguma foi capaz de propor método satisfatório de seleção de quais seriam “os melhores”, detentores portanto do direito de governar. Até é possível argumentar com razoável eficiência em defesa da tese central aristocrática – no sentido exato do termo, claro, não daquela expressão política conservadora que ele passou a ter.

Quase ninguém poderia confrontar a idéia de que o poder deveria ser exercido pro aqueles que tem a dedicação e o preparo para exercê-lo da melhor forma possível. O problema é a incapacidade absoluta de formular um meio eficiente para esta seleção.

As “aristocracias” – no sentido distorcido do termo – do antigo regime não só dão farta demonstração da ineficiência do critério hereditário como, no entendimento de Ortega y Gasset, são responsáveis pela desmoralização do termo nobreza. E isto mesmo quando ao nascimento soma-se o ensino e o treinamento, demonstrando que mesmo em condições ideais de vida com o acesso a todas as oportunidades possíveis não há como garantir que uma pessoa tenha a autoridade necessária a quem governa.

É justamente onde as noções não-democráticas fraquejam que a democracia tem seu pilar fundamental de sustentação. Só nela é possível imaginar um critério de seleção perfeitamente justo e capaz de aprimorar-s com o tempo e corrigir enganos. Em última instância um mau governo é também desejo do povo, enfim a democracia seria um sistema que se aprimora inclusive pelos erros.

A concepção paternalista de todo pensamento não-democrático é o de que o povo é sujeito a erros freqüentes, é como uma criança que deve ser protegida das conseqüências de suas ações. Qualquer pai razoável sabe que esta concepção é problemática, impede o amadurecimento, tanto das crianças como dos povos.

Analisando assim as duas grandes vertentes do pensamento não-democrático – a necessidade dos que governam serem os mais preparados e os que levantam os perigos da escolha democrática – chego a conclusão que por mais justos que possam ser os argumentos eles são ineficazes e até prejudiciais na proposição de soluções.

A própria democracia em si parece a mim ser muito mais eficaz no sentido de resolver os dois problemas, de um lado porque não é impossível supor que podendo escolher o povo um dia aprenda a escolher os que são melhores, desde que tenha informação, independência e formação adequada para isto. E que as próprias escolhas erradas são parte deste processo de aprendizado. No máximo penso que é necessário restringir as possibilidades de escolhas frontalmente autoritárias, que visem tirar a nação do universo democrático, porque neste caso a retomada da democracia poderia obrigar ao apelo a métodos não políticos da força, da rebelião.

Todo o raciocínio seria muito mais bonito não fosse as evidências concretas de degradação e fracasso progressivo a democracia. Convivendo no meio político todo o dia sinto esta degradação de forma muito clara. A começar pelo movimento popular, no qual é crescente o número de pretensas lideranças ansiosas pro vender o apoio ou trocá-lo por benefício pessoal, tanto como na própria sociedade o número de pessoas dispostas a transformar seus direitos em objeto de barganha é crescente.

Diria que o número de pessoas que leva a política a sério é declinante. Há os demagogos prontos a conduzir as massas a demandas inviáveis que nem eles mesmo no poder teriam intenções ou condições de atender, há mobilizações feitas por motivos vis, há absoluta falta de responsabilidade e seriedade. Sem discutir quem veio primeiro, diria que todo este ambiente corrompido, pantanosos, incentiva os escândalos que estão no noticiário, afinal em um mundo no qual as idéias e as palavras valem tão pouco mesmo muita gente séria que deseja sobreviver na política tem de buscar acumular o único bem desejado: grana.

É em um momento de degradação absoluta como este que se torna ainda mais necessário ter aquele tipo de dedicação e abnegação que fundamenta as verdadeiras nobrezas, quando se tem de dizer que há custos éticos que não podem ser pagos para chegar ao poder, só assim se preserva a autoridade necessária para que o poder seja exercido da forma como deve.

Em outras palavras, parece-me que o tipo de “elite” que a democracia requer para funcionar bem é de um molde muito mais avançado do que as elites aristocráticas, porque não só precisam de toda a autoridade, concimento, preparo, coragem que as “elites” tradicionais, mas também precisam da abnegação e determinação para lutarem para chegar ao poder de um lado convencendo as massas e de outro a disciplina moral de rejeitar toos os atalhos deste caminho. Estas pessoas, são poucas mais existem, estão muito acima do nível moral de qualquer outra aristocracia que já tenha exercido o poder, mas acima até das elites ideais como os guardiães da República de Platão, que precisavam de expedientes para governar.

terça-feira, 24 julho, 2007 – 05:13

Filhos do Sol, filhos da terra

A terra desempenha em inúmeras crenças – para não falar da imagem no senso comum – um papel gerador. Já houve mesmo teorias científicas e econômicas sobre o papel da terra. Assim como não nos damos conta que na realidade o sol não nasce e se põe todos os dias – a despeito destas imagens estarem fortemente enraizadas na nossa linguagem diária – também o papel da terra na geração e manutenção da vida é ínfimo.

A terra não é muito mais do que simples suporte. A energia para a vida vem do Sol, a matéria que a compõe vem do ar e da água, da terra se utiliza uma pequena porção de componentes em geral complementares. A ciência já comprovou isto há mais de um século, mas continuamos a dar à terra este papel gerador.

Penso no sentido simbólico desta realidade – porque a característica de todo processo natural é ter também um sentido simbólico porque todos os processos, no final, são um só.

É curioso que a terra é símbolo do que é estável, permanente, sólido. Também a vemos como símbolo materno. Na mitologia islâmica a diferença entre os seres humanos e os djins é que somos feitos de água e terra enquanto os djins são feitos de ar e fogo.

Mas grosso modo, tanto do ponto de vista científico como mitológico somos como os djins, feitos de ar e fogo. Cada átomo de carbono que está em nossos corpos um dia esteve no ar, cada joule de energia que os mantém unidos um dia chegou á terra na forma de raios solares.

Penso também em outras analogias possíveis para esta constatação. Por exemplo que mesmo nos julgando filhos da terra, somos na verdade filhos do sol, da luz, mesmo quando esta realidade é mascarada pelas aparências. Da terra temos o suporte, uma pequena fração de nossos componentes – lembro aquela pequena parcela de não-divindade que foi necessária misturar-se ao Todo para gerar o cosmo.

Toda interpretação literal – como a que costuma ser feita pelos que ignoram os símbolos – tende ao disparate. Penso nos grupos extremistas que afirmam viver de luz, de uma forma ou de outra todos vivem de luz porque é a energia solar que sustenta a maior parte da vida do planeta.

É a transformação da energia solar em energia química que permite o crescimento das plantas, portanto dos animais que se alimentam delas e dos animais que se alimentam dos que se alimentam de plantas ou de outros animais. Salvo parte das fontes artificiais – energia hidrelétrica e nuclear – e uma ínfima proporção de fontes naturais de energia química no fundo dos oceanos toda a energia que circula no planeta vem da luz do sol.

Penso na beleza desta constatação de que não somos seres da terra, somos apenas a materialização de uma luz superior que nos infunde a energia necessári para sobreviver.

segunda-feira, 23 julho, 2007 – 14:11

Eterno e etéreo

“O político pensa apenas em minutos. Sou escritor e penso em eternidades. Eu penso na ressurreição do homem” (Guimarães Rosa, citado no artigo Sobre política e jardinagem, Folha de São Paulo, 19/5/200 de Rubem Alves)

Continuo preocupado com a “poesia da política”. O foco da minha meditação diária, daquele pequeno espaço no qual me esforço para estar conectado ao sagrado e desligado das urgências, tem sido fugir das armadilhas da realidade e reunir forças para não se render a algum pragmatismo. Houve tempos no qual eu achava que o pragmatismo era um passo essencial para encher de carne o esqueleto da utopia.

Hoje acho que já temos pragmatismo demais. O desafio hoje é continuar sonhando. Curioso que em nenhum outro momento da minha vida tive o poder individual de fazer as coisas. Há tantas coisas agora que dependem mais de mim do que de qualquer outra pessoa. Sem o esforço de visualisar os sonhos de olhos abertos eu imagino que seria fácil se perder por estes labirintos nos quais a modernidade anda.

Só tenho pedido a Deus ser capaz de manter o foco e sonhar. Paradoxal que como pessoa que decide foque o sonho enquanto como conselheiro sempre me esforcei em ser realista e quase pragmático. Parece-me o sinal de estar em um caminho reto, salvo se a autocrítica já tenha ido para o espaço e eu não tenha me dado conta. Li em algum lugar que não há coisa mais difícil que salvar um povo que não quer ser salvo.

Não concordo, mas reconheço quanto há de obstáculos em todos os caminhos. Estamos nos afundando em um pantanal. Afundando todos juntos, porque mesmo aqueles que apontam enorme indignação com os rumos das cosias, em especial da política, não tem nojo, mas inveja. Indignam-se não por aquelas coisas ocorrerem, mas porque não estão incluídos nelas. E neste todos reúno boa parte, a imensa maioria, do povo.

Muitos dos sonhos e projetos desabam porque as lideranças políticas – da rua à nação – estão preocupados em sobreviver e a corrupção começa quando um político é pesado a partir do dinheiro que dá a esta ou aquela entidade ou liderança. Não temos democracia, apenas um imenso mercado das consciências. Para ter créditos para adquirir produtos neste mercado adianta pouco ter boas idéias, fazer projetos interessantes e discursos significativos. É preciso apenas ter dinheiro.

O poder da palavra, a persuasão, no máximo garante uma boa barganha, mas não a vitória. Como mais vale o dinheiro que a palavra, então o que passa a valer é a capacidade de transformar palavra em dinheiro.

Alquimistas ao contrário, transformando o que é nobre em vil!

Estes têm o futuro quase garantido, mesmo se pegos com a mão na massa poderão ser anistiados pela inconsciência coletiva e voltarão consagrados na eleição seguinte. Mas não sou um homem sem esperanças – não tenho talvez aquela esperança dúbia como a que ficou pres ao gargalo do jarro de Pandora – mas tenho a esperança de que ainda é possível construir o novo. Minha esperança reside em um pilar prático e outro etéreo. O pilar prático é que haverá um momento no qual não haverá mais dinheiro em circulação suficiente para comprar consciências. Um dia chega-se ao fundo do cofre e neste dia as tensões não poderão mais ser aliviadas pela propina grande ou pequena – porque aumenta os que querem vender mas os preços sobem. Tem de se chegar a um momento no qual será preciso ser tão vil para ter dinheiro suficiente para comprar a parte de poder que cada cidadão que será evidente que estamos no fundo do poço e é preciso começar de novo a acreditar.

A outra esperança reside na crença de que o aviltamento não é a condição normal do ser humano. A nobreza do comportamento e a autoridade moral hão de voltar a tocar o coração os homens algum dia. Mesmo nos ambientes mais sórdidos ainda haverá situações nas quais alguém poderá exercer o poder com autoridade e a pequena luz que vier dali será capaz de iluminar a treva em volta ou ao menos demonstrar que a luz não é um fato de ficção. Em qualquer caso, estas esperanças residem na possibilidade da existência de uma elite no sentido mais antigo e preciso da palavra que não abra mão de seu dever e ouse assumir suas responsabilidades e negar os atalhos, que tenha a autoridade do exemplo, da vida simples, da rejeição da força pelo argumento, da dedicação muito acima dos padrões esperados, da capacidade de abrir mão aquilo que as afasta do centro. Se esta suposição comprovar-se falsa, então não há esperanças.

terça-feira, 17 julho, 2007 – 16:11

Prosa e poesia

Li em algum lugar que somos prosaicos quando fazemos aquilo que somos obrigados e somos poéticos quando fazemos algo com paixão.

Nestes dias eu tenho sentido muito a realidade desta sentença. Já havia esquecido o quanto a ação política pode ser poética, mesmo nestes tempos de desesperança, mesmo nestes tempos nos quais os sonhos precisam ser reconstruídos de quase zero. Também sinto o resgate do orgulho da minha ação profissional.

Recupero a sensação de que com todas as dificuldades é possível pensar e construir o novo. Não tenho tido muito tempo para escrever, passo os dias em uma enorme correria – reuniões; textos para escrever, ler, discutir; acompanhar as discussões no plenário; redigir leis; comentar outras; pesquisar alternativas e propostas e, principalmente, debater com a sociedade soluções ao mesmo tempo possíveis e audaciosas. Este desafio de romper o ciclo da crescente mediocridade faz com que não sinta tanto esta falta de tempo de escrever para o blog. Lidar com a realidade, com a diversidade, é certamente um caminho perigoso. Continuo, como já disse antes há vários amigos, acreditando que enquanto minha luta é pelo que acredito e não por 3 moedas de ouro conto com a necessária proteção.

Alguns colegas de trabalho, por sinal, me disseram nestes dias pelos corredores que era uma pessoa de sorte, pois se tivesse ficado onde estava teria de falar não sobre o novo, sobre o rompimento da mediocridade, mas sobre outros assuntos nada nobres. Mais uma vez só posso assinalar que o caminho nos escolhe e que neste caminho há uma sabedoria superior.

quarta-feira, 11 julho, 2007 – 20:21

Cassandras e Prometeus

Desde a época na qual a vocação e a profissão da política não se entremeavam, quando tentava apontar caminhos enquanto jornalista para a política, sentia que pesava sobre mim maldição similar a de Cassandra – a troiana que havia recebido a benção de prever o futuro e a maldição de suas previsões jamais serem acreditadas. Achei, então, de bom augúrio que na reunião do mandato parlamentar no qual atuo desta semana, a primeira na qual exerço oficialmente o novo papel de chefe de gabinete, tenha sido sugerida pelo deputado a leitura de um artigo referindo-se ao mito de Cassandra – o excelente artigo “Sob o signo de Cassandra” do diplomata Marcelo Dantas.

Meu novo papel tem em si o desafio de ser capaz de materializar numa estrutura eficiente os valores e conceitos antes formulados apenas como textos, como palavras. Mesmo parecendo paradoxal, às vezes é mais simples convencer grande número de pessoas distantes do que um pequeno grupo de pessoas próximas. Não falar a um público disperso e mais ou menos amorfo, mas a alguns poucos indivíduos com os quais se convive todo dia traz a grande responsabilidade de se viver o que se diz, de enfrentar as dificuldades concretas.

Escrever é sempre um ato aristocrático e individual, portanto autoritário. Mesmo quando se pretende convencer, persuadir, quando há diálogo, este diálogo é em certa medida falso porque sempre escrevemos para nós mesmos, antes de escrever para os outros – ao menos quando se escreve com sinceridade. Já a ação de dirigir a ação deve ser democrática, depende de elementos externos a si. O esforço de construir a governança requer a avaliação das forças e fraqueza dos outros – e ainda mais de si mesmo. A distinção entre autoridade e poder, sobre a qual sempre escrevo tanto, ganha uma dimensão maior e mais ampla quando se tem uma ao lado da outra.

Passei os últimos 25 dos meus 38 anos falando sobre como achava que devia ser a política, sobre a necessidade de construir o novo, ter a coragem de criar, ousar conceitos novos. Daqui a pouco tenho de romper as barreiras entre o idealizado e o concreto, não sem certa sensação desta síndrome de Cassandra ter sido deixada de lado, ao menos para um certo grupo que decidiu a esperança é possível, mesmo no cenário trágico.

quarta-feira, 20 junho, 2007 – 13:36

“Há momentos nos quais só trabalhar para o futuro nos consola”

Momento 1 – Uma sirene e as luzes de um carro de polícia faiscam atrás do carro do deputado, o motorista imagina que eles querem ultrapassar e abre passagem, mas ele continua seguindo atrás. Quando o carro para numa rua tortuosa e esburacada de uma cidade da periferia do ABC, no lugar da reunião, nós descemos, o carro da polícia para e dois soldados de armas na mão pulam da viatura. Alguém explica para os policiais que é o deputado. Os policiais, meio envergonhados e assustados tentam explicar que a culpa do mal entendido não é deles: – Vimos um carro grande, com placa de carro oficial, nestas quebradas, não é época de eleição, imaginamos que só podia ser sequestro! Impossível escapar do jargão “cômico se não fosse trágico” que o fato de um homem público reunir-se com sua comunidade quase seja ocorrência policial…

Momento 2 – Leio revoltado que uma Secretaria da Saúde recorreu ao STJ para não ser obrigada a comprar, por liminar, remédios de alto custo necessários para garantir a vida dos pacientes. A revolta chega ao asco quando vejo que o mesmo estado daquela secretaria está envolvido até o pescoço nas falcatruas denunciadas pela Operação navalha. Não tem recursos para salvar uma vida, mas para montar esquemas com empreiteiras tem. Muito nojo da política, muito desprezo por quem vota em gente capaz destas brutalidades, mas me consola uma frase da correspondência entre Anísio Teixeira e Monteiro Lobato: Há momentos nos quais só trabalhar para o futuro nos consola

segunda-feira, 21 maio, 2007 – 19:18

Renovando esperanças

Não tenho tido muito tempo para escrever no blog por conta da multidão de novas tarefas, pessoas, conhecimentos que estão na minha frente. Não deu nem para registrar, como eu queria, a passagem do primeiro aniversário da atividade constante do blog. O ano anterior, como eu já disse antes, foi muito o “ano do blog” na minha vida porque ele teve um papel importante, canalizador, de várias coisas que aconteceram pela minha vida.

A este “ano da palavra” parece que vai se suceder um “ano do poder” porque a minha paixão pela política – pela grande política, claro – voltou de um lado empurrada por minha vontade de fazer algo objetivo e de outro pelas circunstâncias que me levaram a encontrar pessoas que compartilham não de uma mesma visão – porque nada pior que um grupo com um olhar estreito e monolítico – mas do mesmo sentido de dever.

Esta retomada da “vontade de fazer grandes coisas” – parafraseando a definição de povo de Renan – não chegou a ser fortuita, mas construiu-se de tantos fatos díspares, mais ou menos imprevistos, tantos bons e maus encontros, tantas coincidências, que só posso ver na situação aquela mão do Destino atendendo a tantas preces que fiz para que me fosse apontado o caminho para o qual eu pudesse ser mais útil e delineasse a minha missão.

Mais uma vez sou preenchido pro aquela fantástica sensação de que é o caminho que nos escolhe, não nós que o escolhemos.

No meio deste pequeno mas aguerrido Exército de Novo Tipo para o qual as circunstâncias me alistaram eu sinto renovadas as esperanças de construir o novo e ao mesmo tempo resgatar aquilo que nunca devia ter deixado de ser.

Não sei se o caminho que percorremos é a esperança de recuperar a grande política perdida no meio dos pragmatismos e “idealismos de resultado” ou se é uma brancaleonesca tentativa de reconstruir uma época que não existe mais; enfim, não sei se remamos contra ou a favor da maré da história.

Mas meu coração se encheu de alegria quando o deputado programou todas as semanas uma reunião com todas as pessoas do gabinete – assessores, motorista, secretárias – não para discutir estratégias eleitorais, tarefas cotidianas ou qualquer coisa assim, mas para ler, estudar e debater textos de pensadores diversos que irão orientar a formulação de propostas da semana seguinte. É esta sensação de que não se é um operário apertando uma engrenagem na esteira rolante, mas que cada uma das pessoas que trabalham comigo tem um compromisso com um ideal mais elevado que me abastece as esperanças de que a mudança é possível.

terça-feira, 15 maio, 2007 – 12:59

Absoluto e relativo

A noção de que a verdade é múltipla e certa interpretação, a meu ver equivocada, do termo “pluralismo” – designando não a multiplicidade de opiniões e o direito à existência desta multiplicidade, mas a igual validade de todas as visões de mundo – parecem a primeira vista uma idéia muito simpática e pacificadora. Como qualquer visão do mundo é possível, legítima e igualmente válida ninguém tem o direito de tentar impor a sua a outro – o que é correto – mas também não precisa justificar a sua, convencer, persuadir e, sobretudo, buscar os pontos em comum e a partir dos muitos pontos de início da largada tentar chegar a um ponto de vista comum na chegada.

A noção de que tudo é relativo, a negação do absoluto, tem, então, o efeito de eliminar todas as chances de unidade, separam-se as idéias, os conceitos e os seres humanos em grupos que não só são distintos como estão condenados a afastarem-se cada vez mais. Como admite que todas as verdades sejam válidas de um lado deixa de permitir que as idéias se troquem, se mesclem e busquem a aproximação com a verdade, de outro estabelece que como o embate não possa ser feito no plano das idéias – visto que todas são igualmente válidas – nem se precisa justificar as ações, que seriam incompreensíveis aos que não compartilham delas, nem se pode buscar outra forma de lidar com o outro senão com a conversão forçada ou emocionalmente motivada.

Os filósofos gregos, que não caíam nestas armadilhas, distinguiam entre a doxa, a opinião, e a verdade. Ainda que só já na sua fase de decadência esta distinção tenha precisado ser teorizada, argumentada e defendida – e diga-se de passagem esta é a grande crítica de Sócrates, Platão e Aristóteles à democracia ateniense, para os quais a forma como os tiranos tinham estruturado a democracia levava ao império da doxa no lugar do conhecimento – a idéia sobrevive até época bem recente.

A noção de absoluto, é preciso dizer, desmoralizou-se com o passar do tempo porque foi sendo utilizada não como método de buscar a unidade, mas como mera desculpa ou pretexto para uma dominação baseada na força. Mais uma vez destaco meu ponto de vista que a “rebelião das massas”, o processo que corre no mundo atual quando o vulgar se impõe como regra e esforça-se por esmagar o seleto, é culpa da incapacidade moral e intelectual daqueles que ocupando a função de elite – ou seja, sem que fosse a elite de fato – utilizam as noções da tradição e do absoluto apenas como desculpas e meios para manter-se no poder, perdendo toda a autoridade.

E é porque a busca do absoluto no qual se faz o caminho da opinião ao conhecimento foi infinitas vezes utilizado não como deveria mas como instrumento de dominação política, econômica e – para usar um termo caro aos marxistas, mas ainda assim útil quando compreendido de forma mais abstrata – ideológica que se desmoralizou e – de fato – transformou-se naquilo que hoje dizem os ideólogos do homem-massa: ferramenta de manipulação.

Isto não significa que o pensamento relativista, segundo o qual cada um pode ter a sua própria verdade tenha triunfado. A Igreja preferiu em um momento crítico na sua história a Inquisição ao diálogo e ao convencimento, ela também abriu mão do absoluto porque tirou dele justamente a sua característica de levar à unidade. O preço que pagou por isto é a dessacralização do mundo em que vivemos, ou seja, o fracasso da sua missão de elite.

Processo semelhante vem acontecendo com a ciência. Desgrudada dos fins, buscando a sua justificativa em algum movimento inelutável que passa por cima de tudo – como no debate sobre clonagem, pesquisa com embriões e até no tema mais concreto da vivisseção de animais em pesquisa – a ciência vai se ideologizando, virando cientificismo e também perdendo seu caráter persuasivo para vestir-se com poder – não com autoridade – e assim condenar a si mesma ao mesmo fim que a história reservou a todos os conhecimentos que deixaram de visar o fim último de encontrar a unidade das opiniões na verdade: virar mero pretexto político e desmoralizar-se.

Sinto-me à vontade para ler tanto Guénon atacando a ciência e o mundo moderno como o cético Carl Sagan em “O mundo habitado pelos demônios” ou “Dragões do Éden” defendendo a ciência e atacando as superstições. Paradoxal, mas não mera coincidência, que o ataque de ambos se volte contra as superstições, em particular contra o que hoje pode ser chamado de “novo-erismo”. É afinal na caricatura da tradição ou da ciência – e ás vezes de ambos – que este novo-erismo vai buscar algum poder – já que não tem como ter autoridade porque é justamente o pensamento do homem-massa por si só, sem nenhuma autoridade.

E o que é a superstição senão aquilo que sobrevive de uma estação no caminho do absoluto, um fragmento perdido que ao ser retirado do contexto deixa de ter significado próprio, passa então a ser relativo. A própria ciência vai se tornando uma superstição na medida em que deixa de ser um caminho para o absoluto para tentar tornar-se instrumento de poder, tornando-se uma destas muitas verdadezinhas irredutíveis a unidade com as quais se forma esta noção relativista.

As assim chamadas ciências sociais e humanas e a filosofia moderna – para a qual filósofo é o que detém um determinado título não aquele que fez alguma contribuição original e relevante ao pensamento humano, concepção que tem algo de supersticiosa por atribuir importância ao pedaço de papel e não ao conhecimento – já estão em grande parte dissolvidas nesta sopa. A biologia e as ciências médicas caminham rapidamente pelo mesmo caminho porque já não são capazes de justificar muitos de seus procedimentos senão invocando o supersticioso argumento de que não se pode deter o caminho da ciência – argumento que encontrei inúmeras vezes contrapondo-se a legislação de Proteção Animal e que vejo agora repetido na questão da utilização de embriões humanos – que revela a incapacidade de formular qualquer argumento objetivo, persuasivo e acaba sendo o mesmo que se utilizava na Idade Média para justificar a inquisição.

Mesmo desmoralizado pelo mau uso, contudo, continuo a acreditar que o absoluto é possível e não posso aceitar as idéias relativistas segundo as quais cada grupo, religião, sistema de crenças, opinião política são ilhas com o mesmo direito. Admitir isto para mim é aceitar que como todos tem razão a única forma de chegar a uma conclusão é nos matarmos para ver qual é afinal o mais forte, ao invés de debater com sinceridade para talvez descobrir que todos estavam no caminho certo mas não conseguiam enxergar o quadro todo porque faltavam unir os vários pedaços.

terça-feira, 24 abril, 2007 – 13:32

Política e insanidade

Não sou autoritário em política, mas não acredito muito nesta questão de “ouvir a sociedade”. Evidente que não porque ouvir a sociedade não seja importante, mas porque quase sempre por detrás deste lugar comum esconde-se ou a ausência de propostas efetivas ou a falta de coragem de enunciar projetos realmente novos. Ademais na medida em que há pouca cultura cívica, noção de cidadania, hábito do debate racional, há casos nos quais por “ouvir a sociedade” entende-se de fato “reunir uma massa de manobra para aplaudir entusiasticamente alguma idéia pré-concebida”. Este simulacro de democracia é muito mais comum do que parece.

Até do ponto de vista de um pequeno grupo que se reúna para uma tarefa coletiva, por exemplo redigir um texto, por mais democrática que seja a relação entre elas ninguém redige a várias mãos. O trabalho mesmo na pequena equipe não ocorrerá senão na medida em que as tarefas forem divididas e alguém for escolhido para definir um texto, uma base concreta sobre a qual depois poderão ser feitas as alterações, modificações, acréscimos e edições.

Falei de dois problemas, falta de idéias ou falta de coragem para expressá-las. Não deixa de ser curioso que aos loucos não faltem nenhuma delas e seja comum que as pessoas que buscam as lideranças políticas com soluções para os grandes ou pequenos problemas do país sejam muitas vezes lunáticos.

Por incrível que pareça há vezes nas quais mesmo destes saem idéias interessantes. Lembro-me de uma vez na qual uma destas pessoas com alguns parafusos a menos, famosa até na cidade, fez uma ponderação relativa ao fato dos esfignomanômetros – os aparelhos que medem pressão – poderem errar. A questão nos intrigou e fizemos alguma pesquisa no assunto, verificando não só a ausência de alguma norma a respeito como até que em todo o país havia só um aparelho de aferição. Alguns meses depois, quando o Inmetro lançou as normas de aferição destes equipamentos – e é preciso dizer que o fez muito prontamente – iniciou o programa justamente na Câmara Municipal do interior onde eu trabalhava e que era presidida pelo vereador que teve o bom senso de dar ouvidos à “louca” e tomar as providências.

Curioso parece que no processo geral de degradação de tudo nem mesmo os loucos são mais como os de antigamente, como tantas e tantas personagens da mitologia, do floclore e da história que se expressavam com a absoluta liberdade concedida àqueles que são loucos, que certamente tem no bobo-da-corte o seu arquétipo, mal compreendido na imagem moderna do personagem. Hoje até os loucos calculam, pensam, buscam interesses pessoais ou estão tão fora da realidade que falta aquele tom de discernimento. Também engraçado que boa parte daqueles que procuram um gabinete político sejam loucos – de um tipo ou de outro – porque no fundo isto parece estar me dizendo que só eles ainda acreditam que algum político possa resolver algo.

Os momentos quando me sinto mais ligado à política são paradoxalmente aqueles nos quais me deixo levar também por certa insânia, por certa expectativa ou esperança de que é possível fazer diferença. No meu juízo perfeito preocupo-me apenas em fazer o meu trabalho da forma mais profissional possível, até de sair caçando trabalho quando não há; mas é só quando deixo um tanto do juízo de lado que começo a articular e sonhar em como as coisas poderiam ser diferentes, como se pode romper o paradigma vigente para se pensar em algo novo, começo a traçar propostas que não estão embasadas em “ouvir a sociedade”, mas tentam construir uma nova forma de ver as coisas.

quinta-feira, 19 abril, 2007 – 04:33

Política e insanidade

Não sou autoritário em política, mas não acredito muito nesta questão de “ouvir a sociedade”. Evidente que não porque ouvir a sociedade não seja importante, mas porque quase sempre por detrás deste lugar comum esconde-se ou a ausência de propostas efetivas ou a falta de coragem de enunciar projetos realmente novos. Ademais na medida em que há ouça cultura cívica, noção de cidadania, hábito do debate racional, há casos nos quais por “ouvir a sociedade” entende-se de fato “reunir uma massa de manobra para aplaudir entusiasticamente alguma idéia pré-concebida”. Este simulacro de democracia é muito mais comum do que parece.

Até do ponto de vista de um pequeno grupo que se reúna para uma tarefa coletiva, por exemplo redigir um texto, por mais democrática que seja a relação entre elas ninguém redige a várias mãos. O trabalho mesmo na pequena equipe não ocorrerá senão na medida em que as tarefas forem divididas e alguém for escolhido para definir um texto, uma base concreta sobre a qual depois poderão ser feitas as alterações, modificações, acréscimos e edições.

Falei de dois problemas, falta de idéias ou falta de coragem para expressá-las. Não deixa de ser curioso que aos loucos não faltem nenhuma delas e seja comum que as pessoas que buscam as lideranças políticas com soluções para os grandes ou pequenos problemas do país sejam muitas vezes lunáticos.

Por incrível que pareça há vezes nos quais mesmo destes saem idéias interessantes. Lembro-me de uma vez na qual uma destas pessoas com alguns parafusos a menos, famosa até na cidade, fez uma ponderação relativa ao fato dos esfignomanometros – os aparelhos que medem pressão – poderem errar. A questão nos intrigou e fizemos alguma pesquisa no assunto, verificando não só a ausência de alguma norma a respeito como até que em todo o país havia só um aparelho de aferição. Alguns meses depois, quando o Inmetro lançou as normas de aferição destes equipamentos – e é preciso dizer que o fez muito prontamente – iniciou o programa justamente na Câmara Municipal do interior onde eu trabalhava e que era presidida pelo vereador que teve o bom senso de dar ouvidos à “louca” e tomar as providências.

Curioso que parece que no processo geral de degradação de tudo nem mesmo os loucos são mais como os de antigamente, como tantas e tantas personagens da mitologia, do floclore e da história que se expressavam com a absoluta liberdade concedida àquele que são loucos, que certamente tem no bobo-da-corte o seu arquétipo, mal compreendido na imagem moderna do personagem. Hoje até os loucos calculam, pensam, buscam interesses pessoais ou estão tão fora da realidade que falta aquele tom de discernimento. Também engraçado que boa parte daqueles que procuram um gabinete político sejam loucos – de um tipo ou de outro – porque no fundo isto parece estar me dizendo que só eles ainda acreditam que algum político possa resolver algo.

Os momentos nos quais me sinto mais ligado à política são paradoxalmente aqueles nos quais me deixo levar também por certa insânia, por certa expectativa ou esperança de que é possível fazer diferença. No meu juízo perfeito preocupo-me apenas em fazer o meu trabalho da forma mais profissional possível, até de sair caçando trabalho quando não há; mas é só quando deixo um tanto do juízo de lado que começo a articular e sonhar em como as coisas poderiam ser diferentes, como se pode romper o paradigma vigente para se pensar em algo novo, começo a traçar propostas que não estão embasadas em “ouvir a sociedade”, mas tenta construir uma nova forma de ver as coisas.

quarta-feira, 18 abril, 2007 – 15:29

Animal e humano

Sempre acho curiosa a construção de uma oposição humano-animal que costuma figurar em tantos sistemas de pensamento. Até posso compreender certo sentido simbólico desta pretensa dualidade, pelo sentido que faz pelo desconhecimento do comportamento animal ou pelo conhecimento superficial. Na imensa maioria dos casos, contudo, a expressão é utilizada para avaliar ou até justificar comportamentos que nada tem a ver com a animalidade em si.

Ainda que pareça paradoxal, penso que a imensa maioria dos nossos defeitos vem do nosso livre arbítrio, ou seja, da nossa natureza divina, mais do que de nosso substrato animal. Lembro-me da frase de Schuon: “os homens vão ao fogo porque são deuses e salvam-se porque são criaturas”. Também não posso deixar de lembrar-me de um texto de Lobato no qual ele diz que o homem é um macaco que caiu de cabeça de uma árvore e como seqüela desta “Queda” passou a agir de forma estúpida, diferente da natureza onde todos os comportamentos têm um sentido.

Por fim lembro-me de um texto de um pensador muçulmano onde ele destaca que toda a natureza é muçulmana – ou cristã, budista, hindu, enfim – no sentido amplo do termo visto que se submete às leis que a regem. Vale destacar que Jesus também destacou este aspecto quando recomendou que olhássemos os lírios do campo.

Considero que obtenho sabedoria e discernimento estudando os comportamentos animais, até no sentido de avaliar melhor os seres humanos. Nos animais os comportamentos seguem regras talvez mais claras, não maquiadas, mas há um tanto de animal no ser humano e considero o livro de Desmond Morris, O Macaco Nu, que cito por aqui com freqüência, quase como uma leitura obrigatória.

No ser humano os comportamentos simbólicos, as linguagens naturais estão contaminadas pelas tentativas de controle e até pelas palavras. Não é à toa que em praticamente todas as tradições os mestres ensinam tanto pelo silêncio, pela observação, pela imitação, pelos gestos, pelos rituais, enfim, por métodos que não estão contaminados pelos sentidos apenas aparentes.

Uma das coisas que mais me chamaram a atenção na similaridade entre outros mamíferos sociais e o ser humano é a facilidade pela qual se distingue o poder e a verdadeira autoridade. Os animais dominantes em um grupo são na imensa maioria do tempo calmos e tranqüilos, em particular quando estão bastante seguros de sua autoridade sobre o bando. A agitação e movimentação só ocorre nos estratos inferiores ou nos momentos nos quais a liderança está de fato ameaçada seja pela fraqueza do animal dominante seja pelo fortalecimento de seus rivais, ou seja, em momentos nos quais o equilíbrio está rompido.

A imensa maioria daqueles que exercem o poder agem não com a serenidade tranqüila de quem detém a autoridade, mas com a agitação do líder fraco ou do rival ameaçador. Como os homens perderam boa parte de sua capacidade de compreender estas linguagens de sinais imaginam que a agitação é símbolo de poder e atividade de liderança. Mas ainda assim lá no íntimo conservamos certa capacidade de ver isto, como pode ser visto pelas múltiplas descrições de grandes personagens nas quais se destaca a serenidade que só a disciplina e a reflexão são capazes de dar.

segunda-feira, 16 abril, 2007 – 11:38

Vidas plenas

Estou com a mesa cheia de coisa para fazer, textos para escrever, idéias no papel para colocar em prática. Mas não dava para não escrever, curioso como tudo flui melhor quando escrevo e fui chegando a conclusão que este é um exercício fundamental. Passei os últimos dias meio aborrecido com os imensos vazios à minha volta no ambiente profissional. Aqui da minha baia ouço os ruídos todos, mesmo sem querer, e me dava certa sensação de revolta jamais ouvir falar nada sério, nunca se conversar com prazer sobre política, por exemplo.

Também as notícias que vem lá da fortaleza de Kurtz nem sempre são animadoras, demonstrando que mais do que algo casual ou local é algo generalizado. Quando nem Kurtz, que tal como o personagem acredita que são preciso menos e melhores pessoas para ter chance de ganhar as batalhas não consegue recrutar os guerreiros que deseja é sinal da imensa falta de seres humanos que há no Brasil.

Sinto-me como vindo de algum outro tempo distante e já finito, quando o enorme privilégio de fazer parte do Poder, do Estado, do núcleo dirigente, enfim, nem que fosse como contínuo – curioso lembrar que quando Kurtz começou sua trajetória era o garoto que cuidava da xérox – era um prêmio aos melhores e mais disciplinados soldados. Mas depois de refletir, meditar, pensar, esforçar-me para retirar do meu pensamento aquilo que fosse subjetivo, enviesado, cheguei à conclusão que as maiores vítimas são os próprios alienados. A indignação foi em grande parte substituída por certo sentimento de piedade com relação àqueles que vivem vidas vazias, naqueles que transformam o que poderia ser uma experiência extraordinária em mera ocupação do tempo de ócio com tédio pretensioso.

Como sempre, quando algo me irrita nos outros busco também em mim as mesmas falhas. Julgo que esta é sempre uma grande arma para lutarmos pela nossa superação, porque na imensa maioria das vezes o erro que vemos outros está em nós mesmos. Às vezes me sinto também desmotivado, fazendo muito menos do que poderia fazer, nem sempre enxergando a imensa responsabilidade que me foi dada. Não tenho ambições tacanhas ou pobres, esforço-me por concentrar-me no meu aprimoramento, mas sei que muitas vezes negligencio tantas tarefas que poderia fazer e que se estão na minha frente devem ter um motivo. Como tenho dito, a paixão da política me abandonou, mas isto também significa que agora posso ser melhor guerreiro, porque o soldado ideal – como por sinal diz Kurtz, não o meu mas o de Conrad e Coppola, e o Bahgavad-Gita – é aquele que combate sem paixões e ódios, mas pelo dever e pela consciência profunda da justiça da luta.

quarta-feira, 11 abril, 2007 – 13:04

Tiranias

Em um aparente paradoxo, sempre são as massas que criam as ditaduras, os totalitarismos. Historicamente mesmo as várias democracias tem sido momentos de transição para as tiranias, ainda que ao menos pareça que se consegue algo novo em alguns momentos.Ortega y Gasset diz que “quando a massa atua por si própria, o faz de uma só maneira, porque não tem outra: lincha”. Tocqueville assinala o risco de um Estado que é tudo frente a um indivíduo que não é nada como caminho quase natural da democracia, no qual os cidadãos são “mais que reis e menos que homens”.

É preciso notar, contudo, que este tipo de risco só ocorre e só existe na medida em que aqueles que deveriam dar a linha e a direção, as elites – ou como diz Gasset “as minorias excelentes” – deixam de cumprir com eficiência o seu papel de guia e perdem a sua autoridade, seja pela sua falta de disciplina moral, egoísmo, cobiça de direitos ou preguiça de cumprir os deveres. Em geral estes motivos acontecem exatamente porque em algum ponto da história o critério do método de formação desta elite fracassou, particularmente quando o que deveria ser baseado no mérito passou a ser definido por critérios familiares ou de afinidade.Em outras palavras, quando uma elite deixou de ser de fato uma minoria excelente, quando perdeu a autoridade e restou apenas o poder e por isto se torna odiosa.

A noção de um Imperador, ditador, presidente, enfim de um governante todo poderoso é cara à massa porque coloca todos os cidadãos em uma mesma e idêntica posição de submissão, cumpre a ambição da massa de aniquilar qualquer coisa que se sobreponha à média. Quando uma elite está em processo de decomposição, ou seja já perdeu a sua Autoridade, assume perante este desafio uma postura defensiva e arrogante, incomoda-se com os símbolos de poder e em requisitar privilégios, justificando assim os desejos da massa. Já a elite verdadeira que ainda detém a vitalidade do conhecimento do próprio mérito e missão não se incomoda com os sinais externos de poder, porque sabe que eles não significam nada.

É por este motivo que mesmo vendo todos os inconvenientes e riscos da democracia, continuo a acreditar que dentre todos ela é ainda o método de seleção de uma elite mais adequado. Mesmo com todas as dificuldades, ela ainda é um meio no qual os méritos pessoais e a disciplina pode contemplar no longo prazo, ou seja, depois que todos os excessos da massa e todas as tentativas de aniquilar a excelência chegam a extremos, haverá espaço para que uma elite de verdade – daquela que não se preocupa com os direitos mas sim com os deveres – consiga eleger-se. Ao menos é o único método que a história não provou ainda que falha, como todos os outros produzidos pelas diversas aristocracias ao longo da história, que no final sempre produzem personagens como Fernanda del Carpio de “Cem anos de Solidão”, apegada ao pinico de ouro com brasão como última coisa que sobrou da herança familiar.

É evidente que há uma enorme distância ente o que a democracia é e o que deveria ser. Quando acordo otimista acho que um dia esta distância será reduzida e penso que dentro de qualquer verdadeira elite só a democracia poderia ser uma forma de governo, porque a disciplina, o desprezo pelos luxos e símbolos de poder, o respeito natural à sabedoria que não considera aviltante reconhecer hierarquias de fato, tudo isto faz com que os fantasmas da democracia estejam afastados. Assim só uma elite educada no princípio de que pode votar e deve votar sempre no melhor dentre os seus pares será capaz de um dia obter o respeito da massa, a “Autoritas”, tornando assim a democracia um meio mais efetivo de tornar-se o que deveria ser, ao invés de ser apenas o caminho para os autoritarismos.

segunda-feira, 9 abril, 2007 – 14:05

O aprendizado

Por conta da necessidade de organizar as idéias e planejar acabo tendo de escrever sobre política porque é difícil falar sobre outra coisa senão aquilo que se tem em mente. No meio de tantas dúvidas, incertezas, descrenças e fés vou tentando encontrar esperanças de que a política ainda possa ser um campo de luta.

Acho que poucos de todos os pensadores, antigos ou modernos, amaram tanto a democracia como o liberal e utilitarista Stuart Mill. Não vejo em nenhum outro pensador à esquerda ou à direita o mesmo sentido de defesa da democracia como valor essencial, não conjuntural, em elemento de princípio e fim em si, não mero instrumento. É com a função de preservá-la e desenvolvê-la que ele pensa as instituições, não com o de manipulá-la. Mas, encanta-me, sobretudo a noção fundamental no pensamento dele de que a democracia é o único regime no qual os homens podem aprender, desenvolver-se, portanto o único aceitável para seres humanos plenos.

Muito mais avançado e radical do que os homens-massa que acham mil desculpas para idolatrar o tipo mais desprezível de ser humano político – o ditador de qualquer tipo – Mill assinala que é impossível existir algo como um “bom déspota”. Ainda que a finalidade dele realmente fosse tomar as decisões mais favoráveis ao seu povo – como alegam todos os tiranos, em geral quanto mais afundam nas suas paranóias e psicoses – que acometem 11 em cada dez tiranos, demonstrando assim tanto a sua condição subumana quanto a estupidez, covardia ou ganância daqueles que louvam os loucos – o processo em si não seria bom porque levaria a atrofia moral e intelectual do povo submetido a não ser responsável por tomar as suas decisões.

O aprendizado é assim o grande argumento em defesa da democracia. Ainda que os populismos diversos tenham em muitos lugares pervertido o conceito de democracia em si – talvez porque aplicada de cima para baixo, copiando modelos externos, em um povo que não tinha a cultura cívica necessária para operá-la com correção – coisa que Mill também fala – não deixo de crer que ainda se aprende algo. Primitivos demais em nossa concepção de política ainda vivemos da esperança que alguém faça as coisas por nós, esperamos ainda por algum Dom Sebastião e esta é a tônica de todas as campanhas eleitorais e, pior ainda, das propagandas governamentais. Somos treinados para viver sob déspotas e esperamos que quem governe aja assim.

Lembro-me de um personagem de Conrad, o italiano que dirige o hotel de Sulaco, em Nostromo, em uma republiqueta latino-americana genérica chamada de Costaguana. Veterano exilado do Exército de Garibaldi, o Sr. Viola tem entusiasmo pelas revoluções e revolucionários, mas profundo desprezo pelas sucessivas e sangrentas revoluções que ocorrem em Costaguana, nas quais fortunas trocam de mãos e a liberdade é apenas um tema vago de discursos do futuro ditador e seus capangas. Somos assim, ficamos sentados esperando que alguém faça algo por nós e no máximo nos indignamos quando as promessas impossíveis não são cumpridas.

Fico tentado a fazer uma digressão aqui em referência aos artigos anteriores porque Garibaldi sintetiza o belíssimo conceito do momento no qual as antigas elites européias chegam ao fundo do pântano da sua indignidade, deixando por completo de ter um comportamento de elite, enquanto surge uma outra elite de fato não só não-aristocrática mas anti-aristocrática no sentido mais limitado do termo. Os mil de Garibaldi, devotados à liberdade, vivendo em austeridade, sem temor e com disposição de lutar encarnam os valores eternos das verdadeiras elites, enquanto o último resquício da “nobreza” de nome mas não de direito empenha-se nas intrigas, covardias, futricas e conspirações que só os mais vis homens-massa teriam a falta de pudor de cometer.

Quando, escreveria “se” mas não percamos o otimismo, formos civilizados poderemos aprender melhor o que de fato é democracia, aceitarmos a nossa parte dos encargos, desprezaremos aqueles que fazem os discursos de déspotas dizendo ser a solução para os problemas. Quando chegarmos neste momento, aplaudiremos aqueles que nos dizem o quanto somos responsáveis pelos desmandos e vaiaremos os prestidigitadores que dão a ilusão de dar uma solução. De qualquer forma, só conseguiremos chegar neste ponto na medida em que continuarmos tendo a liberdade de errar, portanto aprender, através da democracia, qualquer outro método sendo um retrocesso.

segunda-feira, 9 abril, 2007 – 14:44

O cansaço da elite

Fico espantado com a aversão que se tem hoje pela palavra elite, atirada como xingamento ou ostentada pelo seu inverso. A questão essencial parece ser apenas a ausência de uma definição dos termos, ou seja de se compreender que elite significa aquela parte da humanidade que transcende a existência vulgar. Ela não se contrapõe à “verdade evidente por si mesma” – na bela forma da Declaração de Independência dos Estados Unidos – de que os homens nascem iguais, mas apenas reconhece também a outra verdade evidente por si mesma que o uso que os homens fazem da vida que recebem não é igual.

Repito talvez pela milésima vez que há a igualdade de direitos, não a de deveres. Qualquer um que reivindique mais direitos ou menos deveres pertence não à elite, mas á escória. A elite é justamente aquela parte da humanidade que não precisa de absolutamente nada – nem leis, nem contenção, nem repressão, nem castigo, nem reconhecimento, nem apreço, nem recompensa, nem prêmio, nem poder – para agir corretamente e cumprir sua missão. Por isto raramente se verá um integrante desta elite reivindicar sua posição de elite, afinal a opinião da massa pouco importa a ele.

Li hoje na coluna de Gilberto Dimenstein a história de um catador de lixo, até outro dia sem-teto, que se resgatou por ser capaz de escrever histórias que vivia ou inventava. É para mim mais fácil considerá-lo um membro desta elite do que tantos subumanos que circulam em carros importados e roupas de grife por precisarem compensarem com o brilho material seu vazio interior que lhes retira o que há de humano. Nem comparo com os intelectualóides e artistóides que disfarçam a ausência de talento e senso estético em linguagens obscuras e chavões pretensamente herméticos porque daí já seria covardia.

Também sorrio quando ouço falar que a política só melhorará com a educação. Sorrio porque me lembro da política universitária e acadêmica, dos doutos conchavos, da maestria nas manobras, das magníficas demagogias, dos magistrais loteamentos de cargos e dos nepotismos licenciosos cometidos cotidianamente por aqueles que receberam a melhor educação. Sorrio porque sei que não só disciplina moral e conduta ética não se aprendem na escola como muitas vezes ela ensina métodos para tentar justificar as patifarias com linguagem grandiloquente e argumentos dialéticos.

A questão não é se a elite deve ou não governar a massa – como massa entenda-se aquela maioria da população que depende de castigos e recompensas para agir dentro das fronteiras e objetivos da humanidade. Isto é o que sempre ocorre e no momento em que se tenta estabelecer algum critério ou delimitação é porque a pretensa elite deixou de ser ela própria de fato. A questão apenas é manter a elite motivada para cumprir seu papel.

E este desafio é muito maior, ainda mais nos dias de hoje em que todos estão cansados e desanimados com uma sociedade que parece – em todos os campos, da arte à política, da ciência à religião e até na economia – mais e mais ocupada por um avanço crescente da massa. O vácuo, a meu ver – porque nada mais é o domínio da massa senão o vazio – se dá apenas porque a elite de fato desistiu, cansada das imposturas e arrogâncias.

quinta-feira, 29 março, 2007 – 05:21

O homem que escrevia

Às vezes me sinto como um dos últimos sobreviventes de alguma etnia em extinção. Imagino que deve ter sido uma sensação semelhante a de Dom Quixote antes de simplesmente perder de vez o juízo. Basta olhar em volta para ver que o exercício da escrita está desaparecendo.

Não, não adianta dizer que nunca as pessoas escreveram tanto e citar, por exemplo, as mensagens da Internet como um exemplo. Em primeiro lugar, sem nem entrar no mérito da qualidade terrível do conteúdo, em geral elas são reproduzidas até o infinito, muito pouco é criado de fato e as pessoas sequer são capazes de exercer a mínima reflexão crítica sobre elas. Em muitos casos desconfiam que sequer quem a reenvia a lê.

Ainda sem entrar na questão do gosto duvidoso, faço sobre este mau exemplo duas observações. A primeira é que há coisas que não podem ser ensinadas pela palavra escrita – diga-se de passagem, que a grande maioria dos mestres de verdade jamais escreveu uma linha.

A segunda é que os amontoados de lugares comuns, das poesias “batatinha-quando-nasce”, como as descreve bem apropriadamente a Márcia, de histórias edificantes que nada edificam – porque para edificar é preciso construir algo novo e derrubar algo velho em que lê – e do amontoado de conceitos pseudo-científicos e pseudo-religiosos que quando examinados com critério percebe-se não estarem embasados em nada, tem pouco – mas muito pouco mesmo – a ver com a essência da palavra escrita – e de certo modo com a palavra em qualquer forma que ela possa assumir.

A essência da palavra, do discurso, é a persuasão. Pode até não assumir sempre esta forma e em geral é mais eficiente quando não parece estar fazendo isto. Mas se caracteriza pela coesão e coerência, ainda quando aquilo que a mantém unida esteja fora do texto e da estratosfera, ainda quando a coerência deva ser buscada em algum conjunto transcendental de idéias. Um texto que parece argumentativo, mas cujos fundamentos são vagos, obtusos ou truncados – quando não inexistentes – não é nada.

Ao mesmo tempo o texto deve justificar-se por si, nem que seja pelos seus silêncios, sem precisar de nada externo.

Mas a triste verdade, aquela que me faz sentir pouca esperança, por mais otimista que seja a minha natureza, é que sequer é destes textos que falo quando digo que as pessoas estão perdendo a capacidade de escrever. Confesso que tive quase vontade de chorar a algumas semanas quando vi colegas de trabalho vasculhando computadores em busca de um convite para uma festa de algum ano anterior para não ter de escrevê-lo de novo. Todos eles com formação universitária e excelente nível social e econômico, demonstrando que a questão não é social, educacional ou econômica, é cultural mesmo.

Vira-e-mexe vêm me pedir para escrever alguma coisa – eu sou afinal “o homem que escreve” – mas sempre fico chocado ao ver que pedem para escrever cosias tão básicas, elementares e curtas – um convite, o texto de alguma placa de homenagem, um bilhetinho – que houve tempo em que me revoltava contra tal tratamento leviano com minha função.

Uma vez me pediram para escrever um bilhetinho para um presente que dariam ao professor de um curso de redação, verdadeira demonstração da absoluta inutilidade do curso e fracasso do professor que não conseguiu ensinar ninguém dentre todos os alunos a juntar letras por duas linhas para formar o texto de um cartão.

Hoje estas coisas não chegam mais a me tirar do sério, só me enchem de tristeza por ver um mundo no qual as pessoas capazes de expressar-se pela escrita – portanto pela razão – irão ser uma escassa elite desilidudida com o futuro e sentindo-se fracassada na sua tarefa de guiar.

De forma nenhuma me considero reacionário e muito menos avesso à tecnologia, à multimídia, à utilização da imagem e do som. Pelo contrário, na época de universidade era praticamente o único da área de humanas da universidade que dominava os computadores e a estatística. A questão é apenas a do desaparecimento da escrita, cuja conseqüência é o desaparecimento da linguagem em médio prazo.

Não, não seremos mudos, não é isto que estou dizendo. A linguagem é mais do que uma expressão de sons ou gestos, é acima de tudo a vontade de comunicar algo, de preferência algo relevante. É até possível que a maioria considere que comentar o Big Brother – como ouço por todo lado, até no gabinete do Kurtz – é relevante. Isto por si já demonstra o meu raciocínio.

quarta-feira, 28 março, 2007 – 11:03

Polir a armadura

A paixão da política abandonou-me com o tempo, fui chegando à conclusão de que adianta pouco tentar mudar algo no Estado ou na sociedade, valendo mais a pena mudar o homem em si. E, como diz Pessoa, mudar-se a si exige tanto esforço que não sobra tempo para quem está empenhado sinceramente na tarefa de tentar mudar qualquer outro.

A política, contudo, não me abandona. Há seis anos ela é a minha profissão, com desafios e responsabilidades crescentes. A vocação da política é algo curioso, por mais que a paixão seja essencial nela, estar desprovido das paixões facciosas e dos encantamentos do poder tem um efeito benéfico na compreensão não só do que a política deveria ser, mas também o distanciamento necessário para auxiliá-la a trilhar este caminho.

Mencionei muitas vezes uma tradição do profeta do islam segundo a qual não se deve ambicionar uma função pública, mas que ela deve ser aceita quando ofertada porque então terá a orientação necessária. Fico um pouco constrangido de dizer estas coisas porque faz parte da praxe da política simular a surpresa e a ausência de desejos e ambições, mas só posso dizer que não é hipocrisia.

O antigo amigo que chamo pelo codinome de Kurtz, em referência ao personagem de Conrad, foi o grande responsável pela minha entrada na vida política em um momento no qual aquilo não era mais objetivo vital meu. Há seis anos, depois de vários anos sem contato, ele me ligou e disse que precisava de mim. As circunstâncias, as necessidades, as estratégias, o destino, enfim, fez com que sem nos afastar seguíssemos caminhos distintos – ainda que em contato e próximos.

Há algumas semanas ele ligou de novo, conversamos várias vezes, com o brilho nos olhos que dá a ele mais ainda o perfil de Kurtz, os planos, os projetos, a expressão da vocação política em sua forma mais pura, ele diz que é hora de reagrupar – “É o projeto da nossa vida!” – diz ele em um tom que resume.

É um ponto de inflexão, um momento no qual as decisões são necessárias. Mesmo sem acreditar mais que a política possa de fato mudar e melhorar a vida das pessoas nem por isto ela deve ser deixada nas mãos daqueles que poderiam piora-la. É hora de novamente vestir a armadura, selar o cavalo e combater, transformando a desilusão com a política na capacidade de distanciar-se e observar objetivamente.

quarta-feira, 14 março, 2007 – 14:27

Um email do arquipélago

Eu tenho poucos amigos no sentido mais estrito e profundo do termo. Alguns sequer conheço pessoalmente – Renilde, Daniel, Wagner – outros passo anos sem ver, mas quando os reencontro é como se tivéssemos mantido contato por todo aquele tempo. São amizades que dispensam a presença física e até mesmo o contato freqüente para se manter ativas e fortes, mas é sempre um grande prazer reencontrar qualquer um destes grandes amigos.

Assim, foi com enorme satisfação que abri minha caixa de emails ontem e encontrei uma mensagem do meu amigo argelino, que não vejo há uns 10 anos e que não tinha mais contato há tempos. Sei que algumas das pessoas com as quais converso imaginam que meu amigo argelino é uma espécie de personagem literário, alguma versão islâmica de Mr. Slang – o amigo inglês no qual Lobato coloca alguns comentários – mas na verdade ele existe mesmo e a maioria das histórias que conto em tantas conversas aconteceu mesmo.

Uma das histórias envolvendo meu amigo argelino que mais conto é aquela na qual ele, encantado com o Brasil, me pede algumas sugestões de lugares para visitar. Entre as sugestões menciono as cidades históricas de Minas. Ele me pergunta quantos anos elas tem, eu respondo algo entre 300 e 400 anos, mas com o auge em cerca de 250 anos atrás. Ele então responde, não com afetação ou orgulho, mas com simplicidade, que a casa onde ele mora na Argélia – situada em uma cidade construída pelos romanos, mas famosa pelas suas mil mesquitas – tem mais de 800. Não porque nos achasse sem história, mas por viver em um mundo tão repleto de história no qual sempre viveu na Argélia e na França aquilo que é eterno, em particular a natureza, interessava muito mais e tornava o Brasil muito mais fascinante para ele. Diria que preferia ver as criações de Deus às dos homens.

Falávamos – e mesmo nos emails acontece isto – uma algaravia meio misturada de português, que ele não falava bem embora compreendesse, de francês, que eu compreendo mas falo mal, de inglês que ambos tinham um domínio relativo e termos esparsos de árabe, quase inevitáveis quando se discute o Islam. Ainda assim nos entendíamos bem, mesmo quando nas sextas-feiras reuníamos a nossa minúscula congregação – que incluía também um marroquino e um chinês – para as orações, que ele sempre fazia questão que eu dirigisse porque era o brasileiro, era aquele que ia ficar.

Imagino que uma das coisas que leva alguns ouvintes e leitores a suspeitar que ele seja um personagem ao invés de pessoa real é a interessante combinação de elementos com os quais o pinto. Ele é uma pessoa de carne e osso, sim, mas nem por isto deixa de ser também um símbolo.

Descendente da dinastia andaluz dos Almohadas – outra história popular é o quanto ele se surpreendia em ver logo a primeira geração de descendentes de estrangeiros se considerarem brasileiros porque sete séculos depois sua família ainda se considera andaluz mais do que argelina. Mas também de veteranos da guerra de independência argelina, a mais cruel e suja de todas as guerras coloniais – e outra história é que apesar de ter a vida toda ouvido falar de Ibn Khaldun – que escreveu o seu livro mais famoso, ainda que pelo prefácio – os prolegômenos – mais do que pelo conteúdo do livro propriamente dito, foi nas nossas conversas sobre o autor que ele viu o quanto o autor era tão atual e capaz de explicar processos históricos bem recentes.

Muçulmano devoto – boa parte do tempo discutíamos versículos do Alcorão e preceitos islâmicos e eu checava se o sentido de um ou outro versículo era aquele mesmo que estava nas traduções – mas também cientista – estava no Brasil justamente fazendo seu pós-doutorado em engenharia química e na Argélia trabalha em um importante centro de pesquisa.

Uma outra história dele que gosto de contar porque me parece uma belíssima declaração de amor, é que preocupado com o isolamento da sua mulher permitiu que ela deixasse de usar o véu – delicado véu argelino com bordados dourados – e pediu a Deus que o peso, a carga, daquele pecado caísse sobre ele. Uma abnegação tão grande que oferece aquilo que tem mais valioso como tributo de um amor feito não com a grandiloqüência dos atos heróico e hipócritas, mas com uma postura singela, tranqüila, mais uma vez sem nenhuma ostentação.

quinta-feira, 8 março, 2007 – 13:33

Representação Política da Mulher

Chega a ser triste ver o Dia Internacional das Mulheres – que é um marco da luta das mulheres pelos seus direitos mais do que uma homenagem ao feminino – transformar-se em mais uma data comercial, ser esvaziado de seu conteúdo para ser exatamente uma celebração fugaz não só sem relação com o sentido original mas em muitos sentidos oposto a ele. Um dos efeitos disto é que a mulher que acaba sendo homenageada é aquela que menos tem a ver com a data, até porque as que estão na trincheira desta luta não tem quem as presenteie com mimos.

Nos últimos quatro anos tenho associado esta data com uma das parlamentares com as quais eu tenho a honra de trabalhar, a Delegada Rose. Assim este 8 de março foi excepcionalmente triste porque ela não foi reeleita e a data também assinala a última semana de uma sucessão de mandatos iniciada em 1991. Deputada preocupada com o trabalho parlamentar, presente, interessada, diretamente ligada à questão dos Direitos da Mulher antes mesmo de ser a titular da primeira Delegacia de Mulheres, uma das poucas vozes com bom senso ao se manifestar com conhecimento de causa sobre segurança pública, mesmo nos períodos de histeria sobre o assunto – eqüidistante do discurso fantasioso e exagerado dos direitos humanos quanto da truculência demagógica.

Quando ela não se reelegeu senti certa culpa, gostaria de ter feito mais, ter contribuído mais. Turvou um tanto a minha alegria de ver meus candidatos eleitos ter sabido que ela não se elegeu. Pensei muito no quanto os julgamentos da sociedade são injustos com tantas pessoas dedicadas que sacrificam a vida pessoal à carreira pública.

Fala-se muito da questão da participação política da mulher e da necessidade de ampliá-la, mas não se diz o mais importante, que o gênero não pode ser programa de governo. Em outras palavras é excelente que um número maior de mulheres seja candidata e que as pessoas votem nelas, mas para ser uma representante feminina – e o mesmo vale por etnia, idade, opção sexual, enfim qualquer segmento que se pense – é preciso mais do que apenas pertencer àquele segmento, é preciso ter consciência, identidade e bandeiras de luta. Neste sentido a Delegada Rose é uma expressão precisa do que é uma representante feminina no parlamento e tanto o legislativo como a sociedade, em particular as mulheres e a polícia, ficarão muito mais pobres sem a presença dela a partir da outra semana.

quinta-feira, 8 março, 2007 – 15:03

Eclipse!

Schuon diz que o corpo masculino simboliza a geometria que coloca ordem no caos e o corpo feminino simboliza a música que leva à transcendência. Nesta simbologia a mulher seria o centro da circunferência e o homem o circulo que a delimita, o homem é o sentido horizontal, a mulher é o vertical, duas dimensões de uma mesma unidade. Símbolos, como a poesia, não se explicam, sente-se e compreende-se ou não. Diria apenas que os símbolos não são arbitrários – como os signos lingüísticos – portanto só fazem sentido porque são verdadeiros em todas as suas expressões, inclusive as reais. Guénon dizia que a melhor forma de combater uma idéia é plagiá-la. Esta citação me veio à mente, por exemplo, quando assisti ao Código da Vinci. Nada na história é novidade para quem se preocupa a sério com o Sagrado Feminino – por sinal as divergências entre xiitas – que invocam a autoridade espiritual dos descendentes de Fatimah, filha do profeta do Islam – e sunitas tem similaridades. A incompreensão do autor, assim como de todo este novo-erismo que tenta inventar algo novo ao invés de buscar as raízes, é não ser capaz de libertar-se da visão dualista. Ying e Yang não são coisas distintas, na medida em que são vistos como forças opostas o conceito do Tao é destruído ou sequer pode ser concebido. Limitar o uno a um aspecto estritamente feminino é tão destrutivo como o contrário e não raro esconde ainda mais do que a forma chamada de “patriarcal”. Como em muitos outros aspectos penso que é o aprofundamento em um caminho que produz a compreensão da unidade, mais do que através das misturas, fusões, ecletismos e sincretismos, como uma montanha na qual há inúmeras cavernas que conduzem ao salão central. Éramos amigos muito antes de nos rendermos às evidências de que havia atração e os elos eram muito mais fortes do que poderiam transparecer naquela imagem já translúcida na qual nos conhecíamos sem máscaras, para além das personas. A maravilhosa contradição é que talvez seja o fato dela conhecer as fragilidades e sensibilidades – lembro de uma brincadeira que ela fez quando leu alguns artigos que escrevi como ghost-writer para uma cliente feminina, estranha posição esta de entrar no personagem para escrever para outros – que me deixa à vontade para ser tão masculino no momento necessário. Não contrario a zoologia, por isto não me escravizo aos papéis mas aceito – com prazer, claro – as dimensões físicas dos papéis que ela me dá. Difícil descrever esta harmonia de música e geometria, mistura de caleidoscópio e caixa de música, que nestes meses todos, com tantas dificuldades e novos problemas jamais definou ou esmaeceu. Falar de ausência de conflitos pode ser ilusório, pode vir de algum se anular ou sujeitar, ou, num estágio mais avançado, pode vir de surgirem os motivos de conflito mas eles serem resolvidos no diálogo, ou ainda de cada um antecipar as limitações e dificuldades do outro, fase que pode ser considerada bastante elevada, mas pode vir apenas da disciplina do espírito e da segurança mútua, da capacidade de agir em sincronia e avaliar tudo objetivamente. Mas de alguma forma sei que esta nossa harmonia é ainda mais elevada que isto, a ponto de ás vezes dispensar as palavras e por isto conversamos de tantos outros assuntos e tão pouco de nós mesmos.

quinta-feira, 8 março, 2007 – 16:12

Uma reunião com o coronel Kurtz

I saw this station, these men strolling aimlessly about in the sunshineof the yard. I asked myself sometimes what it all meant. They wanderedhere and there with their absurd long staves in their hands, like a lotof faithless pilgrims bewitched inside a rotten fence. The word ‘ivory’rang in the air, was whispered, was sighed. You would think they werepraying to it. A taint of imbecile rapacity blew through it all, like awhiff from some corpse. By Jove! I’ve never seen anything so unreal inmy life. And outside, the silent wilderness surrounding this clearedspeck on the earth struck me as something great and invincible, likeevil or truth, waiting patiently for the passing away of this fantasticinvasion. (Joseph Conrad, No Coração das Trevas)

Poderia falar muitas coisas de Joseph Conrad, de como é impressionante que uma pessoa adquira tal maestria em escrever em uma língua que não só não é sua língua nativa – ele é polonês de nascimento – mas que aprendeu tardiamente, poderia falar de suas descrições precisas e encantadoras, poderia falar em como utiliza com cuidado conhecimentos técnicos de navegação e reconstrói suas experiências pessoais. Mas na verdade o que me atrai mais nele é a loucura de um tipo muito especial que acomete seus personagens.

Este sentimento está na culpa de Lord Jim, na obsessão política e infame do Agente Secreto – grande estudo da personalidade do terrorista – mas está, sobretudo, na progressiva perda de sentido da realidade de Kurtz em “No Coração das Trevas”. Conheço poucos casos de adaptação bem sucedidas de livros para o cinema como o relacionamento que há entre o livro de Conrad e “Apocalipse Now”. Ao mesmo tempo são enredos distintos contando a mesma história, resumida, no filme, ao essencial que é esta loucura.

A transformação do cenário das florestas do Congo para o Vietnã, do comércio de marfim para a guerra, dos belgas para os americanos, dos agentes coloniais para os soldados, apenas acentua o caráter central da história. Como naqueles jogos de Borges no qual ele conta uma mesma história em contextos distintos ou elenca os múltiplos cenários nos quais poderia inserir uma história, as diferenças entre a novela de Conrad e o roteiro de Apocalipse Now só acentuam a história central.

Uma das oposições centrais de “No Coração das Trevas” parece-me ser entre a monotonia rotineira e desmotivada dos agentes coloniais em oposição à apaixonada ação de Kurtz. Ao longo de todo o trajeto – seja no Vietnã ou no Congo – o protagonista vai ouvindo falar de Kurtz. Só ele quer estar ali, só ele tem idéia do que fazer ali, só ele não está de passagem, só ele leva a sério certo discurso de civilização e humanismo. Não tenho dúvidas que por tudo isto Kurtz é irmão de Quixote e, como ele, enlouquece de uma insânia que nem por ser mais violenta deixa de ser a mesma.

Kurtz tem me ligado diversas vezes nestes dias. Acordei hoje com ele ao telefone me falando de suas idéias enquanto ia a uma reunião. No final da tarde sou eu quem me reúno com ele lá no coração das trevas. Como o protagonista da história de Conrad vou me sentindo percorrendo o rio e ouvindo falar de Kurtz e suas historias e projetos, me fascinando com aquele ponto alucinado de luz em meio a um dos lugares mais escuros da terra.

Encontrar Kurtz me anima, faz com que eu sinta que não sou como os demais personagens que Conrad coloca no livro – notadamente a maior parte deles sequer tem nome – um peregrino sem fé. Confronta-me, como diz o protagonista de No Coração das Trevas com algo grande e invencível, como o mal ou a verdade. Preciso parar agora para atender ao telefone, é Kurtz chamando…

sexta-feira, 2 março, 2007 – 13:25

Cosmogonias, mitos e o defeito do tapete

Não tenho nenhuma simpatia por estas tendências contemporâneas que tentam justificar ou legitimar a religião a partir de seu cotejamento com os dados científicos do momento. Grosso modo foi este tipo de disparate que fez com que várias passagens de vários livros sagrados fossem interpretadas literalmente e os conhecimentos científicos da época transformados em questão de fé, transformando – só para citar um dos exemplos mais famosos – a hipótese científica antiga da terra ser o centro do universo em uma verdade teológica.

Ciência e Religião pertencem a universos e ordens de grandeza distintas, uma fala do efêmero e outra do eterno, a mistura das duas certamente não produz nada de produtivo. Para quem acredita que um determinado mito – e mito não significa como usualmente se usa hoje, mentira, mas uma verdade cuja expressão transcende tempo e espaço e não pode ser descrita com precisão através de palavras – ajuda a compreender o universo é irrelevante saber se há pontos de contato entre esta história e as últimas modas científicas.

No sentido oposto desta relação, os mitos até podem ajudar a orientar a ciência, não quando tratados como hipóteses, mas orientando a pesquisa segundo a linguagem e as técnicas próprias da pesquisa. Contudo como este é um terreno meio pantanoso é melhor deixar uma longe da outra.

Isto não me impede, porém, de observar com interesse os avanços científicos e as sucessivas teorias – diria que certo conhecimento tradicional faz com que não só eu não me surpreenda como até espere alguns resultados. Em particular as hipóteses sobre a criação do universo – em certo sentido é justamente das cosmogonias que o mitos são feitos e reatualizados – oferecem algumas oportunidades de reflexão bem interessantes.

Não entro em detalhes muito específicos porque estes a todo instante mudam, mas me prendo particularmente a um dos fatos. O Universo não surgiu por ser um todo harmônico – como crêem todos aqueles que por uma leitura muito literal imaginam a ordem de outras esferas como algo que se espelha aqui também.

Aquilo que é perfeito e está em ordem não se movimenta. É justamente a imperfeição, um ponto de caos, um desequilíbrio mesmo que mínimo, que faz com que as coisas funcionem. A mínima dimensão dos desequilíbrios que puseram o universo em movimento e o fizeram ser o que é não pode deixar de lembrar de certas teses tradicionais, como as que destaquei no post “O Defeito do Tapete” – porque também o tapete persa é uma imagem cosmogônica.

Nada disto tem a ver com no dualismo – como dizem aqueles que só entendem o Tão superficialmente, por exemplo – e muito menos com algum maniqueísmo. As forças de criação e destruição não são coisa distintas, mas parte intríseca de tudo. Não fosse uma mínima desproporção entre matéria e anti-matéria e o universo não existiria, assim como outros mínimos desequilíbrios produziram as vária outras etapas que acabou levando as coisas a serem como são. Também a luz, as estrelas, os elementos, os planeta e enfim a vida chega a existir pelos desequilíbrios, pelos defeitos do processo que criam em algum momento uma situação nova, uma crise que não pode ser respondida pelo funcionamento normal. Como a ciência que lhe espelha, o universo é a sucessão de modelos que fracassam e de novos ajustes que surgem.

Estes desequilíbrios, estas interações entre ordem e caos – como está em moda dizer hoje, esquecendo-se que todas as religiões e doutrinas tradicionais já mencionam isto e nos mitos o mundo sempre é fundado pela luta das personificações de ambos – enfim, este movimento não é bom, nem ruim, é apenas necessário para que o universo e tudo que há nele exista. Isto não impede nem prova que haja outras esferas nas quais o movimento não exista, um mundo de idéias platônicas, de arquétipos. A ciência nos fala deste mundo que se compõe e decompõe, os mitos daquele outro mundo e de como a partir dele se criou este.

Há fascínio e espaço suficiente nos dois para que se deseje empobrecer algum dele com explicações simples. Acho que é mais uma “dualidade” minha a ser encontrada nesta dupla fascinação.

terça-feira, 13 fevereiro, 2007 – 04:53

Legados

Eu sempre acreditei e defendi a hipótese de que o meio tem uma condição fundamental na formação do homem, que é a partir dos estímulos que recebe, experiências que vive, oportunidades que tem ou deixa de ter que uma pessoa forma sua personalidade. Seriamos, então, o resultado das escolhas, da disciplina. Esta minha crença democrática e otimista é sempre muito abalada em todas as férias que consigo passar com meus filhos.

Vivendo a quase 1000 km de distância, raras vezes temos oportunidade de nos ver fora das férias, as quais nem sempre consigo, e conversas rápidas pelo telefone. Contudo há tantas semelhanças de comportamento, de jeito, de personalidade entre eles e eu, a despeito da pouca convivência, que sou obrigado a reconhecer que o meio não é tão relevante.

Não é um pensamento muito lisonjeiro comigo mesmo, afinal representa que os valores e a disciplina que tenho ou tento ter comigo é muito menos o fruto do meu esforço pessoal do que o resultado mais ou menos arbitrário de alguma combinação de genes. Sinto sempre os observando que vou me tornando aquilo que realmente sou quando me esforço para me aprimorar, portanto nada mais faço que minha obrigação.

Nas tranqüilidades e ansiedades deles vejo o quanto há de ilusório em nossas histórias e prioridades. Se eu passei boa parte de minha infância e adolescência mergulhado entre livros, enquanto meu filho prefere os esportes isto se reflete pouco em nossas personalidades tão semelhantes, mesmo com tão pouca convivência. Nossos olhares buscam o infinito em um mesmo alheamento que mostra o quão pouco dele vem dos livros, da razão, da reflexão.

Mesmo sem gostar de ler, sem ter lido nem uma fração ponderável dos livros que li com a idade dele ele escreve bem. Curioso saber que mesmo certa criatividade de que me orgulho é mais o resultado de alguma complexa equação bioquímica lá nas minhas células, mais do que algo que foi desenvolvido, cultivado. Só consigo, então, pensar em tantos pensadores – Shankara, Platão, Plotino, Nicolau de Cusa, Ibn Sina, Surahwardi, ibn ´Arabi – que destacam que não aprendemos mas apenas relembramos e nem me surpreenderia se este conhecimento chegasse de alguma forma objetiva.

segunda-feira, 12 fevereiro, 2007 – 06:43

O som e o tempo

No final de 2006 estive às voltas com dois conceitos com os quais não tenho muita afinidade: som e tempo. Tenho péssimo ouvido para música e prefiro, sempre, a expressão escrita, mais afeita à razão, aos argumentos. Também prefiro pensar sobre as coisas eternas, imaginar que o tempo é um tanto uma ilusão ou convenção nossa.

De repente caiu no meu colo a atribuição profissional de conduzir e divulgar algumas entrevistas, obrigando-me a aprender a lidar com arquivos de áudio. Como adoro aprender coisas novas entusiasmei-me em buscar programas de tratamento de áudio, lidar com seus recursos, verificar o que faziam os botões e filtros, obter progressivamente os resultados.

Depois de alguns dias fui me acostumando a ver as palavras também como um conjunto de ondas. Eu que me importo quase que só com o conteúdo delas passei a me interessar por elas também enquanto formas puras. Eu, que gosto de pensar mais na eternidade do que no tempo, me vi lidando com milésimos de segundo e vendo como eles são relevantes na edição de uma entrevista.

Imaginar que as palavras também são apenas ondas mecânicas, compostas de quase infinitas frações mínimas de tempo, ao invés de conceitos mágicos que ao menos enquanto tendência visam a eternidade não prejudicou minha relação com elas. Deu-me, talvez, a dimensão do caráter meio mágico que elas tem.

Logo que tive tempo para aproveitar em outros campos o conhecimento recentemente adquirido passei a vasculhar arquivos de músicas, recitações religiosas e outras fontes de áudio tentando ver se esta mágica era perceptível no formato das ondas ou nas frações de milésimos de segundo. Sempre acreditei no simbolismo sonoro, intangível e inexplicável, que recheia recitações devocionais diversas – como digo sempre já pude sentir com clareza o efeito da leitura do Sagrado Alcorão mesmo sendo uma língua que eu compreendo pouco.

É evidente que o segredo não está no formato das ondas, mas não deixa de ser curioso a obediência a certas regras, as amplitudes, as freqüências, até mesmo é possível enxergar as rimas em uma onda que se repete com impressionante regularidade na voz de um recitador de qualidade. Impossível descrever a sensação de ver uma rima em sua forma pura, livre do convencionalismo humano e sujeita apenas à regularidade da forma totalmente abstrata.

domingo, 11 fevereiro, 2007 – 06:02

A execução de Saddam e os sonhos de outro mundo

Uma das coisas que me deixa mais impressionado na política, em especial de certos segmentos da esquerda, é a facilidade com que colocam viseiras em função de sentimentos “táticos”. Um grande exemplo disto é a comoção destes segmentos por conta da morte de Saddam Hussein.

Não tenho simpatia alguma pela pena de morte, menos ainda pelas execuções públicas e também achei que o “espetáculo” do enforcamento de Saddam foi lamentável. Mas é um sentimento que me atinge por ser ele um ser humano, como qualquer outro, não há a menor simpatia por este ditador sanguinário, do tipo que o mundo fica muito melhor sem.

Não consigo ter a menor simpatia ou empatia por qualquer tipo de ditador. Por definição eles são para mim pessoas fracas, amedrontadas e incapazes de convencer e persuadir, portanto precisam se esconder atrás da demagogia, do emocionalismo e sentimentos perversos da massa, da polícia secreta e da censura a imprensa para garantir-se no poder. Para mim todos são lamentáveis e qualquer um que demonstre apreciação por algum deles – independente de ideologia que tenha ou diga ter – cai muito no meu conceito e dificilmente conseguirei levar suas opiniões políticas a sério.

Saddam foi um ditador sanguinário, responsável por genocídios, algoz de seu povo, chegou ao poder através de um golpe e se manteve pela força, pelo terror e, no último momento, por uma reversão da política laica de seu partido em um apelo demagógico e hipócrita ornado de certa preocupação religiosa.

Nem como democrata, nem como antiimperialista, nem como muçulmano consigo ter qualquer simpatia por Saddam. Achei a guerra tão lamentável e mal-intencionada quanto à execução de Saddam – acho que cada povo deve ser capaz de livrar-se sozinho dos ditadores que criou por ação ou omissão – mas nem por isto deixo de achar que o mundo ficou melhor sem Saddam e nem deixo de esperar que outros Saddams que povoam o mundo não tenham ficado um pouco mais amedrontados ao ver na morte de um igual o destino que – se Deus quiser – aguarda todos os faraós nesta ou na outra vida.

Fico triste em ver que muitos muçulmanos mostram certa simpatia por Saddam baseados em falta de informação ou em um espírito de corpo. A guerra no Iraque foi uma luta do império contra um ditador, certamente cabia a todos ser contra a guerra, mas daí a ter simpatia pela figura deplorável de Saddam apenas porque ele estava na outra ponta da batalha é uma grande distância.

Houve um tempo em que a esquerda criava ídolos que mesmo com alguma ressalva neste processo eram pessoas cujas atitudes eram compatíveis com a admiração. A ruptura das ideologias e a desconstrução das utopias fez com que o mundo real irrompesse nos sonhos e ideais e hoje o que se vê de uma forma geral é a admiração por personagens detestáveis, grotescos até – como Chavez. Sem querer provocar polêmica diria que em muitos casos esta admiração não é gratuita – no pior sentido do termo – mas vem de patrocínios ou esperanças de financiamento, como no Fórum Social Mundial realizado na Venezuela, no qual Chavez recebeu em elegias muito mais do que gastou em publicidade. Este comportamento só avilta as duas partes, vaidosos e interesseiros.

A preocupação humanista que sempre marcou os segmentos mais simpáticos da esquerda parece ter morrido. Tem-se todos os métodos dos piores segmentos – demagogia, justificativas táticas e estratégicas, “ética relativa”, arrogância das vanguardas – mas não se tem mais nem uma grande e nobre causa, um futuro mundo utópico a construir. Para quem começou a vida militando na esquerda e até hoje se considera mais próximo da “esquerda” no espectro ideológico não deixa de ser triste ver quão pouco de sonho e ideal sobrou.

sábado, 10 fevereiro, 2007 – 05:32

Responsabilidades

Fiquei quase dois meses sem escrever, primeiro por conta do excesso de trabalho no final do ano, depois por conta das férias com meus filhos, depois pela necessidade de colocar o trabalho em dia depois da volta das férias e finalmente por conta de nova onda de trabalho e atividades distintas. Com tantos assuntos na cabeça, acumulados ao longo deste período todo, nem sei direito por onde começar.

Começo então fazendo algo que normalmente eu não gosto, que é falando do próprio blog. Sempre acho certa “pobreza” os blogs que falam sobre si mesmos, sobre escrever um blog ou coisas do tipo, num arremedo de meta-linguagem que geralmente esconde a falta de assunto. Mas sem dúvida há momentos nos quais um balanço é necessário.

Acho que sempre lembrarei do ano de 2006 como o “ano do blog”, afinal ainda que ele não tenha sido o acontecimento mais importante teve um papel central em tudo que me aconteceu no ano passado. As rotinas nunca me agradam, sinto-me a vontade para ser “conservador” ou “libertário”, meditativo ou ativo, político ou literário, enfim, em assumir o papel necessário para realizar as tarefas que devem ser feitas. Penso que o blog me ajudou se não a entender ao menos a racionalizar estas diferentes facetas necessárias a vida cotidiana.

Penso que também em parte estas funções diversas auxiliaram a me fazer ficar um pouco distante do blog. Havia, afinal, algumas necessidades de agir a partir de muitas reflexões feitas e nem sempre estas ações combinam com a reflexão. Claro que isto não quer dizer “ligar o piloto automático” e agir por impulso. Como dizia já Ibn Khaldun no século XIV – os pensadores em geral são as pessoas menos apropriadas para governar porque estão por demais preocupadas nas questões gerais, nas concepções abstratas, nas grandes linhas, enquanto o governo exige atenções específicas, escolhas muitas vezes mais táticas que estratégicas.

Numa outra linguagem brinco sempre que para algumas atividades é necessário ser brâmane e em outras ser xátria. Nas crenças hindus e budistas esta distinção fica clara na medida em que os avatares muitas vezes pertencem à casta guerreira e não à sacerdotal. Só os santos, capazes de superar os sentimentos essenciais – “gunas” na terminologia hindu – são capazes de estar além e acima de qualquer limitação de visão e ação de casta. Claro que penso aqui em castas no sentido de tipos de personalidade a partir dos valores e emoções que orientam cada um – portanto abertas a cada um no seu processo individual de aperfeiçoamento – e não em distinções baseadas no nascimento.

Como avaliar qual é o momento de agir e qual o de apenas observar e orientar… Esta é uma questão que estou sempre me fazendo, talvez jamais aja uma resposta padrão.

2006 foi um ano no qual mergulhei um bocado dentro de mim mesmo, enfrentei lutas interiores, esforcei-me para aprimorar-me. 2007 parece ser um ano voltado para uma esfera mais pública, com outros tipos de tarefas e desafios. Há certamente uma continuidade entre os dois momentos, sem a evolução da disciplina e do auto-conhecimento jamais pensaria neste outro horizonte de tarefas.

Da mesma forma não buscaria estas atuações em outros horizontes. Mas como pessoa que costuma aceitar seu destino não fujo das tarefas que aparecem a minha frente, nem tento me esquivar das responsabilidades que surgem sem que eu tenha buscado por elas. E me lembro aqui, mais uma vez na minha vida, de uma tradição islâmica que diz que o muçulmano não deve buscar as honras da função pública, mas se for escolhido deve aceitar, contando então com a proteção de Deus. Há seis anos tornei-me servidor público obedecendo a esta regra e renovando-a a cada novo desafio. Agora de novo tenho de invocá-la.

Leitor apaixonado de Gasset não me desiludo com a democracia e a política mesmo quando parecem não faltar motivos para isto. Em 2006, mesmo em plena eleição, pude ser o pensador do tipo que Khaldun menciona, preocupado com as grandes questões gerais, tanto quanto possível despreocupado com o que Lobato chamava de “papeluchos que uma gente deposita numa caixa chamada urna”. 2007 começou com a política “real” batendo na minha porta e me convocando para romper os tecidos que a separam daquela outra política de pensadores, deixando que outros valores, métodos e debates irrompam nestes nossos horizontes turvos.

É o tipo da situação que é muito tranqüila quando vista de forma abstrata, mas terrível quando colocada de forma concreta na sua frente reclamando, mais uma vez, uma escolha. Continuar em um universo quase sempre contemplativo, reflexivo, como nos últimos meses; ou atender o chamado à ação, à prática, ao embate concreto nem sempre no plano ideal, sacrificando algo ou muito da flexibilidade e comodidade, mas por outro lado podendo demonstrar com mais clareza que outros caminhos são possíveis. Não é uma escolha fácil, mas é uma escolha que o sentimento de dever já fez por mim e que, sobretudo, chega na hora certa – seria imprópria em 2006, por exemplo – e mais uma vez me coloco a serviço do meu destino.

sexta-feira, 9 fevereiro, 2007 – 14:00

Os limites éticos da experimentação animal

Os limites éticos da experimentação animal –

A questão da experimentação científica e vivissecção de animais suscita debates acalorados nos quais torrentes de argumentos são expostos, muitas vezes confundindo mais do que esclarecendo. É neste turbilhão de informações nem sempre completas e interesses complexos que o Código Estadual de Proteção Animal (Lei 11.977/05) tem sido muitas vezes julgado e criticado, tal como foi no artigo “Em Defesa da Experimentação Ética com Animais”, dos professores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP Cassio Xavier de Mendonça Júnior, Ângelo João Stopiglia e Maria Lúcia Zaidan Dagli.

ler mais

[Tucanet]

terça-feira, 19 dezembro, 2006 – 13:57

O macaco estava certo

Dr. Zaius: Guardião dos segredos terríveis e da dúvida se o macaco estava certo.

Um dos meus filmes preferidos sempre foi “O Planeta dos Macacos” de 1968. Ainda era criança a primeira vez que assisti mas me impressionou muito e a cada vez que assisto me chama a atenção um outro ângulo. Caso raro no qual os roteiristas e o diretor conseguiram produzir um resultado muito melhor e mais profundo do que o livro no qual foi baseado alterando quase tudo. Para ter uma idéia do livro basta dizer que a infeliz versão mais recente de “O Planeta dos Macacos” é relativamente fiel ao livro, por isto não estava lá a maioria dos elementos que tornaram a versão de 68 um clássico, mesmo nestes tempos de efeitos especiais. O primeiro ângulo que me chamou a atenção no filme, ainda quando tinha uns 6 anos, foi a questão dos maus-tratos aos animais, a vivissecção, as caçadas, as quais ganham uma força significativa através da inversão de papéis. Como até hoje esta é uma questão relevante para mim e uma das minhas batalhas pessoais, profissionais e políticas sinto a importância daquele filme. Outro aspecto que vi com interesse algum tempo depois foi a manipulação e o controle da informação e do conhecimento. No filme uma das mais relevantes cenas neste sentido é aquela na qual o promotor prova que o humano não tem raciocínio porque é incapaz de citar ou expor o significado das escrituras sagradas dos macacos.

Inquisição: No “julgamento do humano” – contrafacção do “julgamento do macaco” no qual fundamentalsitas condenavam a evolução – o desconhecimento das escrituras sagradas é prova da falta de raciocínio de Taylor.

Há, contudo, uma dubiedade no filme e em grande parte esta é a grande criação que adiciona algo que não faz parte nem de forma embrionária do livro original que é um tanto difícil de comentar sem estragar a história para quem não viu o filme nenhuma vez aindaA despeito do infeliz designer da capa do relançamento do clássico em DVD ter tido a imprudência de usar justamente a cena do desfecho como base..Esta dubiedade é personificada no filme pelo antagonista, Dr. Zaius, ao mesmo tempo conhecedor da história toda, portador de conhecimentos que os outros buscam – e que se revela no final da história – mas que esforça-se a todo custo – utilizando os dogmas religiosos – para que não seja conhecido. Quando ele diz ao astronauta para não procurar respostas porque pode não gostar delas – frase que em certo sentido resume um do dramas essenciais do filme, na minha visão – dr. Zaius demonstra que há um certo sentido em todo aquele ocultamento das verdades por detrás do sagrado. Há algo terrível a ser escondido para que não se repita, tal como tantas seitas e místicos ao longo da história disseram. O diretor estava talvez preocupado com os problemas da sua época e os medos daquele momento, sobre os quais também não posso falar muito sem estragar algo da história do filme. Se ele teve também uma certa interpretação metafísica da história não saberia dizer com certeza, apenas especular. Mas diria que na última vez que assisti o filme na semana passada a “descobri” com bastante clareza a ponto dela parecer evidente e até me espantar por não tê-la visto antes. Um aspecto curioso é que esta outra interpretação, que cria uma outra “camada” no filme no qual a jornada de Taylor é em certo sentido um percurso quase iniciático transforma a posição dos personagens e faz do antagonista Dr. Zaius quase um guia, enquanto dá um certo caráter perverso aos cientistas-chimpanzés cheios de bondade e especulação. Não deixei de me lembrar de uma frase de Schuon na qual ele diz que tudo que pertence a este nosso mundo, a este estado, é dúbio, até mesmo a tradição e seus guardiães. Também curioso que esta afirmação está justamente no trecho em que ele fala sobre certo conceito associado a simbologia do “defeito do tapete” – que comentei em artigo anterior – e eu tenha tido a impressão justamente de ter encontrado o defeito neste tapete.

quarta-feira, 13 dezembro, 2006 – 12:56

Admirável Mundo Novo nos filmes infantis

Tenho falado diversas vezes sobre o triste fim da literatura infantil, em triste decadência. Sempre uso o exemplo de que as obras infantis de Monteiro Lobato dificilmente conseguiriam ser lidas pelas crianças de hoje, mas por outro lado tenho de reconhecer a qualidade crescente dos filmes infantis. E quando falo em qualidade não me refiro apenas à crescente e impressionante qualidade técnica, mas também à sofisticação dos roteiros.

Tenho falado diversas vezes sobre o triste fim da literatura infantil, em triste decadência. Sempre uso o exemplo de que as obras infantis de Monteiro Lobato dificilmente conseguiriam ser lidas pelas crianças de hoje., mas por outro lado tenho de reconhecer a qualidade crescente dos filmes infantis. E quando falo em qualidade não me refiro apenas à crescente e impressionante qualidade técnica,Com destaque para a utilização de grandes atores na caracterização dos personagens e vozes. mas também à sofisticação dos roteiros.

A primeira vista este aparente paradoxo de livros infantis com conteúdo se degradando e filmes para crianças em uma escalada positiva de aprimoramento sugere a hipótese de uma mudança de linguagem e meio no qual a linguagem multimídia substitui a escrita. Talvez ainda seja cedo para afirmar isto, mas há vários aspectos que apontam para que esta hipótese não seja de todo descartada.

O mundo vai se tornando mais complexo, mas muito do que se tenta escrever para crianças segue fórmulas antigas, está repleto de pretensões pedagógicas – portanto carente de sinceridade. Ao mesmo tempo uma coisa que me chama atenção nos roteiros de vários filmes infantis recentes é justamente a complexidade das tramas e dos dilemas éticos e morais dos personagens. Ainda que sem dispensar os finais felizes recomendados para filmes infantis, vários deles não tem aquela postura maniqueísta, aquela separação clara entre bem e mal. Tenho 38 anos e os filmes infantis que assisti quando crianças em geral tinham estas imagens simplistas e estereotipadas..Heróis e burocratas: O burocrata submetendo o herói em um contexto quase nietzschiano em “Os Incríveis”.

Apenas para citar alguns exemplos simples o dilema entre natureza e cultura no leão de Madagascar, os conflitos éticos do guaxinim e a guerrilha anti-consumista em “Os Sem Floresta”Diria que a tradução do título “Over the hedge” para “os Sem Floresta” foi mais do que feliz e apropriada na versão brasileira., o paradoxo do pirata em “Piratas do Caribe 2” que tem uma bússola que aponta para o que ele mais deseja, mas que não funciona porque ele não consegue decidir o que mais quer, os conflitos da inveja em “Toy Story”, a oposição entre o heróico e o burocrático – que nos bons aspectos lembra Weber e nos nem tão positivos NietzschePor sinal até mesmo com o direito à cólera heróica. – em “Os Incríveis” com seus super-heróis aposentados pelos processos judiciais, para não falar das maravilhosas descontruçõesClaro que nem sempre as desconstruções são felizes, como prova a tentativa, a meu ver infeliz, de recontar a história de Chapéuzinho Vermelho em “Deu a louca na chapéuzinho, infeliz até no título traduzido, como história policial. dos contos de fada e do consumismo nos dois filmes de Shrek.Também me chama a atenção algumas citações elaboradas, como a de “Beleza Americana” em “Madagascar” ou de “Cidadão Kane” em “Os Sem-Floresta”, as quais pelo menos falam bastante sobre a formação das pessoas que trabalham nestas produções.

Um aspecto curioso a ser notado é que também as histórias infantis tradicionais tinham um conteúdo nas entrelinhas muito mais complexo, bastante explorado mas não esgotado pela psicanálise, e só nas fases mais recentes é que acabaram tornando-se assépticos e “morais”. Mesmo Lobato, por sinal, nada tem deste moralismo insosso e mesmo que escreva com a finalidade também de ensinar algo às vezes o faz sem pedantismo e com o desejo de ensinar a audácia de duvidar, criticar e pensar por si próprio. Mais vale ser um ogro feliz: Discussão sobre individualidade e diversidade em Shrek.

Como os modernos raramente entendem os símbolos acabam perdendo a capacidade de escrever para crianças através deles, chateiam ao invés de divertir, até porque as crianças hoje tem um acesso a informação muito maior. Ao mesmo tempo, penso eu, certa visão evolucionária não permite compreender que as crianças tem um outro tipo de sensibilidade – que com o tempo e a educação/adestramento se perde – que permite que elas compreeendam as coisas de forma muito mais profunda do que se possa imaginar, decifrem os sinais e até acessem certas noções simbólicas nem sempre muito evidente para nós adultos, que já temos a mente meio adormecida.Conformismo vilão: Adultos infantilizados e consumistas como antagonistas em “Shrek” e “Over the Hedge”.

A capacidade do ser humano de manter e ouvir os anciãos foi um elemento essencial na nossa evolução. Hoje em dia, em especial com a informática, Internet e a civilização eletrônica como um todo é comum que aja certa inversão com os filhos e netos ensinando aos pais e avós, o que pode ter alguns aspectos negativos. Contudo é preciso notar também que em um mundo de adultos cada vez mais infantilizados não deixa de ser alvissarreiro que as crianças sejam estimuladas de uma forma mais elevada, inclusive estimuladas contra o consumismo que é um dos aspectos essenciais desta infantilização dos adultos.Note-se que em diversos destes filmes, citaria em especial Shrek com sua fada-madrinha-perua e “Os Sem Floresta” com a síndica-perua, o antagonista da história é justamente o adulto infantilizado, porta-voz do consumismo.

terça-feira, 12 dezembro, 2006 – 12:23

Um cadáver perfumado sorrindo

Cadáver sorridente: Capa do livro “A publicidade é um cadáver que nos sorri” de Oliviero Toscani, responsável pelas campanhas polêmicas da Benetton.Raramente assisto TV, ainda mais TV aberta, eventualmente um ou outro programa e de vez em quando, por necessidade profissional, algum telejornal – não para me informar, claro, mas apenas para ver que tipo de informação os telespectadores estão recebendo. Nesta semana quando me arrisquei a ligar a TV fiquei meio chocado com a brutalidade de uma propaganda de perfume e fiquei imaginando como uma empresa que até me parecia séria pelas suas preocupações ambientais tem tão pouco apreço a sua imagem – ou tanta confiança na insensibilidade de seus consumidores – a ponto de idolatrar o consumidor e ironizar a beleza.

Na propaganda um garoto esforça-se para decorar um famoso soneto de Camões – que como incorporado à letra de uma música do rock nacional imagino que não seja nada assim tão transcendental – e quando o recita para a garota ela se espanta, ele fala pra ela esquecer e então dá o perfume e ela fica contente. Difícil ser mais grosseiro, retratar melhor o que há de pior na modernidade com a eliminação da beleza e do sentimento em proveito do consumismo.

Esta absoluta inversão de valores lembrou-me do livro do polêmico publicitário responsável pelas igualmente polêmicas campanhas da Benetton, Oliviero Toscani: “A publicidade é um cadáver que nos sorri”. A despeito da fama de utilizar a polêmica e até a ética e os valores mais elevados apenas para ganhar publicidade grátis as considerações que ele faz no livro, parecendo mais pensador libertário do que publicitário, não deixam de fazer alguns alertas sobre como estamos chegando no Admirável Mundo Novo.

Até o fato dele ser um publicitário bem sucedido reforça – e não atenua – na minha modesta opinião o impacto dos fatos que ele observa e para os quais chama a nossa atenção. A exposição sem máscara de uma visão de mundo no qual o sentimento e a beleza não tem valor, mas sim aquilo que nós podemos comprar, audaciosamente apresentada nesta propaganda – com o agravante de utilizar crianças – mostra que ou a empresa perdeu o senso ao aprovar a campanha que alguma mente doentia criou ou realmente estamos ainda pior do que se podia imaginar.

O caráter comercial das datas comemorativas, algumas delas criadas com a finalidade única realmente de vender, outras – como o natal – apropriadas inescrupulosamente pelas empresas que a esvaziam de sentido, não chega a ser um processo novo. Lembro-me lá dos tempos de minha adolescência militante quando minha cidade natal ganhou notoriedade nacional, no mal sentido, quando resolveu queimar em praça pública um livro didático que criticava, entre outras coisas, esta comercialização do natal. Na época apenas 2 dos 17 vereadores foram contra a “pequena inquisição” (um deles, Azuaite França é meu amigo e vereador até hoje e votei nele enquanto morei por lá), mas o resto do país ficou horrorizado com o obscurantismo e a ignorância (porque basicamente quiseram queimar o livro porque não o entenderam).

A diferença que mostra o grau de putrefação deste cadáver nesta e em uma ou outra propaganda que de vez em quando aparece idolatrando o consumismo sem rodeios, eufemismos ou metáforas, é que a transformação da data festiva em oportunidade de negócios aparece como elemento central, como a alternativa válida, como a coisa certa a fazer. Há no comercial grotesco a idéia de que não adianta tentar inventar ou sensibilizar, a única coisa que realmente tem valor é o sentimento expresso através de uma mercadoria.

De minha parte jamais voltarei a pisar numa loja que vende um produto anunciado desta forma, mas milhares de outros consumidores não perceberão a brutalidade da propaganda e outros milhões até acharão “legal” a propaganda e irão as lojas adquirir seu sucedâneo de lirismo. Saber que isto pode acontecer é que torna a propaganda triste como um velório.

quarta-feira, 6 dezembro, 2006 – 13:51

Ainda sobre Almodóvar, mulheres e homens

Fale com ela: Rosário Flores e Pedro Almodóvar durante as filmagens de “Fale com Ela” (2002). http://www.imdb.com

Um dos comentários que fiz no texto anterior, sobre o filme “Volver”, é que ao mesmo tempo em que ele destaca certa diferença de percepção masculina e feminina, o próprio fato dele ser um homem realizando filmes “de sensibilidade feminina” e que tem esmagadora maioria de seu público composto por mulheres é uma negação se não da diferença ao menos de que ela tenha a amplitude toda que faz parecer. Evidente que há algo de estilizado, portanto caricato como disse ontem, mas os aplausos do público feminino, por sua vez, também estabelecem certa contradição com esta idéia do caricato.

No filme considerado “masculino” de Almodóvar, “Fale com ela”, é evidente certa inversão de papéis, com uma mulher em um papel de toureiro que mais do que masculino é considerado até certo “símbolo” de virilidade D.H. Lawrence no primeiro capítulo de “A Serpente Emplumada” é dos poucos que mostra a tourada como uma farsa cruel e covarde. enquanto mostra um homem em um papel de enfermeiro também não só usualmente exercido por mulheres, mas também carregado de certa “simbologia” feminina.

O Macaco Nú: Capa do livro de Desmond Morris no qual ele tenta analisar e explicar alguns comportamentos humanos a partir de um ponto de vista estritamente zoológico.

Evidente que há diferenças significativas entre homens e mulheres quanto a diversos aspectos psicológicos. Contudo parece ser claro – e talvez por isto Almodóvar seja capaz de superar boa parte das contradições “caricatas” – que uma grande parte destas diferenças são culturais e sociais mais do determinadas por algum fator natural.

Embora comumente mencionados pelo senso comum, os padrões “animais” de comportamento masculino e feminino nos mamíferos não tem nenhuma base científica para o ser humano. Não por alguma questão moral ou religiosa, mas até pelas explicações biológicas e zoológicas sérias – e dentre todas destaco o excelente livro, clássico na década de 70, “O Macaco Nú”, de Desmond Morris – que ao invés de buscar meras analogias convenientes buscam comparar e explicar algumas ações segundo regras realmente científicas.

Por exemplo, ainda que o senso comum geralmente associe a sexualidade a um comportamento animal, Morris destaca que para nenhum outro animal o sexo tem um papel tão central e relevante quanto tem para o ser humano. Para os animais o sexo é um acontecimento eventual, quase sempre anual salvo para os animais menores, relacionado à necessidade de sobrevivência da espécie. O mesmo motivo, afirma ele, faz com que o sexo tenha este aspecto central na vida humana – dada a necessidade de um forte laço – mas desligado do processo reprodutivo.

Paradoxalmente, na contra-mão do que dizem algumas religiões, agir como um animal seria praticar sexo apenas com finalidades reprodutivas, literalmente falando. Chega a ser curioso, na perspectiva ocidental, que uma religião vista como machista e moralista (no sentido estrito que o termo tem para nós) como o Islam tenha sido praticamente a única não só a sacralizar o sexo como também definir direitos muito específicos para as mulheres neste aspecto.

Morris também destaca algumas explicações zoológicas – ainda que seu estudo esteja um pouco desatualizado – para alguns comportamentos que tornam o homem um animal com características diferenciadas. Duas delas são bem relevantes, uma é a diluição das hierarquias e padrões de dominância, necessária à caça e coleta cooperativa necessária aos bandos proto-humanos O que em grande parte vem de certa feminização, inclusive do ponto de vista hormonal e a outra é justamente uma significativa redução das diferenças entre machos e fêmeasDiga-se de passagem que o orgasmo feminino é um privilégio humano sem similar em outros animais e que esta redução das diferenças vem em grande parte das dosagens de hormônio masculino nas fêmeas. Em parte alguns destes aspectos existem já nos bonobos, primatas mais próximos dos homens com os quais compartilhamos mais de 99,5% dos genesAinda que muitos estudos recentes tenham demonstrado que algumas dimensões “utópicas” dos bandos de bonobos construídas por estudos antropológicos tenham sido exageradas..

Não há, assim, nenhum embasamento mais sério que justifique as teses, muito difundidas em livros de auto-ajuda e revistas femininas, de alguma diferença fundamental e essencial entre homens e mulheresA rigor, fisiologicamente falando, um homem apenas com testoesterona teria a ejaculação precoce que caracteriza todos os demais machos mamíferos e uma mulher sem nenhuma dosagem de testoesterona seria frígida como as demais fêmeas mamíferas.. A separação dos dois mundos ocorreu ou muito antigamente – quando se imagina as divisões primitivas do trabalho e das esferas pública e privada – ou muito recentemente, quando se leva em conta a perda de relevância da família como estrutura socialCresce a cada ano, por exemplo, a proporção de mulheres que são chefes de família..

As diferenças vão crescendo – sob o estímulo do mercado, por sinal, para o qual quanto mais nichos e segmentos houver mais probabilidade de agregar valores haverá – estimuladas por certa necessidade de afirmação e pela imposição de valores grupais. Quase arrisco-me a dizer que há uma perenização do comportamento de uma determinada fase infantil na qual meninos e meninas vivem em mundos hostisE como a infantilização dos adolescentes vem avançando até as primeiras fases da vida adulta, por sinal, como já previa Huxley em Admirável Mundo Novo que é uma sociedade de adultos em eterna adolescência.

É neste contexto que os filmes de Almodóvar fazem uma curiosa reflexão sobre papéis e naturezas, às vezes confirmando-os, às vezes negando-os, muitas vezes brincando com o fato comumente ignorado pelas políticas sexistas de um lado ou outro de que também os homens estão sujeitos a um papel social, mas em todo caso sempre fazendo refletir sobre isto, mesmo que em certo sentido realmente “histérico” no sentido original do termo, ou seja, uterino, visto que ele se move em um mundo ao mesmo tempo essencialmente feminino mas também quase misógino, no qual as mulheres estão sempre a beira de um ataque de nervos.

terça-feira, 5 dezembro, 2006 – 14:45

Volver

Volver: Carmem Maura e Penélope Cruz , “Volver”. http://www.imdb.com

Meus filmes preferidos de Almodóvar são “A Flor de Meu Segredo” e “Fale com ela”, mas sem dúvida o último filme, “Volver”, é bem impressionante. A temática principal do filme, para mim, pareceu ser a cumplicidade feminina, e neste sentido “faz par” com a cumplicidade masculina de “Fale com Ela” os cartazes dos três filmes, retirados do site de cinema http://www.imdb.com, estão disponíveis nos links para download abaixo. Claro que é uma teoria muito particular e qualquer explicação sobre a criação tende a ser reducionista e frágil. Contudo é preciso notar que Almodóvar sempre parece ter uma linha ao longo da qual cria os filmes.

Sempre destaco que praticamente todos os filmes até “Tudo sobre minha mãe” já estavam em esboço em um filme dele de 83, “Maus Hábitos” “Entre tenieblas” no título original, o que reforça a idéia de uma continuidade e até complementaridade entre os diversos projetos, até porque parece haver certa unidade estética entre os filmes desta fase as cores berrantes, os bolerões que alteram-se nos filmes seguintes. “Volver” é quase todo em três cores, branco, negro e vermelho, todas as demais sendo quase incidentais, ao contrário das “cores de Almodóvar” dos filmes mais antigos ou dos tons pastéis, em particular a cor tipicamente masculina do violeta, em “Fale com Ela”O próprio predomínio do vermelho em Volver e do violeta em Fale com Ela, inclusive no cartaz, fala sobre esta complementaridade.

A despeito de certa representação estilizada, portanto sempre tendendo a certa caricatura, não deixa de ser curioso que em “Fale com ela” o centro sejam dois personagens masculinos, mas o foco sejam as mulheres, enquanto em “Volver” os homens são quase ausentes, sendo apenas elementos perturbadores. O fato de ser um homem a escrever e dirigir filmes que tem uma esmagadora platéia feminina e que fala sobre as mulheres e os sentimentos femininos é, por si só, uma certa contra-prova da tese central do diretor que há uma sensibilidade feminina diferenciada da masculina. Às vezes até acho que no fundo há uma certa misoginia em Almodóvar, quem sabe até uma “inveja do útero” como diria alguma escola de psicanálise heterodoxa.

Uma das referências que piscaram na minha mente quando assisti o filme foi um trecho de Mircea Eliade no qual ele compara a visão religiosa da morte nas sociedades primitivas baseadas na caça – de natureza masculina – e a visão das sociedades agrícolas – de natureza feminina. A despeito de certos discursos sexistas, as sociedades humanas evoluiram do patriarcado das sociedades de caça – que deram o caráter coletivo e público às sociedades masculinas e a perspectiva individual e privada das mulheres para as sociedades matriarcais baseadas na agricultura.

A caça, por lidar com recursos que a experiência logo mostrou serem escassos, via a morte como um acontecimento trágico. Até hoje as sociedades de caçadores – que tem como concepção de mundo a visão xamânica muito similar atestando sua antigüidade e embasando as teorias de que também nossos ancestrais pré-humanos praticavam crenças semelhantes – demonstram um respeito pela presa e invocam a necessidade de pedir perdão a ela e permissão a algum ser superior para o abate (assim como de alguma forma prevêem a existência de algum tipo de “senhor ou senhora das feras” que pune os abusos, arquétipo tanto de Diana grega como do Curupira brasileiro).

Já a descoberta da Agricultura deu ao ser humano a perspectiva de recursos renováveis e uma cosmovisão da morte relativizada. Eliade chega a insinuar que os sistemas simbólicos que falam de juízo final são masculinos e pastoris (o pastoreio sendo a versão atualizada da caça) e os centrados na transmigração sejam agrícolasEliade também destaca que os rituais cruéis, sacrifícios e holocaustos inclusive humanos, surgem nas sociedades femininas. A hipótese é tentadora, ainda que historicamente tenha muitas exceções para se confirmar, a maior dela na Índia dominada pelos indo-europeus.

Mas a despeito de todas as reflexões sobre a morte, em particular pela belíssima cena inicial do filme em um cemitério, o filme não me pareceu ser sobre ela, mas sobre a estruturação de uma sociedade cada vez mais feminina em um mundo no qual os homens estão mais ausentes (e neste sentido “Volver” tem um certo laço com “Tudo sobre minha Mãe”). A própria cena inicial pareceu-me ter exatamente este caráter, assim como o fato dos personagens masculinos serem praticamente figurantes, mesmo quando geram algumas das chaves do filme.

Não tenho conhecimento para avaliar o filme do ponto de vista técnico, mas arrisco-me a observar que o bom desempenho da usualmente medíocre Penélope Cruz ajudou-me a resolver uma dúvida – se Almodóvar tem um talento especial para escolher bons atores e atrizes ou se é a sua direção que faz com eles rendam todo o seu potencial. Fiquei também curioso em encontrar uma explicação para a substituição dos bolerões – menos presentes desde “Fale com Ela” – pelo Flamenco, em particular pelo flamenco mais “morisco” no qual os vocaleios são mais importantes, igualmente trágico, mas enérgico ao invés de lamuriento. Certamente Cruz não é Estrella Morente, mas o desempenho quase de improviso é aceitável.

Estrella Morente cantando a música flamenca do filme, link youtube http://www.youtube.com/watch?v=ezAUF0rq46c , Visualização Flash neste site

segunda-feira, 4 dezembro, 2006 – 12:28

Seleção e eleição

Uma de minhas maiores ambições intelectuais – cuja dificuldade de ser realizada não impede que seja um estímulo à reflexão – é ser capaz de juntar as duas pontas opostas do legado da Grécia Clássica. De um lado a filosofia – de natureza essencialmente aristocrática – e de outro sua antítese a democracia, contra a qual os filósofos – em especial a ainda insuperada tríade Sócrates, Platão e Aristóteles – construiram a maior parte das suas idéias.

De um lado o argumento aristocrático, a noção de que aquele que governa deve ser preparado, treinado, aprimorado, disciplinado – lembro de Sócrates comentando que para montar um cavalo era preciso treinamento, mas não para dirigir um Estado – é quase irrefutável. De outro o argumento democrático de que toda aristocracia degrada-se durante o tempo e o que era dever reduz-se a privilégio inadmissível está mais do que comprovado pela história. Até Nietzsche – talvez a última voz que defende sem subterfúgios o domínio da elite – faz um parênteses “dirigido aos idiotas” para esclarecer que quando fala de aristocracia não está falando do “Almanaque de Gotha”.

Em um mundo ideal as duas visões não seriam antitéticas, pois a liberdade de escolher levaria a se escolher os melhores e mais qualificados. Contra esta perspectiva utópica vários autores falam de uma certa aversão da massa ao excelso e ao que se destaca, ainda que seja talvez o autor que, na minha modesta opinião, melhor conceitualizou estas questões – Ortega y Gasset – seja justamente um dos poucos que acredita – de forma meio quixotesca como a minha – que um outro futuro no qual esta dualidade homem-seleto/homem-massa possa se resolver.

Em tese, ao menos, eu acredito que a Democracia tem o potencial de ser o mais eficiente e perfeito meio de seleção possível para a formação de uma elite. Os critérios “hereditários” – que graças a Deus ninguém mais leva a sério hoje em dia – já demonstraram que são ótimos para desmoralizar o conceito de “aristocracia”, tirando dele seu sentido original de governo dos melhores, que se sacrificam por sentir um dever maior, para dar a ele a idéia degradante de gente degradada e decadente aferrando-se a privilégios e furtando-se aos deveres, julgando-se superior sem precisar demonstrar de fato superioridade alguma.

Certas concepções de “carreiras abertas ao talento”, seleções por concursos diversos, certas concepções de “mandarinato” (como nos milênios em que funcionou na China) tem também sérios inconvenientes porque com o tempo leva a certa estagnação e burocratização além do limite, afinal há qualidades, notadamente qualidades políticas e mesmo certas características de carisma, que não podem ser apuradas através de “concursos”. Assim este sistema de seleção, com o tempo, tende a gerar crises internas, em particular quando a solidez e estabilidades do sistema que cria acaba tornando-o impróprio para a realidade. Isto não significa que a idéia é ruim, apenas insuficiente para dar conta de todas as situações.

Ademais eu não compartilho da crença de que a educação resolve todos os problemas. Usando um exemplo que gosto muito pela simplicidade – e talvez para que cada um pense em si próprio -é o caso do trânsito. As maiores barbaridades que vejo no trânsito – costuras e ultrapassagens arriscadas, carros investindo contra pedestres, fechadas que quase geram tragédias, atropelamento em massa por direção arriscada – não são provocadas na imensa maioria das vezes, por carros velhos e pobres, mas pelos carros importados, pelas grandes peruas, por carros esportivos pilotados por algum “ás no volante” – copiando o trocadilho de um amigo – cuja educação, bom nível social, acesso à cultura, vida confortável não foram capazes de produzir um bom cidadão.

Se aqueles que foram aquinhoados com o que a sociedade tem de melhor não são capazes de ter a estatura ética e moral de um pequeno camponês hoplita da Grécia, ou até menos de algum servo medieval, que tinha mais nobreza na compreensão de seus deveres que tantos parvenus, então só se pode concluir que o problema está muito além de educação, dinheiro, bem estar. Lembrei de um crítico de Nietzsche, Will Durant, que assinalando o óbvio diz que basta olhar em volta para ver que as virtudes dos fracos que ele identificava com o judaímo/cristianismo, não estão obrando, mas faltando em um mundo onde prevalece justamente as cóleras individualistas e egocêntricas daqueles que se julgam super-homens superiores aos outros.

A democracia mesmo nesta situação conturbada tem certo mérito porque ao menos seleciona – pelo menos em tese – aqueles que não só tem as condições “técnicas” de exercer o poder, mas também aqueles que – ainda que em um mundo ideal – tivessem as qualidades “políticas” de persuadir, convencer, negociar (no bom sentido do termo hoje tão degradado) e trazer apenas pelo poder da palavra a maioria em favor de sua visão.

O problema, assim, estaria localizado – como viu Ortega y Gasset – em criar uma tal educação política e consciência cívica nas massas que em algum momento do futuro elas viessem a escolher pelos motivos certos a tal ponto que a escolha seria também uma seleção. Esta tarefa, que ele próprio considerava necessária e quixotesca, só poderia ser feita por uma elite de fato – jamais pelo Estado, que distorceria a tarefa em proveito próprio e com tendência estagnante – que sem preocupar-se com o poder estivesse disposta a realizar esta tarefa, sobretudo pelo exemplo e pela disciplina.

sexta-feira, 24 novembro, 2006 – 01:15

Uma utopia mais do que pessoal

Hoje eu queria propor a cada leitor um pequeno exercício de imaginação e, quem sabe, auto-conhecimento. Queria que cada um imaginasse como seria o mundo se todas as pessoas fossem iguais a ele nos valores, nos comportamentos, nas posturas, e sinceramente refletisse se um mundo cheio de imagens de si mesmo seria melhor ou pior do que o mundo no qual vive.

Imagino que a grande maioria das pessoas, em algum grau pelo menos, quer um mundo melhor e tem alguma idéia de como ele seria, algum projeto, alguma coisa que gostaria de melhorar. Alguns até se empenham de alguma forma para melhorar o mundo em sua volta – me lembrei aqui da inscrição na oficina de ferreiro do protagonista do excelente filme Cruzada: “que homem é o homem que não torna o mundo melhor” – mas mesmo aqueles que não agem neste sentido tem alguma noção de algo que poderia ser melhorado.

Contudo em todo desejo de melhorar o mundo reside o perigo terrível de ser, no fundo, um certo escapismo, uma forma de lidar com a incapacidade de melhorar a si próprio. Como diz um trechinho de Pessoa que mencionei diversas vezes:

”Revolucionário ou reformador – o erro é o mesmo. Impotente para dominar e reformar a sua própria atitude para com a vida, que é tudo, ou o seu próprio ser, que é quase tudo, o homem foge para querer modificar os outros e o mundo externo. Todo o revolucionário, todo o reformador, é um evadido.”

O que não significa de forma alguma que devemos deixar de lutar por um mundo melhor, até mesmo o aspecto meio quixotesco que esta luta às vezes assume o torna ainda mais importante e necessário. A noção de não fazer ao outro o que não se deseja que seja feito a si próprio, no qual pode ser resumida a ética de praticamente todas as religiões, acabou se tornando também um pouco distante e abstrata, então este exercício que proponho é um pouco a proposição inversa, o imaginar como seria ser tratado por todos, em todas as situações como trata aos outros.

Não sei quantos conseguem ser sinceros neste exercício, mas creio que imaginar como seria mover-se em um mundo de “clones” de si próprios, como reagiria sendo atendido no balcão da padaria por alguém que o tratasse exatamente como si mesmo trataria, ter a si próprio como chefe e subordinado, professor e aluno, enfrentar a si próprio como motorista e passageiro em um engarrafamento. Imaginar que o presidente da República e os deputados e senadores pensariam e agiriam exatamente como se fosse você mesmo naquela posição.

O mais difícil nesta “empatia ao contrário” seria ser capaz de avaliar se o9 mundo seria melhor ou pior. Talvez fosse mais chato, visto que muito do sentido do mundo vem da diversidade de visões e opiniões e sentimentos, mas a identidade de pessoas não significaria obrigatoriamente que tudo seria igual. Aliás uma das coisas que me atrairam em pensar neste jogo mental é justamente como agimos de forma diferente, justificamos com argumentos diferentes nossas atitudes quando estamos em “lados diferentes do balcão”.

Chego a imaginar até que quanto mais incoerente uma pessoa seja nos seus diversos papéis mais conturbado e até conflituoso seria este mundo hipotético. Não significa que devemos ser coerentes em tudo, nos mínimos aspectos de nossa vida, pelo contrário acho que a sabedoria está em grande parte em ser capaz de dar respostas adequadas a universos restritos específicos.

Mas algumas das contradições deste comportamento aflorariam de forma clara porque nos obrigaria a pensar se somos justos no tratamento dos outros. Como seria nosso chefe se ele nos tratasse exatamente da mesma forma que tratamos nossos subordinados; como seriam nossos subordinados se agissem exatamente como agimos em relação a nossos chefes.

Como se sentiria o vendedor insistente ou o cliente arrogante se tivesse de lidar com alguém que o tratasse exatamente da mesma forma que ele. E se todo mundo dirigisse exatamente da mesma forma que você dirige, será que o trânsito seria melhor ou pior, será que haveria mais engarrafamentos, acidentes, atropelamentos, mais ou menos buzinadas, xingamentos, brigas ou ele fluiria com mais tranqüilidade e lógica. Às vezes penso que uma resposta sincera a esta questão simples como esta teria um potencial quase revolucionário, porque a cada vez que estou em um engarrafamento quase vejo ali concentrados todos os problemas éticos e psicológicos da humanidade, infelizmente com a maioria mostrando seu pior lado.

Engraçado que nem sinto necessidade de estender muito o exercício para outras tarefas maiores, por exemplo sugerir que o leitor imagine como seria o Brasil se o Presidente da República, os parlamentares, os juízes pensassem exatamente como ele. De alguma forma sinto que se fossemos capazes de imaginar este cenário nas pequenas coisas – e, claro, tomassemos as atitudes para fazer que com o tempo este mundo imaginário fosse melhor – todas as demais coisas se tornariam muito melhores. Partindo da premissa, talvez contestável, de que no fundo o homem tem ao menos um vago desejo de ser bom.

Enfim, se o leitor fosse capaz de responder sinceramente se este mundo imaginário seria um cenário edênico ou kafkiano eu acho que só esta resposta – ainda mais no segundo caso – teria um efeito mais do que revolucionário.

quinta-feira, 23 novembro, 2006 – 14:27

Guerreiros e pacifistas

Sou um pacifista radical, mas um pacifista que não só não deixa de admirar as qualidades de guerreiro – como dizia Gandhi, ao pacifista são necessárias todas as qualidades do guerreiro menos o crime – como também tenho a consciência de que há momentos nos quais a luta é necessária. Não só aquela luta íntima pelo aprimoramento constante, pela necessidade de superar-se sempre, mas ás vezes também a luta que tenta restabelecer o equilíbrio ao redor. Talvez por isto eu tenha a satisfação de ter entre meus amigos tantos pacifistas radicais como diversos militares e me entenda muito bem com ambos.

Aliás uma verdade que transparece em inúmeros livros de memórias escritos pro militares e em relatos de guerras é justamente que ninguém odeia tanto a guerra como os soldados, nem por isto eles se furtam ao seu dever. Os louvores à guerra como estado permanente, como ideal até – em alguns casos – vem em geral dos gabinetes refrigerados e românticos da academia e da burocracia, não dos quartéis.

Também as estratégias e táticas militares que levaram às diversas políticas de “açougueiro” – em especial nas guerras que ocorreram desde a Guerra Civil Americana, que a grosso modo foi a primeira guerra “de massas” – com grandes massacres não vieram de militares de carreira, nem de elites militares tradicionais. Não fossem as razões humanitárias, ficaria muito curioso em ver como todos estes nietzschianos de boteco que infestam a Internet iriam resistir a alguns dias na trincheira enfrentando uma investida inimiga à ponta de baioneta para cumprir o ideal de super-homem de seu mestre, só para ver se resistiriam mais do que os poucos dias que o próprio conseguiu viver no exército (claro que todos eles acham que seriam oficiais bem longe da linha de frente).

Os grandes povos é segmentos guerreiros, por sinal – mongóis, turcos, mamelucos, cossacos, highlanders escoceses (derrotados justamente por enfrentar em combate de grandes proporções os ingleses, mas depois incorporados ao ex[ercito britânico como unidade especial), celtas (o grande mérito de estrategista de Cesar foi sobretudo forçar Vercingetórix a um confronto direto de grandes proporções, do qual o líder gaulês fugia), citas e tantos outros – sempre evitaram a carnificina e o embate direto, procurando elo contrário o combate de atrito. Também neste sentido não se pode esquecer que buscar o confronto direto somente quando há condições de superioridade é um dos conselhos mais persistentes e evidente da Arte da Guerra.

A guerra, eu diria, só é bonita entre aqueles que a conhecem só através de alguma imaginação romântica, alguma impressão subjetiva. Aqueles que realmente a lutam sabem que ela tem faces terríveis, mas tem a sensação de dever suficiente para saber que mesmo sendo sempre ruim às vezes é inevitável. Não me arriscaria a definir algum parâmetro objetivo sobre a “guerra justa” – dilema ético, religioso e filosófico debatido há milênios sem alguma resposta totalmente satisfatória. Penso que é uma questão tão complexa, tão cheia de nuances, tão influenciada pelas propagandas e ideologias, que não pode ser totalmente resolvida salvo em alguns poucos casos.

Um deles, que eu já citei inúmeras vezes, é a atual luta entre Estado com a sociedade contra o crime organizado. Luta que embora, para mim, seja evidentemente uma guerra tão justa como necessária, tem sido alvo de críticas e emperramentos pelo que me parece um excesso de pacifismo que pode até ser letal para a civilização – ao menos em algumas regiões – em algum ponto do futuro. Claro que é necessário combater o crime organizado também através da extensão dos serviços e equipamentos públicos às zonas de litígio, com a educação, a cultura, o lazer, o desenvolvimento econômico e tudo mais, estas questões também fazem parte da batalha. Mas, enfim, este é apenas um exemplo para debate, sem nenhuma pretensão de encerrar o assunto nem desviar da questão principal.

Dois livros bem conhecidos, por sua vez, falam um pouco do excesso de formalismo da disciplina militar, que acaba levando a certo esvaziamento de sentido. De um lado “O Deserto dos Tártaros” de Dino Buzatti – onde um forte meio esquecido é mantido especialmente pela ilusão de glória que um dia seria trazida por uma guerra improvável, no qual o excesso de preocupação com o regulamento preenche o vazio de atividade. O outro é “O Cavaleiro Inexistente” de Italo Calvino, no qual se confronta a minuciosa preocupação regulamentar de um cavaleiro que não existe, a vanglória dos outros paladinos e o ardor de dois jovens cavaleiros meio revoltados com toda aquela burocracia que lhes parece sem glória.

Vale lembrar que também em “Nada de novo no Front” – livro que comentei há alguns dias – Erich Remarque em diversos momentos ironiza e até critica ferozmente os militares que estavam bem longe da linha de frente e se apegavam a todos os formalismos possíveis, até desvalorizando aqueles que realmente estavam arriscando a vida. É o caso de um major que exige as continências regulamentares e ameaça puni-lo por “trazer os maus hábitos da frente” ou o sargento instrutor que tortura os recrutas, mas treme de medo quando é mandado para a frente e revela-se um completo covarde.

Se a belicosidade é um comportamento deplorável é preciso reconhecer que também o é a covardia. Quando a primeira se volta para si próprio pode levar ao necessário aprimoramento, mas mesmo aí há limites, há momentos no qual ela se torna auto-destrutiva. A covardia, pro sua vez, mesmo em pequena quantidade acaba levando a uma degradação do ser humano. A postura adequada do pacifista, assim, me parece ser aquela na qual a rejeição da violência e do conflito não é movida pela covardia, mas por certa coragem realmente guerreira, porque no soldado há sobretudo o auto-controle e não a mera expansão desenfreada das paixões e iras, cimo pensam aqueles que desconhecem de fato a guerra.

terça-feira, 21 novembro, 2006 – 15:02

A face terrível da guerra

Penso que uma das maiores qualidades de “Nada de novo no Front” de Erich Maria Remarque é o fato de ter sido escrito por um soldado. Não é uma reflexão pacifista abstrata, construída nos gabinetes. Chego a achar curioso que na narração das cenas cotidianas, nem por isto menos terríveis, da frente de batalha ele destaque justamente a imensa vontade de viver, o aguçamento da vontade, o raciocínio par além de qualquer limite, salvo às vezes a camaradagem, enfim, todas aquelas modificações no soldado que são enaltecidas por tantos pensadores militaristas – Nietzsche em particular – mas que são mostradas em toda a sua crueza e crueldade, nos seus efeitos desumanizadores. E quem diz isto é um bravo soldado, condecorado, que arriscou a vida pelo país mesmo sentindo a inutilidade da guerra.

Impressionante como depois de ler o livro vi seus reflexos em algumas dezenas de filmes de guerra, fiquei na dúvida se estes tantos pontos de similitude devem-se ao fato de roteiristas, diretores e atores terem lido o livro ou assistido o filme baseado nele – realizado pela primeira vez um ano após o livro ser lançado. Ou então se qualquer relato sincero da triste experiência da guerra se parece.

Remarque, contudo, falhou em alertar o mundo e em especial a sua Alemanha natal contra o mal da guerra, acabou banido, perseguido, teve o livro queimado nas fogueiras nazistas, a irmã executada e a cidadania alemã cassada, viveu a maior parte de sua vida no exílio. Deve ter sido um reconforto tardio ter se tornado popular de novo, alguns anos antes de sua morte, na década de 60 quando seu livro voltou a ser invocado contra a guerra, desta vez a do Vietnã.

Claro que não contarei o livro, mas a primeira cena descreve bem a confusa luta pela sobrevivência que acontece na guerra. A companhia na qual ele serve comemora as rações duplas que aliviam a fome – “o mais importante é manter-se alimentado”, comenta ele várias vezes – e o fato da alimentação extra decorrer do fato de que metade da companhia ter sido dizimada em uma ofensiva antes do cozinheiro ser avisado é apenas um detalhe. Há quem dissesse talvez que a luta pela vida reduzida a sua expressão mais básica, sem espaço para qualquer sentimentalismo, é um bem, mas é bem provável que quem pense assim não tenha passado pelos horrores do autor.

É “engraçado” que Remarque não contradiga, pro exemplo, Nietzsche, pelo contrário é quase possível lê-lo nas entrelinhas. A diferença não é no tipo de homem de sobrevive ao Front, mas na profunda angústia que queima e devora o coração do “super-homem” que confrontou-se tanto com seu instintos mais elementares e precisou despir-se de qualquer outro sentimento exceto o companheirismo dos amigos próximos, que nada mais restou a ele.

A guerra não é glamurosa, é m matadouro interminável e em sentido, que destroi não só os corpos dos que morrem, mas a alma dos que sobrevivem. Ao mesmo tempo ele destaca que o mal é a guerra em si, que não se deve a algum desvio, a algum excesso, mas que a própria guerra em si exige este aguçamento dos instintos de sobrevivência certo automatismo para que “funcione”. Várias vezes companhias inteiras de novatos são dizimadas por causa do treinamento falho, da incapacidade de manter-se frio. Há momentos nos quais os próprio soldados mais acovardados precisam ser mortos pelos colegas para evitar que o pânico deles prejudique a todos. Enfim, a guerra não é uma coisa bonita, nem heróica.

Fico pensando como se sentiria o soldado de uma outra batalha menos desprovida de sentido que a I Guerra Mundial, mera matança inútil provocada pelas ambições chauvinistas. Há, sem dúvida, guerras que são necessárias como o combate ao nazi-fascismo na 2a. Guerra. Ao mesmo tempo os relatos terríveis de Remarque são uma homenagem e um álibi para o soldado, uma demonstração de que este não é um cruel carniceiro como podem pintar os pacifistas que não tiveram de enfrentar o confronto, mas apenas um ser humano confrontado com as necessidades mais prementes de sobreviver, para o qual a morte está no cotidiano e no acaso, com a qual é necessário amar a vida acima de qualquer coisa para enfrentar o pavor e o medo, numa proporção muito mais heróica do que podem traçar qualquer um daqueles que idealizam a guerra.

segunda-feira, 13 novembro, 2006 – 11:40

História

Rio quando ouço falarem bem do passado

Não só porque ele não existe mais,

Mas também porque jamais existiu.

Este passaod do que eles tem saudade

É outro, que não reside no tempo.

Mas eles só conseguem imaginar

Este mundo prisioneiro das ampulhetas,

Por isto jamais entenderão nem

O Passado nem o Futuro,

contaminados que estão de concretude.

sexta-feira, 10 novembro, 2006 – 11:37

Paradoxos

Se eu dissesse que amo para

Ter sabedoria e

Leio livros pelo deleite,

Talvez exagerasse um tanto,

Mas a afirmação não seria de todo falsa.

Já aprendi mais em beijos

Que em enciclopédias,

E certas imagens, frases e construções e idéias

Tão fortes e belas,

Lembraram-me orgasmos.

sexta-feira, 10 novembro, 2006 – 11:41

Paradoxos da Douta Ignorância

Criticar o catolicismo tornou-se prática tão comum nos dias de hoje, por todos aqueles que olham para os fatos históricos cometidos pelos homens em nome desta fé – o que ocorre com todas as religiões – que muitas vezes grandes pensadores católicos ficam perdidos e esquecidos. Isto sem dúvida é uma pena, porque recuperar vários deles demonstraria a enorme unidade que há em todas as tradições religiosas, ao menos para mim quando vejo esta identidade das idéias mais profundas e centrais só sinto reafirmar a minha fé nesta unidade fundamental e a crença de que toda diferença aparente é má tradução, entendimento superficial ou mero apego a preconceitos.

Alguém pode objetar que diversos destes grandes pensadores acabaram sendo contestados, até humilhados e condenados, em particular pela Inquisição. Não nego, mas apenas destaco mais uma vez o risco de toda institucionalização, que torna as pessoas mais surdas a ouvir aquilo que lhes desagrada – e por alguma secreta lei dos grupos é ao comum que os mais medíocres sejam os mais dedicados á institucionalização, portanto mais avessos a qualquer talento.

Dos vários nomes que poderia citar dedico-me hoje a escrever sobre Nicolau de Cusa e sua tese – tão próxima do Vedanta Advaíta, dos mestres zen, de variadas ordens sufis – da “Douta Ignorância”. Engraçado, para começo de conversa, que Nicolau me pareça claro e transparente em sua exposição de uma idéia tão complexa, enquanto a imensa maioria de seus comentadores me parecem obscuros porque enchem de explicações metafísicas e lógicas o conceito justamente da incapacidade de compreender.

Se precisasse resumir em uma frase a idéia de Nicolau de Cusa (claro com todas as inevitáveis fragilidades de tal redução) diria que o centro da “douta ignorância” é o reconhecimento de que a natureza da divindade não pode ser conhecida. Pensando em como todas as diferenças religiosas se dão justamente pro tentar compreender e delimitar o “divino” dentro de limites do conhecimento humano- tarefa fatalmente condenada ao fracasso – já se imagina o grande potencial para a superação das diferenças religiosas que existia nele (como também no Mestre Eckhart que o antecede, outro grande pensador católico precisando ser recuperado).

Uma das questões de “método” de Nicolau de Cusa diz respeito justamente àquela maravilhosa figura do pensamento que é o paradoxo. Não é estranho que mestres vindos de caminhos tão distintos utilizem tanto os paradoxos – dos mitos gregos aos poemas zen, passando, claro, pelas histórias do mullah Nasrudin – afinal o paradoxo requer uma reflexão mais elevada, a superação do conhecimento discursivo, só pode ser resolvido deixando-se de lado as regras da lógica. Cada paradoxo me parece sempre como uma escada a um plano mais elevado do pensamento, não sujeito a estas limitações de nossa compreensão limitada.

Nicolau de Cusa vê Deus justamente como a superação das dualidades, vistas como ilusões provocadas exatamente pela nossa incapacidade de enxergar mais profundamente. Como tantos pensadores tradicionais, Nicolau de Cusa enxerga que apesar de Deus não poder ser compreendido pela razão humana, marcada pelas dualidades e pelas limitaçõe, ainda assim a finalidade fundamental e essencial do homem é justamente conhecer a Deus, o que é possível olhando-se não para fora ou para cima, mas para dentro de si, visto que o homem é a imagem contraída da divindade, em uma escala ainda maior do que o é também toda a natureza.

O processo então para chegar-se a esta compreensão é a via da “douta ignorância”, aquela que se dá conta da impotência do saber racional e, que pro efeito desta libertação dos conceitos, busca imaginar a divindade não como algo que seja – portanto limitado a uma compreensão ou comparação com as categorias existentes – mas pelo processo da “teologia negativa” constituída justamente no despir das qualidades, formas, limites, até ser capaz de compreender justamente o vazio e a negação. Ao mesmo tempo o pensador tem enorme preocupação em justificar sua posição dentro de uma visão ortodoxa da sua fé, só com muito esforço seus inimigos e detratores conseguem levar adiante as acusações de heresia contra ele, anos depois, pro sinal deixadas de lado. Se tem aqui outro paradoxo – a nos fazer ao menos desconfiar de todo pensamento heterodoxo repleto de “novidades” – que é o de concepções tão próximas em religiões distintas ao mesmo tempo esforcem-se por justificar-se e explicar-se dentro dos limites ortodoxos, a ponto até de em muitos casos terem sido estes pensadores que revitalizaram e deram novo impulso a estas tradições. Nicolau de Cusa não conseguiu ter a mesma influência sobre o catolicismo que teve por exemplo, Shankara, para o hinduísmo, Al-Ghazalli para o islam sunita, mas nos pontos de contato não se poderia destacar o paradoxo de que os três eram ortodoxos em suas fés.

quinta-feira, 9 novembro, 2006 – 12:48

Livre-me das utopias

Desde a primeira vez que li a Utopia de Thomas Morus fiquei horrorizado e não encantado. A falta de liberdade e privacidade pareceu-me tão opressiva, o indivíduo tão sacrificado em nome de um bem estar coletivo que até me pareceu que todo este caos existente na nossa sociedade parece ser mais atraente.

Um dos trechos que pareceram-me mais tenebrosos: “Cada um, continuamente exposto ao olhar de todos, se sente na feliz contingência de trabalhar e de repousar, conforme as leis e os costumes do país”. Imagino o terror de estar todo o tempo exposto ao olhar de todos, tendo de conformar-se a agir de acordo com a vontade coletiva. Impossível pensar em uma sociedade mais propensa à hipocrisia, mais sujeita a sabe-se lá quais desvios secretos aguilhoando o cidadão oprimido.

O grande problema de praticamente todas as utopias literárias – nas quais há ao menos o mérito de se encontrar bons textos e sentidos simbólicos nem sempre visíveis (e infelizmente tomados literalmente) – e ainda mais das políticas – nas quais o mérito é impensável proque é sempre a tentativa de impor a todos a vontade de um ou de um pequeno grupo (e aqui aplico a frase de Pessoa que utilizei estes dias, que o revolucionário é aquele que não podendo aprimorar a si próprio resolve transformar o mundo) é esta necessidade de impor algo ao indivíduo, fazê-lo se encaixar em algum molde.

Alguém poderia apontar uma contradição no que digo quando falo sobre sempre se sentir sob a visão de Deus e de outro rejeitar com veemência a sujeição ao olhar coletivo. A diferença entre um e outro ponto de vista é ainda maior que a diferença entre Deus – chamando-o do nome que se desejar – e o homem, porque afinal a multidão, o coletivo, é muito inferior ao indivíduo. Na multidão sobressaisse a inconsciência, a desrazão, a hipocrisia, a incapacidade de pensar, os instintos animais que na maior parte dos seres humanos se mantém muito mais elevada. Quem já viu uma multidão enfurecida tenho certeza que me dará razão quando digo que a massa é inferior a um ser humano isolado justamente proque uma parcela da humanidade se perde no amontoado de cabeças.

O julgamento de Deus é muito superior a pequenas mesquinharias humanas. Lembro-me aqui da coragem de Tristão no conto medieval Tristão e Isolda submetendo-se a qualquer desafio que fizessem a ele para defender-se das acusações d que era culpado de amor culposo pela esposa do tio. Ainda que se diga que o caminho do inferno está pavimentado de boas intenções, quando há uma intenção pura é quase certo que se consegue a intuição da ação correta que a atende. Já os homens avaliam segundo suas idéias pré-concebidas, seus interesses, suas mesquinharias e limitações. Julga, pro sinal, muito mais rigorosamente ao outro do que a si, quando o justo que fosse tão compassivo com o outro quanto rigoroso com relação a si próprio, característica, a meu ver, do indivíduo realmente elevado.

Mas, voltando a Utopia e às utopias, fico pensando se há mérito no bem que seja feito por compulsão e não por livre vontade. Desacredito das crenças em instituições que possam tornar o homem sábio. Já acreditei que o sábio poderia tornar quase qualquer instituição sábia, hoje não compartilho mais desta crença e vejo que muita sabedoria deu resultados pífios ou negativos quando institucionalizada. A opção pelo bom e pelo belo, assim, parece-me hoje a cada momento mais uma escolha estritamente individual, que ninguém pode tomar pelo outro, nem induzi-lo ou constrangê-lo, salvo em alguns casos pelo argumento perfeito do exemplo.

Há quem possa argumentar que certo “constrangimento” é necessário para que o homem possa viver em sociedade, visão essencialmente pessimista do ser humano, mas que, admito, sustenta-se em parte pelos fatos. Ao mesmo tempo em que até posso admitir isto, vejo também os sucessivos abusos cometidos a partir deste argumento. Não é à toa que na maravilhosa anti-Utopia que é Admirável Mundo Novo seja em nome da estabilidade e até da felicidade que se vive em um mundo sem qualquer beleza ou sentimento. Escapar desta encruzilhada só pode ser resolvida em termos individuais. Talvez no quixotesco otimismo de Ortega y Gasset na sua crença na possibilidade de educar as massas, tarefa que contudo requer uma elite espiritual e intelectual que se torna muito escassa, em especial quando se pensa nesta elite nos elevados padrões de disciplina e amor pela humanidade que ele coloca.

quarta-feira, 8 novembro, 2006 – 14:48

O Amor nos tempos

Poucas palavras tem tantos sentidos próprios e impróprios quanto Amor, muitas das incompreensão deste termo vem justamente desta multiplicidade de sentidos, das pessoas nem sempre terem utilizarem esta palavra no sentido adequado e estarem certas dela ser entendida no sentido em que é dita. Eu particularmente penso que o amor de um casal é a expressão mais adequada do termo.

Falo isto proque certamente não é difícil falar que se ama a humanidade de uma forma abstrata, mesmo quando isto é verdade, como provam tantas histórias de pessoas que sacrificaram suas vidas pessoais – e a de outras pessoas – em nome deste amor a uma causa. Este sentimento por algo abstrato é muito mais simples, por incrível que possa parecer, do que o sentimento por uma determinada pessoa concreta, porque implica naquele que é o principal “defeito” das concepções correntes de amor, que a idealização do objeto do amor, dada sua natureza abstrata.

É relativamente simples amar a humanidade, o mundo, uma idéia, uma causa, uma pátria, porque a despeito de qualquer coisa que acontecer haverá esta idealização, já o amor por outra pessoa, em seu sentido pleno, não-egoísta, requer justamente o reconhecimento de que se trata de uma outra individualidade, com uma vida concreta, diferenças e semelhanças objetivas, vontade própria, alguém cuja existência – ao menos nos relacionamentos realmente sadios – não está circunscrita a uma imagem da nossa imaginação, mas sim é outro ser de carne e osso.

Já disse em várias oportunidades que considero até interessantes mas fatalmente falsas todas as idéias de complemento, suplemento, identidades e oposições entre duas pessoas, a começar pelo mito mal compreendido de “alma gêmea” – metáfora totalmente incompreendida que fala a identidade dos vários estados do ser humano em um mundo primordial e não de qualquer necessidade de encontrar pro aqui algum tipo de complemento. Em outras palavras, se há um complemento ele só pode ser encontrado dentro de si mesmo e não em nenhum outro lugar.

É claro que esta minha negação não exclui a existência de afinidades – até mesmo de “afinidades eletivas” no sentido exato que Goethe dava ao termo. Mas mesmo estas afinidades, se são passos fundamentais de uma amizade, não são suficientes para caracterizar os laços do amor. Às vezes, pelo contrário, expressam justamente certo sentido narcisista, portanto centrado no ego, de procurar o semelhante por só ser capaz de admirar a si mesmo, por se enxergar perfeito e portanto o único objeto de adoração possível ser aquele que é parecido consigo próprio.

No sentido inverso, e aqui me lembro da referência a uma fala de uma personagem da peça “Indispensável Exercício sobre o nada” do jovem dramaturgo Johnny Kagin que já comentei em um poema há algum tempo – a busca do oposto pode indicar também uma insatisfação consigo mesmo. Ousaria assim dizer que só pela libertação destes nossos padrões mentais de buscar algo determinado – é tanto a busca do semelhante como do contrário são buscas a algo pré-determinado – é capaz de dar ao coração a liberdade necessária para amar e, mais importante, a liberdade para que o outro não seja aquilo que queremos que ele seja, mas o que ele realmente é, em outros palavras que se ame não uma imagem mental, mas uma pessoa real.

Para além do objeto, contudo, há muitas considerações a serem feitas ainda. Não acho que seja possível traçar nenhuma regra válida, nenhum padrão de conduta ou receita, ainda mais receita moral proque os princípios desta natureza ou são reconhecidos pelos próprios ou não há sentido nenhum. Há pessoas que não sentem a menor necessidade de estabelecer uma ligação profunda com outra, vive de casos rápidos em casos rápidos e nem por sito é infeliz. Nos tempos atuais, ainda mais, diria até que é este o padrão – tal como no Admirável Mundo Novo de Huxley – e nada é mais demodé do que as grandes paixões.

Eu, que me considero tão libertário nestas questões, que defendo o direito de cada um fazer aquilo que o faz sentir bem e não me sinto à vontade para colocar regras senão para mim próprio, me considero “conservador” nesta questão de não ser capaz de dividir na minha mente relacionamento e envolvimento. Não acho que eu esteja certo e os demais errados, acho apenas que para mim só quando há um envolvimento está liberta toda a dose de intensidade do momento, é desta intensidade, desta capacidade de jogar-se, atirar-se que vem uma determinada energia e intensidade que, para mim, jamais haverá em nenhuma relação casual.

Certamente não sou santo nem espero alguma beatificação, pelo contrário, diria que é justamente dos momentos e períodos nos quais não observei esta regra que retiro esta conclusão, assim também em certa medida não falo de forma abstrata, ainda que mais uma vez sinta necessidade de reafirmar que o que vale para mim pode não valer para outra pessoa. Só posso dizer que todo o imenso movimento desta entidade abstrata que chamamos de “sistema” para superficializar os relacionamentos não deve ser algo bom.

Contudo, reconheço e até vejo que o mesmo argumento serve para inúmeras outras áreas como a religião, não há uma situação ideal no passado – ao menos no passado recente e naquele no qual viveram a maioria das pessoas – que tenha se perdido. Havia talvez hipocrisia, conformismo, mas não obrigatoriamente sentimentos mais profundos – ainda que houvesse a esperança destes sentimentos.

Um caso curioso que cito em corroboração deste fato é que embora a poesia romântica de forte caráter sensual – e mesmo quase erótico – de inúmeros poetas árabes (inicialmente mas não só dirigida à Divindade, mas também materializada nas fórmulas mesmo quando o objeto era intercambiado) teve tal influência que em grande parte forjou toda a imagem romântica do ocidente e foi uma das sementes da poesia provençal – na qual pela primeira vez no ocidente, diga-se de passagem, a mulher é imaginada como um ser com vontade própria e não um objeto.

Contudo esta delicadeza e intensidade de sentimentos jamais impediu que na maioria das sociedades islâmicas, como em todas as sociedades “tradicionais” – no sentido histórico do termo – o amor ocupasse pouco espaço e fosse considerado mal conselheiro para os casamentos e até que proliferassem os casamentos arranjados – mesmo desafiando as proibições religiosas muito evidentes para que eles fossem praticados. Em outras palavras, é preciso distinguir determinado ideal existente na sociedade da sua execução concreta. Neste sentido até penso que mesmo esta superficialidade contemporânea não deixa de ser um avanço na medida em que ignora a hipocrisia – e me lembro de Santo Agostinho dizendo nas suas Confissões: “dai-me a castidade, mas não agora!” – tanto quanto me parece também um mal, na medida em que não traça nenhum ideal mais elevado a ser buscado.

Penso que há no fundo algo de positivo nestas concepções modernas na medida em que elas dão aos indivíduos a prspectiva de decidirem-se com absoluta liberdade pro viver um grande amor, não mais presos por modelos, circunstâncias, padrões, contextos sociais, nem por ilusões. Assim como penso que a absoluta alta de religiosidade e preocupação espiritual que domina a sociedade contemporânea também acaba pro abrir espaço para a vivência de uma espiritualidade e uma religiosidade mais profunda porque livre dos entraves culturais, históricos, familiares. Mas isto já seria entrar em outro tema, diria apenas que o ser humano que segue a “tradição” nos dias de hoje não deixa de fazer uma opção muito mais consciente e desconfortável – portanto com mais méritos – do que faria em qualquer outra época.

Soluções, eu certamente não tenho, ao menos no que possa servir de regra ou receita para os outros. De minha parte não me sinto mal em me sentir “demodé” – de um passado mais simbólico e imaginal do que real – e me entregar sem medo à paixão, à intensidade, ao desejo de construir relações sólidas e esta perspectiva me faz feliz.

terça-feira, 7 novembro, 2006 – 17:37

Ética e Estética

Mergulhei em textos díspares nestes dias para tentar subir um degrau na compreensão das relações entre ética e estética, uma das muitas questões nas quais oscilo de paradoxo em paradoxo sem conseguir chegar a uma conclusão objetiva. De um lado parecem-me razoáveis as formulações tradicionais que ressaltam a beleza como esplendor da verdade – na frase famosa de Platão – mas considero pobre as formulações que estacam a harmonia, o equilíbrio, a proporção, como “sintomas” do que é belo.

A meu ver este tipo de concepção acaba levando a uma estagnação, à produção que acaba se prendendo a fórmulas e por não ousar perde o sentido, vira imitação e com isto perde seu caráter de arte e em conseqüência sua beleza. Particularmente neste mundo que se torna cada vez mais caótico estas concepções que ressaltam a ordem e a harmonia parecem se tornar extemporâneas e incapazes de sensibilizar.

Lembro de duas reflexões absolutamente distintas. De um lado São Bernando criticando “estas terríveis coisas belas” referindo-se à arte sacra medieval repleta de fórmulas grandiosas, defendendo uma volta a uma concepção mais naturalista e na qual se voltasse a ver na natureza uma imagem do sagrado. Curioso que qualquer coisa “bucólica” hoje em dia soa fundamentalmente como fals, pois a natureza não faz mais parte do cotidiano da imensa maioria de nós, quantos pro exemplo já viram uma ovelha para serem capazes de imaginar um pastor?

De outro me lembro de Henry Muller, com seu texto caótico, grosseiro – penso particularmente no Trópico de Câncer, por exemplo – no qual, contudo, há um desejo de se enxergar para além das convenções.

Parafraseando Borges, para o qual toda arte “engajada” era lamentável e segundo o qual “a única arte reacionária é a medíocre”, penso também que o maior sinal de que qualquer limite facilmente acaba levando à mediocridade proque de tanto tentar prender a inspiração acaba afastando-a. Mas, paradoxalmente, nem sempre me agrada este certo pessimismo que tende para o niilismo do que é contemporâneo, que tenta convencer as pessoas da inutilidade da vida. Curiosamente eu diria que eu próprio me policio bastante e costumo deixar de lado tudo que escrevo que não me parece “bom”.

Há, claro, dois tipos de negação da realidade e nem sempre é fácil distingui-las, talvez proque nem mesmo o autor as distinguia. De um lado a negação dos sentidos humanos, terrenos, da vida, concepção que embora pareça às vezes pessimista não é de fato para quem tem alguma compreensão de que não estamos restritos à existência física. De outro lado, porém, há a compreensão dos desejos constantemente frustrados de um ser humano cuja realidade é sofrer e morrer e pronto. Mas esta não é uma distinção objetiva, varia conforme quem lê, até em que época lê.

Talvez um pouco por isto me lembre de Henry Muller, em cuja “obscenidade” há o mérito de buscar o rompimento com as fórmulas estabelecidas e em cuja “grosseria” há uma dúvida sobre o mundo ter sentido ou o ser humano ser apenas um “piolho”. Como todo bom escritor de verdade ele não chega a conclusões, apenas formula questões. Curioso que só por este traço é possível distinguir a literatura e a sabedoria dos infinitos textos de auto-ajuda que circulam por aí – sempre lembrando que os grandes mestres de todas as tradições em geral não escreviam, motivo pelo qual seriam odiados hoje pela indústria editorial que fatura milhões com a prolixidade daqueles que se dizem discípulos deles.

Mas como “medir” se uma obra de arte atinge este ideal subjetivo de arte que é fazer pensar, transcendendo a mera percepção sensível para atingir diretamente a consciência?

Ao mesmo tempo como não falar de angústia, de pessimismo, de falta de sentido em um mundo no qual o ser humano está insulado, desligado de tudo que diga respeito ao outro e desligado de tudo que é transcendente. As fórmulas estéticas dos tradicionalistas, como Schuon e ainda mais como Guénon, parecem ser absolutamente insatisfatórias, artificiais, quase inúteis e absolutamente improdutivas e “mediocrizantes” quando aplicadas neste mundo contemporâneo. Certamente são válidas para se examinar uma miniatura persa ou uma catedral gótica, mas estas são expressões que não fazem mais parte do nosso mundo, “recriá-las” seria produzir uma falsidade e portanto um objeto desprovido de verdade, portanto de real beleza.

Ao mesmo tempo também vejo falta de sentido no extremo oposto, naquela criação que é feita com o intuito exclusivo de chocar, cujo único conteúdo está contido na violação das regras, em ser “novo” como se isto bastasse. Ao mesmo tempo que certa dose de “absurdo” e “assombro” é essencial á arte – e mesmo o conservador Aristóteles reconhece este elemento como essencial – ele tem de ser ferramenta, não é capaz de substituir por si só o conteúdo.

Mas é impossível definir os limites claros entre estes dois extremos – que na verdade é um limite só, entre o sincero e o artificial e assim os redutos “academicistas” e “ultra-pós-vanguardistas” são em essência a expressão do mesmo tipo de mediocridade. Qualquer teorização sobre o assunto só pode desviar a atenção do verdadeiro foco – e aqui me lembro deste personagem contemporâneo cada vez menos raro do pseudo-artista que produz para a crítica – porque a utilidade da Beleza é justamente ser capaz de transcender o conhecimento discursivo. Daí, penso eu, será que toda esta reflexão que fiz até aqui não é absolutamente inútil?

segunda-feira, 6 novembro, 2006 – 11:13

A verdade se defende

Há aqueles que citam por vaidade ou embuste e aqueles que citam por modéstia. Os primeiros tentam ostentar seu conhecimento, no melhor dos casos, ou, muito mais perigoso, tentam usar da falácia da autoridade afirmando que como fulano reconhecido disse aquilo então é verdade. Os segundo tentam apenas demonstrar que aquela idéia não é deles ou, no mínimo, a inspiração para ter aquela idéia veio do pensamento de determinada pessoa.

O primeiro tipo é cada vez mais comum, numa época na qual apesar de se apregoar tanto a originalidade há pouco conhecimento sendo produzido ou ainda há tão pouco hábito de dialogar à luz da razão, dos argumentos, das demonstrações. É evidente que o conhecimento discursivo não é suficiente para se compreender a realidade, e sempre insisto nisto, contudo ele é certamente o primeiro passo. Qualquer avanço da consciência a níveis mais elevados, até por uma questão de hierarquia do pensamento, virá do domínio do conhecimento discursivo para sua posterior superação.

Para que esta afirmação não pareça ela própria tirada de alguma afirmação a priori, dogmática, diria que a superação do conhecimento discursivo, passo importante para se chegar à sabedoria, envolve em primeiro lugar a disciplina da mente. Sem esta disciplina, esta capacidade de concentrar, meditar, refletir, não se será capaz de apreender e aplicar algum conhecimento superior. Ao mesmo tempo é também necessário o amor pelo conhecimento, a vontade de aprender e superar-se, o qual requer por sua vez uma postura de humildade perante a sabedoria, a qual não pode existir nas mentes que simplesmente aceitam um conceito e pronto, sem questioná-lo.

Falei diversas vezes do psíquico e do espiritual, penso que também no aspecto do conhecimento há esta distinção essencial a ser realizada. Há a sabedoria espiritual, supra-consciente, que só com muita elevação se pode obter, assim como há o conhecimento infra-consciente, inconsciente se preferirem, formado pelas nossas idiossincrasia, opiniões pré-concebidas, conceitos e pré-conceitos. A distinção entre um e outro nem sempre é simples, até porque ambos às vezes compartilham uma compreensão paradoxal da realidade que confronta o conhecimento discursivo e consciente.

Os sábios diriam que o reconhecimento vem do fato que o primeiro é sempre único, condizente com o conhecimento tradicional com o qual guarda uma formidável consistência – e de certa forma a grande identidade para além das barreiras culturais, dogmas religiosos e diversidades simbólicos das visões extáticas demonstram este aspecto. Ao mesmo tempo o segundo tipo, o sub-conhecimento, é uma negação da fantástica qualidade divina do homem que é o intelecto, assim como tenta cortar as raízes com a tradição.

Na prática nem sempre a distinção é tão clara e evidente. A recorrência a fórmulas tradicionais tanto dá margem a muita cópia desprovida de real conteúdo – porque afinal estamos acostumados com conviver com símbolos e imagens tradicionais através da cultura. Há na arte, na literatura e em especial na poesia muitas imagens simbólicas que são usadas não por serem fruto de uma intuição inspiradora, mas porque reproduzem formas tradicionais de imagens utilizadas há séculos, ainda que desprovidas de seu sentido mais elevado para aqueles que as usam.

Ao mesmo tempo este processo de repetição ocorre também neste universo do conhecimento psíquico, que não raro se utiliza das imagens tradicionais dos quais não deixa de ser uma certa caricatura, ou um plágio. E a Márcia me cochicha a referência a uma música de Zeca Balero, O Heavy metal do Senhor, no qual o compositor diz que só Deus cria enquanto o diabo “no inferno toca cover das canções celestiais”. Assim não é raro que trechos incompletos ou, mais comumente até como prova a história de todas as “heresias”, entendidos em seu sentido literal e não simbólico, ou ainda reinterpretado. Ao mesmo tempo é às vezes a preservação destes conhecimentos tradicionais por seitas que os interpretam de forma literal que permite que esta conhecimento seja preservado e “redescoberto” em seu momento adequado – um ótimo exemplo disto, por exemplo, é a recuperação de várias teorias cosmogônicas pro Suhrawardi a partir das crenças ismaelitas.

É o próprio Suhrawardi, por sinal, que fala sobre o equilíbrio necessário entre a Razão e a Intuição, uma sendo estéril e a outra caótica sem o devido equilíbrio entre as duas. Ele próprio, ao mesmo tempo em que é um pensador extremamente rico e original, esforça-se por harmonizar dois filósofos antigos, Pitágoras e Platão. Ao mesmo tempo citaria também Ibn ‘Arabi, cujo conhecimento provindo principalmente de visões extáticas não deixava de ser absolutamente ortodoxo ou ao menos possível de ser conciliado com uma visão estrita da revelação corânica – como ocorre com os grandes santos de todas as fés, por sinal. Quando no início do século XX as três últimas autoridades espirituais do xamanismo sioux vêem o risco da sua tradição desaparecer decidem torná-las públicas, acreditando que “a verdade defende a si própria”, como relata Schuon em “O Cachimbo Sagrado”, que é um destes relatos.

Mesmo o místico tido como um dos poucos “hereges” do Islam, Al-Halajj, é criticado por diversos pensadores mais “ortodoxos”, inclusive por al-Ghazalli, não pelo conteúdo em si de seu pensamento – no qual mesmo o estrito Ghazalli não vê nada de herético – mas sim pelo fato de revelar a todos um conhecimento que seria reservado aqueles capazes de compreendê-lo, por dizer em público aquilo que deveria ser mantido privado. Sua própria condenação, assim como a de Suhrawardi, deveu-se mais a motivos políticos do que por conta de qualquer questão religiosa.

Chego, então, ao ponto de voltar ao começo do texto, quando falava das citações. Esta parecem só serem capazes de realmente ser úteis quando ao mesmo tempo em que revelam a humildade de quem escreve vinculando sua reflexão a raízes mais antigas como, ao mesmo tempo, justifica-se e argumenta por si, sem precisar recorrer á autoridade do nome que invocam.

segunda-feira, 6 novembro, 2006 – 13:37

o sagrado do cotidiano

A despeito do que possa parecer a quem me lê sempre, não sou uma pessoa religiosa, ao menos não no sentido convencional do termo. Não tenho o hábito de discutir religião, tenho certa aversão a reuniões religiosas públicas – o que numa fé tão comunal como a que escolhi deve ser quase um pecado – e prefiro compreender os deveres religiosos em um sentido muito interior, talvez mesmo beirando certa concepção “herética”.

Ao mesmo tempo sinto que poderia dizer exatamente o inverso. Que sou sim uma pessoa religiosa no sentido de que jamais me afasto da crença e da certeza de que Deus está comigo o tempo todo e observa cada coisa que faço e desta convicção esforço-me por agir da forma correta, com disciplina, com justiça, com amor. Se mais acerto ou erro nas minhas suposições de agir corretamente acho que só Ele pode dizer, não deixo contudo de agir e assumir os riscos, já que a única forma de não errar é não fazer nada ou apenas cumprir ordens.

Tento não confinar minha fé, repleta mais de dúvidas que de certezas, a algum ritual, mesmo reconhecendo a importância deles, mas trabalho com a meta de deixá-la transbordar na minha vida cotidiana. É verdade que não é fácil romper com as fronteiras que separam o sagrado do profano – ainda mais neste mundo cada vez mais profano – mas certamente é um exercício necessário de atenção.

Fora deste textos que escrevo fundamentalmente para mim e de algumas poucas conversas quase não me vêem falar de religião e de Deus. A maior parte das pessoas que convivem comigo como colegas e conhecidos, por sinal, me julga até um cético e não poucos já tentaram me converter ou chamar a minha atenção para alguma religião.

No meu coração, contudo, esforço-me por construir aquela disciplina de que falam os mais diversos mestres das mais diversas fés, a ação refletida que deixa de lado os impulsos, desliga o “piloto-automático” e nos faz perceber que o sagrado está ao nosso redor e dentro de nós. Só posso dizer que não é fácil, quantas vezes a concentração não se esvai no stress do trânsito quando solto um palavrão com alguma barbeiragem do vizinho, quantas vezes não se perde a paciência em uma conversa deixando de lado a compreensão que se devia ter, para não falar que a cada vez que acendo um cigarro me sinto tão longe da disciplina que gostaria de ter.

Resisto à tentação de ser condescendente comigo mesmo, mas também não me deixo deprimir pela culpa, este sentimento tão negativo que nada acrescenta e nos tira a força para lutar. Traço minhas metas, avalio meus erros, faço o balanço das vitórias e derrotas e sigo em frente. De um lado sei que muito provavelmente sou incapaz de faltas graves – daquelas que prejudicam aos outros – mas sempre me imagino capaz de infinitas pequenas indisciplinas, ao mesmo tempo esforço-me para que as vitórias não sejam fonte de orgulho, destruindo o que teriam de positivo.

Desculpar-me considerando-me humano e portanto passível de falhas não é algo que me conforta, como ouço tantas vezes pessoas mais religiosas que eu fazerem. Porque se somos humanos temos todos também uma porção divina que deveria ser um claro farol de nossos atos e se não é é por conta de nosso apego a este mundo. Mas não desespero da Misericórdia de Deus, nem me acovardo diante da vida e pro mais que a meta de “estar no mundo sem ser do mundo” seja uma meta ambiciosa demais não desisto dela enquanto objetivo.

terça-feira, 24 outubro, 2006 – 13:29

Ceticismo e ingenuidade

Ouço todo mundo falar da importância da educação, dela ser a única esperança para o país, para o mundo. Ouço, confirmo, mas lá dentro de mim não acredito muito nisto. Sem dúvida a educação é ferramenta fundamental para compreender o mundo, porém não é suficiente para mudá-lo, até porque a própria finalidade dela é manter as coisas como estão, treinar as mentes a ver o mundo de uma única e determinada forma.

Não é à toa que os regimes totalitários dão grande valor à educação, que a universalização do ensino fundamental foi – e ainda é – uma bandeira “liberal e burguesa”. Não compartilho das teorias conspiratórias que vêem no descaso com a educação alguma estratégia manipuladora, assim como tenho certo desprezo pelos professores que acham que tornar seus alunos conscientes é incutir neles suas idiossincrasias políticas ao invés de fazê-los pensar por si próprios. Estes últimos, por sinal, me aparecem ainda mais criminosos que o Estado que falha em estender o direito universal á educação.

Não quer dizer que não ache que a educação não seja importante, é sim, claro que é. Mesmo quando tropeça, mesmo quando faltam mestres e temos de nos contentar com professores, mesmo quando as crianças vão a escola por conta da merenda, sempre é válido e é melhor que nada.

O erro é achar que isto é suficiente. Uma educação ideal ensinaria a criança a manter sua curiosidade e seu ceticismo. Lembro sempre da sugestão de Bertrand Russel de ensinar a história das guerras de acordo com as notícias de jornais diversos das várias nações envolvidas. Mesmo discordando dos céticos penso que só a partir de um certo ceticismo é possível chegar a alguma parcela da verdade, tanto quanto sempre temos de tentar ser ingênuos ao ler um livro ou ouvir uma lição, fazendo-o com boa vontade e desejo de ser convencido da verdade contida ali, antes de duvidar.

Nenhuma escola, nenhum professor, salvo no caso muito especial, será capaz de ensinar esta misteriosa combinação de ingenuidade e ceticismo necessária a buscar a sabedoria, mais do que o conhecimento. Contudo creio que todos nós nascemos com este espírito, com esta mistura dentro de nós, a perdemos com o tempo, com a escola inclusive, alguns poucos são talvez capazes de recuperá-la, a maioria pende para um ou outro lado, conforme a idade e conforme a vida.

Hoje em dia as pessoas falam muito e discutem pouco. É só observar. As pessoas descarregam um discurso, tem opinião formada sobre tudo, mas quase sempre nem são capazes de argumentar fora do roteiro pré-estabelecido como são incapazes de ouvir os argumentos do outro. Não falo nem da política, que deveria ser a busca do consenso através da razão e da argumentação e se tornou hoje mera torcida carregada de emocionalismo e espírito de corpo. Mas mesmo dos fatos do dia a dia as pessoas se apegam às suas certezas ou ás dúvidas que não tentam sanar – e que pro isto são certezas também, ainda que sejam certezas de não saber.

Eu vivo entre paradoxos, entre dúvidas que talvez jamais possa sanar. Um deles por exemplo, é não saber que opinião teria sobre a tecnologia. Sou um entusiasta da tecnologia, não me imaginaria mais escrevendo em uma máquina de escrever e jamais vi – nem tenho vontade de ver salvo por curiosidade histórica – uma pena e um tinteiro. Aprecio apesar de todos os pesares a vida moderna e a melhora geral das condições de vida que ela propicia à maioria. Não tenho saudades nem do passado recente.

Ao mesmo tempo sinto esta desumanização do homem, lamento o ritmo de vida que nos faz cada vez ter menos tempo para alguma coisa, lamento a perda das tradições e da sabedoria, vejo com desalento a fragmentação do conhecimento que produz cada vez mais especialistas em coisa nenhuma. Um reflexo disto é apreciar tanto os autores que viveram no período entre-guerras.

Creio que eles – em todos os campos – foram os primeiros – e quem sabe os últimos – a ver a modernidade e a tecnologia como coisas suspeitas e mesmo fatais, como sintomas de uma degradação do ser humano. Não é á toa que hoje eles comecem a ser recuperados, depois de algumas décadas nas quais descrer da tecnologia e da modernidade era uma heresia.

Os mais coerentes de todos eles, aqueles que me chamam mais a atenção é esta figura meio quixotesca que foi Ortega y Gasset, a figura mutante que foi Huxley e o aristocrata do espírito que foi Fernando Pessoa. Gasset vê o avançar de um mundo que decai, mas fica ali firme, mesmo sem muita convicção às vezes, de que ainda é possível fazer algo, que através da educação políticas das massas é possível ainda salvar algo e avançar para outro patamar. Huxley, por sua vez, mesmo desanimado com o que vê por todos os lados esforça-se por acreditar e mesmo com sua utopia triste e destinada ao fracasso ainda enxerga um homem capaz de salvar-se. Pessoa, por seu lado, vê na arte e na sensibilidade a perspectiva de libertar-se da mesquinhez do mundo. Cada um a seu modo é tanto cético como ingênuo, alguém que quer acreditar apesar de tudo.

Os três são conservadores a sua maneira, não daquele conservadorismo marcado pela defesa de privilégios – preconceito que faz mal a tantos outros de seus contemporâneos – mas daqueles que fazem a distinção dos deveres, que vêem diferenças entre as pessoas não como algo que lhes dê mais direitos, mas como um dever adicional daqueles que são agraciados com dons especiais. Curiosamente são estes quase sempre as maiores vítimas da educação, aqueles que ou são inibidos em seu ceticismo e ingenuidade ou tem seus talentos direcionados para alguma área específica do conhecimento, empobrecendo seu universo, ou ainda que se perdem no meio da vaidade, do orgulho e da competição.

terça-feira, 24 outubro, 2006 – 16:07

Fins do mundo

Releio, com entusiasmo, um livro que nas primeiras vezes que li não me agradou tanto: O Périplo de Baldassare, de Amin Maalouf. Resolvi relê-lo de tanto que estava me lembrando de algumas passagens dele e assim deixei a primeira impressão de lado e reli com um pouco mais de boa vontade. Ao mesmo tempo que gosto muito de Maalouf como contador de histórias, descreio da visão política secularista que ele adota como pano de fundo, mas sobre isto já escrevi diversas vezes.

O grande tema de fundo do livro é a crença de todos com o fim do mundo, anunciado então para o fatídico ano de 1666. É evidente que em toda época de crise, de mudanças, as pessoas tendem a acreditar que o mundo vai acabar, o que não deixa de ser, em certo sentido, uma verdade porque há um mundo morrendo e outro nascendo.

É em um mundo de lado em transformação concreta e de outro perante a perplexidade das profecias e sinais que o protagonista, um pacato comerciante de livros de origem genovesa estabelecido no Oriente Médio se envolve em uma grande viagem entanto recuperar um antigo livro árabe – o Centésimo Nome de Mazandarani – que concederia poderes a quem o lesse. O paradoxo do livro é que o comerciante não é nenhum fanático, pelo contrário, é um cético, desligado das questões religiosas e descrente das profecias, mas que acaba sendo arrastado no meio do turbilhão das perplexidades da época.

Mesmo sem acreditar ele fica confuso com tantos sinais de um mundo que se desagrega. Seu companheiro em uma parte de viagem é outro cético, um judeu cujo pai está envolvido no círculo íntimo de Sabbatai Zevi, o místico judeu que se proclama o Messias e ajunta multidões esperando o final dos tempos. Ambos caminham em uma trilha que não desejavam, arrastados pela força dos tempos, pelos sinais, pelas circunstâncias, pela perplexidade com a falta de sentido das coisas.

Lembrei-me enquanto lia de outro livro – este um livro acadêmico – Mil Anos de Felicidade, de Delumeau, grande catálogo comentado de todas as previsões milenaristas, suas bases – ou falta de base – seu contexto e suas conseqüências. O autor observa que a despeito de todos os riscos, a imensa maioria das previsões tem sempre uma data certa e precisa.

De minha parte sinto certa identidade com o personagem de Maalouf, desanimado com os cenários futuros que surgem, com a falta de sentido que as coisas vão tomando. Penso que também o autor deve ter se sentido assim e por sito escreveu o livro. Não vou contar o final, claro, mas é no chegar a ele que entendi proque o livro não me agradou. Conservo a crença, quixotesca talvez, de não ser indiferente aos destinos do mundo.

terça-feira, 24 outubro, 2006 – 16:37

Idéias de náufrago

“Estas são as únicas idéias verdadeiras: as idéias dos náufragos. O mais é retórica, impostura, íntima farsa. Aquele que não se sente verdadeiramente perdido se perde inexoravelmente; isto é, não se encontra jamais, nunca encontra a própria realidade” (Ortega Y Gasset, A Rebelião das Massas)

Escrevo ainda com Huxley na cabeça. Admiro a coragem dele de não tentar se apegar a nada de externo, a ser tão amigo da verdade que pode se manter equidistante – ainda como solitário – da diversidade de opiniões e conceitos. Esta profunda coragem que vem da sinceridade é um exemplo e um ideal, mesmo quando se discorda dele em alguns pontos, até porque Huxley, como todos os que são sinceros, não está preocupado em fazer a menor concessão para ser apreciado.

Ao mesmo tempo em que combate com vigor a manipulação feita em nome da fé, protesta de forma veemente contra a sociedade moderna que tenta aniquilar ou manipular o natural desejo de transcendência que o homem deve ter. É simultâneo na crítica do capitalismo materialista , individualista e pragmático – cujas conseqüências galopantes ele desnuda no Admirável Mundo Novo – mas não deixa de expressar seu mais profundo asco aos regimes socialistas e totalitários que tentam reduzir o homem a uma condição sub humana.

Neste ponto em especial chama a atenção para o fato que os julgamentos totalitários são muito piores e mais desumanos que a Inquisição que ele condena. Ou ainda diz o quanto os demagogos populistas são muito mais perversos e perigosos que os manipuladores religiosos. Huxley é como o Selvagem do Admirável Mundo Novo o único a falar em poesia em um mundo do qual a poesia, a beleza e o amor foram retirados para garantir a estabilidade, e que portanto está morto.

Em alguns momentos, ainda que por instantes, esforço-me para ver o mundo como o Selvagem de Huxley o vê, desprovido de sentido, desumano, feio, caótico em mio a toda a sua organização e desafiando todos os sistemas criados para tentar explicá-lo que surgem todos os dias. Nestes instantes me sinto como o náufrago de que fala Ortega Y Gasset, aquele que se liberta das idéias fantasmagóricas que criam a ilusão de sentido nas coisas e descobre que na vida tudo é problemático.

Há tantos, mas tantos paradoxos no cotidiano d quem pensa no caminho que trilha que todo aquele que não tem esta natureza de náufrago ficará tentado a aderir às tentativas de dar um sentido ás coisas e tornar a vida plana e tranqüila. Náufragos, contudo, são todos mas só alguns conseguem enxergar esta realidade, a maioria prefere aderir a algum destes sistemas que prometem explicar o mundo, acatar as explicações dadas pro alguém que talvez saiba ainda menos que ele e assim segue feliz com suas idéias fantasmagóricas.

Eu que vivo pelas palavras estou sempre temeroso de ser dominado por elas ao invés de dominá-las. É um dos paradoxos que precisam ser enfrentados, afinal tantas e tantas vezes é o conhecimento que julgamos ter que nos impede de ter acesso àquela sabedoria que precisamos ter. Por isto o conhecimento é tantas vezes a maior fonte de ignorância. Com o tempo adquiri a crença que a poesia é mais sábia que aquilo que hoje se chama de filosofia e incomparavelmente mais profunda que estas tantas aventuras acadêmicas. Não é estranho que os mais diversos mestres jamais tenham tido a preocupação de escrever, suas lições fossem quase sempre diálogos, no qual existe um contexto, existe um discernimento sobre a capacidade de entender de quem houve e, sobretudo, a noção de que deviam fazer mais perguntas que despertassem em quem ouve a dúvida e o questionamento, a descoberta do naufrágio, do que servisse de alívio, acomodação e conforto.

A atual crença mágica nos livros como relíquias capazes de trazer algum conhecimento – no limite diria que há até a “sofisticação” desta crença supersticiosa que é a crença de que só a posse de um livro, a sua compra, sem a necessidade de Lê-lo, pode ter algum efeito – cria esta ilusão de que há respostas prontas a serem encontradas. Crença por sinal muito bem aproveitada pela indústria editorial.

Sempre que me sinto capaz de ser um náufrago destaca-me sobretudo a necessidade de não precisar me apoiar em teoria ou grupo algum, libertar-me de qualquer desejo de agradar, de contemporizar, de ceder na minha visão para convencer mais. Estas institucionalizações parecem ser capazes de um terrível processo de degradação, até mesmo de mentes sãs e conscientes. O individualismo que insula o homem é certamente algo terrível, mas ao mesmo tempo parece ser evidente que resgatar-se do naufrágio é uma tarefa também solitária, algo que ninguém pode fazer por você e que você não pode fazer por ninguém. No primeiro caso porque a resposta de cada um é diversa e no segundo proque qualquer tentativa de estender para além de si a sabedoria tem todos os perigos e paradoxos de desviar-se do objetivo.

quinta-feira, 19 outubro, 2006 – 16:35

Demônios do passado e do futuro

“‘Onde dois ou três se reúnem em Meu nome, lá estou entre eles’. Entre duzentos ou trezentos, a presença de Deus se torna mais problemática. E quando os npumeros atingem vários milhares, a probabilidade de Deus estar lá na consciência de cada indivíduo, declina até o ponto de se extinguir por completo” (Aldous Huxley, Os Demônios de Loudon)

Ler Huxley é sempre um redobrado prazer. Não concordo com tantas coisas que ele diz, mesmo assim a cada uma daquelas frases perfeitas, concisas e profundas tenho vontade de correr para o computador e escrever um texto só para colocá-la como epígrafe ou citá-la no texto. Só para citar um exemplo, contraponho a tantos livros e panfletos sobre os perigos da corrida armamentista uma simples frase dele: “Por enquanto estamos na primeira fase do que talvez seja a penúltima revolução. Sua fase seguinte pode ser a guerra atômica, caso em que não precisaremos nos preocupar com profecias sobre o futuro”.

Passo horas pensando nas afirmações dele. Fico pasmo no dia a dia quando vejo o quanto foi assustadoramente preciso nas previsões do Admirável Mundo Novo, escrito em 1932. O único erro foi no prazo necessário para sua implementação, que ele colocou 600 anos à frente. Infelizmente este mundo novo já chegou e se implanta com este efeito de bomba atômica sem o alívio de ao menos não precisarmos nos preocupar com as projeções para o futuro.

Mas é outra a qualidade de Huxley que gostaria de destacar hoje: sua sinceridade e coerência. Ao longo do tempo é perceptível a transformação do cético no transcendente, do cientista que olha com certo desprezo pela religião naquele homem que vê como única solução a transcendência e descobre a validade de todas as fés. A sua sinceridade está em ser convencido pela sua capacidade de ver o mundo e refletir, sua coerência está justamente em sempre escrever aquilo que crê. Não é à toa que o Selvagem do Admirável Mundo Novo de 32 é quase o morador típico da sua tentativa de pensar uma Utopia em A Ilha, escrito em 62, mas ao mesmo tempo os valores expressos entre estas duas datas são os mesmos.

Um de meus livros preferidos dele é “Os Demônios de Loudon”, escrito a partir de uma pesquisa documental sobre um julgamento de um padre acusado de feitiçaria por uma prioresa de uma ordem religiosa. Curioso que quase sempre vejo o livro citado como referência anti-religiosa, quando na verdade parece-me talvez um dos mais religiosos livros do autor, no qual ele mergulha com profundidade na espiritualidade cristã encontrando no mergulho aquilo que todo buscador sincero encontra quando se dedica a aprofundar-se numa fé: a Unidade essencial de todas elas.

O livro é sobretudo uma sobreposição de oposições. A principal me parece é entre o espiritual e o psíquico – e neste sentido arrisco-me a dizer que o livro é tão atual e necessário como o Admirável Mundo Novo. De um lado a verdadeira espiritualidade buscada na disciplina, no desejo de elevação e unidade, de outro a histeria psíquica iniciada por motivos baixos mas fúteis, mas capazes de despertar forças incapazes de serem controladas- “Nenhum homem pode concentrar sua atenção no mal, ou mesmo na idéia do mal, sem ser afetado. Ser contra o Diabo, mais do que a favor de Deus, é excessivamente perigoso” – libertando o “maníaco que habita dentro de nós”.

O que era inicialmente fraude – e talvez jamais em grande parte tenha deixado de ser, Huxley observa à luz dos documentos do processo e relatos que os demônios que possuiam as irmãs blasfemavam o tempo todo insultando a Deus, a Cristo, à Virgem, aos santos, mas só faziam elogios ao Cardeal Richelieu, patrocinador, por razões políticas, do processo, demonstrando que não eram diabos desprovidos de aguçado tato político. Ao mesmo tempo, contudo, o único daqueles que convivem com estes demônios exibicionistas nos shows de exorcismo que escapa ao final do ciclo todo é o único padre que é sincero na sua busca e, na descrição de Huxley, só comete o engano da ingenuidade, acreditando piamente em tudo.

Destes dois personagens, a prioresa endemoniada e o padre exorcista, Huxley extrai uma definição de comédia e tragédia. “A tragédia”, diz ele, “é algo de que se participa; a uma comédia apenas assistimos”. A prioresa vê em todo o episódio uma oportunidade de destacar-se e obter vantagens, o padre-exorcista fica por anos e anos vítima de seus próprios dramas, mas ao final é o único que recupera-se.

Não há, contudo, no autor nenhuma preocupação em julgar os personagens, mas sim em tentar compreendê-los. Mais do que um detalhado exame da documentação, Huxley faz todo um estudo sobre a mentalidade da época, da medicina à metafísica, passando pela literatura e pelo Direito. Entre as passagens da história há capitulos de discussão teórica – o que talvez explique proque é um livro pouco popular dele – em um esforço para que as grandes e pequenas vilezas dos personagens possam ser compreendidas pelo leitor, para que ele se coloque na situação dos algozes e conspiradores e, sobretudo, para que se reflita sobre a questão nos dias de hoje. Até acho que tanto didatismo seria desnecessário, mas antes de ser um romance histórico o livro é sobretudo um ensaio romantizado.

Caso curioso é o outro padre, aquele que é acusado de ter um pacto com o demônio e atacar o convento, protagonista da sessão inicial do livro – típico personagem de Huxley de homem orgulhoso e talentoso, consciente de sua superioridade e inconsciente dos perigos dela – Urban Grandier desaparece da história quando condenado, torturado e queimado na fogueira.

Condenado mais pelo pecado real de ter humilhado Richelieu em um momento no qual o grande personagem estava em desgraça na corte do que pela falta imaginária de ter lançado demônios contra o convento. Contudo fica a impressão de que de todos ele é o único que se salva, o único que consegue transcender de fato e enfrenta com altivez e indiferença os suplícios da condenação, penitência para seu orgulho, vaidade e luxúria que lhe trouxeram tantos inimigos.

terça-feira, 17 outubro, 2006 – 17:28

O mundo está na mente de Pessoa

Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu.(Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego)

Meu grande débito com Pessoa é ter aberto, há alguns anos, para mim as portas da Poesia, que até então não tinham entrado em minha vida, salvo de relance, nem eu entrado no mundo dela salvo por alguma rápida visita ocasional. Ainda hoje me causa espanto como pude viver sem a poesia, antes daqueles dias há uns 6 ou 7 anos quando fiquei pro dias imerso na poesia de Pessoa. Curiosamente penso que o fato da mais profunda poesia de Pessoa estar em prosa no Livro do Desassossego não é de forma nenhum um paradoxo.

Seguindo o padrão de tantos textos capazes de lidar com a metafísica, Pessoa não assume a autoria do Livro, escrito e entregue a ele por um modesto empregado do comércio que todos os dias jantava calado no mesmo restaurante, Bernardo Soares – heterônimo que talvez seja mais Fernando Pessoa que ele-mesmo. No próprio fato de dar autoria a outro da sua “autobiografia sem fatos” há uma reflexão, diz ele:

“Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer.”

Muitas coisas poderiam ser destacadas no contexto deste livro escrito para gerar assombro, não a calma admiração, para gerar perguntas – como todo livro de verdade – não para dar respostas. Na desculpa de falta de espaço destaco dois pensamentos, relacionados e distintos. A primeira é o esforço de manter-se impassível a tudo que lhe é externo, como diz ele:

A vida é para nós o que concebemos nela. Para o rústico cujo campo próprio lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que fundamentar’ a realidade da nossa vida.

Esta questão da capacidade de lidar com as miudezas do mundo com tal resignação que elas chegam a parecer agradáveis aparece sobretudo na forma como Pessoa/Soares se refere até com futura saudade de seu trabalho rotineiro, quase mecânico, como ajudante de guarda-livros na Casa Vasques. Diz mesmo que teria saudades daquela via e de seus colegas de trabalho e até do Patrão Vasques – que ele explicitamente diz ser uma metáfora da vida – se fosse retirado daquela vida pequena e mesquinha.

”Tudo quanto de desagradável nos sucede na vida – figuras ridículas que fazemos, maus gestos que temos, lapsos em que caímos de qualquer das virtudes – deve ser considerado como meros acidentes externos, impotentes para atingir a substância da alma. Tenhamo-los como dores de dentes, ou calos, da vida, coisas que nos incomodam mas são externas ainda que nossas, ou que só tem que supor a nossa existência orgânica ou que preocupar-se o que há de vital em nós.

Quando atingimos esta atitude, que é, em outro modo, a dos místicos, estamos defendidos não só do mundo mas de nós mesmos, pois vencemos o que em nós é externo, é outrem, é o contrário de nós e por isso o nosso inimigo.”

A resignação, de fato, na visão dele, não constitui em conformação é antes uma profunda indiferença, em poder-se ver como se fosse externo a si mesmo e portanto enxergar que é possível ser indiferente à sorte que nos cabe porque o real está na mente, capaz de vagar por tantos mundos e criar. Assim chego ao outro ponto que gostaria de destacar e com o qual há uma relação essencial com este primeiro da indiferença com o mundo: a tentativa, mesmo condenada de antemão ao fracasso, de conceber o absoluto que ábsides na mente. Diz ele:

“Cada qual tem o seu álcool. Tenho álcool bastante em existir. Bêbado de me sentir, vagueio e ando certo. Se são horas, repolho ao escritório como qualquer outro. Se não são horas, vou até ao rio fitar o rio, como qualquer outro. Sou igual. E por detrás de isso, céu meu, constelo-me às escondidas e tenho o meu infinito.”

Na minha mente associo sempre as narrações de seus mundos imaginários feita por Pessoa com a bela história de Valmiki, o primeiro poeta a compro em Sânscrito, que segundo o mito teria visto as batalhas que consagrou no Ramayana em um espelho de água em sua mão, história que inspirou tantos contos a Borges. Desta analogia, pro sinal, tirei o título deste texto. Diz Pessoa:

”Penso às vezes no belo que seria poder, unificando os meus sonhos, criar-me uma vida contínua, sucedendo-se, dentro do decorrer de dias inteiros, com convivas imaginários com gente criada, e ir vivendo, sofrendo, gozando essa vida falsa. Ali me aconteceriam desgraças; grandes alegrias ali cairiam sobre mim. E nada de mim seria real. (…) E tudo nítido, inevitável, como na vida exterior. “

Boa parte do Livro do Desassossego é dedicada justamente a destacar que o mundo é ilusório e só existe na mente, porque é nela que este mundo é percebido. Assim a verdadeira grandeza, o verdadeiro conhecimento está na alma. A riqueza da alma, diz ele, está onde o indivíduo está, não adianta procurá-la em lugar algum e mais valeria imaginar nela esta riqueza do que viajar pela ilusão de encontrar algum tesouro enterrado.

Do contraste entre os mundos da imaginação e a sordidez do mundo é raro que Pessoa diga algo relativo à política. Nas poucas vezes que o faz é com uma perspectiva extremamente conservadora, mas não com esta falácia do conservadorismo político, mera desculpa para a a garantia de privilégios imerecidos gritada por aqueles que só pro gritar já demonstram seu imerecimento. É pelo contrário a postura conservadora daquele que por ser de fato nobre está preocupado em aprimorar a si mesmo e afastar-se do mundo, das suas ostentações e misérias.

”Revolucionário ou reformador – o erro é o mesmo. Impotente para dominar e reformar a sua própria atitude para com a vida, que é tudo, ou o seu próprio ser, que é quase tudo, o homem foge para querer modificar os outros e o mundo externo. Todo o revolucionário, todo o reformador, é um evadido. Combater é não ser capaz de combater-se. Reformar é não ter emenda possível.”

segunda-feira, 16 outubro, 2006 – 15:17

Olhar do coração

“O homem de sensibilidade justa e recta razão, se se acha preocupado com o mal e a injustiça do mundo, busca naturalmente emendá-la, primeiro, naquilo em que ela mais perto se manifesta; e encontrará isso em seu próprio ser. Levar-lhe-á essa obra toda a vida.” (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego)

Tenho esta mania de ver identidades nas mais diversas e aparentemente distintas tradições religiosas. E uma das identidades que mais salta aos olhos é que todo livro sagrado, todos os mestres, ensinam que o homem deve se esforçar por mudar a si, melhorar-se, disciplinar-se, em uma situação ideal ser capaz de suportar com igual reação tanto as intempéries quanto os dias de Sol que o Destino nos reservar. A este comportamento se dá nomes e efeitos variados, sabedoria, disciplina, moderação, liberdade (que não quer nada é livre, já dizia Pessoa).

Não é uma tarefa fácil. O destino, como diziam os poetas árabes e eu repito sempre, é um camelo cego e louco no meio de um tumultuado mercado persa. Se há um sentido ou não nos descaminhos dele, se este sentido, existindo, pode ser compreendido por outro senão por Deus, se daquilo que parece destrutivo sairá algo de bom e daquilo que parece bom sairá algo destrutivo, nenhuma destas questões tem resposta nestes tantos livros que falam destas perguntas.

Este sentido, se há, certamente não poderia ser compreendido pelo homem. Por mais que se busquem justificativas desconhecemos as balanças e os pesos pelos quais seremos julgados tanto como desconhecemos por quais caminhos o camelo cego nos levará no seu trajeto cheio de voltas e zig-zagues. A complexidade destas operações, cálculos, medidas só poderia ser compreendida por uma mente capaz de ver de forma simultânea para além destes nossos limites de tempo e espaço.

O debate em torno disto sempre me pareceu um tanto quanto estéril. Só sabemos de duas coisas, que havendo um julgamento ele se dará por aquilo que está encerrado em nossos corações, não por qualquer aparência e, como destacam também todos os livros sagrados, a misericórdia do juiz é superior a sua ira. Se o resultado deste julgamento está expresso em termos de Céu, Inferno, com ou sem purgatório e limbo, transmigração, se estes céus e infernos são gradativos ou não, se ele deve ser entendido em termos mais “genéricos” metafísicos ou até em reencarnação, com as devidas ressalvas a esta última, diria que todos são expressões diferentes de uma mesma idéia.

Nada disto me parece ser realmente relevante e em muitos casos até contraproducente na medida em que pode nortear as ações em termos de recompensa e castigo e assim contaminar aquela sinceridade de coração essencial. Estou entre os que acreditam que, sem que seja naturalmente bom, o homem sempre é capaz de distinguir entre o correto e o incorreto, esta distinção, por sinal seria a base que dá lógica ao livre-arbítrio.

Lembrei-me de um grão-rabino judeu, dos últimos dias antes da Queda de Jerusalém, Hillel, que foi procurado por um homem que lhe disse que se o rabino lhe explicasse o talmud – o livro de jurisprudência judaica – em cinco minutos se converteria. O Rabino olhou para o homem e disse: “não façai ao outro o que não deseja que façam a ti”. A mesma regra no máximo com variações de termos – e ás vezes nem com isto – está prescrita pro todo canto, não bastasse isto faça a si a pergunta antes de alguma ação e verá como sabe bem a resposta a ela na imensa maioria dos casos, salvo naqueles nos quais estamos prejudicados por um conhecimento imperfeito da situação.

A questão essencial, portanto, é saber se existe Deus – chame-se lá como o deseje porque certamente todos os nomes de Deus são puros. Nesta questão resume-se todas as questões metafísicas, teológicas e morais, convergem todas as religiões, os sentidos esotéricos e exotéricos delas. Se temos a medida da balança e sabemos se há um juiz ou não – e mesmos estas duas questões poderiam ser resumidas a uma – então se chegou ao debate essencial.

Os mais metafísicos buscariam ir além e debater a essência da divindade, mas eles mesmos – ao menos os verdadeiros – saberiam que esta discussão é secundária visto que não é um debate compreensível ou útil a todos, e ainda assim gerando um resultado similar. Até já tive a oportunidade de expor aqui no blog que deuses não é o plural de Deus, ainda que os dois termos tenham se contaminado ao longo dos séculos nas linguas ocidentais – até por isto Deísmo, de deuses, e Teismo, de Theos, sopro, são termos opostos, ainda que não obrigatoriamente excludentes.

O grande e imperdoável pecado, assim, seria a descrença em Deus. Todos os outros seriam em algum grau uma variação ou conseqüência dele já que aquele que acredita – cito nas palavras da tradição islâmica, mas presente de maneira similar pro todo lado – que deve agir como se estivesse vendo deus, proque Ele o estará vendo sempre, dentro do seu coração não cometeria nenhuma outra falha intencional. Os graus desta compreensão são certamente variáveis, mas certamente também serão levados em conta levando em conta a pureza – e no extremo a libertação – das intenções.

Duas imagens, ambas também da tradição islâmica, e destaco que para aqueles que se sentem mais confortáveis com outras perspectivas enxerguem as metáforas nelas, me vem a memória agora. A primeira é de um gênio do mal do Alcorão que quase com deboche se dirige àqueles que pedem seu socorro na hora final e aos quais ele responde que jamais compartilhou da crença deles de que era um igual a Deus, eles o seguiram proque quiseram. A segunda, contada por Al-Ghazalli fala de um homem que gritava mais alto que todos os outros ao queimar no inferno. Quando questionado do motivo diz: “Já fui julgado, mas não desespero da misericórdia de Meu Senhor” e então é salvo.

Como se trata fundamentalmente do que há no coração de cada um pareceu-me mais do que oportuna a citação de Pessoa ao invés de algum texto religioso que fatalmente estaria sujeito a ser olhado meio de soslaio por pessoas de uma ou outra fé. Com qual direito podemos mostrar o caminho para outro se não o conhecemos na profundidade da nossa vivência e quanto de uma vida seria necessário para que se adquirisse este conhecimento do caminho. Portanto salvo no caso de santidade – que também asseguram as tradições é eleição divina e não mérito pessoal – haveria muito poucos que teriam tempo livre para “salvar o mundo” depois de dedicar-se a salvar a si próprios e esta tarefa, ainda por cima, levaria a tantos e tantos riscos – como a história sempre mostra – que o dano passível de ser causado pelos “santos imperfeitos”, pelos santos “para os outros” e santos do pau-oco seriam muito maior que qualquer eventual benefício.

Não há nesta questão nenhum individualismo, pelo contrário. O homem que se esforça por melhorar-se acaba por melhorar a vida dos que estão ao seu redor, compreendendo os outros, sendo generoso, não sendo egoísta, enfim, sendo um pouco melhor a cada dia, no limite torna-se uma pequena luz que se expande, mas mesmo sem levar isto em consideração se chega de novo á questão de cada um fazer a sua parte sem buscar no vizinho as justificativas para a auto-condescendência.

terça-feira, 10 outubro, 2006 – 15:16

Buscar o evidente

Ditosos os fazedores de sistemas pessimistas! Não só se amparam de ter feito qualquer coisa, como também se alegram do explicado, e se incluem na dor universal. (Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego)

Um de meus contos preferidos de Borges é “A busca de Averroés” – o preferido mesmo é “As Ruínas Crculares”, mas sobre este falo outro dia. Como sempre nos contos de Borges há muitas metáforas entrelaçadas ou dentro uma da outra. A principal delas é o drama do filósofo andaluz não sendo capaz de encontrar uma palavra em árabe para traduzir o sentido exato de “Tragédia e Comédia” em um texto de Aristóteles, já que o teatro não existia naquela sociedade. Como sempre não vou contar o desenrolar da história, nem a ironia contida nela.

Outra das histórias dentro da história é um debate sobre a validade das velhas metáforas, em especial a que designa o destino como um camelo cego. Se era a intenção de Borges ou não eu não sei, nem estou me incomodando, mas a associação das duas coisas pareceu evidente. Somos tão incapazes de compreender o destino como Averroés o teatro, porque é algo que pertence a outra esfera, nossa compreensão de tempo e espaço não só nos impede de ter a visão panorâmica para entender o sentido mais profundo das coisas como, ainda mais, de julgar a Deus ou ao Destino.

Sempre que me lembro de Averroés, ou ibn Rushd como é a forma original de seu nome latinizado naquela forma, lembro-me do diálogo entre ele – já sábio consagrado e idoso – com o jovem ibn ‘Arabi ainda imberbe. Rushd arruma pretexto para que ‘Arabi o visite porque esperava que as famosas visões que o jovem tinha confirmassem as suas teorias – em particular a noção de que as verdades da fé poderiam ser concebidas apenas pela razão, como ele relata na história de Hayy ibn Yakzan (O vivo, filho do desperto), náufrago que descobre por si só e pela razão as verdades reveladas.

Apenas três frases marcam o debate entre o deísmo extremo – aristotélico – do filósofo e o teísmo também extremo do “místico” (como sempre uso o termo entre aspas tanto pro não considerá-lo totalmente exato como para distinguir do avesso do misticismo que hoje se apresenta como tal). Rushd pergunta a ‘Arabi “Sim”, ‘Arabi responde “Não” e ante o pasmo e a palidez do filósofo ao ver que sua pergunta tinha sido perfeitamente compreendida o mestre diz: “Entre o sim e o não há um espaço no qual os anjos voam”.

Não é casual que Rushd seja o filósofo árabe preferido do ocidente. Só nas mentes ocidentais ele foi o vencedor do histórico debate com o ortodoxo Al-Ghazalli, só na historiografia ocidental depois dele ocorre uma decadência do pensamento (e note que uso a palavra pensamento e não filosofia) islâmico, quando na verdade ele atinge seu auge tanto com o próprio Ibn ‘Arabi como com outros geradores de grandes sínteses (em especial entre o platônico e o pitagórico e não mais com o aristotélico que morre com ibn Rushd), como Suhrawardi e Mullah Sadra.

Mas o objetivo do texto não é falar da “filosofia islâmica” – e eu próprio costumo fugir a cada vez que vejo a palavra filosofia por conta dos sentidos que o termo toma hoje. Mas sim falar de algo cujo sentido ao mesmo tempo está acessível e oculto. Na história de Borges alguns garotos fazem uma representação bem debaixo da janela do filósofo, mas ele é incapaz de entender que naquela ação está justamente o sentido das referências ao teatro que ele procura, porque sua mente só consegue pensar no conhecimento como retido e aprisionado nos livros.

A despeito do nome de seu personagem, Rushd não está desperto,não consegue deixar que a intuição guie seus olhos, ora a Deus para que ele lhe revele o sentido daquelas palavras, mas quando sua petição é atendida através da encenação dos garotos abaixo da sua janela não pode perceber. Imagino que uma boa parte daquilo que se chama de filosofia ocidental (como se existisse outra) é como ibn Rushd, “O Comentador” – lembrando que Dante o coloca no limbo conversando com Aristóteles, esforçando-se por pensar só com a razão e o conhecimento discursivo, cada um colocando aquela imagem de Deus que já era distante no deísta Ibn Rushd um pouco mais distante até colocá-lo para fora em definitivo do campo do conhecimento.

Não me oponho a este afastamento por questões morais ou éticas, ainda que uma das conseqüências deste afastamento seja naturalmente, como disse Roger Garaudy, a desvinculação do “know-how” do “Know-why”, do saber fazer do saber porque fazer. Os efeitos nefastos deste processo são mais do que visíveis e um pensador tradicional diz, não sem certa razão, que a destruição de Hiroshima começou com o incêndio de Persépolis por Alexandre da Macedônia, discípulo de Aristóteles.

Porém, são efeitos, conseqüências. O problema em si talvez não possa ser demonstrado a quem não vê o sagrado, nem precise ser demonstrando a quem o enxerga, que é a ineficiência de qualquer busca do conhecimento que seja a busca da Verdade. Curioso que todas as tradições religiosas podem mostrar isto com uma clareza e em uníssono que só reforça a identidade desta verdade, mas a maioria das pessoas só consegue enxergar as distinções entre elas, que estão apenas na aparência.

segunda-feira, 9 outubro, 2006 – 17:11

Não basta a voz das urnas

“Não há criação estatal se a mente de certos povos não é capaz de abandonar a estrutura tradicional de uma forma de convivência e, ademais, de imaginar outra nunca existida (…)O Estado começa por ser uma obra de imaginação absoluta. A imaginação é o poder libertador que um homem tem. Um povo é capaz de organizar um Estado na medida da sua imaginação” (Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas)

As urnas falaram! O recado dado por elas, como o do Oráculo de Delos, pode ser interpretado de várias formas conforme a capacidade de interpretação de quem recebe as mensagens truncadas desta pitonisa. Deixo assim a cada um que interprete o recado dado por elas.

De minha parte fico surpreso não só que algumas pessoas tenham sido eleitas, mas como disse sabiamente uma amiga, que tenham se candidatado depois dos escândalos, antigos ou recentes, que protagonizaram. Fico satisfeito de ver meus candidatos eleitos, fico triste de não ver entre os eleitos algumas vozes que eram tão importantes – algumas das quais eu nem concordo, mas aprecio ouvir porque sei que a busca delas é pela razão e pelos argumentos, outras que eram parlamentares dedicados, empenhados, com plena consciência de seu trabalho.

Mas o que mais me deixou triste foi ver que na maior parte dos casos prevaleceu a “covardia dos bons” de que falava Martin Luther King. Infelicidade motivada pro ver o quanto as pessoas que poderiam dar a sua colaboração ao debate sério, á decisão racional, à busca dos ideais elevados se omitiram ou deixaram de ter a ação decisiva que poderiam ter.

Às vezes me revolto com o discurso de não se interessar por política ou de que não agüenta mais política. Em termos gerais eu diria que a política está no nosso cotidiano, só fingimos não a ver, em termos particulares diria que o que de fato faltou na eleição foi política. O discurso por todo lugar foi baseado na vaga defesa de interesses corporativos, regionais, minúsculos, centrado na extensão dos direitos como se os recursos fossem ilimitados ou como se toda a discussão fosse a garantia de buscar uma fatia maior do bolo destes recursos para algum segmento específico e não fazer o que é necessário para o todo.

Não adianta culpar a política, os políticos, o sistema, as instituições, as normas e leis eleitorais, ainda que possa haver alguma razão que embase todos estes argumentos e distribua a culpa pro todos eles a questão essencial, a raiz de todos os males – e não só na política mas em todo campo – está na conduta de cada indivíduo. Cada um ao cumprir a sua parte, ao esforçar-se por melhorar o seu ambiente cumpre sua função no concerto geral da sociedade e age melhor do que se ficar reclamando que os vizinhos do lado na orquestra não fazem a função dele.

Sempre me considero ao mesmo tempo conservador e libertário, sem que dentro de mim existam muitas contradições entre estes dois ideais teoricamente opostos. Ente Esparta e Atenas eu fico com o melhor das duas. Desde Confúcio até Ortega y Gasset se frisa a necessidade da disciplina, da conduta iluminada e livre de paixões que deve ter o governante.

Entre a nobreza – entendida nas palavras de Gasset: “nobreza é sinônimo de vida esforçada, posta sempre a superar-se a si própria, a transcender do que já é para o que se propõe como dever e exigência. Desta maneira, a vida nobre fica contraposta à vida vulgar ou inerte” e não, evidentemente, a esta distorção, e mesmo inversão, do conceito que é a “nobreza” hereditária – o único regime possível seria a república de iguais. Muitos dirão, provavelmente com razão, que esta situação não é possível nestes tempos de hoje, contudo a cada e em cada um está o desafio de esforçar-se para enobrecer, distinguir entre o seleto e o vulgar e as eleições são um momento no qual é essencial fazer isto e para que cada um se empenhe.

Cada um deve ouvir agora a sua consciência, fazer um balanço da sua atuação, mas também agir. Há muitos espaços a serem ocupados ou construídos na política que estão muito além daquilo que ordinariamente se entende como espaço político. Sem olhar para os lados cada um tem o potencial de ser ao menos uma pequena luz em seu meio e lutar contra a obscuridade geral, a começar por começar a ver que os equipamentos públicos não são “ de ninguém” e sim da sociedade, portanto devemos ser capazes de buscar interferir na gestão deles, cobrar resultados, fiscalizar, controlar, defender os direitos dos demais. Quantos ás reclamações, queixas, revoltas, as deixemos com aqueles que, citando novamente Ortega y Gasset: “abandonam tranqüilamente a si próprios”.

quarta-feira, 4 outubro, 2006 – 13:39

Caquinho de espelho

“Os caminhos para Deus são tantos quantos são os corações dos homens” (dito sufi)

Gosto muito de uma imagem do poeta persa Attar segundo a qual Deus é um espelho que se quebrou em muitos pedaços e cada um ao pegar um caquinho e se olhar diz: “este é Deus”. Um dos muitos significados desta expressão tão repleta dos mais variados sentidos que toda vez que lembro dela me ocorre um novo é que a experiência do buscador é sempre solitária.

Há sem dúvida a necessidade de um mestre não tanto que oriente, mas que através da sua benção nos ensine a “esvaziar a taça”, a nos transformar na tábula rasa onde a sabedoria pode ser escrita. Engraçado como o silêncio é uma forma de ensinamento essencial em todas as tradições. Assim, pelo silêncio, ensinam as lições mais relevantes os sheikhs sufis, os mestres do Tao, os sábios do zen (lembrei-me do símbolo zen do mestre rasgando os livros), os sad-gurus do Vedanta Advaíta. A música que muitas vezes está presente só reforça o silêncio, afinal por não ter forma ela ajuda a nos desligar das formas.

Curioso que o que mais tive na vida de próximo de um mestre foi um professor ateu na Universidade. Ele me ensinou aquilo que livro algum poderia me ensinar, o quanto eu não sabia e como meu conhecimento, minha compreensão do mundo era falsa, lição que carrego até hoje, embora nem sempre tenha a sabedoria de lembrar-me dela. Falo dele, não só por questões sentimentais, mas também porque em seu ateísmo até militante havia uma devoção a um Ideal Elevado, que era o Conhecimento.

E é aqui que me detenho para falar deste caquinho de espelho do Altíssimo que sou. É nesta idéia de um ideal elevado que tento encontrar Deus tanto em mim como nos outros e nas suas ações. Aonde há esta procura de servir e dedicar-se, sem espera de recompensa ou temor do castigo, a este valor ali sempre se pode encontrar a presença de Deus – ao menos segundo a opinião deste caquinho aqui.

Sintomático que esta questão de libertar-se dos desejos e temores apareça em todas as tradições. Aparece em Santa Teresa d’Avila e São João da Cruz pedindo que Deus lhe feche as portas se ela procurá-lo por outro motivo que não o amor a Ele, aparece nos belos poemas de R’abia pedindo para ser atirada no Inferno se ama-lO por temor a ele, aparece na ênfase em libertar-se da ação dos hindus, enfim é uma fortíssima convergência de muitas tradições e – mais uma vez na minha modesta opinião – toda convergência aponta para o centro, para as camadas mais profundas nas quais o essencial está mais visível.

Novamente sou obrigado a repetir o que disse ontem, que a questão fundamental está na sinceridade, naquela sinceridade mais profunda que reside no coração. Schuon destacando a diferença entre as diversas formas religiosas consideradas pagãs e as ondas de neo-paganismo dizia que nos primeiros havia a pureza de intenção de adorar ao princípio elevado nos ídolos, enquanto no segundo há apenas o desejo de se obter algo. Vale lembrar, sempre, que Schuon viveu a maior parte do tempo entre os nativos americanos e em contato com xamãs desta tradição, a grande maioria de suas pinturas, por sinal, referem-se a esta tradição.

A cada vez que vejo uma disputa religiosa lembro-me de uma tradição islâmica. Moisés pergunta a um pequeno pastor o que ele está fazendo e ele diz que está construindo um abrigo no deserto para Deus, para protegê-lO do sol, do frio e dos animais selvagens. Moisés desanca o garoto dizendo que Deus não tem frio, nem calor e nem temeria os animais selvagens e o garoto vai embora chorando. Deus então adverte Moisés sobre ter afastado dEle uma pessoa que na sua maneira tentava agradá-lO.

Penso que a cada vez que atacamos a fé de alguém agimos como Moisés. Certamente há momentos nos quais há necessidade de enfrentar a hipocrisia e a simonia, como o próprio Jesus fez, mas é sempre uma guerra que deve ser travada sem ódio, não para condenar, mas para tentar fazer com que as pessoas encontrem seus motivos e neles percebam o erro. Nada sabemos sobre os caminhos que os outros trilham, nem sobre as engrenagens deste camelo cego que é o destino, então acho que cada um faria melhor esforçando-se por, como os mestres tradicionais, iluminar com o silêncio do seu exemplo. Evidente que esta é uma meta muito elevada para mim, mas conseguir vislumbrá-la, ao menos, como objetivo tão distante parece de alguma forma ser algo positivo.

terça-feira, 26 setembro, 2006 – 15:39

Escrever!

Um dos palpites que mais dou a todos é para que escrevam. Não importa se com dificuldade, não importa muito nem o que escrevam – até porque neste caso a prática sempre leva ao aprimoramento. A prática é também uma invocação da inspiração, um exercício interno da inteligência. Até já sonhei um dia com a possibilidade de que cada morador de minha cidade tenha seu blog e, por incrível que pareça, estive várias vezes perto de colocar em prática este sonho.

Sempre fico curioso quando encontram sentidos profundos em coisas que escrevo falando de outras coisas, ou, ao contrário, quando não vêem os sentidos mais profundos aonde eles deveriam estar. Com o tempo, contudo fui me libertando da tentativa de entender isto e assim meu texto ganhou mais sinceridade. Talvez seja por isto que os poemas simbólicos que fazia antes quase nada digam a mim, enquanto textos descritivos que faço hoje sejam compreendidos como alguma experiência mística.

Nada disto se torna relevante na medida em que cada um, inclusive eu próprio, retira do texto aquilo que é significativo para si. Talvez me dê alguma responsabilidade adicional pelo que escreva, para que isto não seja compreendido de alguma forma tão deturpada que passe a ter o sentido contrário do que deveria ter, mas mesmo isto acontece em alguns momentos. Ser lido só reforça em mim a impressão, o ensinamento, sobre como as metáforas são intercambiáveis.

Contudo a finalidade essencial de escrever não é e não pode ser de forma alguma ser lido, mas o prazer deve vir da própria ação de escrever. Na medida em que existe a preocupação em ser lido surge a névoa do “tentar agradar” e ela sempre contamina o que se escreve, tira a autenticidade e a sinceridade fundamental de um texto. Ao mesmo tempo no momento em que se abandona estas outras intenções quaisquer que “sujam” o texto quem escreve recupera aquela intuição estética fundamental.

Cito sempre como grande exemplo deste processo Tolstói. Embora seja aclamado pelos livros iniciais da sua carreira, estou absolutamente certo que os textos finais, a partir de redenção em particular, o fizeram muito mais feliz e a simples lembrança de “Ana Karenina”, por exemplo, era triste para ele. Vejo o mesmo processo em Herman Hesse, como comentei há tempos. Há também exemplos múltiplos de autores que ao longo do tempo vão perdendo a inspiração, rendendo-se à tentação do sucesso, seus livros vão aos poucos perdendo a “anima” e no final tornam-se quase vazios, ou ainda daqueles autores que escrevem para serem interpretados pela crítica.

Escrever, na minha visão, é fundamentalmente um exercício para si. Se algo sairá de útil ou belo do processo é algo que não cabe decidir, no máximo haverá momentos nos quais se contempla o que foi escrito e chega à conclusão que a inspiração passou por ali, de tanto ser invocada, então o resultado é muito superior àquele que quem escreve poderia obter.

Pessoa dizia que escrevia porque era inevitável, publicava proque esta era a regra. Penso que há muita sabedoria nisto e nestes tempos de internet, na qual publicar deixou de ser um luxo reservado a poucos mas uma possibilidade aberta a todos a regra se tornou ainda mais flexível. Mas escrever é tarefa que cabe também a nós, pobres mortais sem o talento de Pessoa, independente de sermos lidos ou não escrever significa refletir sobre o que está a nossa volta, sobre as nossas impressões, sentimentos, questionar a nossa própria racionalidade e nossas razões. Ao mesmo em uma escala mínimo é um exercício da inteligência que nos eleva um pouco acima, desperta nossa consciência.

Para mim, que não busco o conhecimento, mas esta benção que é a ignorância, a incapacidade de enxergar a infinidade de coisas que há neste nosso mundo, escrever também se torna uma forma de desconstrução, de descascar a realidade na esperança de encontrar este desconhecimento da nossa realidade. Desconheço os caminhos que poderiam levar a este vazio, mas estou certo que a sinceridade é a trilha, sempre, em tudo. E ser sincero é o segundo palpite que dou a quem escreve, caso contrário de nada valerá.

segunda-feira, 25 setembro, 2006 – 16:56

Humano e Divino

Uma pessoa me pergunta sobre como é possível que haja tanta disputa entre as religiões se elas deveriam trazer paz e harmonia. Os céticos de todos os tempos, por sinal, tem usado costumeiramente as disputas religiosas e o sangue derramado por elas como um argumento contra a religião em si. Lembrando Confúcio e os mestres do Tao a questão fundamental aqui parece ser a confusão dos nomes.

Lembrei-me de uma cena de um velho filme do Planeta dos macacos original – senão me engano o segundo – quando os soldados estão prestes a invadir a “zona proibida” e aparecem barreiras de fogo e eles se detém. Quando aparece a figura do Legislador, base das crenças deles, o macaco sacerdote manda que eles avancem sem medo porque é uma ilusão. Quando vi a cena tive o insight claro de que isto indicava que ele sabia tratar-se de uma crença falsa proque quando a imagem apareceu ele teve confiança.

A primeira distinção, tentativa de recolocar os nomes no lugar, é distinguir ai o sagrado e o profano. A essência da religião – que a meu ver é única – do seu uso político, econômico, social, pessoal por homens desprovidos de qualquer fé verdadeira.

Lembrei-me de uma cena de um velho filme do Planeta dos Macacos original – senão me engano o segundo – quando os soldados estão prestes a invadir a “zona proibida” e aparecem barreiras de fogo e eles se detém. Quando aparece a figura do Legislador, base das crenças deles, o macaco sacerdote manda que eles avancem sem medo porque é uma ilusão. Quando vi a cena tive o insight claro de que isto indicava que ele sabia tratar-se de uma crença falsa porque quando a imagem apareceu ele teve confiança. A descrença, muito mais que o fanatismo, no fundo, está na base de todo abuso feito em nome da religião.

Há uma história no Masnavi de Rumi que dá uma outra dimensão a esta questão. Um rei que persegue os cristãos envia seu ministro como agente entre eles. Dizendo-se perseguido e tendo caído em desgraça e sido mutilado por tentar converter o rei é logo tomado como santo e mártir pro eles. Ele diverte-se ensinando 12 doutrinas diferentes – uma pregando a caridade, outra a paz, outra a guerra santa, outra o sacrifício, outra o prazer, enfim, conceitos diversos – e a cada grupo entrega um tratado teológico e indica um dos membros como seu sucessor, refugiando-se numa caverna e recusando-se a esclarecer as dúvidas, gerando confusão e guerras entre eles.

Há, nesta história uma distinção muito importante que nos dias de hoje faz toda a diferença. A divisão não é gerada na origem, mas na interpretação. A noção de que a mensagem é a mesma mas algo está “perdido na tradução” – o que não precisa significar que seja falso, apenas que estão expressos em sistemas simbólicos distintos (como diz, por exemplo o Sagrado Alcorão, a cada povo foi enviado um mensageiro para pregar na sua linguagem).

A mim, claro que é uma opinião pessoal, parece claro que conforme nos aprofundamos no estudo de cada tradição religiosa as proximidades e identidades simbolizadas vão se tornando muito semelhantes. Por outro lado a superficialidade que pega elementos diversos – quase sempre mas não obrigatoriamente, a vontade de cada um – de fés diversas tende a multiplicar ao invés de reduzir a confusão e completa o papel do vizir.

Nestes tempos de hoje há uma enorme valorização do que é novo, considerado obrigatoriamente como melhor – e para verificar isto basta ver como esta noção de novo é usada como apelo publicitário. Isto torna muito mais fácil o trabalho do vizir, afinal se há uma base comum é possível o diálogo e o debate, a descoberta de identidades, se pro outro lado não há nenhuma base senão a contestação do que existe então deixa de haver qualquer critério inteligente – ou seja não subjetivo – a partir do qual a diversidade aparente possa ser conduzida à unidade essencial. Não é à toa que Schuon dizia que este era o truque preferido do mal.

Há uma outra questão mais sutil a ser debatida que é a desvalorização do humano. Todas as religiões tradicionais implicam uma valorização do homem em seus ensinamentos e textos sagrados. Apenas para destacar um exemplo, na tradição judaico-cristã-muçulmana o homem ocupa um lugar central na criação, invejado pelo mal. Só o ser humano, dentre todos os seres criados – em todas as tradições religiosas – é feito à imagem e semelhança de Deus em sua totalidade.

A idéia de um Deus antropomorfo é apenas uma inversão do conceito tradicional do homem teomórfico. Assim a multiplicação de instâncias entre Deus e o homem, tão comum em nossos dias, é justamente a negação ou atenuação da relação pessoal entre o homem e Deus, outro ponto comum de identidade entre as várias fés. Sempre interessante destacar que etimologicamente falando, deuses não é o plural de Deus, ainda que tenha havido contaminação entre os dois termos ao longo do tempo. Deuses, nas línguas indo-européias vem de devas, enquanto Deus vem da raiz Theos, sopro. Num pequeno raciocínio, claro que pessoal, diria que a noção de representação de atributos – portanto parcial, está presente de forma nítida em “deuses”, enquanto de uma forma de outro a noção do Uno adicionando seu sopro ao homem – às vezes através de simbologias diversas – está presente nas diversas fés, todas elas destacando desd sus catecismos básicos, como cita Schuon, que só o homem pode retornar a Deus.

quinta-feira, 21 setembro, 2006 – 17:41

O defeito do tapete

“A natureza é o que Deus cria como Deus, a Arte é o que Deus cria como homem”. (Inayat Khan)

Todo tapete persa legítimo, tecido sob os cuidados de um mestre tapeceiro tradicional, tem algum defeito. Há duas explicações para isto, uma metafísica outra corporativa, ambas são não excludentes proque, afinal, todo símbolo tem muitos significados. A explicação metafísica é que só o que é feito por Deus é perfeito, portanto tentar a perfeição seria quase uma blasfêmia, a explicação corporativa é que através do defeito um outro mestre tapeceiro pode reconhecer se o tapete é legítimo ou não.

Diria que tanto a explicação que reconhece o sagrado como a que preserva o segredo me deixam tão impressionado que eu vejo um caráter complementar nas duas. Acho que uma das maravilhas da arte é justamente esta, o artista pinta um quadro ou o poeta escreve um verso e quando vê há, até para ele, um sentido muito diverso daquilo que ele estava pensando. Todas as metáforas e imagens parecem ser tão intercambiáveis.

Ninguém vai acreditar, eu sei, mas há imagens que eu uso que às vezes encontro em poemas de verdade. Em muitos casos foi um livro que eu li, guardei sem me lembrar de onde tirei. Mas há outros que acho em livros e poetas que estou lendo pela primeira vez, juro que não é desculpa pra algum plágio. Em outros casos fico surpreso em encontrar um sentido simbólico tão evidente e do qual não suspeitei em um texto que falava sobre outra coisa. Ou, pelo contrário, descobrir aspectos bem psicológicos ou até mundanos em algo que eu escrevi com a intenção de ser simbólico.

O sentido de qualquer obra de arte senão aquele que é percebido por quem a observa. Qualquer explicação sobre isto é certamente inútil e quem precisa de algum decifrador que lhe explique talvez devesse ficar em casa assistido TV.

Ao mesmo tempo, contudo, há impressões, imagens, símbolos, determinados efeitos, capazes de ser percebidos e admirados de uma maneira específica. O músico, derviche e “místico” indiano Inayat Khan (e uso os aspas para distinguir o termo místico, relacionado a mistério, do seu uso habitual nos dias de hoje, que é justamente o oposto) diz que sempre que um artista cria algo que ele próprio olha e se admira de ter feito – como o famoso “parla” de Michelangelo a uma de suas estátuas – há ali um conteúdo e um autor outro, uma inspiração, uma iluminação. Com imensa sabedoria Inayat Khan diz: “A natureza é o que Deus cria como Deus, a Arte é o que Deus cria como homem”.

A “imperfeição” do tapete persa exemplifica bem esta questão de criar como homem, de como as coisas que vem de outros de nossos estados não podem chegar até aqui inteiras, ainda mais nestes tempos e nestes ciclos, onde como destacam tantos sábios de fés tão diversas, perdeu-se quase por completo o ideal elevado.

O primeiro poeta que eu li, que me fez voltar os olhos para a poesia, foi Pessoa. Nele este processo de intuição e inspiração é de tal forma consciente que cada poema, às vezes um só verso, falem por tratados e tratados. Talvez por isto ele pudesse levar uma vida tranqüila, não se abatia pelo orgulho, nem pelo efêmero, ainda que fosse “argonauta da sensibilidade doentia”, convivia bem com o patrão Vazquez. Era tranqüilo como era Khayyam, que morreu velhinho, ainda que os poemas de ambos sejam terremotos que fendem a terra e revelam céus e infernos dentro de quem lê.

Para traçar um paralelo, há belíssimas imagens no atormentado Mario de Sá-Carneiro – imagens certamente trazidas através da ponte que liga este nosso mundo ao Mundo Imaginal, o Mundos das Idéias Arquétipicas, mas há nele ali aquele imenso de não ser capaz de lidar por completo com o processo todo, o mesmo com o depressivo Rilke. A pintura, em particular, oferece dezenas de exemplos deste mesmo processo, do qual Van Gogh é o caso exemplar.

Engraçado que nestes tempos modernos, confundindo efeitos com causas, criou-se o mito de ser necessário ser maldito para produzir arte. Buscasse a insígnia e a distinção de ser artista tentando se comportar como os atormentados artistas, não a expressando pela obra, pela opressão da intuição estética que racha montanhas, mas apenas substituindo os efeitos pela aparência de que eles ocorrem. É como um tapete no qual estivesse faltando justamente o defeito.

quarta-feira, 20 setembro, 2006 – 15:30

Espada

Todos os Livros Sagrados

Ensinam a a usar a espada.

Aqueles que os lêem

É que não entendem:

O inimigo,

Como o céu e inferno,

Está dentro

E não fora.

terça-feira, 19 setembro, 2006 – 12:51

Olhar

Só os mágicos de circo

Precisam de espetáculo,

Holofotes, platéias.

Basta abrir os olhos

Para ver maravilhas,

Aliás, nem isto precisa.

terça-feira, 19 setembro, 2006 – 12:53

A taça está vazia

Não é porque a taça está vazia

Que amaldiçoarei o vinho,

Não foi amargo como a vida,

Mas doce como o que jorra

Nas fontes do Paraíso.

Quem sabe nesta embriaguês

Cessando pela aurora

Não encontro o caminho

Para aquela fonte onde quem bebe

Nunca mais sente sede!

quarta-feira, 13 setembro, 2006 – 15:35

Aves de arribação

“Pássaros de mesma plumagem andam juntos” (Farid Attar)

Um dia decidir não temer mais a chegada do crepúsculo

E, ao invés, esperar ansioso a chegada da aurora,

Afastei-me dos corvos delirantes e furiosos

ao respirar a fumaça emanada das profundezas

E então me descobri falcão e vooei em busca dos meus.

quarta-feira, 13 setembro, 2006 – 22:29

Revistando o camelo

Minha história preferida de Nasrudin, que até já contei aqui mas repito hoje, é aquela na qual todos os dias o mullah passava pela fronteira com um camelo – bom, na história original parece-me que era um burro, Millor colocou uma motocicleta na sua versão da história, eu gosto de pensar em um camelo porque é um animal grande, evidente, difícil de não notar, além de dar um tom mais exótico.

Todos os dias o mullah atravessava a fronteira entre a Síria e a Pérsia – também não venham me dizer que não há esta fronteira proque a história não é sobre geografia – com o camelo, o guarda da fronteira revistava a carga e o deixava passar. Como Nasrudin dava sinais de estar enriquecendo todos desconfiavam que ele se dedicava ao contrabando e revistavam ainda com mais rigor, sem encontrar nada.

Muitos anos depois o guarda da fronteira se aposentou e pediu que Nasrudin lhe contasse seu segredo, fazendo mil promessas de não revelá-lo. O mullah respondeu apenas:

ora, eu contrabandeio camelos!

A infinidade de sentidos que se pode dar a esta história são quase infinitos e ao mesmo tempo único. Cada um, certamente, pode encontrar o camelo que a historinha conta se procurar bem. Mas este texto também não é sobre isto, mas sobre como o conhecimento pode ser encontrado não onde é procurado, mas onde está tão evidente que ninguém o procura.

Por isto prefiro procurar o conhecimento na literatura e em particular na poesia, e as vezes nas coisas banais, do que em grossos volumes que se propõem a explicar tudo. Há palavras que quando escuto tenho vontade de sair correndo, como filosofia, por exemplo, porque isto me lembra um monte de gente petulante incapaz de distinguir entre aquele que tem um diploma de filosofia, a quem chamam por algum motivo obscuro de filósofo, daquele que pensa, que são tão poucos e não dependem de nenhum símbolo externo para serem sábios.

Sempre que visito os sebos do centro de São Paulo vejo prateleiras e prateleiras de livros ditos “esotéricos”, “místicos”, “ocultistas”. A própria existência destas prateleiras seria por si só uma prova da inutilidade destes livros – muito raro, por exemplo, vejo um livro de Borges num sebo. Se realmente dessem algum poder secreto àqueles que o buscam o proprietário original não teria se desfeito dele em hipótese nenhuma.

Não sou tão radical neste assunto como, por exemplo, Schuon e Guénon que escreveram diatribes ferozes contra estas superstições mágicas que tentam apresentar como o esotérico justamente o seu inverso, a superstição, a mágica. Quando falo do assunto apenas destaco a pergunta: o que você está realmente procurando o conhecimento ou o poder que acha que ele dará.

Minha tendência meio natural à tolerância – graças a Deus – faz com que eu veja sinceridade entre muitas destas pessoas que estão procurando algo que não sabem bem o que é em um lugar onde esta coisa nunca estará – em outras palavras que estão revistando o camelo.

Com todos os recursos do marketing, toda esta pressão de uma sociedade individualista que faz as pessoas desejarem fazer parte de algum grupo, seja lá qual for, toda esta indústria do “misticismo de boutique” no qual se vêem iniciações diversas sendo vendidas por um módico investimento, acho que há sim gente sincera perdida nestas ruelas do submundo dando ouvidos aos magos Simão high-tech.

Uma das poucas pessoas que leram estes autores e demonstra que os entendeu e os vive – também a única pessoa que quando me chama de sábio eu quase acredito – me falava estes dias que quem trava a luta é este outro lado, aquele que detesta tudo que é seleto. Lembrei-me na hora de Ortega Y Gasset e do que ele fala sobre o horror do homem-massa a tudo que é elevado, nobre, à razão e à argumentação.

As coisas nas quais pensei só me fazem desconfiar ainda mais dos livros que prometem ensinar algo, porque salvo estas pouquíssimas pessoas que leram e entenderam, a maior parte dos leitores de Guénon também o tratam como um símbolo de poder, caem em um intelectualismo estéril, na necessidade de provar-se superior aos outros por ter lido. No fundo também buscam um poder mágico nos livros que lêem e com isto acabam se tornando iguais ao que mais combatem, também revistam o camelo.

Há uma infinita beleza e sabedoria, por exemplo, em um poema de Rumi. Alguns, talvez a maioria, o leiam sem perceber nada, outros encontrarão ali um oceano de sabedoria que não poderia estar contida em toda uma daquelas estantes de sebo que mencionei. Penso nisto e quase que acho o camelo…

terça-feira, 12 setembro, 2006 – 18:00

A Flauta de Rumi

Uma amiga me pede que eu explique Rumi, que cito tanto e que tem estado tão presente em tudo que faço nos últimos tempos. Não me sinto a vontade para explicar, afinal a mesma pergunta há poucos meses teria uma resposta muito distinta, porque antes eu nada entendia de Rumi, sabia alguns belos versos, alguns detalhes biográficos, tinha uma idéia mais ou menos vaga das coisas sobre as quais ele falava.

Nunca esperem de mim alguma explicação acadêmica sobre o assunto. Não ligo para contextos, datas e coisas do tipo, apenas para a impressão que este ou aquele autor causa em mim, a forma como eu o entendi – que pode até ser a errada, mas e daí, já que o importante é a imagem dele em mim.

Para explicar Rumi ao invés de ir buscar algum poema dele eu prefiro pegar algo bem contemporâneo – bom, já ouvia quando era criança, mas acho que dá pra dizer que é contemporâneo – a letra de Pedaço de Mim, de Chico Buarque. O sentimento mais essencial de Rumi é o mesmo desta música tão triste. Cito um verso, meio ao acaso porque poderia citar qualquer outro:

Oh, pedaço de mim

Oh, metade arrancada de mim

Leva o vulto teu

Que a saudade é o revés de um parto

A saudade é arrumar o quarto

Do filho que já morreu

O tema central de Rumi é a saudade, a dor da separação, que ele expressa de várias formas uma das mais belas é quando diz que o canto da flauta é triste pela saudade que sente do junco do qual foi cortada. Também expressa esta saudade na ausência de seu mestre Shams al-Tabrizi ou mencionando a história corânica da paixão escandalosa de Zuleika, esposa de Potifar, por José.

Esta saudade, este sentimento de insaciedade, estas buscas todas, diz Rumi, são na verdade uma transferência, uma expressão de um sentimento que não somos capazes de alcançar de imediato: a dor da alma por estar separada do Uno. Para ele somos como a flauta que lembra e sofre por não estar mais ligada ao junco e por isto canta.

Esta sensação está expressa em diversas metáforas, a embriaguez, o amor, a identidade com o outro, as saudades do Bem-Amado, a dor da perda. Mas não são só metáforas, mas símbolos mais expressivos porque também estes tantos estados não só expressam o que no fundo é esta sensação de separação da Unidade como também podem ser portas através das quais se pode chegar a desvelar o Amor Divino, do qual todos os demais amores são emanações.

Não é estranho, assim, que diversas ordens sufis – bem como instituições semelhantes da mais variadas fés – busquem entre aqueles que outros julgam perdidos, porque de uma forma estranha entre esses às vezes é possível encontrar corações despertos incapazes de encontrar o caminho. Os corações, contudo, não podem ser despertados à força e sempre acho que fazem mais bem do que mal aqueles que tentam fazê-lo assombrando os infelizes com ameaças terríveis se não despertarem, situação que só serve para causar inútil ansiedade.

Os simples mortais com suas vidas sem inquietudes só tem um coração que dorme, portanto não imagino que qualquer um possa entender Rumi. Talvez possam achar belo, repetir alguns versos, até colocá-lo entre seus autores preferidos – como eu próprio fiz tantas vezes – mas para entender realmente Rumi é preciso vê-lo com os olhos que Majnun – o apaixonado – vê Laylat – o objeto da sua paixão (curioso que a palavra tenha a mesma raiz de Lilith).

O próprio Rumi não entenderia sua poesia e sua música se não tivesse sido iluminado pelo Sol de Tabriz, o pobre derviche que um dia o visitou, arrancou de suas mãos o manuscrito que ele escrevia, mostrou como tudo que ele vivia era vaidade e ilusão e o convidou a atender ao chamado de seu coração, despertando-o. Um viu no outro algo distinto do que todos os demais viam. Reza a lenda que Shams havia ofertado a alma a Deus em troca de ser capaz de despertar um coração.

É na superação da dor da perda de seu mestre desaparecido que Rumi consegue desvelar aquele amor profundo, aquele amor que não é reflexo nem emanação, o Amor Divino, único que é capaz de reparar esta sensação de ter um pedaço de si separado do todo. Mas aqueles que estão entre os pobres mortais e não sentiram o amor não conseguirão despertar para aquele Amor mais profundo, aquele Amor que permite transcender a identidade.

As pessoas costumam confundir o amor ao outro com o amor ao ego disfarçado. O Amor de que fala Rumi não é este último, nem a dor profunda da qual ele fala é estas inquietações do ego que afligem aqueles que amam a si próprios. Mas sobre isto nada do que eu falar pode ser entendido por quem não sentiu e tudo que eu falar já é bem sabido por aqueles que já viveram isto. Digo apenas que quando este sentimento ocorre muitas vezes ele é capaz de ser estendido à humanidade, ao mundo, não se fixa no objeto porque ele dá a compreensão da unidade mais profunda.

segunda-feira, 11 setembro, 2006 – 13:26

Tapete Persa

Cada pedaço do desenho

Do tapete persa pode ser belo

Mas tem de ver o desenho todo

Para compreender a beleza

Maior do que a soma das partes

Por mais belo que seja

Todo tapete é imperfeito

Pela marca oculta

Guardando o segredo

E revelando o sagrado!

segunda-feira, 11 setembro, 2006 – 20:29

Confie no conto, não no contador

Vou pensando na frase de DH Lawrence,

E vendo como as pessoas precisam buscar

Nos seus títulos e poderes

A autoridade ausente nas palavras.

Aqueles que são jamais o dirão

E aqueles que dizem jamais o são

O que faz um rei não é a coroa

Mas a majestade que nenhum tirano terá.

Os mais belos tronos são aqueles

Nos quais se senta o que necessita

Do esplendor do ouro para ofuscar

Sua própria obscuridade.

Cada um é aquilo sobre o que pensa,

Nem mais, nem menos, apenas isso,

Todo o resto é nuvem que se dissipa

Durante a viagem de volta.

segunda-feira, 11 setembro, 2006 – 21:40

Tolo

Como posso ser um sábio

Se não posso nem adquirir

A ignorância suficiente

Para ser um Tolo?

sábado, 9 setembro, 2006 – 16:25

O Sol de Tabriz

Todos conhecem Rumi

Mesmo neste mundo atribulado

Seus versos ainda atiçam as fagulhas

Na fornalha de corações frios

Shams al-tabrizi é só uma nota de rodapé

Mas que seria de Rumi, não fosse ele?

Rumi teria terminado o manuscrito

Tirado das suas mãos pelo dervixe andrajoso

Continuado com a ilusão de felicidade

Com as dignidades e honras e confortos

E hoje seria uma nota de rodapé

Em algum dicionário biográfico

Entre tantos sábios que o Islam produziu,

Aos pés do trono da Majestade

Não uma taça vazia onde a Beleza verteu o vinho

O mundo seria menos belo

Sem os poemas e a música

E os rodopios dos dervixes,

Ninguém saberia porque o canto da flauta é triste

Porque o coração de Rumi não teria despertado

Sei que não sou Rumi

Mas você, ´ayni,

É para mim o Sol de Tabriz,

Perdoa se minha taça ainda não está vazia

E pronta para a última lição.

sexta-feira, 8 setembro, 2006 – 18:46

Para um muçulmano irado

Sete derviches piedosos

Armados só com o exemplo

Conquistaram a Indonésia.

Milhares de guerreiros mouros

Armados com o aço de Toledo

Perderam a Espanha.

quinta-feira, 7 setembro, 2006 – 15:41

Fio da meada

Tento desentrelaçar os fios

Das minhas várias inquietudes

Emaranhados pelas expectativas

De soluções mágicas e únicas

quarta-feira, 6 setembro, 2006 – 17:16

Um antigo templo na floresta

À sabedoria

O meu orgulho do que desespera.

Abre a quem não bater à tua porta.”

(Fernando Pessoa)

Senti seu olhar de brâmane

Por detrás da floresta densa

Lá das ruínas perdidas

Onde habitam mitos.

Não compreendi

O sentido e finalidade

Daquele olhar

Mas soube não ser vão.

Disperso e distraido que sou,

Ainda assim ouvi

Quem esperava à soleira

Sem bater.

Quem sabe desperto

Encontre o caminho,

Oculto na selva,

Até o santuário.

quarta-feira, 6 setembro, 2006 – 18:19

Noite gelada

À Misericórdia

Imagino o vento gelado,

Suas mãos geladas,

Sua voz trêmula

E me espanto

Do caloroso abraço

Desta sua compaixão.

Fico com vontade de chorar,

Por mim, de pura inveja

Desta sua fé tão grande,

Esta esperança tão profunda,

Tão maiores que minhas ninharias.

quarta-feira, 6 setembro, 2006 – 18:25

Vazio

À Solidão

Em você sou inteiro

Em você sou livre

Em você sou pleno

Em você meu caminho

Não se perde nos atalhos.

No silêncio de seu discurso

Tento escutar o meu!

quarta-feira, 6 setembro, 2006 – 18:28

Encha a taça!

À liberdade

Com vinho e versos de Khayyam

Vamos celebrar as conjunções dos astros

Sepultar os espectros, Esquecer os futuros

Só os livres sabem o sabor da vida!

quarta-feira, 6 setembro, 2006 – 18:37

A prova do lenhador

Al-Ghazalli conta uma história que eu gosto muito de contar, recontar e meditar sobre ela, embora nem sempre – quase nunca – consiga refleti-la na minha vida. Adapto a história para tirar dela certos elementos estritamente islâmicos ou que pdoeriam ser mal compreendidos, e de forma bem reduzida, mas preservando a idéia original:

“Um lenhador começa a cortar uma árvore na floresta quando sai dela um demônio, diz que aquela árvore é a sua casa e não permitirá ao lenhador cortá-la. O demônio avança contra o lenahdor, mas é derrotado com facilidade e fica prostrado no chão com a surra que leva do lenhador.

Vencido o demônio oferece-se para colocar três moedas de ouro todos os dias debaixo da porta do lenhador. Desconfiado da proposta de um ser famoso pelas falsas promessas, o lenhador tenta recusar, mas o demônio lhe lembra que semrpe pdoerá voltar e derrubar a árvore caso a promessa não seja cumprida e o lenhador aceita.

Na primeira smana as moedas aparecem todas as manhãs por baixo da porta, de repente elas deixam de chegar e após esperar sem sucesso por uma semana o lenhador pega o machado e furioso decide cortar a árvore. Novamente o demônio que morava lá resiste, mas desta vez quem fica estatelado no chão é o lenhador.

Espantado por ter sido derrotado um adversário que tinha esmagado com tanta facildiade da outra vez, pergunta o que aconteceu. O demônio, com uma gargalhada, responde:

Na primeira vez lutou pela sua fé, agora lutou só por um punhado de moedas de ouro.”

Ser capaz de se saber o que se busca, se há uma finalidade ou estamos perdidos nos meios para atingi-lo – e escrevo aqui tendo muito em mente alguns textos de Schuon sobre o reverso do espiritualismo – é talvez a questão mais fundamental para que se consiga ter algum resultaod nas buscas. É também um elemento improtante para distinguir que é verdadeiro daquilo que é falso, ainda mais neste terreno tão pantanoso da religião e da espiritualidade no qual o oculto e o superficial são legião. Mas não se pdoe ignorar que é também cosia importante para manter a concentração permanente que se deveria ter, como lembra uma amiga, quando nos movemos em um mundo no qual tudo é sagrado.

A regra das três moedas é capaz de distinguir tudo claramente na nossa mente, na emdida em que ao menos para nós é a nossa ação e nossa intenção que oferece as regras.

A participação em um ritual rleigioso, seja lá de qual fé, está sendo movida pelo nosso desejo de nos elevarmos e vislumbrar Deus, ou como um ritual mágico de constranger a divindade a atender nossos pedidos, livrar-nos do castigo ou nos dar recompensas?

Buscamos um determinado conhecimento para que ele nos ilumine ou para que ele nos dê algum tipo de poder?

Tentamos seguir um caminho para cumprir nosso dever ou para que nos sintamso superiores aos outros, que se torne algo que nso distinga dos demais?

Lembrei-me destas coisas quando fui no cinema no final de semana e perdi o dinehiro do ingresso assitindo a um filme infeliz, A Dama na Água, previsiível, superficial, marcado pro esta compreensão de que o espiritual é algum tipo de ritual mágico destinado a invocar ou exorcizar alguma força. Em outras paalvras voltado aqui para este mundo. E nem sequer isto consegue fazer muito bem porque chega ao limite do supérfluo e do ingênuo que, julgo, nem os adeptos da Nova Era vão gostar.

Tenho falado e conversado muito com diversas pessoas sobre esta questão da unidade essencial das religiões. Senti certa necessidade de esclarecer um tanto este conceito para que ele não seja entendido à luz destas idéias vagas que as religiões perderam o sentido e devem ser abandonadas em função de alguma coisa meio vaga e amorfa.

Minha visão é exatamnte a contrária. Não me sinto tão radical como estes sheikhs que nasceram no Ocidente e se encotnraram no islam, como Guénon e Schuon, mas creio como eles que a unidade se encontra no aprofundamento em cada fé, na busca das essências, na disciplina ritual, na compreensão mais profunda daquilo que o Uno disse aos homens de formas variadas. Na minha avaliação quando isto ocorre as pessoas reconehcem a verdade comum, muito mais do que simplesmente negando a validade das prescrições, processo que no fundo equivale a colocar a si ou a algum outro ser humano como juiz, negando da forma mais veemente justamente o laço do sagrado.

Falo sempre e a diversas pessoas que pro detrás das diferentes aparentes entre as fés há uma unidade essencial. Pensando enste conceito diria que certamente se chega á essência cavando mais fundo, não ficando na crosta. É fácil verificar isto ao se ver que é mais fácil discutir com uma pessoa de outra fé que tem a sabedoria da sua revelação desvelada no seu coração do que com pessoas de uma fé superficial e que protanto não são capazs de ir além dos dogmas, da rpetição de regras, citações e frases.

A primeira ilumina, fortalece a fé de ambos, como já tive várias oprotunidades de cosntatar – sempre me redescobrindo muçulmano – enquanto a segunda é um diálogo de surdos, como descreve – em outro contexto ams descrevendo o mesmo processo, – Ortega Y Gasset:

”Possuir uma idéia é crer que se possua as razões da mesma, e é, portanto, crer que existe uma razão, um mundo de idéias inteligíveis. Idear, opinar, é uma mesma coisa, apelando para ela, a forma superior da convivência é o diálogo em que se discute a razão das nossas idéias.

É evidente que não quero dizer que exista uma razão, um argumento fundamental que faça com que no final se descubra qual é a religião verdadeira. Pelo contrário – e aqui, reconheço, é uma questão de fé não completamente demonstrável, ainda que ibn Rushd tenha tentado fazê-lo – é um raciocínio que repousa na crença que todas as religiões provém da mesma fonte e portanto a investigação e o debate sincero acabarão por demonstrar que há um centro comum a partir do qual todas as expressões do sagrado foram delimitadas.

Posso, então, voltar a história do sheikh al-Ghazalli, para dizer que isto só é possível de ser encontrado quando a busca não é pelas três moedas de ouro, quando não há desejo de vitória, nem de recompensas, nem de castigos, nem de poder, mas apenas a pureza das intenções que sempre é capaz de nos manter no caminho se esquecemos os surrusos do mundo para ouvir o mais completo silêncio dos nossos anseios.

quarta-feira, 6 setembro, 2006 – 18:50

A inebriante liberdade dos Rubayyiat de Khayyam

“Na terra cheia de cores alguém caminha:

não é muçulmano, não é infiel, nem pobre, nem rico;

não acredita na Verdade e não afirma nada.

Quem é esse, intrépido e triste?” (Khayyam)

Estou aqui há uma semana tentando terminar este texto sobre os Rubayyiat de Omar Khayyam. Engraçado que isto nunca ocorre comigo, sento, abro o micro e alguns minutos depois o texto está lá. Os raros textos que permanecem incompletos ou guardados estão em alguma gaveta real, digital ou mental proque na verdade esperam desfechos, conclusões, não é é caso deste.

Fui desgostando das versões que ia escrevendo. Eu nunca liga pra contextos, informações técnicas, informações biográficas, enfim, estes detalhes irrelevantes que aqueles que não entendem que tudo que é belo pertence a um outro mundo mais elevado no qual não há história, nem tempo, nem espaço, provavelmente nem autor. E não satisfeitos em não ser capaz de ascender a este mundo ficam inventando teorias, sistemas, críticas e interpretações para tentar roubar a beleza e impedir que os outros a vejam, tentando ocultá-la atrás desta linguagem oca, estéril e emproada de academias opostas a Academia original.

Senti vontade de voltar a fonte e passei boa parte do final de semana embriagado com cada rubai do mestre. Deixei-me levar pelas sensações, ser invadido de novo por aquela indiferença pelos mundos que os rubayyiat inspiram, deixando-me ficar possuído pela enorme vontade de viver contida neles. Curioso que há tempos não relia o texto e na última vez que o li tive sensações bem diferentes.

De todos estes maravilhosos poetas esotéricos muçulmanos – Rumi, Saadi, Attar Shams al-Tabrizi e tantos outros, quase todos persas – nenhum conseguiu tantos admiradores – e mesmo imitadores – do que Omar Khayyam. Há muito de Khayyam, por exemplo, no Fernando Pessoa ele-mesmo, como em multidões de poetas, em particular nas gerações perdidas.

Talvez eu esteja errado, tenho esta mania de às vezes confrontar opiniões estabelecidas o que dá certa fama de sábio que não mereço, mas me parece que a poesia de Khayyam é admirada justamente porque a simbologia ali contida não é de fato entendida no sentido que ele desejou. Mesmo admirando Samarcanda – este meu maravilhoso livro de cabeceira, o qual já li algumas dezenas de vezes e recomendo a todos, que tem como personagem central o manuscrito dos Rubayat de Khayyam – chego a conclusão que Amin Maalouf entendeu pouco de Khayyam e menos ainda cada rubai que cita.

O poeta persa não é um profeta da desesperança, alguém que prega que como o mundo é terrível devemos nos embriagar. Para mim, Khayyam, como Rumi, diz que devemos nos desligar das coisas ilusórias, dos ruídos deste mundo, buscando o verdadeiro prazer e consciência que existe para além de toda preocupação e toda ansiedade.

Ele não canta o desespero, os maus dias que roubam o sentido da vida. Não deixou a vida serena e a poesia para se tornar traficante de armas na África como seu leitor Baudelaire. Pelo contrário, ficou lá escrevendo horóscopos para os poderosos da época – até o começo do século a Pérsia ainda usava um calendário feito por ele no qual s meses correspondiam aos signos – fazendo suas observações astronômicas, resolvendo equações cúbicas, participando de audiências pelas cortes, recusando ou aceitando cargos políticos, mas sem jamais ligar para eles.

“É inútil a tua aflição;

nada podes sobre o teu destino.

Se és prudente, toma o que tens à mão.

Amanhã… que sabes do amanhã?”

Não são versos de quem está perdido na falta de sentido das coisas, mas em quem já se libertou, já superou este limite humano de pensar sobre o mundo, de gastar o tempo presente pensando sobre como será o manhã ou foi o tempo, estes dois mundos habitados por espectros das nossas ansiedades. É o sentimento de quem obteve tal paz que pode viver neste mundo, em Dunya como chamam este nosso mundo ilusório os grandes sheikhs, sem se incomodar com ele porque habitam de fato para além das esferas.

Também há quem veja em Khayyam um inimigo da religião e dos religiosos, alguém que chama a descrença e portanto também é lido e admirado pelos céticos diversos, não lido e odiado pro fanáticos de todo tipo. Também não consigo ver nele este sentimento, pelo contrário só encontro nele aquela espiritualidade liberta de todo desejo de recompensa e temor de castigo, aquela relação profundamente pessoal com Deus.

Em uma passagem de Samarkanda, Maalouf coloca na boca do poeta a frase “quem precisa de salamaleques são os poderosos desta terra, Deus dispensa formalidades e bajulações”. Não sei se a frase é de Maalouf ou realmente de Khayyam, mas certamente ela é condizente com o poeta que proclama em um rubai:

Nunca murmurei uma prece,

nem escondi os meus pecados.

Ignoro se existe uma Justiça, ou Misericórdia;

mas não desespero: sou um homem sincero.

Ou ainda:

Além da Terra, pelo Infinito,

procurei, em vão, o Céu e o Inferno.

Depois uma voz me disse:

Céu e Inferno estão em ti.

E, apenas para rematar o raciocínio:

É inútil te afligires por teres pecado;

também é inútil a tua contrição:

além da morte estará o Nada,

ou a Misericórdia.

Leio em algum lugar que há grande disputa entre os críticos se o amor e o vinho, personagens freqüentes dos rubais, devem ser interpretados no seu sentido literal como celebrações da vida ou como símbolos esotéricos da iluminação, do transe. Confesso que tenho certa vontade de rir da disputa e me lembro de outro rubai:

Os sábios mais ilustres caminharam nas trevas da ignorância,

e eram os luminares do seu tempo.

O que fizeram? Balbuciaram algumas frases confusas,

e depois adormeceram, cansados.

O que torna um símbolo valioso é justamente a sua capacidade de ser entendido em seus múltiplos sentidos e, além de tudo, serem válidos tanto como metáforas como enquanto realidades.

Lembrando um outro rubai:

Um jardim florido, uma bela mulher, e vinho.

Eis o meu prazer e a minha amargura,

o meu paraíso e o meu inferno.

Mas quem sabe o que é Céu e o que é Inferno?

Diria que sentido faria falar em amor ou embriaguez a quem não sabe o sentido destes símbolos. E aqui me lembro de um romance de Anatole France, Thais, sobre um monge que resolve sair da sua vida de sacrifício e oração para uma missão mundana e a consegue, mas no caminho se perde. Lembro também do Masnavi de Rumi que fala sobre as diferentes formas pelas quais o chamado espiritual se manifesta, distinguindo às vezes até com aflição, aqueles que se embriagam na saudade do retorno a Deus daqueles para os quais a vida comum neste mundo – os “cadáveres adiados que procriam, como diria Pessoa leitor de Khayyam.

Para que buscar sentido onde só há deleite, pouco importa se espiritual, físico ou ambos, parece ser melhor que cada leitor encha a taça em cada rubai daquilo que o sacia. E só para encerrar um rubai no qual o mestre fala de seu legado:

Do meu túmulo virá um tal perfume de vinho

que embriagará os que por lá passarem,

e uma tal serenidade vai pairar ali,

que os amantes não quererão se afastar.

Notas

Todos os rubayyat citados são da versão em português de Alfredo Braga

Conforme vou tendo tempo estou postando esta versão na comunidade em português de Khayyam:

http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=4532457&tid=2485056854725310151&start=1

Aproveito para convidar a todos que se interessam para participar desta comunidade:

http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=4532457

segunda-feira, 4 setembro, 2006 – 18:21

Brincadeiras

O rato agitado

Só atiça o apetite do gato

E prolonga a brincadeira

Tentando, em vão, escapar.

Só espero que brinque,

Disfarço a agitação,

Enquanto aguardo, que se canse

e me devore!

domingo, 3 setembro, 2006 – 15:31

Lendo o rubayyiat de Khayyam

Lá pelo vigésimo rubai,

Eu penso no poeta persa

Escrevendo poemas nas horas vagas

Quando não olha o céu para fazer

Cálculos astronômicos ou preparar horóscopos

Para os poderosos com quem despacha.

Entre uma equação cúbica e um ofício,

Ele tinha sempre espaço para um rubai,

Uma taça de vinho, um beijo.

Invejo esta multiplicidade e unidade,

De tantas personagens, todas livres,

Das aflições da eternidade!

domingo, 3 setembro, 2006 – 15:56

Lampejos

Mil vezes uma gota de sabedoria

Oculta em um verso ou beijo,

No lugar de volumes minuciosos, portanto vagos

Nos livros dos doutos.

domingo, 3 setembro, 2006 – 17:46

Não me desperte

“Seu nome está em minha língua

Sua imagem em minha visão

Sua memória em meu coração

Para onde vou mandar estas palavras que escrevo?” (Rumi)

Deixa que eu durma um pouco mais

E continue no sonho

Não, não me desperta

Prefiro até o pesadelo

À este Sol rotineiro

Se me despertar deixo

De ser Eu

Para tornar-me

Apenas mais um

Na multidão dos insones

sexta-feira, 1 setembro, 2006 – 19:04

Meditação sobre um trecho de Laylat e Majnun de Rumi

“Toda noite, espíritos são libertados dessa jaula,

E tornados livres, sem comandar nem ser comandados.

De noite, o prisioneiro não tem consciência de sua prisão,

De noite o rei não tem consciência de sua majestade.”(Rumi)

La illaha illah, la illaha illah, la illaha illaha

A voz ecoa no vazio da noite

Desfiando as contas imaginárias

Que eu até ouço

La illaha illah, la illaha illah, la illaha illaha

Nada é o que parece

A escuridão só oculta

O que vemos

La illaha illah, la illaha illah, la illaha illaha

Leva noite, leva,

Tudo que penso saber,

Para me despir dos véus

La illaha illah, la illaha illah, la illaha illaha

A respiração, o ritmo

A embriagues da paixão

A imersão sem medo

La illaha illah, la illaha illah, la illaha illaha

Viajar na escuridão

Não é como passear na luz

Só no amor, a coragem

La illaha illah, la illaha illah, la illaha illaha

De coração apertado

Desço a escada escura

Da masmorra

La illaha illah, la illaha illah, la illaha illaha

Deixo lá tudo que sei

E penso que sei

Para alcançar a Sabedoria

La illaha illah, la illaha illah, la illaha illaha

E ela me envolve

Como uma deusa colérica

Lutando com o caos

La illaha illah, la illaha illah, la illaha illaha

Profana meu medo

Obscurece minha visão

para que eu enxergue

La illaha illah, la illaha illah, la illaha illaha

La illaha illah, la illaha illah, la illaha illaha

La illaha illah, la illaha illah, la illaha illaha

La illaha illah, la illaha illah, la illaha illaha

Ofegante me refaço, coração disparado

A paz do terrífico

Abro a janela

e lá num céu distante

Vejo a estrela da manhã

Sair de trás das nuvens!

quinta-feira, 31 agosto, 2006 – 17:21

O caminho nos escolhe

Às vezes me perguntam porque sou muçulmano. Fico meio sem saber o que responder em alguns momentos, porque pressinto na pergunta o estereótipo, a noção de que eu deveria usar roupas estranhas, ter uma longa barba, ser intolerante, fanático, não ler as coisas que leio, escrever as que escrevo, ser algum tipo de “estrangeiro” e como pareço uma pessoa normal isto parece gerar alguma dissonância cognitiva nas pessoas.

Mas ás vezes sinto que a pergunta é sincera e então me esforço por responder, ainda que nem sempre o saiba com certeza. A primeira resposta que me vem a mente é que apreciando e reconhecendo o sagrado em todas as fés, a que me tocou, a que me fez sentir realmente entrando em uma jornada espiritual foi o Islam.

A resposta é boa, reconheço, mas um exame mais profundo demonstra apenas que ela é efeito e não causa. Se há tantos caminhos válidos o fato de eu ter encontrado um deles e me sentindo atraído por ele só pode significar que deve haver um sentido, uma motivação mais profunda para isto.

É um alívio saber que esta motivação não foi – como é muito comum acontecer neste período de revivalismo religioso de tantas fés – a necessidade de comunhão com um grupo. A necessidade de não se sentir só em um mundo cada vez mais individualista tem enchido igrejas, mesquitas e os mais variados templos pelo mundo. Não é o meu caso e respiro meio aliviado com isto.

Poucos, muito poucos mesmo, dos meus amigos são muçulmanos. É difícil me ver em alguma mesquita embora este seja um dever que eu negligencio. Só muito recentemente comecei a ir a uma pequena e distante ala de orações, freqüentada pro poucos que me acolheram com hospitalidade mesmo eu estando longe de ser um derviche como eles.

Lá pela juventude fiz muito disto de fazer parte de grupos estranhos para me sentir parte de algo e sei bem que não se trata disto. Pelo contrário, me sinto bem sozinho ou com alguns poucos amigos seletos, quase nenhum deles muçulmano. Nunca fiz uma estatística precisa, mas diria que os budistas são a maioria entre eles e os ligados a alguma forma de espiritualismo os segundos.

Penso então na hipótese contrária, se não for o desejo de ser diferente. É a tese de alguns, incluindo pessoas que deveriam primar pela tolerância mas tem certo gosto em hostilizar minha opinião. Mas se fosse assim eu exerceria esta coisa exótica, eu pelo contrário fico no meu canto, acho que poucos dos meus colegas de trabalho, vizinhos, colegas de atividade sabem que sou muçulmano. Então, por felicidade descarto também esta hipótese.

Lembro-me de uma personagem, uma artista plástica, de John dos Passos em 1919 – exemplar raro de romance experimental que me agradou – que se converte ao catolicismo apenas pro uma questão estética, pelo gosto pelos vitrais e estátuas. Chego a pensar que é a força sutil da cultura islâmica que me impulsiona, na forma como os arabescos expressam de forma perfeita a diversidade e a unidade dentro do Islam, como diz Garaudy nas imagens de geometria, matemática intrincada, padrões por si só conduzindo ao transcendente, quase musical na qual se expressa um Deus não representável.

Penso também nos sábios que essa visão de mundo que busca a Unidade, a Totalidade, gerou. No ideal do hakim ao mesmo tempo médico, astrólogo, poeta, filósofo, teólogo, músico, químico e tantos outros ofícios. Lembro que meu caminho até o islam começou lá no começo dos ano 90 de forma bem tortuosa, quando depois de ler uma referência de Engels as prolegômenos de Ibn Khaldun fiz de tudo para encontrar o livro (engraçado como tantas coisas na minha vida acontecem por meio de livros, às vezes penso que é por não viver o suficiente).

Mas daí vou sentindo que não, que não sou muçulmano por amor a um verso de Rumi, um rubai de Khayyam, algum mihrab particularmente bem construído, um belo minarete ou algo assim, mas por que este algo além do que eles transmitem pela sua beleza ou sabedoria fala lá dentro comigo, me impulsiona, me motiva. Mas mesmo esta questão não me satisfaz, também vejo este transcendente em tantos poemas de tantos autores de diversas religiões ou até de nenhuma, ainda em nenhuma outra eu consiga enxergar a representação concreta da transcendência.

Por vezes também julgo que a escolha de uma religião guerreira é uma espécie de contraponto ao meu temperamento muito pacífico – salvo eventuais acessos de cólera que acabam sendo o resultado da índole dócil, mas que na sua origem é uma natureza mais complemplativa que ativa. Não vou discutir aqui a questão do Islam ter a mesma raiz de Salam, paz, que está repetida até o infinito em tudo que é texto de e palestra de divulgação que fazem por ai, mas cujo sentido exato é o de rendição, de submissão. É evidente também que quando falo de religião guerreira falo não de sair por aí explodindo bombas, mas sim da Grande Jihad, aquela que travamos no nosso coração e que é a que verdadeiramente importa na imensa maioria dos casos. Reconheço que às vezes tenho certa dificuldade de lidar com o mal da forma como deveria, de expelir-lo e que a disciplina do Islam, a consciência de que não se pode ocultar do Altíssimo, mais próximo de nós que nossa veia jugular como diz o sagrado Alcorão, me ajuda a fazer o enorme esforço de ser o mais sincero comigo mesmo que eu puder.

Mas vejo processos similares entre meus amigos de diversas religiões,vejo uma enorme identidade nas recomendações para atingir a paz através da superação das paixões ou desejos, ou pela concentração no amor a Deus que é a fonte de toda esta nossa insaciedade – e é curioso que por conta disto muitas vezes a beleza, sempre uma expressão do divino, se apresenta de forma tão terrível, mas sobre isto falou outro dia, aproveitando o gancho de uns comentários ao Rubayat que tenho na cabeça.

Agrada-me, também, a complexa expressão ao mesmo tempo individual e comunal do Islam. Como um arabesco o Islam é cada um e a somatória dos padrões, como Deus é cada um e todos dos seus nomes e algo além disto. A idéia de cada um cuidando de sua vida, mas se apoiando como na hora das orações ainda me é simpática, mas ultimamente ando desacreditado de todo esforço coletivo organizado, de toda estruturação e institucionalização. Acho que não conseguiria suportar mais do que a roda dos caraveneiros reunidos em torno da fogueira contando e ouvindo histórias.

Já disse várias vezes, também, que embora nunca tenha sido muito ligado a rituais já pude perceber com clareza como as minhas orações, mesmo quando as faço de forma quase mecânica numa lingua que conheço pouco, ainda assim fazem efeito. Sinto sempre, como me diz o sheikh, que lá no mundo espiritual aquilo realmente faz efeito, acende, ou apaga quem sabe, uma luzinha em algum painel, limpa minha mente, me torna melhor, ás vezes até me faz ficar meio admirado com o poder de afastar o mal da minha mente. Mesmo assim acho que não seria motivo suficiente.

De tanto pensar nos motivos lembro de uma expressão que me chamou a atenção lá em Khaldun há mais d uma década, com a qual ele e quase todos os sábios encerram uma argumentação muito especulativa ou que tende a não ser muito clara: Deus sabe melhor.

Daí entendo que se ele escolher para mim este caminho, só cabe a mim segui-lo, Acato e submeto-me a vontade d’Ele, sem retrucar nem ficar buscando explicações, apenas sendo um daqueles que se submete, seja lá qual for a forma que sua submissão assuma. Enfim, rendo-me ás evidncias que é o caminho que nos escolhe, não nós que escolhemos o caminho.

quarta-feira, 30 agosto, 2006 – 16:47

Jornadas cotidianas

O momento exato no qual a idéia surgiu eu não saberia dizer. Talvez- há alguns meses em uma conversa na qual eu era cobrado pelo que estava fazendo com meu potencial, sugeria que editasse uma revista ou algo assim. Foi crescendo conforme meu texto ia se libertando dos adornos, das vaidades, fortalecendo-se conforme ia refletindo um tanto de mim que luta sempre para se tornar melhor. Foi ganhando sentido quando eu pensava que algumas das pessoas que estavam ali pelo meu orkut tinham um motivo para estar lá. Foi começando a enraizar-se no meio de tantas batalhas com meu ego, com a sensação de ir se libertando dos orgulhos e medos – ainda que muitos deles estejam por aqui. Consolidou-se nas crises pessoais, naqueles momentos em que Rumi diz que ocorrem os chamados.

Acho que as folhinhas ainda frágeis da idéia viram a luz do sol quando discutia a questão do Deus-pai e do Deus-mãe no post anterior. Certamente não é coincidência que tenha vindo a tona quando segui o conselho e pedi misericórdia e sabedoria, estes atributos femininos do Uno. A eclosão apareceu em uma mensagem de uma amiga – lá naquela ponte meio marcada no meu destino – dizendo que estava reabrindo seu blog destinado a falar sobre a sua vivência de ser budista.

Era isto. Um lugar no qual pessoas de diversas fés e tradições pudessem compartilhar sua vivência espiritual no cotidiano. Pessoas que não tem a pretensão de serem sábias nem santas, que não estão em mosteiros mas embebidas nas tarefas deste mundo cada vez mais materialista e consumista, mas, ainda assim querem acreditar que há um sentido em suas vidas e tentam conciliar suas inquietações espirituais com o barulho do mundo.

Nenhuma preocupação acadêmica nem teológica, nem propaganda, nem proselitismo, nem ataques a outras fés ou defesa da sua. Apenas a vontade de compartilhar a experiência pessoal, mesmo quando ela pareça tão pessoal e irreproduzível que só sirva par nós mesmos. Feita da vontade de entender o outro, de enxergar aquilo que é essencial, no mínimo saber que não se está sozinho e que quando tiramos os véus da ilusão vemos que as semelhanças estão na essência e as diferenças apenas nas aparências.

Se houve algo que sempre me manteve meio à margem das religiões estabelecidas, mesmo me considerando uma pessoa religiosa, sempre foi justamente esta noção de que elas perpetuam e fortalecem esta terrível ilusão de que os homens não são iguais entre si, não são irmãos. Jamais consegui aceitar que há uma igualdade de direitos entre todos os seres humanos, independente de qualquer coisa, que há uma fraternidade essencial e que tudo que vele esta identidade não é uma coisa boa.

Ao mesmo tempo sempre me lembro de uma passagem de Amin Maalouf no Périplo de Baldassare no qual durante uma viagem um livreiro de origem genovesa, cuja família está há séculos no Levante, conversa com um amigo judeu. Ele está tentando recuperar o livro “O Centésimo Nome”, do sheikh Mazandarani, o amigo está indo ver o pai envolvido com as conspirações messiânicas da época.

Ambos céticos mas ainda assim preocupados com as previsões de fim do mundo naquele ano de 1666. Em um diálogo o amigo judeu se diz preocupado até com a idéia de fazer bem ao próximo, proque quando temos uma fé e a achamos ótima nossa tendência e acabarmos tentando a impor ao próximo, a história estando repleta de exemplos disto.

Queremos sempre mudar o mundo, mas não nos concentramos em mudar a nós próprios, fazer só isto já seria cumprir a nossa parte, o suficiente para deixarmos de ser “cadáveres adiados que procriam”, como diz Pessoa. Falei acima da igualdade de direitos entre todos, alguns não podem viver sem a diferença de deveres, não para os outros (proque em geral isto é uma desculpa para os próprios desejos de poder), mas para si mesmos. Aqueles que como diz Ortega Y Gasset não conseguem se sentir perfeitos, como os “homens-massa”, mas vivem da vontade de superar-se e nem quando “obcecado pela vaidade é capaz de sentir-se verdadeiramente completo”.

Curioso que as pessoas foram chegando, os debates foram sendo travados de forma esparsa, um estimulando o outro, ninguém tentando impor a sua vontade mas todos tentando descobri-la. Um dia a idéia começou a despertar e ganhar forma. Disparo algumas mensagens e scraps, as respostas vão surgindo e me animando, vejo que um oásis – imagem que vai se tornando rotineira para mim – no qual os peregrinos diversos possam parar, contar suas histórias, ouvir as histórias dos demais, refrescar-se com a água cristalina que brota de tantos cantos, daí partir fortalecido, consciente de que é mais um e não está mais sozinho.

terça-feira, 29 agosto, 2006 – 15:16

Misericórdia e Sabedoria

Uma grande amiga sempre me fala de orar não apenas ao Deus-Pai, mas também ao Deus-Mãe. É evidente que em uma religião tão centrada justamente na unidade divina, na superação de toda dualidade e diversidade, como é o Islam – e também o Tao, meu versículo preferido do Sagrado Alcorão, por sinal, diz o mesmo que a famosa passagem do Tao, ambos falando da criação – não há espaço simbólico para qualquer representação feminina nem masculina.

Não quer dizer, contudo, que não haja uma forte simbologia feminina, boa parte dela “lost in translation” ou reprimida em culturas patriarcais, a ponto de usualmente o Islam ser considerada um religião misógina no ocidente. Dentre os 99 nomes de Deus, os dois mais comumente invocados tanto no Sagrado Alcorão – onde abrem todas as suratas – como pelo cotidiano do bom muçulmano que nada faz antes de pronunciar a frase invocando ao menos um destes nomes, al-rahman e al-rahim, são atributos femininos.

Em geral as duas palavras são traduzidas como “O Clemente, O Misericordioso”. Me lembro de uma vez ter visto em uma tradução portuguesa de um livro xiíta a tradução como “Todo-Clemência”, “Todo-Misericórdia”. A questão ultrapassa o simples gênero da palavra, porque a raiz dos termos – rhm (e no árabe e nas outras línguas semitas como o hebraico e o aramaico a raiz das palavras é uma questão muito relevante proque guarda uma identidade de sentido) tem forte ligação com a idéia de útero.

Há, inclusive um hadith qudsi, uma das 40 tradições sagradas na qual Deus fala na primeira pessoa, na qual esta referência é bem clara e a utilização do útero como símbolo do lugar de origem é extremamente significativa. Ibn ‘Arabi em muitos de seus escritos, não só se refere a Deus com um pronome feminino, mas o chama de Mãe. O mesmo faz Rumi.

De uma forma geral os nomes de Deus estão divididos, na tradição islâmica, em dois grandes atributos, Majestade e Beleza – jalal e jamal. Os do primeiro grupo em geral não só palavras masculinas, mas atributos associados a imagem masculina, patriarcal. Os do segundo, por outro lado, são atributos femininos e em geral, mas nem sempre, maternais.

Chega a não ser estranho que as visões exotéricas – ou seja, da religião formal – enfatizem os atributos da Majestade, enquanto os esotéricos – voltados para o aspecto interior da religião – enfoquem mais os femininos. Em grande parte, por sinal, o mesmo ocorre nas mais diversas tradições e quando sito não acontece há um sentido simbólico no processo.

Ao lado da Misericórdia há um outro aspecto feminino que tem um papel central em toda a cosmovisão islâmica, traçando por sinal uma vasta área de intersecção com outras tradições, inclusive a dos gnósticos cristãos e dos gregos, que é a Sabedoria – Hikmat, em árabe – muitas vezes personificada – como foi por ‘Arabi em Najma ou por Rumi em Laylat, por Maria, mãe de Jesus, mesmo nos textos mais tradicionais.

Não se deve estranhar que na poesia esotérica islâmica Deus seja o Bem Amado, enquanto o buscador é o Amante, imagem que como disse em um texto anterior teve grande influência no Ocidente até hoje. Os exemplos destas simbologias são muito presentes, Maria discutindo com os doutores da lei – onde se pode ver talvez o confronto entre conhecimento e sabedoria, no fato de ser Khadija que dá ao profeta do islam a certeza da sua missão. No fato de ser através de Fatimah – cognominada justamente “A Radiante” – que o legado do profeta é transmitido e que ela seja concebida, segundo a tradição, justamente na Noite em que o Profeta faz sua Viagem Noturna. Coincidência, para quem acredita nelas, que o nome da filha do Profeta tenha se tornado um nome cristão tão comum por conta de um santuário construído numa cidade nomeada em homenagem a ela.

Ou que seja sempre através de uma mulher que os grandes sheikhs se tornam sheikhs, que seja por Sherazade que o rei acalma sua ira. Ou ainda que Ibn ‘Arabi expresse como a mais alta contemplação possível de uma expressão de Deus neste mundo dos sentidos seja a contemplação da mulher amada, enfim, os exemplos são múltiplos.

sexta-feira, 25 agosto, 2006 – 17:26

Hikmat wa rahmat

“Conhecer a mulher é conhecer a si” (Ibn ‘Arabi)

Na sua sabedoria

Me perco

Para encontrar

O caminho de casa

Na sua compaixão

Espero o alento

Pelo que encontro

Nesta trilha

sexta-feira, 25 agosto, 2006 – 17:59

Minha paz

A verdadeira paz

É a paz do guerreiro

Exausto, esfarrapado,

Coberto de poeira e sangue,

Voltando para casa

Vitorioso e repleto de coragem

Não, não quero a falsa paz

A paz do repouso

Na fortaleza,

Inexpugnável e fluida,

Dos meus medos

E da condescendência

terça-feira, 22 agosto, 2006 – 12:37

Majnun w Laylat

“Quando se está apaixonado, estar desperto é traição” (Rumi)

Não me arrependo por ter sido Majnun

Tomado da loucura

Que dá aos olhos a visão

De tantos mundos

Peço a Deus

Jamais temer esta loucura

Caravana para além do deserto

Aprendizado do amor devido a Ele

Agradeço a Deus

Ensinar-me a essência de todo desejo,

E mostrar a única fonte verdadeira

Onde se encontra saciedade

sexta-feira, 18 agosto, 2006 – 18:28

Silêncio

Às vezes me agrada o silêncio

Ouvir apenas os raios da lua

Buscando uma fresta para entrar

Sentir o vento silvar pela janela

Tentando encontrar uma brecha

É neste silêncio que converso

com Deus,

Ou será só comigo mesmo?

E neste silêncio eu O vejo.

Que mais poderia ser Ele

Senão a ausência dos sussurros

Deste mundo barulhento

E repleto?

quinta-feira, 17 agosto, 2006 – 16:25

Histórias de robôs

Gosto de ficção científica, por mais que o considerem um gênero menor, por mais que o gênero tenha decaído, por mais que os efeitos especiais dos filmes e os cenários mirabolantes dos livros tenham prejudicado tanto o gênero. Curiosamente o que tem sido mais interessante e criativo neste segmento tem sido justamente as séries de TV, as quais quase sempre não tenho nem tempo nem paciência para assistir.

Não preciso de rótulos, então digo que prefiro filmes comerciais bem feitos nestes gêneros considerados menores – suspense, terror, sci-fi, até filmes policiais quando conseguem ser originais no enredo – do que a imensa maioria dos filmes de arte. Aquele que é capaz de aproveitar as oportunidades e sabe esconder a mensagem relevante em uma roupagem atraente me parece muito sábio do que o que a finge ocultar uma mensagem que não existe com muitos adornos filosóficos. Assim prefiro esta grande representação do processo iniciático, em seu fracasso e em sucesso, descrita nas duas trilogias de Guerra nas Estrelas do que uma centena de livros sobre o assunto ou dezenas de filmes repletos de simbologias evidentes demais para serem visíveis.

Meu autor de sci-fi preferido sempre foi Asimov. Ele só se tornou chato, quase ridículo, quando resolveu – imagino eu – dar ares pretensiosos aos seus textos e com isto perdeu a sua liberdade criativa e aquilo que é mais essencial ao artista de qualquer área: a espontaneidade.

Assim se a trilogia Fundação é ótima até para quem conhece História Geral e sabe que o enredo é uma versão dela, já as tentativas finais de reunir seus maiores ciclos em uma grande epopéia cosmogônica me soou patética e me deu vontade de jogar no lixo o livro, coisa que eu, claro, nunca faria, mas deu vontade. Não, não vou contar as coisas que me pareceram disparates, mas recomendo a qualquer um que ler Fundação e a Terra, e mesmo Prólogo a Fundação, que o faça sem expectativas.

Mas há alguns meses comprei, e há tempos queria comentar, uma coletânea em três volumes – daquelas edições de bolso da L&PM – de Histórias de Robô, de inúmeras épocas e autores, selecionado e comentado por Asimov. Na seleção uma das grandes marcas, talvez infelizmente, é uma grande preocupação do editor em confirmar seus pontos de vista de que mesmo sem existir riscos os homens tem medo dos robôs.

Ainda assim uma das histórias, que rendeu uma continuação por parte de um autor diferente, coisa que é rara, fala de uma expedição de robôs vindo a Terra e descobrindo surpresos que o primeiro robô foi criado pelos homens. Na seqüência, um conto escrito pro outro autor relata o exato momento no qual o timo homem enxerga que a continuidade da espécie, que ele localiza nos sonhos, sobreviverá nos robôs que sobreviverão a ele.

Nestes tempos de eleições conturbadas também merece atenção o conto no qual o presidente é escolhido por um computador, após a aplicação de uma prova que indicará de todos os cidadãos que se habilitem qual é o mais adequado. Curioso que aquilo que era absurdo há um certo tempo infelizmente ainda sobreviva em tantos discursos, feitos pro aqueles que ao contrário de maquiavel não acreditam que a população erre nas população específicas, mas acerte nas gerais.

Para quem gosta do gênero a coletânea é uma viagem agradável. Para quem não tem nada contra julgo que poderá encontrar surpresas agradáveis.

quinta-feira, 17 agosto, 2006 – 15:41

Invocação

Invoco o silêncio

E ele não vem

Só a torrente

Apaixonada e prolixa

Mas sei que falho

Porque calo

Para ser ouvido

Não para escutar

quinta-feira, 17 agosto, 2006 – 15:55

Meu silêncio

Acordei hoje pleno de mim mesmo. Não foi algo repentino, foi chegando, crescendo, confrontando cada personagem destas que convivem nesta caravana que sou, em audiências que, quem sabe, qualquer dia eu conto se achar se podem ser úteis de alguma forma. Ouvi a todos – Hilal, o djinn e outros sobre os quais nunca falei. Foi meio enfastiante, todos tem esta mania de quererem ser sábios, no fundo acho que eles é que são cada um a seu modo muito racionais, até o garoto assustado, até a ifrite.

Cansado de tanta razão, que no fundo é sempre uma racionalização, preferi a intuição, que guia por estes caminhos melhor que um mapa que não sabemos nunca se é verdadeiro. Não errar é sempre fácil, basta não fazer nada ou apenas seguir ordens,. Achei afinal que não há mérito algum em seguir um caminho que estamos absolutamene certos que é o correto, o mérito reside em resolver as dúvidas e não em recolher certezas.

As grandes batalhas da história jamais ocorreram ente um exército que estando certo da vitória a vence. Aquelas cujo registro ficou foram as que foram vencidas com dificuldade, em condições desfavoráveis pelo mérito dos generais, ou perdidas apesar das condições favoráveis , pelos erros de avaliação.

Não vou dizer que conversar com todos estes personagens, cada um examinando a questão por um ângulo, não seja algo útil. Como diz uma grande amiga é a forma adequada de lidar com estas instâncias psíquicas, dialogando e aprendendo e não as deixando trancadas em algum calabouço como se não existissem. O que não pode ocorrer é achar que alguém pode decidir pelo meu eu eu-mesmo.

Como Maquiavel recomenda ao príncipe, penso que é necessário ouvir a todos os conselheiros e que se permita que eles se expressem com total liberdade, porém apenas nos momentos nos quais você pede a eles a opinião. Também me lembro do episódio de Michelângelo que motivou a expressão, hoje meio em desuso, “não vá o sapateiro além das chinelas”. O escultor pediu a um sapateiro que desde sua opinião sobre as sandálias de uma estátua e acolheu as sugestões dele, mas daí o artesão passou a dar opinião sobre outras coisas da estátua, motivando segundo a lenda, a frase em questão. Assim até acho que algumas destas instâncias são hábeis, sim, para avaliar a questão sob o ângulo isolado dos impulsos e motivações que representam e simbolizam, mas tem hábito de se meter onde não são chamados.

Quase sempre que oro, e até tenho feito isto com muita freqüência, não peço jamais respostas. Penso que se Deus me desejasse um autômato por um caminho pré-determinado não teria me dotado de livre-arbítrio nem da razão, sempre creio que se Ele me dá um problema para resolver é porque sabe que tenho condições de fazê-lo. Quando oro peço apenas o silêncio no coração, que a decisão possa ser apenas minha, não peço as respostas, mas que seja capaz de encontrar as perguntas certas. Como disse estes dias em um de meus exercícios de poesia; “Que mais poderia ser Ele/Senão a ausência dos sussurros/Deste mundo barulhento/E repleto?”

Neste silêncio vou me permitindo ser inteiro, encontrar em mim as coisas que procuro fora de mim e amar sem medo aquilo que é forte em mim para poder amá-lo nos outros, como me lembra a Ifrite, superar as angústias da liberdade, como me disse o djinn, ter orgulho de meu poder, como recomenda Hilal, até mesmo a encontrar meus medos, como m diz o garoto assustado, mesmo que seja para ser capaz de desentocá-los e enfrentá-los cara a cara.

Ao escutar meu silêncio dou o devido valor às opiniões de cada um deles, faço justiça a eles, enxergo que a falha não estava nas respostas deles, mas nas perguntas que eu fazia. E nesta sensação faço novamente as pazes com o maravilhoso.

quarta-feira, 16 agosto, 2006 – 14:52

Veredas

Há alguns anos li um comentário sobre o filme Abril Despedaçado no qual o resenhista comentava que era uma típica história nordestina, muito representativa daquela mentalidade do sertão. Sorri e mandei um email ao pobre dizendo que na verdade o filme era baseado em uma novela do escritor albanês Ismail Kadaré e ambientada naquele país. Reconhece, claro, que quase não se reconhece o livro no filme, é verdade, mas os elementos essenciais estão quase todos ali sim.

O resenhista até foi educado, corrigiu o erro e comentou meu texto, gentileza bem rara neste mundo de vaidades. De qualquer forma o episódio me ajudou a materializar um conceito, segundo o qual quanto mais nos aprofundamos no particular mais chegamos a uma compreensão do universal. Utilizando a imagem que René Guénon descreve para falar sobre as relações do Exotérico – as religiões estabelecidas – e do Esotérico – as diversas trilhas da senda rumo ao conhecimento da unidade – diria que um modelo similar poderia explicar várias outras coisas.

Nesta imagem há um círculo, cujo centro é a Unidade e a circunferência são as diversas religiões exotéricas, aparentes. Os infinitos raios que podem ser traçados entre o círculo e o centro são os múltiplos caminhos a serem seguidos. Na mesma analogia geométrica, quanto mais cada raio se aproxima do centro menor a distância entre eles, até que toda diversidade some quando se chega ao centro.

Tenho ás vezes muitas duvidas quanto à aplicabilidade deste teoria de Guénon hoje em dia, quando a maior parte das religiões foi abandonando a profundidade simbólica, deixando de ser ponte, para se tornar apenas um conjunto de regras morais. Ao mesmo tempo nem sempre vejo com bons olhos as misturas ecléticas, as religiões “faça-você-mesmo”, que ficam apenas na superfície da questão, desbaratam a disciplina e misturam sistemas simbólicos nem sempre compreendidos. Fico, assim, no limbo entre estes caminhos, incapaz de decidir-me entre a ortodoxia e a heresia – felizmente é difícil ser herege neste imenso tapete repleto de padrões multicores que é o Islam – tendendo ora a uma e ora para outra.

Mas acho que a idéia é bem válida para a literatura. Não que goste da crítica literária, tento fazer de tudo para não cair neste campo estéril, falando mais de minha experiência pessoal com os livros do que me preocupando com sistemas e rótulos. Mas certamente há algo de válido na idéia de que quanto mais um texto se aprofunda no particular, mais revela das grandes questões gerais.

Para além do exemplo que menciono de Kadaré, escritor que já gostei muito em particular do Palácio dos Sonhos – ambiente em uma repartição do Império otomano destinada a coletar, analisar e interpretar os sonhos dos súditos com finalidades políticas – mas que não tem me animado muito nos últimos livros, há muitos exemplos locais. Penso que o mais significativo é, sem dúvida, Guimarães Rosa, para o qual o “regionalismo” não é senão cenário para as tramas universais.

Sempre me pareceu, por exemplo, que o centro da trama de “Grande Sertão; Veredas” não é a luta de jagunços, nem o amor de Riobaldo e Diadorim, nem mesmo a idéia do professor que acaba se tornando líder de jagunços – e olha que de todas esta é a história que mais impulsionou meus devaneios.

A grande trama, tenho a impressão, é justamente a de um homem que precisa saber a todo custo se o Diabo realmente existe ou não, pois se existir terá feito um pacto com ele, que um dia será cobrado. Saber se as vitórias – e porque não, as derrotas – devem-se a nós mesmos ou a outras forças é um dilema que muitas vezes nos confronta.

Quando nos sentimos fortes muitas vezes esta sensação de força e poder está associado na nossa mente a um domínio do mal. Mesmo eu que nenhuma simpatia tenho por Nietzsche tendo a subscrever algumas teses dele de que os conceitos de moral são uma prisão. Claro que vou com ele só até uma parte do caminho e fico bem longe dos atalhos criados pro aqueles que acham que o entenderam para endossar barbaridades. A questão que escapa a ele, na minha opinião, e não escapa, por exemplo, a Buda ou a tantos santos e mestres sufis, é que nesta sensação de poder, quando não dirigida para a senda do auto-conhecimento, traz angústia e não liberdade.

O mestre ibn ‘Arabi conta que durante uma de suas viagens conheceu um buscador que morava em uma caverna, vestia andrajos e só pescava três peixes por dia, que dava aos pobres e se alimentava apenas das cabeças. O buscador disse que há tempos seu mestre não lhe escrevia e como ibn ‘Arabi se dirigia ao Cairo onde o sheikh daquele buscador morava pediu que o grande mestre transmitisse a ele o seu recado e trouxesse alguma mensagem.

Quando chegou ao Cairo ibn ‘Arabi estranhou em ver que o sheikh daquele buscador morava em um palácio luxuoso. Contando a história do buscador, ele pediu ao sheikh que lhe desse um recado para transmitir. O mestre disse então:

Diga a ele que ele está muito preocupado com as coisas deste mundo.

Ibn ‘Arabi estranhou a mensagem, mas sabedor que os métodos dos mestres verdadeiros ás vezes aparecem disparatados a quem tem um conhecimento imperfeito, parou na volta da viagem na caverna do derviche e lhe transmitiu o recado.

O Derviche chorou muito e disse:

É verdade, quantos dias não olho com cobiça o peixe que entrego aos pobres, não desejo que eu tivesse ao menos mais uma cabeça de peixe para comer, não desejo uma outra coberta mais quente que esta durante as noites frias, meu mestre tem razão.

A angústia é a oposta, mas a mesma de Riobardo Tatarana.

Diria que elas se resumem à incapacidade de ouvir a si mesmo, da desconfiança em relação a nossa voz interior, de nossos medos. Riobaldo é prisioneiro do medo de não ter sido ele mesmo que derrotou seu adversário, assim como o derviche esconde sua incapacidade de aprender através de uma aparência de santidade que no fundo é uma hipocrisia execrável, porque esconde o medo de privar-se de Dunia. Sua mente, como a minha tantas vezes, ainda deseja a recompensa de Dunia e não os tesouros de Na-koja-abad.

Há alguns dias disse em um poema que “O que me torna imperfeito/ É viver procurando a perfeição/ Ao invés de apenas/ Encontrá-la”. Tinha esta história do grande mestre em mente quando o escrevi, mas não a tinha no coração ainda. Tantas vezes sou como aquele derviche de fazer o bem não por estar na minha natureza, mas pelo desejo das recompensas.

Não é á toa que Riobaldo, na velhice, procure em várias fés aquela que vai lhe livrar deste peso de sua dúvida terrível, daquela que vai deixar seu coração em paz, que vai levar embora aquele medo de que o Diabo apareça a qualquer hora para cobrar o cumprimento do pacto. Ao menos é o que vejo quando desvelo todo o particular para tentar chegar á essência.

terça-feira, 15 agosto, 2006 – 14:39

Assombrações

Ontem fui ao cinema, depois de tempos sem ir, pra ocupar a mente e escolhi um filme meio ao acaso, só porque gosto de filmes de terror, mesmo achando que eles vão ficando piores a cada safra, com os efeitos especiais ocupando o espaço que deveria ser do verdadeiro terror que se constrói na nossa mente. Assombração (o título em português é lamentável e apelativo, em inglês é Re-cycle, não faço idéia de qual o nome original do filme em chinês, mas imagino que deva expressar figura semelhante ao do inglês).

A escolha casual revela como sempre aquela sabedoria com a qual às vezes somos agraciados quando sabemos ver e ouvir os sinais. Mas vou me ater à história descontextualizada, o filme é sobre uma escritora que começa a escrever uma história de terror e no decorrer das experiências que invoca faz uma jornada pelo inferno de seu processo criativo, onde residem as sobras de seu

pensamento, os personagens abandonados, as coisas que ela não quis criar.

Quase impossível dizer mais sem que se estrague o prazer do filme. Então me atenho aos detalhes, há efeitos especiais, sim, que ajudam muito em cenas terríveis, capazes realmente de assustar. Mas eles são apenas o adorno, o complemento do verdadeiro terror, que é sempre psicológico.

A jornada da escritora pelo seu inferno criativo tem muitos pontos em comum com tantas outras jornadas místicas, nas quais enfrentamos nossos medos. Expressasse naquele simbolismo antigo, que é capaz de superar as barreiras culturais e religiosas, falando assim na linguagem antiga ao mesmo tempo oculta e evidente.

Sempre penso que os verdadeiros símbolos tem esta qualidade mágica de não importar em qual sistema ele seja decodificado, em todos fará sentido. Já disse algumas vezes que os debates sobre reencarnação ou não não fazem muito sentido para mim, porque se atém a uma representação, não a idéia central e essencial da questão, das nossas opções pelo mundo material ou espiritual.

As idéias de tempo e espaço, a meu ver, tem mais relação com este nosso conhecimento limitado do mundo, Para Deus, que tem o conhecimento perfeito, simultâneo, onipresente e onisciente não há estas nossas idéias de sucessão no tempo e deslocamento no espaço não devem fazer sentido. Da mesma forma pouco importa se a jornada se dê de fato ou seja só a representação de nossos dilemas psicológicos, que simbolizamos para que nos seja mais fácil enfrentar. Em todos os casos o relevante é sempre o resultado e não o meio.

Mas como todas as boas jornadas tem também as suas características específicas, seus cenários particulares. Quando a trama parece estar resolvida a sua verdadeira conotação, relacionada com a responsabilidade de quem cria, muda repentinamente o sentido de tudo que foi visto.

Não é um filme que recomendo a quem não esteja bem, é sombrio, depressivo. Mas é um filme que em algum momento quem cria ou quem busca algo em si deve assistir. A mim valeu muito.

segunda-feira, 14 agosto, 2006 – 13:16

Não, não quero você como musa

Não, ‘ayni, não quero você como musa,

Olhando o que escrevo,

Mas pitonisa e bacante

Como a górgona no escudo de Perseu

Nem quero você como donzela

Pendurando o lenço em minha lança

Preciso de você como Joana D’Arc

Guiando os exércitos

Quero nossas penas

Entrelaçadas como nossas pernas

Que nossas idéias também se penetrem

Companheira de jornada e trilha minha

sexta-feira, 11 agosto, 2006 – 15:41

Mensagem na garrafa

O náufrago lança mensagens

Na garrafa

Para ser salvo

E retornar para casa

Mas há naufragos

Perdidos na ilha

Há tanto tempo

Esquecidos do caminho de volta

Eles guardam no coração

Só a esperança

Que a mensagem cause outro naufrágio

E assim tenha companhia em seu exílio

sexta-feira, 11 agosto, 2006 – 13:56

Uma trilha de garrafas e oásis

Há poucos textos esotéricos tão belos como o Arcanjo Escarlate de Suhrawardi (link para o texto em espanhol abaixo). Falo, claro, da verdadeira busca, não do misticismo de boutique, que é exatamente o oposto da Senda, através do qual podem ser compradas várias receitas e objetos mágicos sempre acima do preço, não só por serem inócuos, mas porque os resultados que eles podem gerar já estão sempre dentro de nós.

O principal relato de Surahwardi é uma lição usual ensinada por tantos mestres – na história da caverna de Platão, na Canção da Pérola dos Gnósticos, só para mencionar duas das mais relevantes – mas que ele apresenta de forma muito bela. Um amigo diz ao outro que um dia foi um falcão, capturado na rede da Predestinação pelos caçadores Destino e Decreto e levado para uma terra distante de seu ninho, atado, encarcerado, até esquecer-se de quem realmente era e mesmo ao ponto de acreditar que sempre havia sido aquele pobre prisioneiro. “Me mantinham (os dez carcereiros) tão aturdido que esqueci todo meu passado, meu ninho, meu país distante e tudo quanto havia conhecido ali. Até que cheguei a acreditar que havia sido sempre aquele em que havia me convertido”, diz o amigo relatando sua experiência como falcão.

Não vou dizer como termina o relato, recomendo que leiam o texto que recomendo abaixo, porque queria me concentrar apenas nesta situação no qual a nossa verdadeira identidade, aquela que reside em nosso coração, fica perdida. É um momento delicado porque não se lembrar o caminho pode fazer com que nos aprofundemos pelos atalhos e nos percamos ainda mais nestas florestas negras das nossas ilusões e, até, que acabemos por levar outros por este caminho.

Foi pensando nestas coisas e em outras que me veio a imagem de um náufrago perdido em uma ilha deserta, lançando mensagens na garrafa na esperança de ser salvo e então voltar para casa. Mas há também outro tipo de náufrago, aquele que nem se lembra mais de seu lar, já está tão habituado a sua rotina na ilha que teme abandoná-la. Às vezes a solidão o incomoda e então ele também lança mensagens em garrafas, mas sua esperança é que algum navio que a receba também naufrague e assim, como disse num exercício de poesia no qual tentei expor esta imagem “tenha companhia em seu exílio”.

Parece absurdo e paradoxal, mas há sim quem resista a libertar-se e voltar a si. Eu mesmo tantas vezes me sinto teimoso nisto, por mais que tantas vezes tenha vislumbrado o prazer do real. Como disse um xeque sábio, nenhum ladrão quer roubar uma casa vazia e assim – ao contrário do que dizem os que prometem fórmulas e amuletos mágicos – quanto mais se avança na trilha com mais furor investem os saqueadores, animados com o tesouro espitirual amealhado ao longo do caminho.

Mesmo na bondade e na compaixão, até no amor que é este sentimento que tanto auxilia a jornada, às vezes há armadilhas. Ao menos comigo sinto às vezes que minhas qualidades se tornam servas de meus defeitos, confundo auto-controle com covardia, humildade com subserviência, compaixão com condescendência, amor incondicional com a ausência da necessária auto-suficiência.

A verdade é que os pontos de equilíbrio não são fáceis, exigem sabedoria tal que só pode vir de Deus, como uma graça, não é algo que se obtém estudando ou pensando e, neste sentido, Pessoa tem toda a razão ao dizer que pensar é estar doente dos olhos. Como eu disse em outro exercício de poesia, a virtude do oásis é estar cercado pelo deserto, é isto que o torna aprazível e desejável, assim por incrível que possa parecer é preciso as vezes se sentir mesmo sedento no deserto para que eu lembre de orar a Deus e pedir que ele indique o Oásis mais próximo onde posso beber esta água refrescante da sabedoria.

Assim vou levando minha caravana de oásis em oásis, esperando sempre um dia conseguir chegar à cidade natal e de novo me descobrir falcão.

http://www.verdeislam.com/vi_09/901d.htm

sexta-feira, 11 agosto, 2006 – 15:08

Profanação

Vem!

Vamos profanar os templos

Onde se venera o medo

Para esculpir em nós

O monumento do amor

E uma escada ao Paraíso

Vamos voar nos sonhos

E zombar dos terrores

E delirar no deleite

Da unidade

quinta-feira, 10 agosto, 2006 – 12:22

Empatias

Podem não acreditar, mas me considero quase feminista. Não significa que endosse tantas teses que circulam por aí e que acho que hoje em dia nem as mulheres levam muito a sério. Sempre achei, e acho cada com mais convicção, que as mulheres seguiram em algum momento um caminho equivocado, masculinizaram seus sentimentos e passaram a copiar padrões e modelos masculinos, sem perceber que esta é também uma prisão.

Talvez tivessem resultados diferentes se ao invés de passar a uma escravidão a outra tivessem tentado libertar o homem de seus modelos estereotipados de sensibilidade, torná-lo livre das necessidades de auto-afirmação. Se isto teria sido possível eu não sei, mas em 77 ainda era a esperança desta grande voz feminina que foi Anaïs Nin.

Tenho muito orgulho pela forma como soube que eu e ela compartilhavamos o mesmo pensamento, mesmo antes de eu a ler. A li justamente porque em uma discussão sobre estas coisas, lá pelo começo dos 90, a pessoa me pergunta se eu tinha lido Anaïs, porque ela dizia a mesma coisa e ás vezes até um pouco com as mesmas palavras. Eu disse que não conhecia e dias depois ganhei o livro. Também o segundo livro dela que li, um volume dos Diários, me foi emprestado – meu Deus, até hoje não devolvi – porque comentei anos depois que achava que o filme “Henry e June” fugiu dos padrões que a própria Anaïs havia descrito tão bem no primeiro dos ensaios daquele livro – o que eu tinha lido antes – sobre a literatura erótica feminina.

Não concordo totalmente com ela nesta questão, penso que a distinção entre pornografia e erotismo não está na linguagem, nos cenários, na existência ou não de alguma relação de poder envolvida nas descrições. Para mim a distinção esta em ser uma relação entre um casal que se ama, para mim sagrada e lícita, ou alguma coisa casual, fruto das paixões do self por si e contaminada, na verdade, com uma noção da relação como algo sujo e impuro.

Mas isto é outra discussão, na qual eu mesmo não me sinto convencido, tanto que mantenho escondido um blog no qual escrevo textos que a imensa maioria, inclusive minha namorada, considera pornográficos por conta da linguagem pesada.

Uma terceira vez Anaïs passou pelos meus pensamentos quando uma amiga com quem eu discutia a autora me provocou, dizendo que os homens até podem gostar de ler Anaïs, mas não suportariam que a mulher deles escrevesse como ela. No meio da provocação da frase não consegui chegar a uma conclusão, acho que as várias personas ficaram um tanto confusas naquele momento, é evidente que confusas em relação ao processo criativo, porque o comportamento idêntico seria, claro, intolerável – fosse para um homem ou para uma mulher, portanto não é uma questão de machismo – já processo criativo é coisa distinta.

Eu, muitas vezes já fui tolhido no meu processo criativo, render-me às pressões de um amor ciumento foi algo que fiz sempre com dor, dores que forram sempre crescendo, me dilacerando até que no final, quando ficaram insuportáveis substituiram a dor do fim pela alegria de ver o sol brilhar em mim de novo. Neste sentimento foi que sempre busquei a resposta á provocação da minha amiga, porque afinal se a minha regra ética e não fazer aos outros o que não quero que seja feito comigo inflingir esta dor em outro seria hipocrisia. Estando certo do amor, o ofensivo seriam os sentimentos que vem do self, o orgulho, a preocupação eventual com a imagem, enfim, resquícios da necessidade de auto-afirmação.

Voltei a pensar bastante nisto há alguns dias, quando senti uma profunda empatia, reflexos de minhas próprias experiências, quando uma grande amiga eliminou algumas coisas que escreveu com muito talento, por amor. Curioso que acho que todos os leitores e leitoras sentiram muito mais todo o valor do sacrifício dela do que aquele que recebeu tal homenagem e declaração de amor.

Quem escreve, ainda mais quem escreve bem, sempre está sujeito a ter pessoas que gostem de ler e ganhe admiradores. Quando o ciúme vela os olhos do outro que vê nestas manifestações de apreços subterfúgios e desculpas a vítima, o ofendido é na verdade o trabalho, ele é que é desmerecido, desvalorizado, se nega que ele tenha valor quando se vê no comentário a ele um simples pretexto. É como se fosse dito a pessoa, “o que você escreve não vale nada, estão de olho é em você” e quem cria deve saber que insultar o trabalho em ofensa muito mais grave do que insultar o autor.

Hoje a minha namorada postou no blog dela um texto tão diferente no estilo de Anaïs mas tão similar no tipo de sentimento e sensibilidade que aquela provocação ganhou tanta materialidade que evaporou no ar e quase nem hesitei em ficar muito orgulhoso, mas muito orgulhoso mesmo, dela, principalmente, mas também de mim.

quinta-feira, 10 agosto, 2006 – 16:16

Oásis

A virtude do oásis

É estar cercado de deserto

Sem a travessia das areias

Sob o sol

Qual caravana se alegra

De parar ali?

quarta-feira, 9 agosto, 2006 – 15:23

Cegueira temporária

Para a luz dos meus olhos

Passei alguns dias meio cego. Não, não é metáfora não. Meus óculos se quebraram no sábado e eu estava sem óculos reserva nem a receita. Fiquei meio perdido com a dificuldade de ler, escrever, dirigir, sem condições de resolver o problema até segunda feira. Na segunda faço uma peregrinação tentando resolver o problema e acabo com uma lente descartável e provisória que se me deu uma visão parcial de volta acrescentou a irritação, física e emocional.

Da somatória disto e de outras pequena coisa cujo rol não é necessário enumerar veio outra cegueira, esta sim simbólica, metafórica. Aquela cegueira que nos impede de ver o real, que nos faz refugiar dentro de nós e de nossas ilusões. Gostaria de ver a cara de tantos amigos que me dizem sábio ao me ver em um destes ataques de idiotice.

Falei idiotice para distinguir bem daquele conceito de imbecil, sobre o qual às vezes falo por aqui. Mas para não gerar confusão diria que o imbecil que eu tento ser é aquele que tem consciência de não saber nada, já o idiota que às vezes desperta também não sabe nada, mas não tem consciência disto. Acho que a única utilidade do idiota é mostrar pelo exemplo infeliz ao imbecil o quanto ainda falta para que ele chegue ao completo desconhecimento do ilusório, único caminho para o real.

Só na terça consigo voltar a escrever, ainda com a cegueira metafórica. Ela não me impede de desejar no blog alguns poeminhas, alguns até que passáveis, as confusões mentais tem sempre alguma utilidade. Em um deles escrevo “o que me torna imperfeito é viver procurando a perfeição ao invés de apenas encontrá-la”, lendo hoje já desprovido de sabe-se lá qual impulso que me motivou senti toda a minha dissociação no período da cegueira, vi que o que menos enxergava era eu próprio.

Mas não escrevo para contar estas experiências, coisas que não servem a ninguém, nem a mim. Mas para aproveitar as lições da batalha perdida e assim traçar melhores estratégias para esta nossa eterna guerra ao nosso self. Conversando depois com a Cláudia – minha namorada e portanto alvo preferencial do meu self afinal é através dela e de nosso sentimento que o egoísmo do qual ele se alimenta vai sendo eliminado – vou vendo o quanto nada fez sentido, como se discutiu por nada,como estava repleto de medos sem sentido.

Mas, principalmente, como andava tão perdido na própria noção de tempo, em um passado cada dia mais distante, tentando travar não as lutas do momento, mas outras que não tinha enfrentado antes ou que tinha perdido e não faziam mais sentido serem lutadas. Esta sensação de estar em uma máquina do tempo, lutando contra moinhos de vento que afinal são adversários muito menos temíveis que nós mesmos.

Sempre imaginamos o nosso self, nosso inferno interior, como algum ser terrível. Acho até que às vezes ele deve tentar mesmo aparecer assim, afinal como animal que é tende a sempre aparentar a imagem mais assustadora possível como forma de dissuasivo frente a animais maiores. Embora sempre ironizem a expressão “cão que ladra não morde”, do ponto de vista zoológico é algo que tende a ser verdadeiro, porque se o inimigo se sente forte ele apenas ataca e pronto, se tenta nos assustar como um gato que eriça os pelos para parecer maior é porque na verdade quer nos assustar e nos fazer não atacar.

Imaginei o meu self sem estas artimanhas ontem, quando me despir de alguns destes medos que são a força dele em mim. Pareceu-me mais um menino assustado e sozinho, escondido em alguma caverna do passado do que algum cavaleiro negro ou demônio dantesco. Achei que a artimanha dele desta vez era aparecer sem disfarces, afinal é mais difícil combater o pobre garoto de olhos tristes e cheio de choramingos do que algum monstro.

E eu, um mau muçulmano, mas muçulmano, confesso que me lembrei mais do Bahgavad Gita do que do Sagrado Alcorão, da necessidade de lutar contra as ilusões, de destruir nossos medos e defeitos que são tão próximos como se fossem da família e saquei a espada. O resultado da batalha ainda não sei, espero ter vencido.

quarta-feira, 9 agosto, 2006 – 17:25

Buscas

O que me torna imperfeito

É viver procurando a perfeição

Ao invés de apenas

Encontrá-la

Não importa o caminho

Mas sim o destino

Ou será o contrário

Nem sei mais

De todas as jornadas

A mais terrível

É dentro de mim

A mais agradável também

Todos os mundos

Estão dentro de mim

Assim como eu

Estou em todos eles

terça-feira, 8 agosto, 2006 – 15:49

Personas

Se formos

Despindo os papéis

Resta algo

Ou sobra tudo?

Haverá uma essência

Embaixo de tanto figurino

Submersa em tanto tecido

Ou Espaço vazio

Despejando as personas

Sobrará algum morador

Ou só somos

Por ser esta pensão

terça-feira, 8 agosto, 2006 – 16:16

Fila infernal

Estava outro dia na fila do banco quando uma senhora resolveu converter na marra o caixa, para desespero do caixa de de todos na fila. Durante uns quinze minutos ela tentou convencê-lo a ir até sua Igreja, entregar a ele a intimação de Jesus para que ele lá comparecesse caso contrário coisas terríveis ocorreriam a ele. De todos que estavam lá, eu inclusive, o caixa foi o que melhor se comportou, foi tentando se esquivar de forma educada e polida, tão educada e polida que a senhora entendeu a delicadeza dele como atenção e ia insistindo.

Por uns quinze minutos infernou a vida do rapaz e dos demais na fila. Infernou aqui em sentido literal, porque certamente a insistência prepotente dela, a invasão do espaço e da liberdade de todos fez com que todos se afastassem um bocado de Deus. Chegou um momento no qual o pobre caixa percebeu que se não fosse mais claro a mulher não sairia dali de jeito nenhum virou pra ela e disse que não adiantava ela falar porque ele não iria até a Igreja dela e ela estava atrapalhando as pessoas que precisavam do Caixa inutilmente.

Ele disse isto em um tom firme e decidido, mas educado, sem levantar a voz. A mulher, quase aos berros virou pra fila e disse “Como ele é grosseiro, vocês não acham! Está mesmo com Satanás dentro dele e não quer tirar!” e saiu ofendida indo procurar outras vítimas para o seu exorcismo.

Em primeiro lugar peço desculpas a todos os leitores protestantes, por usar um exemplo tirado da comunidade deles. Sei que a maioria dos que freqüentam qualquer uma das muitas denominaços são em geral pessoa ótimas, equilibradas, organizadas e até mais diligentes e disciplinadas que a maioria dos brasileiros.

Só utilizei aqui como exemplo este caso pelo caráter emblemático e corriqueiro, porque esta é uma cena do nosso cotidiano. Poderia também ter feito referência a muitos de meus irmãos muçulmanos, alguns dos quais até investidos de algum poder para falar em nome da comunidade, que fazem papel tão feio em todos os encontros multireligiosos falando não da unidade das fé em Deus tão belamente expressa no Sagrado Alcorão, mas de discursos nos quais ou colocam o Islam como alvo de alguma conspiração, pobre vítima de interesses inconfessáveis envolvendo um monte de politicagem no discurso ou, pior ainda, contrariam o espírito do próprio evento dizendo o quanto o Islam é a melhor religião. Isto quando não fazem os dois discursos inúteis, antipáticos e, a meu ver, equivocados.

Não acredito em proselitismo de nenhuma espécie. Para mim sempre parece uma violência, um tentativa de impor nosso ponto de vista a outro e nos encher de orgulho e, na nossa mente, de créditos junto a Deus como bons recrutadores. O importante é o destino comum, não o caminho que leva a ele, como disse um mestre sufi, os caminhos para Deus são tantos quanto são os corações dos homens.

Durante muito tempo achei que não deveria escrever sobre assuntos religiosos ou espirituais. Sempre me assusta o medo da hipocrisia e me anima a idéia que um exemplo simples é melhor que todas as pregações possíveis. Contudo, mesmo sendo um péssimo muçulmano, às vezes sou tomado destas preocupações e então se torna difícil não escrever sobre estes assuntos, de forma nenhuma como alguém que tem respostas, mas apenas como alguém que quer fazer perguntas, imaginando que estas também sejam úteis a outros que também estão em alguma senda ou em busca delas.

É com este espírito não de crítica, mas de tentar compreender, que menciono este episódio do banco. Lembro-me de quantas vezes, mesmo que com mais sutileza, fiz coisas similares não só na religião, mas na política, no jornalismo, na literatura e em tantos outros campos porque é quase da minha natureza ter juizos absolutos sobre as coisas, ainda que felizmente jamais me aferre a eles, nem prenda meu pensamento com os grilhões dos sistemas e rótulos.

Não sei quanto aos outros, mas tive muitos momentos de fé cega. Não nego que houve momentos em que esta âncora firme, esta bússola do rumo certo, este mapa do correto me foi útil. Também vejo nos outros muitas vezes que esta certeza é produtiva, ajuda a reconstruir muitas vidas nas quais a esperança tinha se esgotado.

Mas acho que há dois inconvenientes nesta fortaleza inexpugnável da fé. A primeira diz respeito aos outros, à esta atitude de tentar converter todos os outros a sua verdade. Muitas vezes isto surge como uma forma de amor ao próximo, um desejo de compartilhar aquela paz que se obteve. Mas aos poucos este sentimento original, quando não é baseado apenas no exemplo, vai sendo contaminado pelo lodo da vaidade, pelo barro da ambição, vai transformando a água cristalina daquele amor inicial em um pântano.

Mais grave, contudo, é o resultado pessoal de se encastelar em uma visão de mundo. Quando isto acontece nós chegamos á conclusão de que já sabemos tudo e com isto paremos de aprender e de questionar. Estagnamos e com isto perdemos este atributo essencial do ser humano que é a curiosidade, tão importante em nossa evolução, inclusive física.

Aterroriza a maior parte das pessoas a noção que as dúvidas também podem ser abençoadas, talvez até mais do que as certezas. Mas só através do questionamento podemos descobrir que estamos vivos.

terça-feira, 8 agosto, 2006 – 18:23

Liberdade

Não prenda minhas palavras

Eles vem de você e para você

Mas são peregrinas

Pelos caminhos dos mundos

Jamais voltarei a ter grilhões

Assim como carcereiro

Nunca será minha profissão

Meu ofício é o da liberdade

Da minha liberdade

E de quem mais desejar

Então não coloque em mim

As cadeias que não deseja em si

terça-feira, 8 agosto, 2006 – 18:33

Um personagem implausível

No meio de tantas coisas a escrever depois de vários dias fora de casa e da cidade resolvo escrever meu balanço deste último ano, aproveitando ainda o restinho dos sentimentos de aniversário. Dou uma olhada nesta minha guarda de djinns – como nem o nome deles quero saber os apelidei de Norte, Sul, Leste, Oeste, de tantas divisões quatripartites a que me pareceu mais apropriada – sempre me incomoda escrever com qualquer um por perto, sejam reais, imaginários ou imaginais.

Aporta se abre e entra Hilal, sorridente.

A paz esteja com você! Sauda ele com uma voz amistosa, apesar de tê-lo mantido meio a distância há mais de uma semana.

Assalamu ‘alaikum warahmatullah, Hilal, o que veio fazer aqui. Digo salientando esta impaciência com o maravilhoso que me ocupa nestes dias.

Não acha que eu posso ajudar neste seu balanço? Afinal faz um pouco mais de um ano desde que você me personificou, acompanhei bem este período.

Este balanço é um exercício individual, você sabe.

Você é muito racional. Diz ele.

Perco de vez a paciência:

Porque de repente todo mundo resolveu me falar isto, hein! A Cláudia, o Djinn e agora até você! Se fosse tão racional como dizem não estaria aqui conversando com um sheikh imaginário e sim com um xeque de verdade.

Curiosa distinção esta que faz na linguagem entre sheikh e xeque, já a tinha observado há dias.

Claro, a um sheikh de verdade chamo pelo forma aportuguesada, mas você é um sheikh saído de alguma má tradução das Mil e Uma Noites, provavelmente da Galland, ao menos o djinn deve ter vindo da de Burton.

Também curioso que liste a Cláudia entre aqueles que considere personagens, alguém poderia imaginar que ela está na mesma categoria – Diz ele, e na sua voz vejo um sorriso irônico, quase maldoso e vingativo, e eu que imaginava que este sorriso vinha do djinn.

Se quer me ajudar, manda esta escolta, esses carceireiros embora, porque eles me irritam. Digo eu sinalizando com o olhar os quatro djinns.

Ás vezes concordo com a Cláudia que é ingênuo, não entendeu o que eles são, porque eles são necessários neste momento, nem que o senhor deles é você próprio, não eu.

Ah é, se sou assim ingênuo, me explique então o que eles estão fazendo por aqui! Digo já irritado com estes métodos dele.

Esta sua guarda só está aí para que não se esqueça do poder que tem, para lembrá-lo que seus dons tem de ser usados de forma responsável, sem ansiedade, sem ira. Se estes djinns vão seguir a sua natureza de fogo e ar – violentos e volúveis – destruindo ou vão ser compassivos e ponderados construindo templos, só depende da sua vontade. Estão aí só para ajudar a que se decida e os visualizando pense que cada palavra sua é uma legião de djinns que lança pela blogosfera.

Confesso, por um momento fiquei pasmo mesmo com a minha ingenuidade, tanta coisa faz mais sentido com esta perspectiva e até o incomodo que Hilal e eles me causavam torna-se mais leve. Retribuo:

Agora até pareceu mesmo um xeque!

Todas as respostas estão sempre dentro de você. Dizemos que é racional demais porque não consegue enxergá-las, não houve sua intuição. Há coisas que não podem ser catalogadas, ás vezes nem entendidas, tem de ser sentidas.

Então me ajude, como avalia que foi meu ano?

Daquele ser infeliz, abatido, deprimido que era há um ano avançou muito. Daquilo que ainda tem em potencial está muito distante ainda. Escrever ajudou muito a você se encontrar, a descobrir estes mundos dentro de você. Mas ainda é muito cheio de medos que impedem que veja a si.

Pelo menos descobri a fonte daquela minha ansiedade.

Mas ainda não a curou de todo, senão não viveria fumando, mesmo quando está com a Cláudia.

Minha disciplina, contudo, melhorou muito, olha minha alimentação, meus jejuns, meus textos quase todos os dias. Como avancei no controle da minha vaidade, submeti boa parte do meu orgulho. E, o melhor, fiz tudo isto resgatando a mim mesmo, lendo, escrevendo, produzindo, garanto que não é fácil controlar o orgulho e manter a vaidade em limites admissíveis tendo reconhecimento.

Mas acho que o principal é ter conseguido a simplicidade, já deixou muito daquele gongorismo, já aprendeu que há muitas coisas que não sabe, já se despiu de muito conhecimento inútil, já começou a examinar as coisas como se as visse pela primeira vez. Mas ainda tem muita arrogância lá no fundo, tem ainda alguns bolores. Comenta ele muito sério.

Acho que é fácil encontrar a medida correta de liberdade e responsabilidade, não é não…Comento eu que começava a pensar nas coisas que ele me dizia.

Pois é, este é seu principal bolor, esta tensão toda por conta de fazer a coisa certa sempre, este medo de errar, que ás vezes não te deixa fazer nada e te imobiliza. Só não se erra quando não se faz nada ou quando se cumpre ordens. No fundo não confia no seu coração, se confiasse não teria todo este medo, até o djinn te disse isto.

Daqui a pouco vai querer me convencer que eu também sou um personagem…

Claro que não! Diz ele.

Que alívio, respiro mais calmo.

Seria um personagem muito desinteressante e implausível…Dispara Hilal.

terça-feira, 1 agosto, 2006 – 18:16

Chá com djinns

O djinn – aquele que até outro dia eu mantinha prisioneiro e o obrigava a escrever por mim – veio me visitar e tomamos juntos um chá. Mesmo eu, que já estava acostumado sua sua carantonha verde, confesso, me surpreendi com sua aparência desagradável, mas tentei disfarçar, sem muito êxito. Quem me conhece pessoalmente sabe que eu não sei mentir.

Perdeu o hábito de ter um djinn em casa, não é? Vendo que não conseguia disfarçar minha repugnância.

Imagina, é sempre um prazer rever alguém que foi tão próximo por tantos anos. Digo eu com meu péssimo mentirês, meio consternado e preocupado em não provocar a susceptibilidade desta raça de fogo e ar, portanto cheia de orgulho e instabilidade, que são os djinns. Ibn ‘Arabi garante que todos eles são do signo de sagitário e ás vezes eu concordo com o grande mestre.

Meu primo Iblis manda lembranças e reclama que há tempos não o atende nem dá retorno aos recados dele? Diz o djinn entre gozador e sério.

Com ele não quero conversa, nunca quis, aliás já estou farto de djinns, bons ou maus. Opsss, espero que ele não se ofenda, mas poxa vida, às vezes tenho o direito de uma vida mais prosaica, sem tantas intromissões do maravilhoso e do fantástico.

Você é muito racional!

Estou aqui sentado com um gênio, tomando chá e fumando narguilê, ouvindo ele me dizer que tem recados do inferno e sou muito racional, o que é que falta, um tapete mágico? Só queria uma vida mais comum, que não tivesse que andar simultaneamete por tantos mundos ao mesmo tempo.

Diz isto porque está meio chateado, estressado, mas gosta mas gosta mesmo é destes outros mundos. Comenta ele meio irônico.

Gostava mais quando achava que eles eram só imaginação, conforme vão invadindo a realidade vão ficando aborrecidos. Digo eu meio chateado com os rumos de uma conversa que não me agrada.

Mas justo agora que anda fazendo tantos progressos, nem eu que vivo a séculos por tantos lugares falaria tão bem destas coisas.

Já foi o tempo que você me conquistava com estes elogios, viu, adulações de escravo não me valem de nada.

Já não é mais meu senhor, se te elogio é porque merece.

Me adulas porque talvez sonhe em vingar-se, não acha? Mas não vai funcionar, já me libertei destas minhas vilezas.

Ah é, mas esta sua escolta de djinns, pelo menos fico satisfeito de saber que precisou de quatro para fazer o meu trabalho, hehehehe.

Em primeiro lugar nenhum deles escreve, nem falam comigo, os proibi, só aceitei porque Hilal insistiu muito, mas mesmo assim quero que eles sumam rápido. Digo com um certo olhar de indignação com os quatro djins que guardam as minhas portas com alabardas prateadas com uma estampa de lua crescente.

– Por falar em Hilal, por onde anda aquele chato, achei que fosse tomar chá conosco. Pergunta o djinn olhando para os lados como se o procurasse.

Deve ter percebido que ando aborrecido com todas as coisas que não são deste mundo e ficam á minha volta e só vem aqui fazer seu trabalho e some em silêncio, mas estive na casa dele ontem, logo depois que voltei da oração do primeiro dia do mês de rajab.

Se anda cheio de nós porque o visitou?

Uma coisa é eu resolver ir quando preciso buscar alguma inspiração, ver coisas novas, outra muito diferente é quando elas me visitam, ainda mais em horas impróprias e sem aviso. Se os vários mundos estão separados não eram para se misturarem assim.

Quem construir as pontes foi você, ora essa. Diz o djinn já meio indignado com minhas referências mais do que diretas ao meu desagrado com a presença dele.

Construi as pontes para que eu passasse por elas e trouxesse um pouco desta beleza e destas maravilhas para cá, em doses homeopáticas, como diz o chavão. Não para que ficasse todo este trânsito por aqui.

Bom estão em vez desta escolta mal-encarada Hilal devia ter é lhe mandado guardas de fronteira, hehehehe.

Mas é isto mesmo que eles são, não percebeu? Só deixaram você entrar porque precisava falar com você, saber como anda, se está se cuidando e para dizer um adeus de uma forma mais adequada do que da última vez, como amigos e homens livres. Mas se voltar sem avisar não será rcebido.

Ouvido atento e boa vontade – Disse o gênio meio cabisbaixo e sem o mesmo ar de deboche – curioso ver o quanto de você vinha de mim e como está mais confiante e menos crédulo. A propósito, aquela coisa de Iblis foi uma brincadeira, você sabe, né…

Pois foi uma brincadeira de mau gosto, como quando este seu parente infeliz é tão cínico não relato do Sagrado Alcorão sobre a Hora, quando ele ri na cara dos seus seguidores e diz que ele jamais compartilhou da crença deles de que era um associado do Altíssimo.

Destas imagens todas de meus primos pobres a que acho mais engraçada é a daquele conto russo, do diabo que de tanto assistir aos sermões se converte, vai limpando a Igreja e por final resolve ir pregar no Inferno, provocando muitas gargalhadas nos outros, que tomando a pregação por brincadeira se divertem imitando-o, alguns muito melhor que eles. Diz o gênio mais agradável.

Pregar é sempre mais fácil do que dar o exemplo, e quem dá o exemplo não precisa pregar porque tem luz nas suas ações, não acha?

Não se acha atormentado com esta idéia da necessidade de ser bom? Acho que isto te angustia demais da conta, sabe, por isto fez estas pontes todas por onde as maravilhas transitam. Como todos os humanos tem muita pressa, ainda mais agora que eu me fui, não devia ter tanta ansiedade, se preocupa com as pequenas coisas, uma de cada vez, é melhor ser um humano apenas decente – o que não é tão difícil visto que os padrões de vocês estão muito baixos – do que ser um mau santo. Perde batalhas porque só quer lutar as grandes guerras, ao invés de treinar nas pequenas até ter habilidade suficiente, é pro sito que anda chateado com o maravilhoso.

Olho meio espantado para o gênio, meio surpreso com toda esta sabedoria e moderação de onde só costumava ouvir deboches e ironia. Não gostei dele ter me dito isto, porque tinha a ver com coisas que eu pensava, assim bastou ouvir estas palavras de alguém cujas intenções eu suspeito para que minha crença nelas se abale.

Hahahahahahaha – gargalha o gênio adivinhando meu pensamento pelas minhas feições, sou péssimo mentiroso, como disse – acabo de te ensinar duas lições pelo preço de uma, não se lembra do que disse Ghazalli: não procura saber quem diz a verdade, mas conhece antes a verdade e saberá em quais bocas ela anda?

Estou dispensando aconselhamento espiritual de seres que vivem em outros mundos e segundo outras lógicas, outras verdades, meu amigo, mas agradeço a intenção. Só achei curioso que me diga o mesmo que o xeque me disse ontem. Só Hilal me diz outra coisa…

Já reparou que quando eu estava por aqui confiava muito mais nele do que confia agora? Antes ele era o seu queridinho dos três, agora desconfia dele, aposto que foi até a casa dele só pra ter certeza de que não ficava em algum abismo infernal. Quando eu estava pro aqui queria ser ele, agora que me fui só quer ser o Alexandre.

Desconfio sim, acho até que tenho motivos, acho que ele exacerba meu orgulho e até meu individualismo. Me dá uma certa sensação de poder com a qual não sei lidar bem porque achava que seria mais disciplinado.

Pois é, achou que todos os seus defeitos eram culpa da minha influência, né, pode falar a verdade. Agora está percebendo que até algumas de suas qualidades vinham de mim. Disse o gênio entre compreensivo e irônico.

Diz a verdade!

Esta sua angustia, meu amigo, é a sensação que se tem quando se é livre. Eu também passo por isto. Acho que não sinto falta de quando você me mandava escrever isto ou aquilo, pesquisar aquele assuntos, descrever algumas coisas da minha vida? Agora eu mesmo tenho de pensar não que fazer, por mim mesmo.

Hilal às vezes é cruel e em outras horas omisso. Ainda não sei bem o que fazer desde que me livrei de você.

Você gostaria de ser ele, de sempre saber o que fazer para ser correto, de não ter medo de errar, de ter sempre na ponta da língua a palavra certa. Eu sei, até eu sinto ás vezes inveja daquele equilíbrio perfeito dele. Mas isto também é uma escravidão, a guerrilha não é menos guerra porque tem poucos soldados ou visa alvos pequenos, é a luta que dá pra se travar. Com perseverança, com novos obstáculos a cada dia, tem os mesmos efeitos, é até mais difícil de ser derrotada. Não ouviu o que o xeque falou pra você ontem, sobre a cada derrota descobrir o que falou?

Anda me espionando? Pergunto eu espantado.

Na falta d que fazer e sem ter feitos amigos neste meu mundo eu observo você. Incomodo, mesmo quando sou discreto?

Incomoda sim, oras, e a minha privacidade.

Só fui com você até um lugar público, queria ver se ia mesmo, sei que evita estes lugares por conta de seu orgulho e vaidade, tem medo de ser repreendido, de ver que não é Hilal não.

Ando me curando disto, por isto mesmo este trânsito entre o fantástico e a minha casa anda me azucrinando. Tenho desejo de ser apenas Alexandre.

Já viu nestes dias todos o quanto precisa ter cuidado com as coisas que deseja, não viu? Ainda mais com toda esta sua escolta. Diz o djinn olhando de soslaio para seus primos ricos, como ele os chama.

Bom, isto não precisava me falar, né, por sinal foram estes desejos todos que me enfastiaram das maravilhas e me fizeram desejar o prosaico.

Muito bom ver você mais sábio, feliz aniversário. Disse o gênio e evaporou.

sexta-feira, 28 julho, 2006 – 20:27

Viagem Noturna

“Quando os incrédulos fomentaram o fanatismo – fanatismo da idolatria – em seus corações Deus infundiu o sossego em Seu Mensageiro e nos fiéis, e lhes impôs a norma da moderação, pois eram merecedores e dignos dela; sabei que Deus é Onisciente.” (Sagrado Alcorão, Sura al Fath -O triunfo – 48:26)

Minha fé é filha das dúvidas, não das certezas. Posso até recitar minhas orações na forma prescrita e na língua na qual foram reveladas, porque compreendo o simbolismo sonoro contidos nelas; mas não preciso de rodeios e rapapés para falar com Deus. Ele sempre responde, nem sempre da forma que eu esperava, mas sempre apontando de um jeito ou de outro as minhas fraquezas e os desafios que Ele espera que eu vença.

Ele também me diz quando estou errado, quando meu self busca sua próprio conveniência, me acolhe e é compassivo quando ainda assim sou um escravo de mim mesmo. Mas. como um bom pai, me ensina de forma dura que todas as nossas ações e escolhas tem conseqüências e o verdadeiro arrependimento implica em arcar com elas.

Desde que aquele djinn que eu mantinha aprisionado e escrevia ás vezes para mim se foi, libertado de seu cativeiro de séculos, contudo, tenho sentido mais certezas e menos dúvidas na minha fé. Confesso que por alguns dias me assustei um pouco com a nova situação. Se a história da libertação do djinn fosse ficção teria dado a ela um final digno de uma das histórias daquele seriado “Além da Imaginação”, sendo o djinn na verdade algo bom e logo que ele saísse de cena o outro colaborador do meu blog, Hilal, daria uma risada mefistofélica e revelaria que na verdade não era nada do que eu pensava.

Cheguei a dizer que uma certa parte muito pacífica de minha personalidade havia se ido com o djinn, uma certa alma de escravo dominada pela vontade de agradar. Fiquei um pouco confuso com esta nova sensação de não se curvar mais a ninguém senão a Deus, mas conforme os dias foram se passando e as coisas clareando fui vendo que as coisas que rejeitava eram erradas, violavam a ética, contrariava aquele código de certo e errado que todos nós temos claro em nosso íntimo.

Relia cada coisa que escrevia e só via ali bons conceitos e mesmo me considerando suspeito só conseguia ver naquelas letras uma inspiração elevada. Não confiando apenas na minha opinião, colhi a de outros e pessoas retas de diversas fés ou de nenhuma viram o mesmo que eu. As consultei não por aquele antigo desejo de aprovação que se foi com o djinn, mas para verificar se o orgulho não me cegava ou a vaidade não me velava, porque afinal são estas coisas que nos fazem deixar a senda reta e buscar os atalhos escuros.

Não tive até hoje nenhum mestre neste sentido puramente espiritual, um dia talvez Deus me envie um que eu reconheça. Leitor ávido – mas cético e com senso crítico – de Guénon mentiria se dissesse que isto não me aflige às vezes porque temo meu orgulho e minha vaidade intelectual. Mas ao menos consigo ver com clareza os falsos mestres que pululam nestes nossos tempos confusos nos quais as forças inferiores tem tanta liberdade de ação.

Leitor muito desconfiado de Nietzsche, só posso desconfiar quando ele diz que devemos ser nossos próprios mestres, como diz a Olga, o Mal deve falar exatamente como Nietzsche escreve. É evidente que se somos mestres de nós mesmos também somos nossos escravos, mas este termo oculto da oração fica escondida. Libertar esta instância do meu self que personificava no djinn me fez ver o quanto ao escravizá-lo me tornava eu próprio servo.

Eu diria que um dos sinais mais importantes pode ser resumido em uma expressão bíblica: “a árvore se conhece pelos frutos”. Que ninguém estranhe que eu cite os mais variados Livros Sagrados e pensamento religiosos, de tantos amigos espíritas que tenho cito ás vezes até os textos doutrinais deles, em particular aquela advertência que recomenda que invoquem a Deus e deixem que ele determine quem será o “mentor” adequado para guiá-lo. Digo que se seguissem esta recomendação mais vezes haveria menos mistificações e psiquismos.

Quem se alimenta dos frutos de uma boa árvore é sereno porque está em paz, acertou ou está acertando suas contas com Deus e portanto com os demais. Quem se delicia com frutos podres é porque tem impurezas em seu self, as quais os falsos mestres se aproveitam para arrebanhar seu gado, portanto sua alma será atribulada e confusa.

Mesmo se ver o bem e a felicidade a sua frente não dará um passo porque no fundo sabe que para caminhar para eles tem de superar seus medos, deixar de ser escravo de seu self, render-se a Deus e abrir mão de todo poder cuja raiz está na ilusão. A escravidão a si mesmo é o pior dos grilhões porque nos apegamos a nossos problemas como se eles fossem de verdade, amigos próximos e aqui me lembro deste maravilhoso Livro Sagrado que é o Bahgavad-Gita, que nos ensina um dos caminhos para escapar da ilusão justamente por meio desta luta entre nosso Eu verdadeiro e as instâncias psíquicas que habitam nosso self.

É da tradição sufi que às vezes o mestre faça coisas disparatadas e a passagem do Sagrado Alcorão na qual o Khidr fala a Moisés sobre a impaciência e falta de humildade dele em compreender os desígnios de Deus é uma bela lição. Me lembro de uma frase de Huxley em “O Gênio e a Deusa” – “Talvez faça sentido para Deus, apenas” e acho que realmente há coisas e ações cujo sentido completo só pode ser compreendido no futuro ou em outro mundo mais elevado. Em todo caso o fato de um verdadeiro mestre apenas transmitir o conhecimento de Deus e os falsos tentarem se colocar no lugar de Deus ou sobrepor-se a suas leis é sempre um indício claro.

Talvez seja um limite meu, uma fraqueza, mas faço clara distinção entre estas atitudes disparatadas, como aquelas do mullah Nasrudin e aquelas nas quais sinto a vileza de sacrificar escrúpulos por um desejo das recompensas deste mundo. Pode até ser ingenuidade minha, mas acho que a autoridade de um mestre reside acima de tudo na força do seu exemplo, quem precisa demonstrar os símbolos e certificados de seu poder, ainda mais quando no interesse próprio de manter alguém sob controle ou obter vantagem ilícita é justamente porque está desprovido de autoridade.

“Se você não fizer, não usufruir, outro o fará” é um conselho que só pode vir, por exemplo, das forças inferiores. Como Gandhi creio que um fim jamais é superior aos meios utilizados para obtê-lo e no meu espírito não reside a menor dúvida de que é assim de concessão em concessão que alguém chega ao inferno que constroi para si.

Lembro também de uma história de São Francisco de Assis, quando este pediu aos discípulos que o acompanhavam que cada um pegasse um cordeiro e fosse até um canto da floresta onde ninguém os visse e o sacrificasse. O único dos jovens que passou na prova foi aquele que voltou com o cordeiro vivo e disse que aonde fosse Deus o estava olhando. Assim só posso crer que o mestre me mande evitar as coisas erradas, emsmo que todos as façam, não violar minha consciência com a justificativa de que todos cometem o mesmo.

Só para concluir, diria que em lugar nenhum vejo mais a ausência da fé do que no fanatismo de todos os tipos e matizes. O fanático sacrifica ao seu objetivo seus preceitos mais caros, todos os ditames éticos, toda disciplina, toda lucidez e por fim toda capacidade de examinar as coisas como se as visse pela primeira vez, sem categorias pré-concebidas, sem outro interesse senão o de conhecer algo sobre o fato. Por isto o fanatismo, como na passagem do Sagrado Alcorão em epígrafe, é um ato de idolatria, de adoração a si próprio, por isso só posso sentir a fé na moderação.

quinta-feira, 27 julho, 2006 – 13:36

Nem contrários, nem semelhantes, mas inteiros

Acho curioso, mas pobre, todas estas teorias que tentam explicar se de fato duas pesoas precisam ser semelhantes ou contrários para que o relacionamento dê certo. Para ser sincero acho até que a maior parte disto é pura bobagem, até que no passado também tenha teorizado um bocado sobre o assunto. Já pensei ter encontrado almas gêmeas, assim como o prazer da descoberta dos contrários, mas hoje sei o quanto estas snsações são ilusórias e no máximo provocam um sentimento muito aquém do verdadeiro.

Se fosse resumir o que penso hoje diria que estas reflexões são bobagens por dois grandes motivos. Em primeiro lugar porque ninguém é capaz de nos completar a não ser nós mesmos, é preciso ser inteiro para estar integralmente envolvido nos sentimentos reais. Outra pessoa pode no máximo catalisar este despertar do eu inteiro, mas ninguém pode fazer o trabalho por nós.

Em segundo lugar, até retomando um tanto temas que abordei no post de ontem, irrita-me um bom tanto a forma como o amor é pintado em tantos filmes, livros, música e poesia. Este amor-sofrimento, tão comum e tão cantado, não é o amor ao outro, mas a si mesmo. Dele não só vem a angústia, os medos, mas também ele bloqueia a entrega completa, a sensação de pular no vazio sem medo tão exaltada na boa poesia.

Este amor a si – e isto vale tanto para o amor ao oturo como para o Amor a Deus, sentimentos que para mim são similares – é o grilhão que nos prende ao chão, nos acorrenta a Dunia, ou seja a este nosso mundo vão e ilusório. Abriria um parênteses para observar as diferenças e semelhanças entre o termo islâmico Dunia e o termo hindu/budista Maya, que ao mesmo tempo são tão similares no conceito mas “personificados” de forma tão diferente, o primeiro geralmente como um local e o segundo como um indivíduo.

Sei que muitos de meus amigos muçulmanos às vezes ficam chocados, alguns até me mandam recados mal educados, com relação a tantas assimilções que faço entre o amor e a experiência religiosa. Só vejo nisto um sinal de como a riqueza espiritual do Islam está sendo perdida nas safras recentes e nem vou dizer que ao fazerem isto esquecem toda a riqueza da poesia sufi, mas que demonstram desconhecer o caráter sagrado que há no amor mútuo de um casal, tantas vezes consagrado no Sagrado Alcorão e em uma infinidade de hadiths.

Por sinal no final do post há um link para um excelente artigo sobre o assunto, Sexualidade e Espiritualidade, infelizmente em espanhol, no qual há uma comparação que me parece muito precisa entre o orgasmo e a “fana”, a aniquilação da nafs que nos liberta, ainda que por instantes, de Dunia e nos leva a estarmos dissolvidos na unidade.

Mas também não pontifico, não culpo aqueles que só consegue ver as imagens caricaturais e distorcidas destas coisas todas que habitam nosso mundo. Eu, que a vida inteira passei procurando pro este conhecimento só há pouco comecei a adquirir a sabedoria para compreendê-lo. Ainda assim com os lapsos que acontecem por conta de nossos olhos ainda estarem muito acostumados à escuridão da caverna e se ofuscarem quando vêem a luz do sol, mesmo através de alguma fresta.

Voltando, então, à introdução, eu diria que é sempre ilusório achar que precisamos de outra pessoa para ser inteiros – seja o outro similar ou oposto, pouco importa – o que vale é sermos já inteiros – ao menos potencialmente, ou seja, em vontade de ser completos – para que ao encontramos outra pessoa com o mesmo sentimento e vontade possamos um catalisar o processo no outro e construir uma unidade que não é a soma das partes, mas a fusão que só pode ocorrer fora do deserto de Dunia.

http://www.webislam.com/?idt=3162

quarta-feira, 26 julho, 2006 – 15:40

A sobrevivência de uma metáfora

Não entendo quase nada de cinema, como em todas as artes fora a literatura – da qual reconheço que de tanto ler os autores e jamais ler a imensa maioria dos críticos acabei aprendendo um pouco – só posso opinar como espectador, como público vulgar. Por isto sempre me agradam mais as grandes sacadas estéticas, as tiradas filosóficas, as entrelinhas dos filmes comerciais do que os chamados filmes de arte, ainda mais aqueles para os quais é preciso ter doutorado em cinema para compreender.

Tiro do baú um exemplo que muitos considerariam grotesco, bateriam na madeira e excomungariam com a atitude da bisneta de Tia Nastácia, PHD em cinema. Uma comédia mais do despretensiosa, comercial, pop, Mudança de Hábito (Sister Act, 1992). No filme, se é que alguém não assistiu, tanto que passou pela TV, Whoopi Goldberg, representa uma cantora de cabaré que após testemunhar um assassinato é escondida em um convento de freiras e acaba por revolucionar o coral da igreja. A sacada absolutamente genial é a adaptação que ela faz das canções de cabaré em música sacra, colocando Deus no lugar do galã da música.

Considero genial a transformação porque na verdade a maior parte da poesia lírica vem justamente da utilização do amor entre homem e mulher como metáfora do amor divino, nascido da poesia música de diversas culturas, mas principalmente da islâmica, e vice versa, da utilização das imagens religiosas consagradas deste amor para expressar um sentimento mais carnal. Dos autores mais modernos acho que o último grande nome que faz isto é Rilke, ele próprio inspirando-se em grande parte na poesia islâmica, em especial Rumi.

Assim o impacto da transformação de música quente de cabarés em música sacra não deixa de ser uma recolocação da questão em sua fonte. Nem sei se o diretor ou os roteristas sabiam disto quando bolaram, mas este conhecimento é quase irrelevante, até porque não é preciso saber disto para apreciar a cena, ainda que acrescente mais prazer, quase deleite estético ver esta brincadeira. Quando tantos ritmos modernos surgiram da música sacra, em especial dos negros americanos do sul dos EUA – provável referência mais próxima dos roteiristas – só se pode concluir que estas duas imagens do amor são intercambiáveis, mesmo numa cultura tão secularizada e individualista como a nossa, a ponto de um filme feito “para as massas” com este jogo possa ser compreendido e apreciado. Esta constatação, para mim ao menos, é muito mais relevante do que conhecer as referências históricas de quem fez o roteiro.

Mas todas as sutilezas teológicas não param por aí. Justamente por ter como base as canções de cabaré a freira-corista destaca exatamente o amor passional, incondicional, prazeroso, tal como na poesia, por exemplo, de Saadi ou Shams al-Tabrizi, não as imagens edulcoradas do amor fácil, belo e frio que tantos tentam chamar de amor a Deus. Não o amor a si próprio, mas o amor ao outro, no qual não há espaço para estas tantas imagens modernas de aflições provocadas ao próprio ego, ao sujeito deste amor e não ao objeto.

Mesmo fora do campo da poesia, nunca é demais lembrar que o sheikh al-akbar – o maior dos sheikhs – ibn ‘Arabi – descreveu sua teofania nas Revelações de Mecca através das imagens de seu amor pela bela Nizam, filha de seu mestre. Por sinal, A Interpretação dos Desejos, uma das partes deste livro consiste de poemas especialmente dedicados a Nizam.

Curioso que há tempos penso escrever sobre o assunto, acho até que desde a primeira vez que assisti ao filme e até já ensaiei alguns artigos sobre o tema mas sem mencionar o filme. Curioso que comece de coisa tão prosaica com um filme já velho, destes que passam na sessão da tarde, para chegar a um dos maiores pensadores muçulmanos. Nada curioso que só agora finalmente tenha conseguido realmente escrever um texto começado tantas vezes, porque ao invés de apenas conhecer o tema, desta nossa forma livresca – como faria o djinn – agora falo de coisas que sei e posso compreender melhor este aspecto completo destas experiências.

terça-feira, 25 julho, 2006 – 17:11

Cochilo

Com um olho

Vislumbro um mundo

Repleto de djinns e tapetes mágicos e lâmpadas maravilhosas

Já o outro

só vê a mesa do escritório

A pilha de textos a redigir, os recados pedindo retorno dos telefonemas

Divirto-me às vezes trocando os olhos

Faço meu trabalho como se construisse palácios

Enquanto com método arquivo as maravilhas

Surge um oásis na mesa

Enquanto despacho com os três derviches caolhos

terça-feira, 25 julho, 2006 – 18:31

A Conferência – Final

Olha, se vai me libertar me liberte de uma vez por todas, se não vai deixa eu voltar para minha garrafa com tranqüilidade, porque não agüento mais esta novela mexicana, vocês dois adoram fazer drama de tudo, que saco! Disse o gênio meio aborrecido.

Acho que ele tem razão, Alexandre, porque se demora tanto, porque hesita? Diz Hilal com aquele sorriso de quem faz uma pergunta sempre sabendo a resposta.

Vocês são terríveis quando concordam, na última vez que concordaram assim me fizeram atravessar o centro a pé de madrugada, hehehe. Sabem que se demoro a deixar algo é porque quando deixo fica lá em um passado remoto que raramente visito. Meu amigo djinn, entenda que sua amizade nestes anos todos me foi muito cara, sua ajuda muito preciosa, se hesitei até agora não é porque quero um escravo, faz tão pouco tempo que entendi que era um cativo, mas porque estimo sua companhia. Comento eu, meio sensibilizado, com aquela sensação estranha que sinto quando é Hilal que escreve.

É fácil não sentir o peso dos grilhões quando eles atam outros pés que não o seu, Alexandre. Disse Hilal com aquele tom de censura muito firme mas muito terna.

Não precisa ser tão duro, Hilal, ele também foi tantas vezes escravo sem o sentir também, então sua crítica não é justa. Diz o gênio e sua defesa me comove.

“Vil como ter um escravo”, eu disse uma vez, mas sou obrigado a dizer que entre nós, meu amigo djinn, nunca soube quem era o escravo e quem era o senhor. Quantas vezes não fui tomado por esta sua misantropia, por certo gosto de fausto, por maravilhar os outros com nossos talentos, quantas coisas não escrevemos só para sermos admirados e não para realmente dizer algo. Quem é o mestre e quem é o escravo?

Então o liberta e liberta a você próprio. Diz Hilal, com aquela voz de comando que ele sabe que me irrita, é quase uma provocação dele, um teste se estou pronto pra minha liberdade.

Curioso que neste momento eu penso acima de tudo nos meus poucos mas tão seletos leitores. Quantos deles admiram o texto do gênio e não o meu, não o de Hilal. Curioso que os textos de Hilal estão sempre entre os mais lidos, mas, enfim, não é um cálculo preciso porque sempre divulgo mais os textos dele, talvez porque confie que eles são mais sinceros, mais úteis.

Engraçado que também os melhores amigos que fiz por meio dos meus textos chegaram quase sempre através dos textos de Hilal. O estilo do gênio – gongórico, me disse um amigo faz bem uns 20 anos – tem outro tipo de admirador. Nos últimos tempos até o Alexandre tem conseguido se sobressair, ele que sempre foi o mais apagado, mesmo quando o Hilal não era uma presença tão viva, acho que foi justamente o destaque dos três, cada um com seus dilemas, valores, perspectivas e estilos que permitiu que cada um se desenvolvesse. Enfim, não me arrependo do momento em que decidi dar a cada um o seu papel, até agora há boatos sobre um quarto personagem que mantém um blog secreto em algum canto da blogosfera.

Pego a tampa de cobre da garrafa do gênio, com o selo de Salomão gravado em ouro. Jogo no chão e quebro com uma pisada forte;

Está livre, meu amigo, segue teu destino!

Obrigado, saiba que destes séculos todos os últimos anos estiveram entre os mais agradáveis – disse o gênio enquanto se evaporava em uma nuvem verde que tomou o caminho da janela e sumiu aos pouco.

Hilal olhou-me com um olhar de amizade, aquele seu sorriso discreto mas profundo. Agora eramos só eu e ele na tarefa. Corro para escrever o desfecho da história e quase me surpreendo em achar que sem o gênio meu estilo ficou mais límpido.

segunda-feira, 24 julho, 2006 – 14:36

A conferência II

Ninguém odeia tanto quanto eu as histórias em pedaços e se parei de assistir algumas excelentes séries de TV foi justamente porque me irritava profundamente aquele “to be continued” no final. Acabei tendo de fazer isto ontem e talvez até faça de novo hoje.

Resolvi quebrar aquele clima denso tratando a conferência como um reunião de pauta normal, de mais um dia, na verdade pressinto que eu mesmo não estou totalmente convencido de que não precisarei mais da ajuda do djinn.

Bom, sobre o que falaremos hoje, alguma sugestão de vocês?

Tem aquele comentário sobre a antologia de histórias de robô organizada pelo Asimov que há tempos leu e até hoje não comentou – diz o djinn, com certo ar de indiferença.

Porque não escreve mais uma história sobre o imbecil, estou certo que o texto sobre o “imbecil afetivo” está pronto na sua cabeça. Assevera Hilal.

Dou de ombros e mostro indiferença às duas sugestões. Nenhuma das duas me motiva, no final acho que cada um puxa a brasa pra sua sardinha, quer se mostrar importante no meu processo criativo. Sou apaixonado por ficção científica, acho que é o gênero que substitui as utopias e os relatos de viagens fantásticas nesta nossa era de modernidade, mas ando meio individualista demais para pensar nisto hoje. Também sei bem aonde Hilal quer chegar, sabe que se a discussão vai pra onde ele quer logo surgirá o assunto da libertação do gênio.

Percorro a sala com os olhos, me fixo nos olhos ansiosos do djinn. Engraçado como nunca o percebi como um escravo, lembro de um verso que escrevi há tempos – “vil como ter um escravo”. Meu xingamento preferido é considerar algo ou alguém vil, na minha opinião resume toda a falta de qualidades, toda baixeza, toda ausência da verdadeira nobreza.

Que tal escrevermos sobre um debate se o djinn deve ser libertado ou não? Atiro no meio do debate o tema no qual os três estão pensando e me divirto com a reação dos dois. Não é fácil surpreender Hilal, que me conhece tão bem, até nos meus defeitos, mas desta vez consegui.

Ahahahahaha, vou pra fila do seguro-desemprego, gargalhou o djinn, não com aquela gargalhada terrível, meio infernal que tem os de seu povo, mas com um riso quase humano, de alegria.

Penso em como ele acabou se humanizando nestes anos todos. Em quanto me assustei quando vi pela primeira vez no lugar do meu reflexo no espelho aquela carantonha verde. Em quanto me encantei e me senti seguro quando ele nem ligava para o tumulto em volta e produzia um texto que tirava exclamações de todos. Em quando me senti livre de um fardo quando ele escrevia como se ainda acreditasse sobre assuntos que se tornaram prosaicos demais para mim. Em quanto eu ficava tranqüilo sabendo que mesmo quando estava muito mal ele faria meu trabalho por mim. Ter um escravo também é vil por conta disto, nos acomodamos quando alguém faz nosso trabalho por nós.

Curioso que não me lembro tão bem quando Hilal chegou ou despertou. Aquela estranha sensação de excesso de sensibilidade que tenho quando é ele que escreve, que ás vezes até me faz chorar, é antiga, mas não sei se já era ele. A primeira vez que me lembro de ter conversado com ele de uma forma bem concreta foi quando quando comecei a escrever o Exílio Ocidental, um dos muitos textos mais longos que sobrevivem inacabados.

Faz pouco mais de um ano, em um daqueles alarmes falsos nos quais achava que voltaria a meu estado normal e retomaria o controle da minha vida, o que só aconteceu mesmo um ano depois, quem sabe se na época tivesse terminado o texto teria me restaurado antes, mas não reclamo porque tudo acontece no momento certo. Mas sei que ele me acompanha há muito tempo, em todos os momentos nos quais fui tomado pela coragem, nos quais minhas palavras podiam correr soltas e livres, não para impressionar, não pelas recompensas, mas porque tem de ser ditas.

Também me lembro com clareza do momento no qual ele aflorou por completo, naquela jornada pela madrugada de São Paulo há poucas semanas, quando andei de madrugada pro lugares nos quais não andaria à luz do dia. Naquele dia entendi meu papel para poder livrar-me de todos os papéis, precisei de outros dias e outros momentos para permitir que ele assumisse o controle, mas a sensação de perder os medos que ele trouxe livrou-me das aflições.

Quando o djinn se for, quem vai escrever sobre política, por exemplo – diz Hilal em um tom provocativo, só para revelar como ele me conhece tão bem.

Os leitores, que já são poucos, vão achar você um chato, sem os adornos desta minha erudição de quem passou séculos na garrafa sem ter outras coisas a fazer senão ler – Comenta o gênio, competindo com Hilal para ver quem me entende melhor, mesmo contra seu próprio interesse, vítima da sua própria vaidade, como eu, ás vezes.

Vocês são dois tolos, no fundo, sabem que deste jeito não me tiram nada, faz tempo que deixei de fazer as coisas para irritar alguém. Comento meio exasperado com a maneira primária com a qual eles me enxergam, confesso que as vezes até Hilal tenho vontade de mandar embora porque dar vazão a ele às vezes me oprime um pouco, preciso também ser humano.

É muito suscetível, incomoda-se muito com a reputação, às vezes, ainda não se libertou de toda a necessidade de auto-afirmação – Diz Hilal com certo sorriso irônico e irritante – quando conseguir escrever sem pensar o mínimo no que vão achar do texto então estará pronto para seu trabalho.

Também não tem ainda toda a coragem que precisa para sempre fazer o que precisa, ainda se apega a muita coisa ilusória, Por isto não tem coragem de me libertar, ainda gosta das histórias de faustas cortes que lhe conto – Atira o djinn, para dizer que o verdadeiro prisioneiro sou eu.

Não é verdade – falo meio indignado porque receber lições de moral de um djinn cínico é demais pra mim em um dia como hoje – já sei bem o que quero.

Não pode mentir pra mim, entre o Poder e a Autoridade ainda tem oscilações, seus olhos ainda brilham quando vê uma perspectiva – entra Hilal na conversa, com um tom meio compassivo que me irrita muito – não se decide a ser para si mesmo ou para os outros, se estivesse decidido jamais se exasperaria com coisa alguma, nem teria medo de defender com mais força suas posições ao invés de irritar-se.

A conversa hoje é sobre a libertação do djinn, não sobre a minha, não desviem o assunto – corto a conversa com firmeza, de uma forma que eles sabem que não conseguirão nada além de me irritar se insistirem. Preciso de mais uma noite de bom sono, meditação e relaxamento antes de compreender bem o que preciso fazer, se ao menos a Cláudia estivesse aqui do lado, saberia que meu pensamento estaria mais aguçado.

quinta-feira, 20 julho, 2006 – 15:05

Conferência

Curioso que dentre os três personagens que formam a equipe que redige meu blog – que comentei no post Eu, Eu Mesmo e meu Blog – aquele que desperta a maior simpatia dos leitores com os quais troco correspondência é justamente o djinn que mantenho aprisionado em uma garrafa e que me serve de ghost-writer. Mesmo sendo um tanto cético, um misantropo, às vezes tendo um ar de fastio, desperta simpatias talvez por conta de sua prisão causar empatia em tantos outros espíritos que se sentem igualmente presos a grilhões como os dele.

A estes leitores só posso dizer que também sinto esta empatia, em vários momentos pude compreender a exata sensação do djinn preso na garrafa, fazendo algo que por muito tempo gostou, mas que com o passar dos anos ou séculos foi ficando aborrecido. Como ele sinto que as palavras não são mais adornos de um texto, mas são uma revoada de flechas procurando uma boa batalha pra lutar e um objetivo a alvejar.

Resolvi, então convocar uma conferência da equipe para discutir o assunto e a imaginei mais ou menos como descrevo abaixo.

“O djinn, que não tem outra coisa a fazer na vida, foi o primeiro a chegar. Assentou sua imensidão verde e fumacenta, em uma enorme almofada bordada a ouro que fez surgir, acendeu o narguilê e esperou tempo passar lendo a última tradução definitiva das Mil e Uma Noites, ainda mais diferente das anteriores do que dos fatos relatados que o gênio tem bem presente na memória. Deteve-se logo em uma das primeiras histórias de Sherazade, sobre o gênio aborrecido com os séculos na garrafa resolve castigar ao invés de premiar quem o liberta, justamente um dos argumentos que usaram para que eu o libertasse de vez, com certa gargalhada maldosa ele pensa que talvez valesse a pena não ser um djinn tão bonzinho e nos seus olhos se vê claramente que a sua raça é mesmo do fogo…

A porta se abre e chega Hilal, com passos firmes, não com as suas vestes brancas e largas de sheikh, mas com seu traje negro de guerreiro, não fosse o turbante negro o apanágio do seyeds e certamente ele também estaria com um. O djinn, que perde o amigo mas não perde a piada, ia fazer um comentário, mas se cala com o olhar terrível que Hilal lhe lança. Apesar de tantas diferenças não deixa de haver amizade entre personalidades tão distintas.

O que fará quando for livre, pergunta Hilal, puxando assunto enquanto eu não chego.

Se eu precisar prestar contas disto, então é porque não é uma liberdade verdadeira, não acha? Responde o gênio entre desafiador e ponderado, entre uma baforada e outra do narguilê.

Salomão o prendeu por um motivo, não acha que devo saber se o motivo ainda existe ou desapareceu?

Já não sou necessário aqui, há semanas não escrevo mais, fico melhor na companhia dos meus, você é quem mais sabe disto, se teme a ausência do contraste então é como aquele monge de Gibran sobre o qual escreveu estes dias.

Hilal enrubesce – e eu que achava que isto só acontecia comigo – porque na verdade ele está meio acostumado à presença do djinn, a todos aqueles debates noturnos no qual ele defendia a disciplina rígida e elevada, o amor incondicional, a justificação da elite por conta apenas dos deveres maiores enquanto o gênio para provocá-lo falava de Nietzche, de tantas seitas gnósticas para as quais a virtude era um impiedade. Ele leu em dezenas de textos sagrados o quanto este apego é uma ilusão, mas também teme ter de fazer todo o trabalho sozinho.

E o Alexandre não chega – reclama o djinn – justo ele que é pontual de forma tão irritante, precisamos resolver isto logo, quem sabe esta noite já não estou entre os meus…

Depois de tanto tempo entre os humanos não sei se vai conseguir viver entre os seus, pondera Hilal com um certo olhar de compaixão para o djinn, ainda mais terrível que o olhar da sua ira santa.

Os humanos são mais interessantes que os djinns, totalmente imprevisíveis, meio malucos, nisto concordo. Não foi um deles, Lobato, que disse que o homem era um macaco que tinha caido da árvore de cabeça e daí passou a agir de forma inusitada? Os humanos são assim, tudo na natureza segue seu curso, mas os humanos são realmente livres, ainda que quase sempre utilizem sua liberdade para as coisas mais cretinas, em especial escravizar-se. Mas com os séculos até eles se tornam chatos, porque se repetem, estão sempre reclamando de tudo, em especial das bençãos que recebem.

É injusto, se seu mestre o liberta é porque o poder de tê-lo cativo não o tenta mais. Diz Hilal tentando animar o djinn com a esperança de liberdade.

E se não me libertar é porque ainda tem medo de que você e ele não consiga fazer o trabalho. Mas também pode ser por arrogância, pela sensação contrária de que não precisa mais de mim, nem quando tiver que escrever um texto para alguém sobre algum assunto chato no meio do tumulto. Até poesia ele anda se achando capaz de escrever nestes dias, sem nenhuma ajuda nem minha nem sua…

Hahahahaha, nunca tinha visto um djinn com ciúme de seu mestre, no fundo também teme perder a função, não acha?

Bom, em relação à média dos humanos só posso dizer que ele é interessante e até sua companhia é agradável às vezes. Também você já foi mais chato, hoje acho que chegou a uma postura mais ponderada.

A energia da disciplina é proporcional à disposição de aplicá-la, não acha? A voz de comando é necessária quando se é um recruta. Mas há tempos não disputamos, não percebeu? Por isto mesmo me preocupo sobre como conviverá com os seus, pode-se sentar aí com ar de fastio fumando seu narguilê e lendo com cara de pena um pobre texto humano, mas no fundo se acomodou nesta vida e nem sente falta de viajar pelos céus noturnos e bisbilhotar a conversa dos anjos.

Quando se viveu quase três milênios em uma garrafa não é fácil reencontrar os espaços amplos, mas não há dúvidas que mais cedo ou mais tarde reacostumo a viver em liberdade. E você, não tem medo de também ser despachado algum dia?

Não sabe o que diz, mais fácil que o Alexandre se vá, do que eu. Será que não entendeu nada desta história toda?

Mas não se esqueça que ele não precisa de você para escrever poesia…

Onde moro não há diferença entre poesia e prosa, se ele escreve poesia é só porque ás vezes olha pelo buraco da fechadura de minha casa.

Não tem ouvido o quanto ele tem falado sobre não precisar de intermediário, sobre a necessidade de se falar diretamente com Deus para escapar às armadilhas. Assim acaba também perdendo o emprego.

Decididamente ou não entendeu nada ou está se fazendo de desentendido e perdendo seu tempo tentando me irritar.

A porta se abre e entro, sinto o clima um pouco pesado na troca de olhares, sempre densa, entre Hilal e o djinn. O Gênio se espreguiça nas almofadas e me olha ansioso, tentando descobrir no meu rosto a resposta aos pedidos pela sua libertação. Hilal, como sempre impassível mas nunca frio, sentado com as pernas cruzadas me lança um olhar terno para tentar me acalmar.

Boa tarde, desculpem-me pela demora, vocês sabem como ando cheio de providências a tomar para esta nova fase da minha vida…

Não quero fazer suspense ou novela, mas já me estendi demais hoje, assim o desfecho fica para amanhã. Por sinal aguardo sugestões.

quarta-feira, 19 julho, 2006 – 16:15

Reflexões de vésperas de aniversário

Dizer que a idade é psicológica ou um estado de espírito é sempre um lugar comum, destas coisas que repetimos muito sem pensar. Não acho que seja correta a interpretação que se faz em geral destas expressões tentando dar legitimidade a comportamentos pueris ou de adolescentes em cabeças grisalhas, como no poema de Hugo creio que “cada idade tem seu prazer e sua dor”. Porém, acho que há uma disposição dentro de nós que dá a medida da nossa idade na medida em que mesmo nos comportando de acordo com as responsabilidades de nossa idade somos capazes de enfrentar desafios e planejar o futuro com a curiosidade e coragem das crianças.

Eu, particularmente, nunca tive uma boa relação com a minha idade. Tive poucos amigos adolescentes quando era um deles e tenho vários hoje quando há muito já deixei de ser um. Mas há muito já tinha a esperança de sempre ser capaz de manter aquele espírito audacioso, despojado, generoso dos jovens – o qual infelizmente está se extinguindo mesmo neles por conta desta nossa cultura individualista e consumista.

Quando leio algo que escrevi há algumas semanas e não concordo mais com aquilo isto me dá alegria, não por ser incoerente, mas por perceber uma evolução no meu pensamento sobre aquele ponto. Se eu precisasse descrever este sentimento de juventude que mencionei em um único traço usaria esta capacidade de não ter certezas absolutas e não aceitar as verdades absolutas por mero comodismo.

Não deixa de ser curioso que não tinha este tipo de sentimento de forma tão clara quando era jovem. Vivia naquela época a necessidade das certezas absolutas, Falei duas vezes nos últimos tempos sobre professores e mestres e me lembrei de uma conversa há alguns dias com a Cláudia e a Márcia na qual mencionei um outro mestre que eu tive, este já na universidade, Albertino, que me ensinou justamente o quanto eu não sabia, o quanto eu encolhia o mundo pro tentar enquadrá-lo, como Proteu, em meus esquemas analíticos, na minha cosmovisão.

Certamente ele teve este papel fundamental de libertar a minha mente e elevar a minha percepção e mesmo sendo ateu abriu-me as portas para tantas experiências espirituais que depois tive. Sem dúvida alguma, me ensinou o caminho até esta fonte da juventude mental que é a dúvida. Foi uma das muitas pessoas que tive a felicidade de encontrar pela minha vida que foram capazes de ensinar-me algo muito valioso. Algumas vezes a lição precisou ser amarga porque eu reagia a ela, em outras foi doce quando me submetia ao aprendizado, mas todas as vezes que recusei-me a aprender e me afastei do meu caminho, abandonei este meu ímpeto jovial de aprendizado naufraguei e perdi o sentimento de unidade em mim mesmo.

Vejo pela rede muitas pessoas se intitulando de mestre, coisa que nenhum que o fosse de verdade faria, às vezes rio da pretensão, às vezes me preocupa que capturem algum incauto, eu e Cláudia discutimos justamente isto ontem à noite. Até de brincadeira, lá no meu país virtual, é um título que me preocupa. Mas como ninguém é vítima totalmente inocente avalio que mesmo os falsos mestres podem ensinar algo aos discípulos que os aceitam, porque acabarão mostrando a eles que o caminho da liberdade e do conhecimento exige a aniquilação da vaidade e não o incentivo dela e que aqueles que alimentam o orgulho próprio ou dos que desejam dominar mais cedo ou mais tarde desvelarão suas faces.

Voltando às escolas e à juventude, preocupa-me às vezes alguns métodos modernos de ensino no qual em nome de não se impor uma relação de submissão ou frustrar a criatividade se acaba deixando de ensinar a domar o orgulho e a ter uma postura de humildade frente ao conhecimento. Tive algumas boas mestras no segundo grau – como comentei em post anterior – que em momentos de dificuldade, isolamento, frustração me fizeram exercitar, descobrir e valorizar meus talentos e certamente foram importantes, mas o professor que me ensinou a duvidar do que eu sabia foi ainda mais fundamental. A atual ausência de professores que detenham a autoridade – friso a diferença fundamental com o poder – para varrer as certezas e ensinar a disciplina que leva á liberdade é um problema educacional mais grave do que verbas, projetos ou coisas similares. Ainda mais neste momento do mundo no qual a escravidão do egoísmo cega a tantos olhos que a vêem como liberdade.

O equilíbrio entre a busca constante da juventude e a humildade que só a maturidade pdoe conferir é a meu ver uma meta possível em nossas vidas. Da juventude este ponto de equilíbrio traz a consciência que deverá ser sempre um processo e não um lugar ou momento definitivo, da maturidade este equilíbrio recebe o legado de não ser mais necessário buscar a auto-afirmação, compensar as inseguranças.

terça-feira, 18 julho, 2006 – 13:56

paleta

Quando estamos unidos

As fronteiras somem,

Todas as separações se tornam difusas,

Misturadas como as tintas numa paleta,

De um pintor maluco,

Que resolveu inventar as próprias cores

Gozo dos sentidos, que nada, ‘ayini!

Nosso amor vai muito além de qualquer sentido

Não se contamina nem com a urgência da eternidade

Nem se envergonha do contato das peles quentes.

Quem separa as sensações não pode entender a unidade

Nem onde eu começo e você termina às vezes eu sei mais

quarta-feira, 5 julho, 2006 – 00:34

Nosso amor é jornada

Hoje fujo do padrão e posto um poema, acho que estou abstrato demais pra escrever prosa.

Até quando não temos tempo

Não há pressa.

É só fazer de conta

Que os ponteiros pararam

Nosso amor é aristocrata

Não é escambo de burguês

Nem apertar de parafusos na esteira

Apenas o deleite por si só

Até quando não estamos juntos

Não há distância.

É só fazer de conta

Que estou aqui do seu lado

Nosso amor é sacerdócio

não é barganha de mercador

Nem salário de operário

Se recompensa a si próprio

Até quando não eramos ainda,

Havia nostalgia do futuro,

Só fizemos de conta

Que loucos eram os outros

Nosso amor é jornada

Para que se preocupar com o destino

Se a paisagem destas trilhas

É tão bela

quarta-feira, 5 julho, 2006 – 16:37

Liberdade e escravidão

Quer pouco: terás tudo.

Quer nada: serás livre. (Fernando Pessoa)

Um dos emails que recebi de um amigo, comentando meu post – A verdade e seus Amigos – da sexta-feira, disse que me considerava o muçulmano mais budista que ele conhecia. Provavelmente se fosse budista destacaria no que escrevo alguns aspectos mais belicosos e mais voltados a destacar a necessidade de viver no mundo, por sua vez, e ele diria que era o budista mais muçulmano que conhecia…

Acredito profundamente naquela frase de um mestre sufi segundo a qual os caminhos para Deus são tantos quantos são os corações dos homens. Para quem tem a preocupação consigo próprio pode ser reconfortante a idéia de que fazer parte da religião x ou da Igreja y é uma garantia de salvação, um passaporte para o paraíso ou ao menos uma segurança de não ingressar no inferno.

Este tipo de visão só poderia servir para a utilidade oposta, não é à toa que meus amigos ateus ou agnósticos sempre invocam a multiplicidade de religiões condenando os membros de uma a outra ao eterno sofrimento como uma prova da falha de todas elas. Mesmo algumas daquelas que tem uma visão mais compassiva com as outras fés, como o budismo e o espiritismo, não deixam, por sua vez de transformar o que em outras fés é intolerância em um certo conceito de superioridade.

O que eles dizem nas entrelinhas, é que todas as fés são válidas, mas que os adeptos da sua são superiores, estão acima dos demais, são mais evoluídos ou coisa d tipo. Em outras palavras, a diferença na postura de intolerância é apenas quantitativa, não qualitativa, porque em essência é o mesmo sentimento de excluir em algum grau o outro, aquele que não compartilha de um caminho idêntico.

Uma outra interpretação desta questão da multiplicidade das religiões é acabar achando que tanto faz seguir um caminho ou outro, que as práticas e rituais estritos de cada fé são apenas um adorno externo, que cada pessoa tem a liberdade de seguir a Deus como achar que deve. Este raciocínio desmonta-se na prática, a despeito de toda a simpatia que se possa ter em relação a ele, porque tende a levar a pessoa a eliminar um passo essencial presente em qualquer religião porque essencial ao ser humano que é o desenvolvimento da disciplina, o controle dos desejos, a compaixão e o respeito ao próximo.

Como, perdoem-me por repetir isto pela milésima vez mas o faço porque é um conceito essencial, a maioria das pessoas estão mais preocupadas com seus direitos do que com seus deveres, esta postura de religião “self-service” acaba levando ao abandono de toda disciplina, a transformar a pessoa em escravo de seus desejos. Como são falsas tantas dualidades, também é falsa a que opte a liberdade e a disciplina, por isto as regras de cada caminho são necessárias não como leis a serem obedecidas em busca de uma recompensa, mas como sendas para a liberdade mais profunda.

Para mim a divisão evidente que há entre a massa e a elite é, justamente ao contrário do que é normalmente entendido, que a massa deseja os direitos, o usufruto, enquanto a verdadeira elite no sentido essencial e original do termo, compreende os deveres que tem em função do quinhão que receberam do Criador.

Àqueles que ignoram alguma objetividade ou realidade dos princípios morais e éticos, e este é um tema freqüente das minhas correspondências e conversas, eu sempre digo três coisas. A primeira e mais importante dela é que qualquer dúvida sobre se algo é certo ou errado não existe na verdade. Um simples princípio presente, muitas vezes com palavras muito próximas inclusive, nas diversas religiões, demonstra com clareza que a fronteira moral é bem real: “não faça aos outros que não gostaria que fizessem a você”. É impossível errar ou ter dúvidas seguindo esta regra que resume a ética das religiões mais diversas.

A segunda coisa é que devemos estar preocupados e centrados conosco, não nos demais. Na medida que buscamos lá no nosso âmago nossos defeitos não só nos aprimoramos e nos tornamos mais tolerantes com os defeitos dos outros, como através da correção daquele problema em nós nos transforma numa pequena luz de exemplo e permite que através deste exemplo ajudemos os outros a melhorar muito mais do que poderia ser obtido através da crítica, da maledicência, das condenações.

A terceira coisa é que em geral a má interpretação dos conceitos morais, o estabelecimento de regras muito estritas, em desacordo com a natureza do ser humano, gera ou a hipocrisia, a aparência de virtude, ou a própria negação dos outros valores que são válidos – como acontece por exemplo em Nietzsche. O terrível demiurgo de Strindberg, em Inferno, por exemplo, diz que se divertirá dotando o homem de vários impulsos muito forte e depois decretando que eles são proibidos, gerando no ser humano um conflito impossível de ser resolvido.

Este tipo de crítica, muito popular desde sempre mas particularmente disseminado nos dias de hoje, baseia-se em dois enganos sucessivos. O primeiro é o que mistura conceitos de época e noções culturais, supersticiosas, sociais e políticas no meio de uma doutrina religiosa, poluindo-a com a necessidade de atender a interesses externos ou imediatos. O segundo é o que pinça do meio destas noções estes disparates para através da demonstração de seu absurdo contestar a própria existência dos princípios morais.

A resolução destas questões não é, ao menos para mim, nenhum terrível debate teológico erudito, mas a simples aplicação daquele princípio de não se fazer ao outro aquilo que não nos agradaria que nos fizessem. Chego então na outra ponta daquilo que comecei a dizer.

Disse que quando há a preocupação em buscar a recompensa do Paraíso ou fugir dos castigos do Inferno a multiplicidade das religiões nos acalma ou inquieta. Nos tranquiliza quando achamos que estamos na religião certa e nos vingaremos de todas aquelas pessoas que fazem coisas que não gostamos vendo com inusitado prazer elas queimando no Inferno.

Nos inquieta quando esta certeza de estar na religião certa fica abalada – e acho que todas as pessoas que não estão tão desprovidas de verdadeira fé a ponto de serem absolutamente hipócritas passam pro estes momentos de dúvida – porque como estamos concentrados apenas no seguimento estrito às regras temos uma visão ainda meio “mágica” da fé. Em outras palavras achamos que podemos constranger Deus a nos aceitar com base no fato de que fazemos todas as coisas diretinho, queremos fazer uma barganha com Deus, como diz um poema de Saadi, não como se nossa salvação – seja qual for a imagem com a qual nossa fé nos apresente a ela – dependesse estritamente da misericórdia do Altíssimo e portanto é sempre um favor dele.

Quando somos capazes, pelo contrário, de nos libertarmos ao menos em parte deste tipo de escravidão pensando nas recompensas, pelo contrário, a multiplicidade das religiões e a essência comum de todas elas nos faz ver, com clareza e segurança, que o importante é fazer o trabalho de Deus no caminho que nos foi traçado, que há uma finalidade neste caminho, que ele é uma trilha pessoal e que devemos nos preocupar em fazer a nossa parte, ao invés de dar palpite na dos outros.

terça-feira, 4 julho, 2006 – 15:54

Companheira de jornada

Sua presença me faz forte,

Pronto pra mil batalhas,

Campeão desafiando exércitos,

Destruidor de impiedades.

Sua ausência me deixa fraco,

Escondido de mim mesmo,

Encerrado na Torre,

Esmigalhado pelas incertezas.

Vem, segue ao meu lado,

Enche meu coração de coragem

Mas deixa um pedaço pro Amor

Que me torna tão humano e tão divino.

sexta-feira, 30 junho, 2006 – 15:43

A verdade e seus amigos

“Não procure saber quem diz a verdade, encontre primeiro a verdade e reconhecerá por quais boas ela anda” (‘Al-Ghazalli, a Libertação do Erro)

Não me agradam os rótulos. Por meio deles perdemos o sentido concreto das coisas, nos limitamos a uma definição estreita daquilo que podia ser uma coisa. Um dos meus objetivos deste processo que chamo de “aprendizado do imbecil” é chegar a um ponto no qual os rótulos signifiquem tão pouco que possa ver em cada coisa algo como o aleph de Borges, um ponto no qual todos os outros estão concentrados de forma simultânea.

Todos que me lêem sabem que não me agrada Nietzsche, mas há leitores dele que me tem como amigos e dos quais prezo a amizade. Também não me agrada Brecht, mas há muitas pessoas que gostam dele entre meus amigos. Sou muçulmano mas discuto religião– apenas de forma privada porque esta é uma questão muito delicada para debates públicos – com pessoas de fés muito diferentes da minha, nclusive ateus e agnósticos, e quando conversamos sempre temos a noção de ver mais semelhanças que diferenças. Falo de política com libertários e conservadores e também fico muito preocupado de encontrar tantos pontos de contato entre mim e qualquer um dos dois. Só para pegar exemplos de posições bem distintas.

Alguns de meus amigos são defensores intransigentes dos Direitos Humanos, outros tantos acham que é necessária uma política de Segurança Pública mais firme para combater o crime organizado. Alguns tem gosto clássicos, outros fazem experiências de linguagem de vanguarda. O mais estranho é que converso com todos, ouço seus argumentos, concordo com alguns, discordo de outros, mas tenho prazer em conversar com ambos. Às vezes até sinto me sinto um pouco como um personagem de um filme antigo, não me lembro o nome, que desafia simultaneamente dois campeões de xadrez e usa contra um as jogadas que o outro faz, porque é comum que as vezes faça as pontes entre os argumentos de um lado e de outro.

Não sou nenhum modelo de tolerância, tampouco endosso todas estas teorias multiculturalistas que circulam por aí, segundo as quais há uma multiplicidade tão grande de verdades que não há de fato verdade alguma. Acredito, pelo contrário, que há uma verdade só, oculta na essências das coisas e que só pode ser atingida conforme nos aprofundamos nelas.

Assim, se digo que as diversas religiões tem a mesma mensagem não quero dizer que elas são supérfluas, ou que tanto faz seguir uma outra. Digo, ao contrário, que é preciso se aprofundar na que escolher, levá-la a sério, aceitá-la em seu coração com a mais absoluta sinceridade, aceitar dela os deveres mais do que os direitos.

Aos poucos vou tentando fazer o mesmo com todas as coisas, libertando a mente das amarras que nos vinculam ao sistema x ou y, porque para mim parece que isto significa ver o mundo de uma forma pobre e ilusória. Não viciar minha visão com uma imagem pré-concebida, na qual a verdade tem de ser distorcida para caber no quebra-cabeça dos sistemas, me permite que não apenas olhe, mas veja.

Isto só é possível porque tanto eu como as pessoas com as quais tenho satisfação de dialogar não estão preocupadas em ganhar a discussão, mas estão muito preocupadas em encontrar alguma trilha que em algum momento leve a verdade naqueles temas que os preocupam. Há, enfim, muita sinceridade em todas estas discussões intermináveis entre pessoas que só tem perguntas e não que disparam respostas prontas. Alguém poderia objetar que a maioria das pessoas não são assim, ainda mais na Internet, a quem diz isto só posso desejar que tenha um dia amigos como os que eu tenho!

sexta-feira, 30 junho, 2006 – 17:49

O diabo e o monge

“Deus pesca as almas com anzol; o diabo com rede”. (Alexandre Dumas)

Khalil Gibran Khalil sempre me passou a imagem de um espírito atormentado, mesclando momento de extrema lucidez com outros de alguma confusão, como é inevitável que ocorra com todos que são sinceros. Também não vacilava em citar o senhor do mal e chama-lo pelos mais variados nomes, contrariando a crença, o que não deixa de levar a uma certa compreensão dualista desta relação entre o bem e o mal.

Mas é dele por um paradoxo em relação a isto – e me agradam muito os paradoxos porque eles exigem uma reflexão mais elevada para serem solucionados – uma das melhores histórias sobre os riscos de se fixar a mente no mal. No conto Satanás – que integra Tempestades, o último livro que ele escreve em árabe, em 1920, e na minha opinião é superior a outros mais aclamados – um padre famoso pelos exorcismos, bênçãos e maldições encontra o diabo desfalecido a beira da estrada. Este o convence a cuidar dele, pois se morresse o padre perderia seu prestígio e fonte de renda. Ambos travam intensos debates teológicos, filosóficos e históricos até que o padre encontra um argumento surpreendente, até para Satanás, para justificar sua atitude. Claro que não vou detalhar aqui para não tirar o gosto da leitura deste conto curto.

O texto em geral é lido como um testemunho anti-clerical, mas na verdade esta me parece uma leitura muito mais pobre do que poderia ser. Todos aqueles que lutam contra algo sempre correm o mesmo risco de estar tão ligado a esta coisa que não podem permitir que ela deixe de existir, sob o risco de perder o sentido de suas vidas. Mesmo com seus problemas há pessoas que lidam desta forma, tornam-se tão apegados a eles, transformam-no tanto em assunto de seu dia a dia que se tentar livrá-los dele se tornará um inimigo.

Na internet tal tipo de pessoa é muito comum. Há aquele tipo de gente que vai justamente ao fórum, mailing list ou comunidade que dá valor a algo completamente diverso do que pensa e passa a provocar os presentes. Todos aqueles que imediatamente se empenham em entrar no debate inútil com o primeiro personagem tem com ele a mesma relação simbiótica que o padre do conto de Gibran. É assim que muitos destes espaços de debate deixam de ser a favor de uma idéia para transformarem-se em algo contra aqueles que defendem a idéia contrária e ao fazer isto tornam-se inúteis, muitas vezes histéricos.

Não é algo fácil lutar em nossas mentes contra este conceito de que há no universo duas forças lutando entre si. Somos muito acostumados com esta imagem reforçada por tantos conceitos que circulam por aí. Temos a indisciplina de buscar nos outros as culpas que são nossas e a insegurança de tentar encontrar respostas prontas que nos ensinem como o mundo deve ser ao invés de aprendermos as lições por nós próprios.

Digo isto porque vejo estas fraquezas em mim também, aliás sempre chego à conclusão que as falhas que vejo nos outros estão mesmo em mim. Não sei se a mesma coisa ocorre com as demais pessoas, mas como já disse em outro texto, descobrimos uma falha em nós, mas só a conseguimos vê-la nos outros, então se sou capaz de dar atenção a isto e aplicar a mim consigo dar um passo além.

Também somos gregários e por isto buscamos a certeza concentrada e a culpa diluída das multidões. Fazendo o contrário do que recomenda o Iman Ali buscamos não a verdade, mas tentamos descobrir quem diz a verdade e assim acabamos sendo levados a confusão. Para ocultar nossa falta de certeza nos tornamos intolerantes, nos apegamos aos conceitos que defendemos, odiamos aqueles que nos dizem que estamos errados, nos juntamos com aqueles que tem estas mesmas certezas ao invés de buscarmos aqueles que vão se somar às nossas dúvidas.

Se o mal parece tão concreto ao invés de ilusório é porque vivemos a sombra dele, tiramos nossa nutrição dele como o padre de Gibran. Achamos mais simples converter as multidões as idéias ás quais nos apegamos, que em geral não são nossas – sejam políticas, religiosas, estéticas ou qualquer outra – do que nós mesmos tentarmos encontrar as nossas respostas. Digo sempre a meus irmãos muçulmanos – mas acho que o mesmo é válido para qualquer fé, visto que todas expressam uma mesma verdade e conduzem ao mesmo destino – que o exemplo de sete sábios converteu a Indonésia, hoje a maior nação muçulmana, enquanto as espadas de milhares de guerreiros perdeu a Espanha.

Também é necessário compreender que o fato deste processo ser individual nada tem a ver com egoísmo ou individualismo, dois conceitos tão em voga hoje. Parece mais nobre converter aos outros e não a si, mas é um raciocínio marcado pela ilusão também. Um milhão de pessoas que temem o inferno ou aspiram ao paraíso, portanto lidam com o mal como o padre, nada são perto de um única pessoa cujo coração se libertou do medo dos castigos e dos desejos de recompensa.

Claro que vasculhando aqui pelo blog encontrará muitas coisas que contradizem este meu conceito. Se escrevo é justamente e principalmente para convencer-me e debater comigo. No dia em que for possível encontrar absoluta coerência naquilo que digo, que esteja tão aferrado a minhas idéias que não precise mais me preocupar em negar hoje o que disse ontem, então chega rei a conclusão que de fato estou morto, porque parei de aprender e refletir.

Ps: só encontrei uma versão em espanhol do livro de Gibran, se alguém encontrar em português pro favor me avise.

http://www.elmistico.com.ar/descarga/gibran/

quinta-feira, 29 junho, 2006 – 14:19

Viagens diversas na mesma jornada

Recebo sempre explicações e comentários diversos sobre as coisas que escrevo, em especial sobre alguns conceitos que ficam em aberto, passíveis de várias leituras. Há inúmeras formas, por exemplo, que meus posts sobre os aprendizados do imbecil são interpretados, assim como recebi explicações das mais diversas sobre esta minha “equipe” que redige meu blog e sobre a qual eu falei no post de segunda |eu, eu mesmo e meu blog|, das psicanalíticas às esotéricas, passando pelas epistemológicas – que prefiro tanto no caso do imbecil contra a esta esquizofrenia virtual.

Mas o fato de preferir esta às demais não invalida nenhuma das outras, todas são válidas na medida em que de alguma forma fizeram sentido para quem as leu, afinal um texto é sobretudo aquela impressão que causou em que leu. Aproveito este gancho para falar do livro de hoje, afinal é quarta-feira e portanto dia de falar de algum deles.

Houve livros cuja imagem acabou fugindo do controle de seu autor. Acho que o caso mais famoso é o Dom Quixote, que Cervantes começou a escrever para exorcizar suas quixotices de juventude na luta contra os mouros, que lhe custaram anos de cárcere no Marrocos, mas acabou se tornando no decorrer da obra justamente o elogio desta capacidade de sonhar e entregar-se ao sonho.

Mas queria falar hoje sobre um caso mais drástico, As Viagens de Gulliver, de Swift. Ironizando o destino deste livro Borges falava que o deão irlandês escreveu um livro destinado a injuriar a raça humana e acabou sendo lido como um livro infantil. É verdade que em parte este equívoco se dá pelo fato de serem mais conhecidas as versões “adaptadas” das duas primeiras viagens, deixando-se de lado as demais muito mais amargas e sombrias e, em especial, a última que é mais do que todas um tapa na cara da humanidade.

Nesta última viagem ele visita um país no qual os cavalos são civilizados e os homens animais selvagens sujos e grosseiros. Suspeito, embora não tenha outras provas senão as similaridades, que a antiga versão de Planeta dos Macacos, de 1968, foi em parte mais baseada nesta viagem de Swift do que no livro original – o qual serviu de base par a versão mais moderna do filme, muito inferior a primeira.

Digo principalmente por conta de uma certa conclusão a que ambas as obras chegam, tanto os cavalos quanto os macacos chegam à conclusão que há entre aqueles humanos selvagens e os que se consideram civilizados muito poucas diferenças. É esta conclusão pouco lisonjeira para nós, que faz com que a contra-gosto o capitão Lemuel Gulliver ser banido de volta a nossa civilização, permeia o diálogo dos macacos e leva à cena final do filme – que algum designer inconseqüente gravou na capa do DVD do filme, estragando o impacto da cena para quem não tinha assistido.

Curioso que uma das pessoas que mais se dedicou a estudar o homem enquanto espécie animal, o zoólogo Desmond Morris – famoso pelo “O Macaco Nú” muito comentado e pouco lido nos 70 e até hoje – chega a uma conclusão muito mais lisonjeira sobre esta nossa animalidade. Ao invés de em seu estudo justificar e legitimar muitas das malandragens feitas em nome desta nossa animalidade, o zoólogo avalia que a família, a fidelidade, a capacidade dos grupos conviverem pacificamente, os diversos rituais sociais estabelecidos, a redução das diferenças de comportamento entre macho e fêmea e relaxamento das relações de dominância e submissão entre os membros da comunidade– em relação aos demais primatas superiores – foram essenciais para que o ser humano fosse uma espécie bem sucedida.

Mas, voltando a Swift, sua amarga misantropia talvez tenha vindo mais de sua experiência pessoal traumática, sua progressiva perda de confiança e esperança na política e na religião, sua sensação de que o mundo estava se degradando – quase inevitável em qualquer um que como ele amava os clássicos. Talvez se a loucura não o tivesse alcançado antes tivesse visto alguma saída, mas mesmo neste seu sentimento de revolta há uma importante defesa da dignidade do ser humano, assim mesmo a sua cruel misantropia não deixou de servir, portanto, de uma ferramenta.

O terrível “Modesta Proposta para que os filhos dos pobres da Irlanda não pesem sobre o País ou sobre seus Pais” – no qual ele acaba exercendo o papel do agente imperial enviado para submeter os dominados mas acaba se identificando com eles a ponto de ser muito mais irlandês que inglês – fez um alerta extremo que todos se recusaram a ouvir e que só no século passado conseguiu começar a ser revertido. Entre a brutalidade verbal de Swift e a física do IRA há um problema que as pessoas se recusaram a resolver.

Há também nas viagens passagem por muitos temas atuais, demonstrando que a época na qual ele vivia enfrentava problemas similares aos nossos. Em Laputa ele sente os efeitos de uma Academia cujos métodos de destruir tudo para tentar construir algo científico, aquele conceito de que é moderno é sempre melhor que o antigo, só por ser mais novo. Em Luggnag ele descobre que a imortalidade pode não ser uma benção em um mundo como o nosso. Em outra descobre os riscos de conhecer os autores pelos comentadores de suas obras, na outra encontra pessoas para as quais o lucro é mais importante que outros laços e valores.

Só posso dizer que seria ótimo que as Viagens fossem mesmo um livro infantil, mesmo com certa brutalidade e referências que coraram Voltaire – é verdade, ele diz em Micromegas que se fosse o Deão Swift teria nomeado certas partes – produziria crianças capazes de enxergar as coisas de uma forma mais livre. Em grande parte por conta desta necessidade de reenxergar as coisas dedico-me a este aprendizado do imbecil, tentando tornar-me capaz de enxergar as coisas não como livros arrumados em uma estante, catalogados e organizados.

quarta-feira, 28 junho, 2006 – 15:29

Eu, eu mesmo e meu blog

“Cada amigo representa um mundo em nós, e é apenas através deste encontro que este mundo nasce” (Anaïs Nin, Diários)

Falar sobre o que se escreve é meio caminho para o pedantismo, eu mesmo disse há alguns dias na melhor das comunidades do Orkut de que faço parte, a do Espaço Cultural Briva, as outras que me perdoem mas qualidade do debate é fundamental, que a arte conceitual é uma versão esnobe daquelas bandas de axé que lançam um novo tipo de dança, fazem uma música ensinando como dança-la e depois voltam á obscuridade de onde nunca deviam ter saído. Assim falar no blog sobre o blog que se escreve acaba sendo um tanto tautológico.

Mas há alguns momentos nos quais é necessário fazer isto, avaliar erros e acertos, redefinir objetivos, enfim, refletir sobre o que está sendo feito. Meu blog começou com três personagens, o ator principal sendo este djinn escritor que mantenho prisioneiro e que obrigo a escrever, eu próprio, Alexandre Gomes e um certo personagem que tem algo de sheikh e que chamo pelo nome que adotei quando me tornei muçulmano em janeiro de 95, Hilal Iskandar, ainda que quase ninguém me chame no mundo real por este nome.

Poucas vezes sou eu próprio que escrevo – por isto há diversos assuntos que eu dificilmente toco, em especial aqueles mais pessoais. Aqueles que me lêem sempre muitas vezes já sabem quando é o djinn que redige – com sua erudição adquirida em anos dentro da garrafa só com livros para ocupar o tédio, com aquela certa arrogância típica da sua raça de fogo, suas frases e epigramas tendentes a perfeição e a serem memoráveis – e quando é Hilal que escreve – com seu estilo ao mesmo tempo elevado e simples, cheio de lacunas que se preenchem na mente do leitor, repleto de indicações simbólicas criptografadas a ponto de só ser compreendidas por completo por alguns, mas transparentes a ponto de tocar o coração de todos. Eu sinto quando é um ou outro, percebo às vezes até quando um escrve e outro conclui ou revisa. Hoje, suponho que quem escreve sou eu mesmo.

Nem tão dominado pela vaidade intelectual como o djinn, nem capaz de elevar-se e manter-se nas alturas como Hilal, equilibro-me entre estes dois mundos. Não há nada aqui de dualidade, de lado bom e lado ruim, destas imagens de conflitos maniqueístas – e Mani nada tem a ver com isto, como demonstra o belíssimo Jardins de Luz de Amin Maalouf que fala da vida deste grande sábio. Na tradição islâmica os djinns, ao contrários dos demônios da tradição cristã, não são obrigatoriamente maus, podem até ser convertidos e há passagens do Sagrado Alcorão dedicadas a eles.

Desconfio até que quando não estou olhando Hilal tenta converter o meu djinn-writer. Digo isto porque às vezes mesmo quando é o djinn que escreve por mim lê já não tem tanto aquela certa arrogância que tinha antes e às vezes começa a olhar para seus milhares de anos de leituras diversas com um pouco mais de humildade. Mas também é necessário dizer que mesmo quando Hilal escreve há traços do sarcasmo amargo e inevitável do djinn, salvo em alguns poucos textos muito inspirados.

Como não se trata de um dualismo entre eles não me sinto como aquelas imagens de estar entre um anjo e um demônio. Pelo contrário, dependendo do que quero dizer entrego o trabalho a um ou a outro, assim como acho que para analisar o mundo há vezes que um determinado conjunto de idéias de algum autor serve para analisar um problema, mas é um disparate quando aplicado em outra parte, também acho que há assunto que devem ser feitos por um ou por outro. Não me debato entre eles, no máximo sou o árbitro que atribui as tarefas a um ou outro. Também não é de forma alguma um dualismo entre razão e emoção. São apenas duas razões diferentes e duas diferentes formas de sentir as reações ao mundo.

Com o passar do tempo este trio acabou aumentando com a troca de correspondência com tantas pessoas que fui descobrindo – ou pelas quais fui descoberto ou reencontrado – ao longo do tempo. Também eles acabaram participando da equipe porque é muitas vezes no diálogo com eles que vão surgindo os posts, vão aparecendo as idéias, vão sendo distribuídos os temas, principalmente vai se aprimorando as idéias colocadas de uma forma sempre meio apressada no blog. Às vezes há passagens inteiras de algum post que está faltando, como sempre me chama a atenção a Cláudia alertando para o fato de que não estou falando só com ela, por conta de que na verdade é quase sempre parte de um diálogo.

Às vezes o diálogo até vira conferência porque de um post produzido de uma das conversas surgem conversas com outras pessoas, gerando outros posts e assim vai se formando uma espiral virtuosa que lapida as idéias meio vagas, resolve algumas dúvidas e, principalmente, gera muitas e muitas dúvidas novas. O melhor deste processo, sempre, é que nunca há a intenção de convencer e muito menos de converter, ninguém quer ganhar o debate – nem mesmo o djinn – mas todos querem dar um passos a mais.

Só para concluir, penso em como pude passar tanto tempo de minha vida sem este espaço maravilhoso, no qual meus múltiplos papéis podem se encontrar e encontrar uma unidade.

PS: esqueci de dar o link da comunidade do Briva Espaço Cultural no orkut

http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=4020040

segunda-feira, 26 junho, 2006 – 15:26

Aos amigos Alexandre, Hilal e seu djinn-writer

Aos amigos Alexandre, Hilal e seu djinn-writer – [ Reflexos]

Márcia provocaste uma confusão aqui entre eu, meu djinn e o Hilal sobre a divisão dos carinhos, mas de alguma forma vamos acabar nos entendendo. Beijos dos três para você…

segunda-feira, 26 junho, 2006 – 19:14

A beleza nos une

Passava por uma galeria no bairro da Liberdade quando uma música me chamou a atenção por razões afetivas. Como em um desenho animado fui seguindo o som até encontrar a loja e comprar o CD que nem estava á venda. Houvesse em todo o CD apenas aquela música que me chamou a atenção e já seria válido a pena, mas como ele todo era interessante eis-me aqui escrevendo algo sobre música, assunto do qual entendo tão pouco.

É Alhambra, de Oliver Shanti com amigos e acompanhado da Royal Philharmonic Orchestra de Londres. Poderia falar da bela proposta do CD, das frases no book que me deram satisfação em ler porque há nelas conceitos muito familiares como “ser um construtor de pontes entre culturas em tudo que faz” ou “produzir uma música na qual os contrastes entre ocidente e oriente podem se fundir em uma unidade, tornando-se um todo”, do belo trabalho da Shanti records. Provavelmente em qualquer um destes comentários eu poderia me expressar bem porque falaria sobre coisas que conheço.

Mas devo ser fiel sobretudo aos meus próprios conceitos e assim como acho que a única arte reacionária é a arte medíocre e nem a melhor das intenções e a mais nobre das causas é capaz de salvar uma criação ruim, portanto se tenho de comentar algo é sobre o efeito da música sobre mim, mesmo nada entendendo do assunto, do que sobre o contexto na qual ela foi criada.

Acho uma pena que em nome das boas causas haja tanta gente desmoralizando a arte. Mas, enfim, isto é tema para outro debate. Na minha cidade ideal, ao contrário da de Platão, acho que seriam poucos os que a habitariam além dos que reproduzem a arte e a literatura – sim, eu sei que não foi exatamente isto que Platão quis dizer, mas não dá para discutir tudo de uma vez.

Sempre me lembro de uma passagem de Admirável Mundo Novo no qual o Dirigente Mundial fala ao Selvagem sobre o poder que tem as coisas belas por atrair as pessoas. Se me perguntassem sobre isto teria de dar uma explicação transcendental de que a verdadeira arte são alguns pedaços de um mundo superior, trazidos ou vislumbrados em alguma viagem de quem as produziu, ou reproduziu. Não me peçam para explicar, porque como digo sempre só tenho perguntas e não respostas, mas minha intuição de que alguma forma é isto que ocorre.

Na poesia de verdade é às vezes mais fácil perceber este contrabando, na literatura é mais sutil, mas também perceptível pelas viagens às quais nos leva e pelas pontes que constrói, como disse em um post anterior. Sem entender muito de artes plásticas acho que consigo sentir a força das imagens, aquela sensação de que o espírito é tocado de algum jeito pelas imagens. Na música eu acho que há naquilo que é contrabandeado de outros mundos a capacidade de produzir um determinado estado de espírito.

Foi isto o que ocorreu conforme fui ouvindo o cd, sentindo não só na faixa Kais wa Leila – aquela que me levou até a loja onde o comprei – mas em várias outras – destaco El Flamenco del Rumi e El futuro de la Alhambra – esta mesma substância transcendente da qual a verdadeira arte é feita. Diria que a sensação de estar ao mesmo tempo alheio a que estava em volta e conectado a outras me fez sentir a sinceridade daquilo.

Se não houvesse ali esta qualidade mesmo as diretas referências que fizesse a algo que me é caro talvez ainda me fizessem comprá-lo, mas de forma nenhuma teriam me feito comentar o assunto aqui hoje. Assim como às vezes descobrimos que um autor do qual gostamos não nos agrada mais em seu novo livro, que determinado artista plástico foi morto pela sua adoção de algum estilo diferente que não tem a mesma sinceridade de antes – de quebra diria que é muito mais agradável descobrir o contrário, um livro que nos impressiona de um autor que não gostamos, pro exemplo.

Shanti me dá a impressão de percorrer o mundo buscando aqui e ali os fragmentos que se espalharam quando a beleza se espatifou pelo mundo na queda. Que nas faixas se misturem o italiano, o espanhol, o francês, o gitano, o árabe, o alaúde e a cítara, nada disto soa estranho na mistura porque parece que a meta é alcançar nesta mescla a linguagem dos pássaros que se falava antes de Babel.

PS:

Senti necessidade de deixar este recado depois dos primeiros emails e mensagens que recebi sobre o texto. Jamais aceitaria fazer pirataria de um cd cujos resultados são utilizados justamente em viabilizar projetos tão importantes e interessantes. Fazer isto para mim seria como se a música tivesse entrado por um ouvido e saído pelo outro. Desculpem-me se sou rabugento nestas coisas, mas é uma questão de princípios.

Se que os CDs de Oliver Shanti são difíceis de serem encontrados, justamente por serem independentes, mas podem ser encotnrados na página da sua distribuidora no Brasil, a Aradourada: http://www.aradourada.com.br

sexta-feira, 23 junho, 2006 – 17:40

A verdade a as lacunas

Borges disse várias vezes que o perfeito livro policial seria aquele no qual ao final houvesse uma frase que indicaria que a solução descoberta pelo detetive estava errada e o leitor, ao reler, descobriria ele próprio a solução correta, enfim, um livro no qual o leitor descobre-se mais esperto que o detetive. Acho que a regra não se aplica apenas às histórias policiais, mesmo em textos mais racionais como um ensaio é possível às vezes deixar lacunas, obstáculos, falsas pistas, sempre haverá o leitor que percebe, por exemplo, que entre uma epígrafe que coloco no texto e a conclusão a que eu chego parece faltar ou sobrar algo.

Em um outro nível de tática similar há aquela história que é contada por diversos personagens, no qual a decisão ou julgamento final cabe ao leitor. No cinema abusou-se um tanto deste recurso celebrizado pro Cidadão Kane e portanto ele perdeu um tanto seu encanto. Na literatura acabou se prestando mais a jogos técnicos do que a utilização efetiva. Nesta parte da literatura que considero meio falsa as múltiplas versões são confrontadas no fina pela opinião do autor, tirando boa parte do gosto do jogo.

Akhenaton, o faraó herege, do escritor egípcio Naguib Mahfouz, é um dos bons exercícios desta técnica. Não faço idéia de qual é o subtítulo do original em árabe, mas na edição em inglês a editora não foi tão apelativa quanto a Companhia das Letras e utilizou o subtítulo muito mais esclarecedor de “a busca da verdade”.

O personagem central, um jovem sacerdote, decide entrevistar diversos personagens que viveram e conviveram com Akhenaton desde a infância para tentar descobrir nos relatos o que realmente aconteceu nos conflitos que levaram a reforma de Akhenaton e em sua derrubada, com a subseqüente instalação de Tutankamon em seu lugar e restauração do culto tradicional.

Os vários relatos me lembraram aquela história contada por Attar, de que Deus é um espelho que quando caiu na Terra partiu-se em mil pedaços, cada pessoa pega um pedaço, olha para ele e diz: este é Deus.

Não vou entrar em detalhes da história porque como sempre digo o objetivo de todo post não é substituir mas justamente instigar a leitura do livro. Mas não poderia deixar de dizer que cada um vê na história aquilo que tem dentro de si, o sacerdote ambicioso vê uma conspiração estritamente política para aumentar o poder do trono, o sábio piedoso vê uma mente iluminada dominada pro uma fé profunda e assim por diante.

Engraçado que com certa variação da técnica de Borges no extremo o leitor pode até não descobrir qual é a verdadeira história de Akhenaton, mas a partir de sua identificação com um dos relatos corre até o risco de descobrir o que há em seu coração.

quarta-feira, 21 junho, 2006 – 18:30

Professores e mestres

Estou com uma meia-dúzia de posts na cabeça para escrever hoje, mas como acredito em uma frase que é tanto um hadith muçulmano – ou seja uma frase proferida pelo profeta do Islam – como uma das preferidas de Abraham Lincoln segundo a qual uma boa ação todos os dias é mais valorosa do que inúmeras que são feitas em um único dia e esquecidas, tenho de escolher um dos temas e opto justamente pelo menos promissor deles, justamente para que as outras idéias tenham mais tempo de amadurecer, de ser buriladas na troca de correspondência com os amigos, que encontrar apoio em alguma linha de algum livro.

Todas as pessoas sensatas falam há muito tempo que não há saída para o país sem educação. Monteiro Lobato já fazia cruzadas sobre este assunto na década de 20. Não faltam nas campanhas eleitorais as promessas de prioridade e até os projetos mirabolantes destinados a causar a impressão que se dá importância à educação.

Vou decepcionar talvez a quase todos vocês dizendo que isto não é verdade. A educação não foi concebida – ao menos neste nosso modelo ocidental, mas também em outros lugares e culturas – para provocar mudança, mas justamente para gerar conformidade. Se nunca se dá muita bola para o assunto no Brasil – salvo quando há necessidade de mão de obra mais especializada – é porque o povo brasileiro é tão pacato, tão rebanho, que ela nunca foi muito necessária para sossegar os ânimos.

Antes que me crucifiquem, isto não quer dizer que eu ache que se devam fechar as escolas ou que eu ache que a educação é importante. Certamente a educação é importante na medida que é ferramenta essencial – mas não suficiente – para a aquisição de uma compreensão mais elevada do mundo. Por si só ela não produz mudança alguma, quando funciona muito bem – o que não é o caso do Brasil – pode até inibir muito qualquer mudança necessária.

Este potencial modificador que se espera da educação vem a meu ver da cultura. Antes que o foco se pera em intermináveis discussões sobre o sentido do termo cultura abrevio o debate dizendo apenas que estou usando estes dois termos – educação e cultura – no sentido “administrativo” que eles tem.

Chego, então a um dos pontos essenciais que queria debater, aquele momento no qual a estrutura educacional criada para gerar conformidade começa a ser subvertida de dentro pela descoberta que aquele mundo que nos ensinam a entender e aceitar não é o único possível. Este processo se dá em especial quando não se tem um professor – profissional burocraticamente empenhado em enfiar no cérebro dos alunos o conteúdo curricular – mas um mestre – alguém que considerar ser seu dever criar uma ponte entre o ser humano aos seus cuidados e outros mundos melhores.

Sempre existirão mais professores do que mestres, mas sempre acredito que quase sempre basta um para dar um novo rumo à vida de alguém. Eu poderia reclamar do fato de ter tido tantos professores, mas prefiro louvar a benção de ter tido tantos mestres.

Desde o primeiro grau até o segundo, curiosamente, todos las, ou melhor todas elas porque foram quatro professoras Lucila, Angela Izabel e em especial Wanda com quem convivi por maior tempo – foram de língua portuguesa. Me pergunto às vezes se ao invés de ter tido a felicidade destas quatro mestras tivesse um que me fizesse me apaixonar, pro exemplo, pela matemática ou pela física e hoje estaria ao invés de lidando com o poder da palavra estaria preocupado com a beleza das fórmulas e a poesia dos símbolos. Curioso que embora a escola pública onde cursei o segundo grau me provoque até hoje o pesadelo recorrente de ser obrigado a voltar a estudar lá pro algum erro burocrático, tão traumática foi minha experiência por lá, destas professoras guardo uma imagem muito carinhosa e de profunda gratidão.

Não é uma hipótese implausível, afinal quando era criança e até boa parte do segundo grau pensava em ser biólogo ou químico, em alguns instantes houve algo na abstração da matemática que quase me encantou (até para reforçar o argumento diria que na universidade apaixonei-me pela estatística, mas destas coisas falo outro dia), depois tomei nos livros o gosto pela história e pela política e ingressei no curso de Ciências Sociais, mas este amor à palavra estava lá dentro, entranhado, fazendo seu avanço aos poucos e quando entrei em um redação, como um bico, nunca mais consegui sair desta esfera de ação da palavra, mesmo em outros empregos e funções. Digo isto não para falar de mim, apenas para destacar a responsabilidade de cada professor em, se não for um mestre, ao menos não ser cúmplice em matar algo em seus alunos.

Assim, voltando à linha principal, a subversão começa a se instaurar na fábrica da conformidade quando surge alguém que ao invés de fazer o que se espera dele, dizer aquilo que as pessoas tem de pensar sobre o mundo, resolve fazer o que deve fazer, que é fazer com que as pessoas ao invés de apenas olhar, sejam capazes de ver e chegar ás próprias conclusões. Enfim, a amar não o conhecimento que se adquire, mas exatamente apaixonar-se pelo processo de aprender.

terça-feira, 20 junho, 2006 – 14:48

O imbecil e o guerreiro

Uma pessoa com uma crença é um poder social igual a noventa e nove outras que só têm interesses. (Stuart Mill, Considerações sobre o Governo Representativo)

Como eu disse nos posts anteriores tornar-se um imbecil não é uma tarefa fácil para quem não nasce com o dom e vive em um mundo no qual é tão fácil adquirir esta aparência de conhecimento que caracteriza o “esperto”. Acho que uma das áreas nas quais meu aprendizado de imbecil está mais avançado é no campo da política, em poucas outras áreas eu tenho tantas perguntas sem respostas, nenhuma capacidade de enxergar alguma solução, quase chego àquele ponto ideal de tábula rasa.

Uma das provas desta minha ignorância é que insisto em ocupar o espaço deste blog nas segundas-feiras falando de política.

Não estivesse neste caminho do absurdo e chegaria á conclusão que dada a brutal divisão na sociedade entre aqueles que não acreditam em mais nada e aqueles que podem acreditar em tudo se a retribuição for adequada não há mais anda que a política possa fazer por nós, nem há ninguém interessado de verdade no assunto. Mas tenho esta crença de que quando se escreve para agradar aos outros há uma grande tendência a ser inútil, porque se escrevemos para construir um mundo melhor é dever fazer as pessoas se questionarem.

Como esforço-me por ser um imbecil não consigo imaginar qual a relação entre a política e este apertar de botões que ocorre a cada dois anos. Assisto os programas eleitorais e fico pasmo ao ver as pessoas falarem que não agüentam mais este falatório de política porque eu próprio não consigo enxergar absolutamente nada de política naqueles programas, nem nas notícias de jornal. Em minha ignorância diria que o problema não é a política, mas justamente a falta dela.

Nas campanhas em que me envolvi antes de ter conseguido entrar neste processo de desaprendizado eu sempre apresentava projetos que de alguma forma poderiam estimular as pessoas a se organizarem para resolver seus próprios problemas. Os espertos sempre diziam que não havia tempo para fazer estas coisas, que havia a preocupação com a eleição próxima, que estas outras coisas estariam entre as prioridades passada a questão das urnas e só se voltava a falar do assunto na eleição seguinte, quando já havia pouco tempo de novo. Conforme fui desaprendendo estas artes eleitorais fui descobrindo como elas são inúteis.

Também fui perdendo a capacidade de enxergar a questão partidária, cometi a insensatez de achar que há boas pessoas em quase todos e que ao invés de pensar em fortalecer um partido ou outro seria mais interessante fazer as pessoas terem senso crítico suficiente para escolherem o partido por si próprias, até porque há realmente a necessidade de muitas e muitas visões para que do debate entre elas acabe surgindo alguma coisa positiva. Julgo que nunca mais conseguirei compreender de novo porque as pessoas que estão em um partido conseguem ser tão criteriosas no julgamento das falhas dos outros e nos seus acertos e pelo contrário tão incapazes de enxergar seus erros e os méritos alheios, aliás, não só na política.

Por todas estas minhas incapacidades de conseguir compreender este alto jogo da política comecei a achar na minha ingenuidade que se for possível mudar algo algum dia será na nossa pequena política do dia a dia. A começar da forma pela qual tratamos o outro, na forma pela qual travamos uma discussão não para vencer o adversário, mas para junto com ele poder dar um passo a mais rumo à verdade. Passando pela forma como lidamos com os problemas do dia a dia, como tratamos aqueles que são subordinados a nós ou àqueles aos quais estamos subordinados – por sinal sempre noto que uma característica dos espertos é tratar mal aos que estão abaixo e bajular os de cima, esforço-me por tratar bem a todos, em especial aqueles que estão subordinados e, no dia em que conseguir ser um completo imbecil talvez faça o contrário dos espertos porque não terei capacidade de compreender nem o que é o medo.

Os espertos sabem que é inútil tentar fazer qualquer coisa. Uma das características pelas quais se pode reconhecer um imbecil é que ele acha que pode fazer alguma diferença nesta coisa toda, que pode melhorar algo. Aqueles que chegaram ao ponto de serem imbecis completos são capazes de achar até que podem mudar o mundo, e o que é pior, com a força apenas de seu exemplo. Acreditam, parodiando a frase de um dos grandes imbecis do mundo contemporâneo, que ao imbecil são necssárias todas as qualidades do guerreiro, exceto o crime.

segunda-feira, 19 junho, 2006 – 14:11

O aprendiz de imbecil

Viu-se empenhado em erguer uma gigantesca muralha feita apenas de livros. A muralha crescia, crescia, ele já não podia ver o mundo ao seu redor e o próprio Sol não penetrava mais no espesso muro de livros (Herman Hesse, O Homem de muitos Livros)

Ontem, quando comecei a responder aos emails e scraps que recebi por conta do post “Uma utopia imbecil” – http://www.poderdapalavra.com.br/portal/futuro/utopia_imbecil – finalmente consegui entender algumas coisas que dizia um dos meus autores preferidos, Herman Hesse, em diversos textos, mas em especial em dois – O Jogo das Contas de Vidro e o conto O Homem de Muitos Livros (no livro Fábulas). Pode parecer estranho que eu gostasse dele antes de entendê-lo por completo, mas, enfim, estou ainda aprendendo a lidar com a minha imbecilidade e por isto ainda tenho muitas coisas para descobrir que não sei e para chegar à conclusão que eu não conhecia.

Ser esperto é algo muito fácil, já ser imbecil requer muita disciplina mental e esforço. Exibir-se, inclusive à própria modéstia, não requer também muito esforço, porque somos acostumados a fazer isto desde a infância e ao longo de todo nosso dia, já conseguir aquela limpidez de pensamento de Ivan, o Imbecil é ou um dom divino ou algo que só muito exercício pode nos dar ao longo do tempo, exigindo certo controle do pensamento que, se descuidamos, torna-se logo esperteza e todo o trabalho fica perdido. Enfim, ser imbecil, para quem não nasce puro de coração como Ivan, é um privilégio.

É esta a lição dos dois textos de Hesse que só entendi ontem, ainda que tenha os lido tantas vezes. Também hoje não vou contar a história dos dois livros, porque a finalidade não é que as pessoas não precisem lê-los, mas justamente que sintam um vontade muito grande de ir até a biblioteca mais próxima, nem que seja para dizer que eu estava errado na minha interpretação.

No Jogo das Contas de Vidro há uma comunidade dedicada com zelo religioso ao “jogo”, elaborada técnica que envolve concentração, esforço, dedicação, estudo, mas cuja finalidade não fica bem clara. No conto um personagem vive cercado por livros, nos quais prefere viver ao invés de no mundo (e quem ler alguns posts anteriores vai verificar o quanto eu não tinha entendido a mensagem), mas vai aos poucos se afastando deles até que descobre o mundo real e a vida. Também o Diabo, do conto de Tolstoi que motivou estes posts todos, tinha muito orgulho de seu trabalho intelectual, ainda que não tenha conseguido convencer os imbecis da eficiência de seu método contra as mãos calejadas deles.

É um tanto neste jogo com as palavras, argumentos, idéias, que vivem os espertos. Estão preocupados com o deleite provocado por esta distração, com o efeito que causam sobre os outros. Já os imbecis tem a preocupação com o desconforto que as palavras causarão em si mesmos. Os primeiros profanam o poder da palavra para seu prazer, os imbecis por seu lado desconfiam que há algo de sagrado nelas, alguma força que provoca inquietação.

Tenho ainda um longo caminho até conseguir tornar-me um imbecil, porque descobrir que não se tem conhecimento é muito mais difícil do que entreter a si e aos outros com alguma sombra de conhecimento. É, enfim, muito mais simples ser um almanaque de referências esparsas do que a lousa em branco na qual Deus pode ensinar através da pena.

Mas tenho conseguido fazer alguns avanços nesta área. Já me sinto, por exemplo, imbecil o suficiente para não entender porque as pessoas acham que ao depositar um voto na urna a cada dois anos exerceram sua participação política. Também já me sinto imbecil o suficiente para não ter a menor noção de todas estas sutilezas que fazem os seres humanos serem distintos em seus direitos, muito menos sou capaz de entender estas grandes teorias de que de alguma forma tentam limitar o conceito de humanidade a só uma parte dela.

Em termos teológicos minha imbecilidade já avançou bastante. leio os mais diversos livros sagrados e acho que todos eles estão dizendo exatamente a mesma coisa, às vezes até me acontece de não lembrar-me se uma determina coisa eu li em um ou outro deles. Mas não sou tão imbecil a mencioná-los pelo nome porque infelizmente sei que se fizer isto terei de ficar me desculpando com os espertos, aqueles que entendem as diferenças que há entre Deus nas diversas fés, por vários dias.

Sou absolutamente incapaz de compreender as profundas distinções que qualquer religioso com um mínimo de formação poderia apontar entre eles e quando se trata das seitas, denominações e cismas, então, os ódios que umas devotam às outras parece-me totalmente incompreensível. Penso que jamais entenderei, por mais que me expliquem, porque quanto maior a proximidade das crenças e mais sutis e frágeis as diferenças parece ser mais raivoso o ódio entre elas.

Já me estendi demais hoje e então fico por aqui neste balanço entre aquilo que ainda sei e o que pretendo um dia chegar a ignorar. Ainda não consegui ser um completo imbecil, mas, se Deus quiser, algum dia chego lá.

PS: Cheguei em casa e fui checar a referência do conto de Hesse e vi que não só o título era outro – não A Muralha dos Livros mas O Homem de Muitos Livros, que me pareceu um título infeliz e inferior ao que eu me lembrava – como que muitas coisas estavam lá bem claras, eu que não tinha entendido direito.

quarta-feira, 14 junho, 2006 – 19:44

Uma Utopia Imbecil

Bom, dia de jogo do Brasil então ninguém deve mesmo ler este post hoje, mas quem sabe um outro dia o post será lido, então escrevo por conta do exercício

Não me agradam as Utopias, salvo como exercícios abstratos, porque elas são sobretudo a noção de que a vontade de um deve se sobrepor a de todos os demais e sacrificar todo o resto à manutenção de uma estabilidade impossível. Prefiro as distopias, que mostram como estes projetos sempre tendem a se tornar terríveis.

Para não ser injusto com Platão, Morus, Campanella e outros teria de dizer que nem sempre eles tem culpa das leituras que fizeram de suas obras, mas daí a discussão seria longa demais. Quem sabe fica pra outro dia. Perdoem-me, então, aqueles que compreendem os outros sentidos destas utopias.

Uma única utopia me agradou muito, a despeito de toda a simplicidade, quase rudeza, de propor coisas, como a supressão do trabalho intelectual, que na boca de qualquer outro soaria como uma coisa absurda, mas que no contexto da história faz sentido. Refiro-me à História de Ivan, o Imbecil, de Tolstói, que já citei a semana passada.

Não vou entrar nos detalhes da história, porque é um conto curto e espero que posam ler. Procurei pra ver se encontrava um link com a história em português mas infelizmente não encontrei. Só para situar o leitor no raciocínio, três irmãos tornam-se czares, um comerciante, um soldado e um imbecil. O Diabo, irritado com a harmonia que reina entre eles, sobretudo por causa do imbecil, primeiro tenta desuni-los confiando a missão a três diabos jovens, não só isto não tem efeito como é justamente por conta disto que eles se tornam czares.

Assumindo a tarefa ele próprio, consegue fazer com que os dois irmãos percam seus reinos. Mas quando chega ao reino de Ivan, que já havia deixado o palácio, abandonado as insígnias do cargo e retomado seu trabalho como camponês, fazendo com que todas as pessoas sensatas abandonassem o país, ficando nele apenas os imbecis. Talvez por isto a nação prosperasse, não com ouro, mas com vastos suprimentos de comida e trabalho para todos, cada um cuidando de sua vida e lá ninguém passava fome desde que trabalhasse ou pedisse um prato de comida pelo amor de Deus.

A simplicidade do raciocínio dos imbecis deixa transtornada a lógica sutil do Diabo, que vê cada um de seus planos para destruir o reino de Ivan ir por água abaixo a cada discussão com algum de seus cidadãos. Quando um exército estrangeiro invade, por instigação do Diabo, o reino Ivan e todos os imbecis dizem aos soldados que se eles estão passando dificuldades em sua terra que venham viver na fartura com eles em suas terras ou levem aquilo que precisarem. Com o tempo nem sob ameaça de corte marcial e execução os soldados conseguem mais continuar a destruição e pedem para ser levados dali, não sem que antes muitos deles desertem e fiquem vivendo com os imbecis.

Quando tenta utilizar o dinheiro para destruir o reino também as especulações do Diabo são mal sucedidas, porque tirando as crianças que acham que o ouro brilhante é um excelente brinquedo – cena similar á Utopia de Morus – ninguém se interessa por ele. Confrontado pelo dilema impossível de trabalhar ou pedir pelo amor de Deus para ganhar um prato de comida o Diabo morre de fome na terra dos imbecis.

A grande diferença entre esta Utopia de Tolstoi e outras tantas que há é que o mestre russo concentrou-se na mudança do homem, através de Deus, ao invés de apostar como tantos outros em alguma legislação mágica, instituições maravilhosas, salvaguardas infalíveis. Os cidadãos são imbecis porque são uma tábula rasa, livre de qualquer conceito ou preconceito, onde a vontade de Deus pode ser escrita, tal como um dos títulos do profeta do Islam é o de “profeta dos iletrados”.

Certamente haverá quem diga que esta utopia de Tolstoi é mais difícil de ser realizada que qualquer uma das outras, afirmação que deve realmente ser verdadeira. Mas diria também que é a única realmente possível e capaz de funcionar.

Quase horário do jogo, sozinho aqui escrevendo um post que nem sei se será lido (hoje com certeza não será), estou me sentindo um imbecil, graças a Deus.

PS: acabei dando continuidade a este post:

http://www.poderdapalavra.com.br/portal/religiao/aprendiz_de_imbecil

terça-feira, 13 junho, 2006 – 14:13

Dia dos namorados

O post de hoje está curtinho, com os problemas no computador na semana passada o trabalho se acumulou e assim não tive muito tempo, também fujo a regra de dedicar a segunda-feira à política. Também não me agradam estas datas comerciais, mas nada como subverter um dia criado para vender coisas transformando-o em um dia para expressar sentimentos. Ao menos nada deixaria os que criaram a data com propósito de faturar $$$$ mais furiosos do que dedicar o dia àquelas coisas que não custam nada e ainda assim são muito mais valiosas

Para a luz dos meus olhos

Aproveito a oportunidade deste dia para compartilhar com vocês algumas reflexões sobre este tema tão importante que é o amor. Não é à toa que muitos poetas das mais variadas fés e épocas utilizaram o amor para expressar e simbolizar a nossa relação com Deus, afinal nada nos deixa tão próximo Dele como este sentimento, nem nenhuma outra imagem deste mundo poderia expressar

melhor o sentimento Dele em relação a nós.

Vivemos, por outro lado, em um mundo no qual o sentimento perde espaço a cada dia. às vezes nos comportamos de forma egoísta, escolhemos as pessoas como se fizéssemos compras em um supermercado, verificando rótulos, olhando apenas as nossas necessidades mais superficiais. Em outras estamos tão carentes desta necessidade básica que é estar acompanhado que nos contentamos com quaisquer migalhas que nos sejam atiradas.

Em qualquer um dos casos só estamos preocupados conosco, por isto não somos capazes de viver o verdadeiro sentimento tal como ele é. Não se trata de forma alguma em referendar algumas destas teses que dizem, de uma forma ou outra, que devemos buscar um complemento ou um espelho. Não devemos buscar em outro aquilo que só pode estar dentro de nós mesmos, porque só pro nos compreendermos por inteiro, quando não falta nenhum pedaço de nós, é que somos capazes realmente de amar.

Desejamos o perfeito porque nesta nossa capacidade limitada e imperfeita de ver o mundo não enxergamos que a perfeição é um caminho, não um fim. Tudo aquilo que nos torna melhores é, neste sentido, perfeito. Por isto não ao invés de se procurar príncipes e princesas encastelados nas torres deviamos buscar companheiros ou companheiras de viagem que nos conduzem pelos caminhos que nos conduzem a ficar um pouco mais próximos daquela perfeição que no momento que deixamos de almejar abrimos mão da nossa parte divina, portanto da nossa própria humanidade.

A todos que estão acompanhados neste dia desejo de todo coração que o seu ou sua companheira de jornada o faça caminhar muitos passos nesta estrada. Aos que estão sós só posso dizer que devem ter a fé em si e em Deus que encontrarão o companheiro ou companheira de jornada que retribuirá ao que fizer jus. A resposta, portanto, está em nós mais do que em qualquer outro lugar.

segunda-feira, 12 junho, 2006 – 18:20

Um leitor sincero

Li ontem em um ensaio de Anaïs Nin a afirmação dela de que só ao escrever ela conseguia a unidade, ou seja a superação das dualidades e conflitos. Não só pelo mesmos motivos, mas também por outros sinto também esta unidade quando escrevo, mesmo quando às vezes sento para escrever algo e o texto acaba falando sobre outro assunto. Não poderia deixar de ser desta forma, porque é um momento, quando há sinceridade, no qual o que circula no papel é o que está no coração, para além das aparências, interesses e vaidades.

Não significa que estas outras coisas não interfiram, mas conforme vão se tornando mais importantes tendem a gerar um conflito difícil de superar, acabam tendendo a quebrar aquela unidade que só a sinceridade é capaz de dar. Não é incomum que o processo de escrever, e também em outras artes, acabe levando à loucura ou às drogas, ou ao menos a um consumo da própria pessoa na ação, por um lado, e à queda na mediocridade e no óbvio, de outro. Sintomas de que deixou de existir o momento de unidade, que o autor deixou de ser uma ponte entre dois mundos porque optou por um deles.

Penso, então, em um romance de Tolstói, Redenção. Difícil imaginar a coragem de auto-crítica tão ferrenha e aqueles que louvam Ana Karênina ou Guerra e Paz como obras do grande mestre deviam ler Redenção ao menos para saber o que o próprio achava delas. Ele jamais será o mesmo depois deste livro, se dedicará a coletar e consolidar contos populares, escrever para crianças, redigir histórias de cunho mais religioso e ás vezes político, mas no bom sentido do termo, preocupado não com o poder, mas à autoridade espiritual a qual este poder deve estar submetido.

Mas a sinceridade também é necessária a quem lê – e como Borges orgulho-me mais das páginas que li do que as que escrevi – e hoje ela também é algo que falta porque nem sempre se tem as melhores intenções ao se ler. Esta sinceridade é tanto da boa vontade com o autor, lê-lo sem preconceitos, sem julgá-lo de antemão, deixá-lo tentar convencer, só emitindo julgamento após este esforço receptivo, quanto também do que se busca ao lê-lo.

Esta primeira condição é mais fácil de ser descrita, porém mais difícil de ser colocada em prática porque nem sempre nossa mente pode se ver livre destas noções prévias. A segunda condição é difícil descrever, mas qualquer um que foi obrigado a ler livros na escola – e acho que todos passaram por esta experiência – sabe bem qual é a sensação de se ler sem sinceridade, portanto sem vontade. Nesta última também é preciso incluir aqueles que leram para dizer que leram, mas este ultimamente tem buscado mais os almanaques, as resenhas, as orelhas, que dão o mesmo efeito da aparência de conhecimento com muito menos esforço.

Eu tive a felicidade, quando era criança, de não saber que existiam livros difíceis de serem lidos, clássicos que precisavam de erudição e coisas do tipo, lia o que me caia a mão e em especial uma coleção de livros clássicos da Abril cujos volumes chegavam a cada semana. Uma das minhas frustrações na época foi não ter conseguido ler Ulysses de Joyce – um dos poucos livros que até hoje não consegui ler nem com sofreguidão e muito esforço – e levei uns 10 anos para descobrir que a falha não era totalmente minha.

Guénon cita em um artigo comentando a decadência da modernidade, justamente como exemplo desta, que a Summa Teologica era um manual universitário á época que foi escrito mas que poucos poderiam ler hoje. Sem nem precisar ir tão longe diria que mesmo para muitos adultos hoje seria difícil ler os livros infantis de Lobato.

Parte da culpa disto é de uma civilização visual, como comentei em meu segundo post da segunda, outro tanto talvez seja da degeneração da educação, ainda que nem sempre no sentido que se diz. Mas sobre isto gostaria de falar em outra oportunidade, com mais espaço e tempo, até porque o assunto merece. Mas cada um de nós também tem a responsabilidade nas suas mãos, todos aqueles que enxergam estas coisas tem de pensar também sobre como agir, como fazer a sua parte ao invés de simplesmente colocar-se em uma posição de vítima de alguma destino cruel, de alguém que é vítima de um sistema.

Para fechar volto a Tolstói, uma dos contos dele com lugar de destaque entre meus preferidos, “A História de Ivan, o Imbecil”, porque Ivan tornou-se czar por acidente e era um imbecil, resolveu agir como todos os seus súditos e trabalhar, como todos os espertos resolveram sair do reino e só ficaram os imbecis tudo corria na mais perfeita ordem e perfeição, afinal cada um era ignorante demais para saber que o esforço de uma única pessoa que fizesse a sua parte seria suficiente para mudar algo. Impossível pensar em Utopia mais singela e ao mesmo tempo tão funcional.

quarta-feira, 7 junho, 2006 – 17:37

Oração sem sujeito

“Oh meu Senhor, :Se eu adorá-lO por medo do inferno, queime-me lá/Se eu adorá-lO pela esperança do paraíso, feche-me as portas dele/Mas se eu adorá-lO por Si só apenas, me dê a beleza da sua Face” (Rabi’a de Basra, século 8)

“Ó Deus, se eu oro, jejuo e dou esmolas, porque quero ganhar o céu, não me deixe entrar lá nunca. E, se eu faço todas essas coisas, porque tenho medo do inferno, lance-me lá agora!” (Teresa d’Avila)

Com o tempo fui deixando de escrever sobre religião, principalmente porque as pessoas tendem a ser muito passionais nesta questão e nem sempre querem entender o que é dito, postura que leva ao pior tipo de desentendimento e ao mais desagradável dos debates, aquele no qual a meta dos que discutem não é retirar o véu da verdade mas ganhar a parada. Com isto acabei preferindo só debater estas questões de forma privada, através de correspondências principalmente.

Hoje, contudo, abri uma exceção, talvez pela necessidade de organizar o pensamento e tantas coisas que tenho debatido. Espero não me arrepender mais uma vez, ainda mais porque tento escrever não sobre estas tantas manifestações concretas da religião que existem por aqui, mas em uma tentativa de alcançar ou ao menos vislumbrar num relance aquela idéia de religião que existe nos mundos superiores.

Acredito que a fé ou está no coração ou não está em lugar algum. Por isto é muito mais fácil converter aos outros que a si mesmo e talvez por isto o Profeta do Islam tenha chamado a primeira a pequena Jihad e a segunda de Grande Jihad. A hipocrisia, que como disse Voltaire, é a homenagem do vício à virtude, ou seja, a ação daqueles que incapaz de transformar-se contentam-se com a aparência da correção.

É desta necessidade de aparentar que vem toda a aparência de zêlo com tudo que é externo, visível. Ninguém, também, é mais preocupado com a ortodoxia do que o hipócrita, quem sabe porque os grandes problemas para ele não sejam realmente importantes, então nunca surgem dúvidas na sua vida, porque sua essência não está realmente motivada.

Porque a tarefa mais difícil de todas é converter-se – e aprendi que infalivelmente as falhas que vejo nos outros na verdade estão em mim e é por um zelo hipócrita que elas me chocam – acho que a religião, qualquer uma, é uma questão profundamente pessoal. Não falo aqui desta idéia corrente de uma religião pessoal, no qual cada um pega o que quer das várias fés – como se estivesse em um supermercado – e quase invariavelmente pega os direitos de cada uma e raramente os deveres.

Falo de questão pessoal porque se trata acima de tudo de uma relação pessoal, íntima, com Deus. Não nego a relevância dos rituais, dos símbolos, das restrições cujo sentido mais elevado as pessoas não são capazes de vislumbrar, ainda mais neste nosso mundo desencantado no qual as portas para o que não existe de forma sensível estão fechadas porque poucos as querem abrir.

Mas nenhum este métodos todos – e só consigo ver uma grande consistência neles nas mais variadas fés e regras – pode ter valor se não houver a condição prévia da sinceridade no coração. Falo isto por imaginar, por intuir, por enxergá-la nas ações de santos de todas as fés, por ter um dia a esperança deste estado, não por experiência própria.

Não sou uma pessoa religiosa, sempre me sinto um pouco hipócrita quando falo do assunto porque como todos penso muito mais em Deus quando preciso da ajuda dele do que quando ele me abençoa. Só de vez em quando me lembro que os dons que tenho são muito mais dádivas dele do que mérito meu. O que seria da minha cultura de que me envaideço tanto, pro exemplo, se não fosse a memória que ele me deu.

Não tenho dúvidas que os homens são iguais em seus direitos, mas são também muito diferentes em seus deveres, porque de cada um será cobrado segundo aquilo que recebeu e às vezes me angustia pensar do que fiz dos meus dons. Mas a grande dificuldade para além desta constatação é ser capaz de atingir um dia o ponto mencionada pelas duas santas que cito na epígrafe, de não fazer isto pelas recompensas deste ou do outro mundo, mas só e apenas só pelo amor a Deus.

terça-feira, 6 junho, 2006 – 13:39

O voto de Pilatos

Leio nos jornais que a campanha pelo voto nulo já começa a preocupar as instituições e o TSE inicia campanha de esclarecimento> Até, por sinal, para coibir as informações falsas e contraditórias que circulam neste sentido, em especial pela Internet onde a informação costuma mesmo ter este caráter ao mesmo tempo fugidio e minucioso que a faz parecer verdadeira.

Neste sentido específico de assegurar que o voto nulo não é nada mais do que aquilo que parece – ou seja, a negativa em tomar parte na decisão sobre quem irá nos governar – acho a campanha do TSE mais do que válida. Vir e mexe encontro teorias mirabolantes, todas elas muito bem assentadas e fundamentadas em leis e decisões inexistentes, que asseguram que o voto nulo serve pra algo. Sempre fico curioso se quem espalha estes boatos é apenas um idiota desinformado ou alguém que premeditamente quer mesmo que todos os que estão revoltados se abstenham de votar deixando a decisão nas mãos daqueles que estão satisfeitos, conformados ou alienados.

No primeiro caso demonstram que não são diferentes daquela parte dos políticos que criticam, espalhando comentários e promessas sem fundamento em busca de atenção ou pânico, no segundo estarão diretamente a serviço destas forças ocultas da política. Em ambos em nada contribuem para debate algum, nem mesmo a favor do voto nulo.

O voto nulo só pode ser analisado com exatidão pelo que realmente é. Ou seja, não como uma forma de “Revolução Branca”, maneira de derrubar o governo, meio para cassar os deputados que escaparam impunes, estas teorias conspiratórias malucas que circulam pela Internet. Desprovido deste papel messiânico o voto nulo pelas razões certas – ou seja para omitir-se de participar de um sistema com o qual não concorda – é certamente um direito de qualquer um.

Não quero cassar de ninguém o direito de omitir-se, acho até que ganharíamos muito se o voto fosse facultativo, permitindo a todos que aproveitem o domingo da eleição da forma que lhes aprouver. Confesso até que já anulei meu voto em algumas eleições majoritárias nas quais a decisão era terrível demais, como na disputa entre Maluf e Fleury pelo governo do estado em 90. Nas eleições parlamentares a grande oferta de candidatos torna quase impossível não haver opção e qualquer generalização é uma homenagem aos corruptos, uma ofensa as pessoas sérias que dão a cara a tapa e um reflexo da pesquisa de pesquisar a história dos candidatos para encontrar algum.

Salvo poucos casos de pessoas que por uma opção consciente não acreditam no sistema tal como está – posição que respeito – a maioria dos que votam nulo, pelo contrário, querem poder passar os próximos quatro anos sentindo-se com a consciência limpa, podendo dizer que não votou em nenhum dos que estão aí, abstendo-se de qualquer responsabilidade pelas barbaridades que vierem a ocorrer. É o voto de Pilatos.

segunda-feira, 5 junho, 2006 – 14:41

Pessoas e livros

Uma das distopias menos conhecidas é a escrita por Ray Bradbury, Fahrenheit 451, salvo talvez pela referência parafraseada pro Michael Moore. Me soa estranha a referência do diretor, afinal ele é um dos porta-vozes deste estilo politicamente correto que não deixa de ser uma forma de também aniquilar os livros e o pensamento.

Penso que talvez por isto mesmo a distopia de Bradbury não seja popular como outras, em especial os dois clássicos do gênero – Admirável Mundo Novo, de Huxley, e 1984, de Orwell. Afinal ela fala sobre a tentativa de qualquer regime de impedir o acesso aos livros, pecado que todo totalitarismo de esquerda ou direita comete, porque só podem sobreviver se houver uma única vontade. Mais talvez dos totalitarismos de esquerda, porque os de direita simplesmente mandam as mentes livres para a morte e queimam seus livros, enquanto os de esquerda tentam varrer sua memória, caluniá-lo, condenar não só o autor à morte como sua obra ao descrédito como tem sido feito contra o próprio Orwell.

No texto a pose de livros é proibida e a principal função dos bombeiros, um dos quais é o protagonista, é queima-los na temperatura que dá nome a distopia. Para garantir a sobrevivência das obras uma organização secreta tem como militantes pessoas-livro, que os decoram e repetem para que o conhecimento não seja destruído.

Tenho este hábito de às vezes associar as pessoas a livros. Acho que eu o adquiri de um dos muitos professores e poucos mestres que eu tive, ainda que sempre tenha odiado o livro que ele me mandava ler – A Montanha Mágica de Mann, um dos poucos livros que li com sofreguidão e não em um rompante. Só poso concluir que ele sabia que um dia eu perderia as certezas e respostas que tinha na época.

Escrever é de todas as artes talvez a mais simples e a mais complexa. Não faria sentido, por exemplo, perguntar como os escritores pintam, dançam, fotografam ou dirigem, mas é comum e até natural, que aqueles que se dedicam a estas outras artes também escrevam. Às vezes, penso aqui particularmente no Gauguin de Antes e Depois, parece haver um certo estilo próprio de escrever de quem vive neste mundo das artes plásticas, ainda que não consiga pensar em uma teoria geral sobre o assunto ou em alguma regra que organize melhor este raciocínio.

Vejo, contudo, que se assemelha ao método dos poetas – e aqui pensando principalmente no Livro do desassossego de Pessoa – com algo de desconexo, muitas rupturas, anacolutos e sobretudo hipérboles que talvez horrorizassem aqueles que só escrevem prosa, mas que não soam gritantes no textos deles. As inconsistências, falta de coesão e coerência às vezes, parecem vir daqueles que conseguem enxergar no mundo o detalhe, o retrato, a imagem, a impressão.

Mas, afinal, deve estar pensando o leitor, o que tem isto a ver com o começo da história e o livro de Bradbury.

É simples, aquele estilo que talvez faça sentido nos artistas que escrevem vai se generalizando por aí, talvez proque estamos nos tornando uma sociedade muito visual, de imagens e não mais de palavras. Não é algo obrigatoriamente ruim, como nada é, mas pode vir a ser na medida em que se imponha como lei, como regra, vire um pequeno totalitarismo do fragmentário. Também é ruim quando não é algo autêntico, mas apenas uma forma de esconder uma cultura de almanaque, um verniz de civilização, por detrás de referências esparsas.

Precisamos, desde já, de Homens-livros. Toda regra é sempre uma prisão!

segunda-feira, 5 junho, 2006 – 17:03

O senhor das moscas

O senhor das moscas

“Se fizer uma revolução, a faça por diversão

Não a faça com a cara zangada

Nem a faça com mortal seriedade

Faça-a por diversão

(…)

Não a faça porque odeia as pessoas

mas para abrir seus olhos” (DH Lawrence, A Sane Revolution)

Para ser absolutamente sincero irrita-me ouvir tantos comentários e queixas sobre os políticos. Não porque acredite nas mentiras deslavadas contadas nas CPIs ou nos dossiers e cartilhas que tentam explicar o inexplicável, também perdi muito da fé, das esperanças, daquelas certezas que nos fazem engolir as histórias e os sapos em nome da causa ou de necessidades táticas.

O que me irrita é ver que as pessoas, pelo seu comportamento em inúmeros casos, não seriam distintas dos piores políticos – e creiam, há inúmeros que são bons. Eu deixei de acreditar que qualquer sistema possa melhorar automaticamente as pessoas. Pelo contrário, chego a conclusão que as pessoas são capazes de degradar a mais bem elaborada das utopias.

A internet é um meio onde isto pode ser facilmente percebido. É só olhar a violência com que se referem aos políticos, facilmente também transposta para qualquer um na comunidade, lista de discussão, fórum, página ou blog que ouse contestar suas verdades absolutas, para verificar que por pior que seja o político aquele indivíduo que o critica é um tirano ainda pior. Digo sempre que governar a utopia é muito fácil, porque ali existe uma única vontade, uma só pessoa que decide como todas as demais vão viver, já as sociedades concretas onde há outra pessoa além do autor são coisa bem diferente.

Retirei-me de uma comunidade dedicada a espichaçar este símbolo do que é mais desprezível neste país – a deputada Angela Guadagnin, aquela que há zombou de todo o país executando a dança da pizza e que caso se reeleja comprovará a tese hegeliana de que todo povo tem o governo que merece e que merecemos não só ser roubados, mas que os corruptos ainda zombem de nós.

Sai porque no meio de toda a brutalidade da ação dela, todo o sentido político da dança da pizza a única coisa que os débeis que participam da comunidade conseguiam dizer era que ela era uma balofa, uma baleia e coisas do tipo, como se a a feiúra e a repugnância interior da deputada não dispensasse qualquer outro comentário, como se fosse uma questão estética ao invés de ética. Enfim, os que estavam lá eram pelo menos tão desprovidos das qualidades morais quanto a própria deputada, companheiros na mediocridade e no nojo que causam.

A internet, que é sempre meu assunto das sextas, é muito pródiga neste tipo de personagem que encarna a escória da humanidade, extravasa toda sua prepotência, vive das aparências, dos chavões, da cultura de almanaque. Talvez isto possa ser explicado pela rapidez e brevidade das comunicações – que facilitam o trabalho dos impostores intelectuais – e o anonimato ou ao menos a ausência de contato direto – que permite que o ego se veja livre de limites – ajudem a explicar estes comportamentos, mas há também os pescadores de águas turvas que transformam o desvio de personalidade – próprio e alheio – em ideologia.

O que me entristece ás vezes é que poderia ser diferente. Barato, rápido, seletivo, a Internet oferece um meio interessante de se estabelecer um outro parâmetro de comunicação. Ao mesmo tempo é também um argumento para demonstrar a tese principal, de que qualquer sistema é falho porque depende das pessoas e não de alguma resposta brilhante de seus mecanismos.

Imagine-se o cenário de uma comunidade ideal. Um grupo de pessoas pequeno o bastante para se conhecerem e tomarem as decisões em conjunto, mas suficiente para dar conta das tarefas básicas. Sem contato com algum meio externo ou tendo qualquer um deles com algum elemento de coerção sobre os demais. Poderia até incluir a condição adicional de serem crianças ou adolescentes, imagens de inocência ou rebeldia, para garantir que aqueles que não confiam em ninguém com mais de 30 também pudessem ter uma visão mais idílica da situação.

Em geral esta situação seria vista pelas pessoas como uma espécie de paraíso, de sociedade ideal. Mas o escritor William Golding escreveu em 54 um livro – transformado duas vezes depois em filme, só assisti a de 90 – “O Senhor das Moscas” no qual o resultado da experiência não é um paraíso, mas um inferno. Sem nenhuma regra de autoridade o que ocorre é o poder da força, o crime, a maldade em uma forma quase pura. Um sonho, talvez, para aqueles que dizem admirar Nietzsche, mas um pesadelo para todos os seres humanos normais, aqueles que não integram a escória da humanidade.

Há algo do “Senhor das moscas” em quase toda comunidade que se organiza através da internet e quem assistir ao filme ou ler o livro – o primeiro me parece mais brutal e portanto mais adequado – não deixará de reconhecer os personagens. Um tipo de comunidade, em particular, tem o costume de transformar-se em algo muito similar, o assim chamado micronacionalismo (como disse o nome é infeliz e pouco esclarecedor mas não fui eu quem criou, refere-se à simulação de países virtuais), não pela repetição do cenário – adolescentes, na maioria, quase sempre em uma ilha.

As diferenças de cenário só aguçam as semelhanças, pois não se podendo usar a força bruta, visto que o contato é virtual, utilizam-se de outros meios em especial da capacidade de adular, fazer demagogia, das alianças do vulgar contra o diferente de que fala Gasset, a inexistência de regras transforma-se na multiplicação delas até o infinito, sempre, claro, podendo ser modificadas ou alteradas segundo as conveniências. Não deixa de ser mais terrível que o “Senhor das Moscas”, não só por ser real, mas por se saber que as pessoas que estão lá infelizmente não vão ficar isoladas em uma ilha mas sairão de lá para o mundo real tendo aprendido a utilizar a truculência e a fazer qualquer coisa pelo poder. Enfim, ao invés de tornar-se uma escola da elite que ensine a buscar a autoridade que dispensa qualquer coerção ou símbolo – por sinal eram de uma os jovens do livro – transforma-se em uma universidade para formar a escória que só pensa no próprio ego e em todos os meios de atingir o poder e manter-se lá.

Não poderia deixar de dizer, antes que todos fiquem horrorizados e não passem nem perto destas comunidades, que a esperança na humanidade também pode ser restaurada por algumas delas, nas quais existe um ambiente saudável, produtivo, de respeito e trabalho, nas quais em geral até se consegue ter um ambiente tão sólido que os egoístas que ali caem acabam se sentindo mal e indo procurar os seus semelhantes em outras plagas, tal como os espíritos de Swedenborg ou, na expressão de Attar: “pássaros de mesma plumagem andam juntos”.

PS:

Sou suspeito para falar sobre o assunto, já que tanto já fui expulso de alguns destes grupos como sou um feliz morador de um destes países virtuais, o Reino Unidos dos Açores, além de ter amigos em diveros outros. Assim deixo as indicações de uma comunidade que tem links para vários destes países para que assim cada um julgue e avalie a qual dos dois tipos pertence cada um, caso fique curioso.

http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=788744

http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=34337

E o país virtual onde moro:

http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=2025192

sexta-feira, 2 junho, 2006 – 15:26

O contrabandista

Ainda um pouco na continuidade do post de ontem e entanto responder alguns emails falei bastante sobre escrever e uma das coisas que mais me disseram foi que deveria ter tido porque eu escrevo. Fiquei tentado a dizer a verdade, a confessar que quem escreve não sou eu, mas um djinn que mantenho como escravo em uma garrafa de cobre com o selo de Seyyedina Suleyman na rolha, só o libertando para que faça meu trabalho e volte rápido para a garrafa. Ainda que seja meio rebelde e nem sempre escreva o que eu mando, seus séculos de prisão lhe deram alguma erudição e de uma forma geral ele dá conta do recado.

Infelizmente acho que ninguém acreditaria na história, porque vivemos em um mundo desencantado, então mandei o djinn inventar alguma outra história e é ele que escreve daqui pra frente, como não vou ter tempo de ler antes de publicar espero que ele faça um bom trabalho. Segue abaixo, então, a desculpa inventada para mim pelo djinn.

“Na arte, a sinceridade depende do talento. Um homem que não possua talento é incapaz de “honestamente” expressar seus sentimentos e pensamentos – porque os seus borrões ou os seus versos ruins deixam inteiramente de corresponder ao seu processo mental” (Aldous Huxley, Eminência Parda)

Falei ontem que o que torna legítimo ou não um texto – e em certa medida qualquer obra de arte – é se ele constrói uma ponte com um outro mundo, enquanto quando feita pensando neste mundo aqui será sempre irresponsável porque falsa. Só quem escreve, portanto, é capaz de ter plena certeza de sua sinceridade, ainda que os demais possam perceber ou intuir se há ali alguma ponte, até porque quando falta sinceridade também não pode haver qualidade.

Huxley, no trecho que uso na epígrafe, descreve com perfeição porque isto ocorre, é justamente esta inadequação entre o processo mental – grosso modo a visita a este outro mundo durante o êxtase da criação como disse ontem – e o resultado – a ponte que foi construída para aquele lugar visitado – que dá realidade ao que é feito. A poesia, talvez por exigir em geral que o leitor atravesse a ponte, é mais suscetível a esta falta de sinceridade/talento porque requer uma imersão profundo neste outro mundo. Nas outras formas escritas, em particular quando a ponte tenta criar um meio para que as idéias daquele lugar cheguem por aqui, a identificação é mais difícil e por isto ainda mais necessária.

Se escrever tem algo de epifânia – e aproveito o termo para me penitenciar da ausência da menção de Clarice no artigo de ontem, que me valeu enorme e justificada bronca por email – ela só pode ter algo de verdadeiro mesmo quando contraditório. Isto porque esta nossa visão estanque de conhecimento, estes nossos limites categóricos, são insuficientes para expressar as idéias que vem de lugares mais elevados, produzidas por uma sabedoria mais completa.

Sempre me agradaram as antíteses e os paradoxos porque para compreendê-los é necessário ultrapassar, ao menos por um instante, estes limites das nossas categorias. Ambas as figuras, no fundo, tentam mostrar que toda dualidade é falsa porque estão contidas na unidade, ainda que de formas distintas. Tais unidades não podem ser apreendidas neste mundo, só pode ser trazida de contrabando daquela outra realidade, mas isto não significa de forma alguma que devem ser impossíveis de ser entendidas pro aqui.

Pelo contrário, a arte de construir pontes de que falei ontem é justamente o talento de permitir que imagens de outros mundos possam ser compreendidas dentro destes nossos valores. Talvez por isto me desagrade toda manifestação de arte que esconde a ignorância na arrogância, a incapacidade de traduzir o conceito em linguagem apurada acessível somente aos “iniciados”.

Não consigo expressar melhor esta noção, e como me sinto ao escrever, do que utilizando uma das histórias do mullah Nasrudin:

O mullah Nasrudin passava todos os dias pela fronteira com seu camelo. O guarda da aduana sempre revistava a bagagem na ida e na volta e não encontrava nada, a despeito disso o mullah dava sinais que enriquecia com o contrabando. Após anos de revistas minuciosas o guarda se aposenta e pede que o mullah lhe conte o que e como fazia o contrabando. Sob a promessa de segredo e anistia o mullah concorda em revelar o objeto de seu tráfico: CAMELOS.

Recados

Agradeço muito os emails que recebi. Dois deles comento abaixo:

Para a Cacau, com quem sempre cruzo o olhar quando olho para o infinito e que é minha mestra na jornada pelo mundo da poesia e outras, me cobra que fale também das pontes para os mundos que temos dentre de nós digo que quero muito falar disto, mas me faltou ainda o mote e a oportunidade. Não pdoeria deixar, contudo, de dizer que todo mundo está essencialmente dentro de nós, toda viagem a qualquer lugar é sobretudo uma viagem dentro de nós e assim não tenho dúvidas que tem razão. Se uso a imagem dos mundos externos é apenas para não tornar ainda mais difícil expressar uma imagem difícil de ser aborvida.

Para a Maria Olga, que me disse sobre como teto resgatou para ela Anaïs Nin, digo que já estou passando da hora de escrever algo sobre tantos autores cuja imagem que temos não correspondem, ao menos não correspondem sempre, a aquilo que realmente disseram. Neste momento em que venho tentando ler ou reler tantos livros que ficaram nos últimos anos na lista de espera a cada dia me surpreendo mais em ver o genocídio intelectual que esta nossa era da cultura de almanaque, das frases colhidas fora de contexto, da superficialidade e da futilidade está cometendo contra tantos autores que não mereciam ser rotulados e mutilados como tem sido. Mas isto não impedirá que eles continuem a criar pontes.

quinta-feira, 1 junho, 2006 – 16:04

Da arte de construir pontes

Da arte de criar pontes

Aproveito o post sobre literatura de hoje para debater um tema que estamos discutindo em uma das poucas comunidades do Orkut das quais participo onde é realmente possível, ainda, discutir temas interessantes. a comunidade da Briva Espaço Cultural (link abaixo) . Briva, explica a organizadora, é uma palavra celta para pontes. O tema em questão é sobre a responsabilidade do artista.

http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=4020040

Qual é a responsabilidade de quem escreve, por extensão de quem pinta, representa, dança, canta, filma, enfim, dedica-se a arte?

Não é um tema fácil de ser tratado porque as nuances e sentidos que cada palavra pode ser pronunciada ou entendida são infinitos. Também não estou totalmente seguro sobre o quanto é aplicável do que pode ser falado sobre a literatura pode ser estendido a outras áreas. Permaneço assim no campo da literatura apenas, sem descartar nem defender a aplicação do mesmo critério a outros campos e só posso começar tentando definir o que é responsabilidade.

Pego de início dois exemplos extremos, mencionados nos debates, justamente sobre a maior irresponsabilidade humana que foi o Nazismo e cito três nomes ligados – ao menos nestas nossas associações imaginárias – a ele. Wagner, Nietzsche e Leni Reifenstahl.

As associações de Wagner com o nazismo são infelizes. É inútil dizer que sua música apregoava alguma violência tanto na forma como no conteúdo, enaltecia algum passado mitológico germânico. Ele fazia, no máximo com alguma hipérbole, aquilo que era corrente na sua época, inclusive a glorificação da guerra. Ninguém se transforma em nazista porque ouviu Wagner. Atribuir a ele a responsabilidade sobre qualquer estado de espírito é enxergá-lo com olhos fora e julgamentos posteriores.

Muito distinto é o caso de Nietzsche, que anda preocupadoramente popular na Internet, porque há uma identidade de valores entre ele e o nazismo, a negação de qualquer moral, a glorificação do direito do forte esmagar o fraco, a pregação da guerra como extermínio dos fracos e purificação do homem que caminha para tornar-se super-homem. É evidente que tal tipo de disparate só poderia atrair em todo o tempo a escória, os sub-humanos para os quais qualquer disciplina é difícil de ser atendida, para todos aqueles que mesmo desprovidos de toda autoridade querem obter na força poder que o bom senso lhes recusa. São irmãos e há uma profunda continuidade neles, ainda que o profeta alemão – em funções da sua irresponsabilidade – provavelmente jamais imaginasse que alguém materializaria seus projetos.

Entre estes dois eu colocaria a cineasta. Há nela tanto apenas a expressão de uma hipérbole – a figura preferida dos políticos e das elegias fúnebres – tanto como a valorização de conceitos morais equivocados e desumanos. O triunfo de uma vontade é sobretudo o triunfo sobre a vontade de todos os outros, em especial da diretora. Estava apenas na mão dela fazer a distinção moral entre sua estética e sua ética e basta assistir aos filmes para ver o quanto ela deixou-se invadir pela vontade do Fuher, sentiu-se uma extensão dele, não alguma pequena chama naquela escuridão.

Chego, então, exatamente ao ponto que gostaria. Toda arte tem algo de possessão, mesmo a redação do mais árido ensaio – por isto talvez os textos acadêmicos, com raras exceções, estão tão distantes de nos dar prazer, pois neles todo o mecanismo tenta exorcizar o que havia de supra-consciente na inspiração original.

Dois autores que o fato de serem contemporâneos só ressalta as diferenças dizem praticamente a mesma coisa correspondente a mesma pergunta que fazem a si mesmo, porque escrevo? Transcrevo abaixo uma pequena parte de ambos

“O desejo de lançar o mundo em determinada direção, de mudar as idéias das pessoas sobre o tipo de sociedade que deveriam se esforçar para alcançar” (George Orwell, Porque Escrevo)

“Porque as pessoas escrevem? (…) Elas escrevem para criar um mundo no qual possam viver” (Anaïs Nin, A nova Mulher

Cito ambos não para invocar a falácia da autoridade, para dizer que é verdade porque tal ou qual disse isto ou para demonstrar que li isto ou aquilo. Cito porque é preciso ter a humildade de reconhecer que muitas das grandes questões que nos colocam já foram tratados por outros.

E dois autores tão distintos falam de um outro mundo. Acho que este outro mundo que vislumbram é exatamente o que distingue o limite da responsabilidade.

O raciocínio não é simples, o verdadeiro artista responsável tem seu foco, sua meta, seu objetivo, seu guia, neste outro mundo que vislumbra durante o êxtase da criação. Só isto lhe dá a sinceridade, e porque não a Autoridade, para erguer uma ponte entre este outro mundo e o nosso. Todos os demais não são sinceros porque sua criação está voltada para os interesses deste mundo, pela busca do Poder e pelo alimento da vaidade de alguma forma. Os outros querem agradar, ou desagradar- o que dá na mesma – a algum poderoso, seja ele o tirano, o déspota, o pessoa amada ou o público, por isto não pode ser sincero.

É evidente que sobreviver e pagar as contas é necessário (o próprio Orwell exclui de antemão esta necessidade como um caso a parte e dedica outro dos ensaios do livro Dentro da baleia – confissões de um resenhista – a este aspecto). Para não complicar ainda mais algo que já é demais complexo e está ficando extenso demais, omito este aspecto prometendo tratar dele outro dia.

A legitimidade desta responsabilidade ou posicionamento do autor viria então do fato dele ser gerado em outro mundo, alheio à realidade deste. Alguns autores construirão pontes para que ele próprio possam chegar até este outro lugar – às vezes alguns outros poderão seguir os passos, mas nem todos. Outros, pro sua vez, fazem as pontes para que algo daquele outro mundo invada este e o faça um pouco que seja mais parecido com o outro.

A poesia, em particular, tende a estar um pouco mais no primeiro caso e a literatura no outro, mas é claro que estes nossos limites não se aplicam ás coisas que vem deste outro mundo. Mas pouco importa qual é a mão da ponte, o essencial é que ela exista e que algum intercâmbio exista porque é só através dele que se processa esta mudança do mundo do qual ambos falam, qualquer outra tentativa de modificação é fútil, infrutífera ou produz os efeitos contrários.

quarta-feira, 31 maio, 2006 – 16:07

Assentando as fundações

repico hoje o post de ontem porque achei que há mais a ser explorado na discussão pelos emails que recebi. Comentava estes dias que me sinto conservador quando solitário e libertário quando feliz, se eu estou certo devo estar feliz hoje

“eleição, isto é, pelo índice de papeluchos que uma gente ignara chamada eleitores leva a um recipiente chamado urna num dia chamado eleição” (Monteiro Lobato, A Rosa Artificial)

Erro explicável mas não desculpável é esta nossa tendência a achar que política é aquela coisa que acontece na época da eleição, comício, horário eleitoral, panfletinhos, urna eletrônica. A cada dois anos passamos pelo ritual e ficamos em paz com a nossa consciência como se tivéssemos cumprido nosso dever cívico. Lavamos as mãos, entregamos o outro a responsabilidade de gerir nossos destinos e se ele não cumprir a sua parte nos vingamos com piadas e xingamentos.

Nada disto tem algo a ver com política. A política se faz no dia a dia, exigindo boas condições nos serviços públicos que usamos e fazendo o que podemos para melhorá-los, lendo as notícias e compartilhando-as, nos organizando e ajudando nossa comunidade a se organizar. Parece pouco, mas lá pelo mundo civilizado foi assim que as coisas começaram. Não se decidiu de um dia para outro: “vamos ter um parlamento”, “vamos fazer eleições periódicas”, foi da luta, da organização, das bases que surgiu todo o resto do sistema político.

Se os políticos nos parecem hoje algo como seres de outro mundo é que não houve uma evolução histórica que nos levou a este sistema político, só copiamos a cobertura do edifício, com suas piscinas e churrasqueiras, mas não tem estrutura ou alicerces que os sustentem. Quando surge algo na base em geral vem pelo processo inverso, de cima. Daí por exemplo toda esta prostituição em massa que ocorre no movimento popular e outras organizações na época de eleições, onde traficantes de escravos modernos vendem aqueles que deveria liderar no caminho da liberdade por um preço entre R$ 3 e R$ 10 por cabeça. Daí porque o “Não-Governamental” de tantas ONGs significa apenas que não tem de prestar contas, fazer concorrências ou contratar por concurso, mas muitas vezes não conseguem sobreviver sem verbas públicas – o que não é obrigatoriamente ruim – ou até em outros transformam-se em veículo para o desvio do dinheiro que deveria ir do governo para o povo – o que é mais do que terrível.

Falamos de sociedade civil porque é um termo bonito, simpático, elegante, moderno, mas entre ela e a mula-sem-cabeça penso que a última é mais real, ao menos mais presente no nosso imaginário e menos complexa de se entender, mesmo com aquela coisa de soltar fogo pelas ventas. O normal seria que a sociedade civil tivesse criado o Estado, mas nós ficamos passivamente esperando que o Estado nos crie, o que jamais irá acontecer.

Tocqueville disse que a sociedade civil organizada era a esperança de uma nova aristocracia sem os privilégios detestáveis, ou seja, aquela força que por deter poder e autoridade por si – não pelo rei – é capaz de se opor à tirania. Se ele tiver razão na análise que faz estamos condenados a esta nova tirania do Estado que tudo pode porque as pessoas são fracas e estão preocupadas demais consigo para estabelecer qualquer laço.

Quase todas as pessoas que me escreveram, as quais agradeço e só não nomeio porque não sei se todos gostariam, falaram da necessidade de investir em educação. Não sei ao certo qual a situação exata nos outros estados, mas em São Paulo todas as escolas tem conselhos nos quais pais e alunos tem assento e pela LDB acho que coisas semelhantes ocorrem nos demais lugares. Poucas escolas, mas justamente as melhores, tem Conselhos que realmente funcionam, que exercem aquela grande parcela de poder que lhes é dado. Talvez até seja dado este poder por se saber que não será usado, mas ele está lá, a espera de uma comunidade que não cruza os braços xingando o governo mas é capaz de agir localmente – aproveitando que estamos a uma semana do dia do meio ambiente roubo parte do lema – para construir um país melhor.

Temos a fixação do completo e do grandioso, vivemos da esperança que um dia vamos abrir as janelas pela amanhã e acordar em um país diferente porque fomos abençoados com um governante abençoado, com algum D. Sebastião enfim retornado. Tudo bobagem, um outro país só existirá se houver pessoas capazes de começar a construir lá embaixo nas fundações. Pode ate demorar, mas é o único jeito que realmente funciona, todo o resto é pajelança de marqueteiros.

terça-feira, 30 maio, 2006 – 17:33

Direitos e deveres

Serei breve hoje porque está sendo um dia agitado para mim, com muito trabalho, mas não podia faltar a este compromisso que assumi comigo e agora com tantos leitores/amigos que tenho feito através deste meio. Como sempre o tema da segunda é política

“Se deixamos de lado todos os grupos que significam sobrevivências do passado não se encontrará entre todos os que representam a época atual um só cuja atitude perante a vida não seja a de crer que tem todos os direitos e nenhum dever” (Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas)

A demagogia é a negação da verdadeira política, é a enorme irresponsabilidade de tentar livrar os cidadãos de fazer escolhas. Está na essência da política justamente a necessidade de administrar problemas ilimitados com recursos limitados, tire-se isto cedendo aos canto de sereia do “tudo ao mesmo tempo agora” e se terá um exercício de literatura fantástica, no caso das utopias, ou uma peça de marketing no caso da propaganda política.

Poucos, contudo, tem a coragem de dizer que as coisas são difíceis, que para investir no setor X será necessário retirar recursos do setor Y. As campanhas eleitorais listam tanta coisa entre suas prioridades que fica evidente a quem tem ao menos um pouco de bom senso que nada é de fato prioridade.

Mas não me agrada dizer coisas óbvias, daquelas que agradam a todos mas demonstram que não fui além do senso comum. É fácil criticar os políticos, falar que temos o direito de não sermos roubados, de nosso dinheiro não ser utilizado para apagar orgias no lago sul, mas, convenhamos, o Brasil não foi invadido por uma potência estrangeira que colocou títeres no governo. Quem os colocou lá foram os cidadãos e portanto a responsabilidade é unicamente nossa, de mais ninguém.

Fomos nós eleitores que votamos com a emoção e não com senso, razão, análise. Fomos nós que pouco nos preocupamos com os parlamentos na hora do voto, que não acompanhamos, às vezes sequer lembramos, em quem votamos, decidimos em função de coisas estranhas à política. Quantos de nós estariam disposto a votar em quem diz a verdade, em quem nos mostra as escolhas que temos de fazer, em quem corresse o risco de enfrentar interesses corporativas e grupos de interesse, em deixar claras as escolhas que tem de fazer?

Até quando vamos continuar acreditando que alguém vai resolver os problemas para nós? Até quando vamos acreditar que a solução dos problemas graves do país depende apenas de vontade política e não de escolhas difíceis? Quando vamos aceitar que ser cidadão não é apenas ter direitos, mas também implica em deveres, dos quais um dos principais é escolher aquele que é mais adequado para resolver os problemas concretos do momento?

A responsabilidade é tanto nossa, em um sentido abstrato, como de cada um em seu sentido e tarefas concretas. É fácil exigir saúde e educação, mas quantos de nós participam ativamente do conselho da escola com a qual tem vínculos? Quantos tentam organizar a comunidade, defender a formação de conselho de usuários nos órgãos públicos, participar destes conselhos onde existam?

Quanto de nós com condições e perfil tem a coragem de aventurar-se nesta senda da vida pública, dar a cara a tapa mas tentando construir algo? Quantos de nós tem o desprendimento de engajar-se na campanha de alguém que acredita, enfrentar as caras feias e os acomodados?

Não adianta ficar ai sentando mandando e repassando emails de revolta ou humor, dizendo que político nenhum presta – afirmação cujo corolário é que também a sociedade não presta porque os elege – ou pregando o voto nulo – suprema abstenção do dever que dá a cômoda sensação de não ser responsável pela situação toda. Se quer ter o direito a um país melhor tem de assumir os seus deveres na construção dele.

segunda-feira, 29 maio, 2006 – 16:39

Afinidades eletivas

Muitas pessoas tem falado sobre uma certa esquizofrenia internética, que faz as pessoas assumirem outras personalidade e papéis, quando entram na rede. A escala deste processo varia muito, desde aqueles que metem simplesmente por mentir até aqueles que conseguem realizar através da rede um papel que realmente gostariam de ter. Dizer a verdade tornou-se raro, a ponto de que muitas vezes as pessoas não acreditam se o fizer.

Parece-me, contudo, que este fenômeno aos poucos vai perdendo um pouco a força. Basta ver que nas salas de chat e similares, mesmo continuando a haver aqueles que se entretem inventando apelidos raros, as pessoas que colocam o próprio nome tem aumentado. Aos poucos também é possível perceber, por exemplo no Orkut, que as pessoas vão deixando de lado os personagens e assumindo-se.

A forma mais sadia destes complexos me parece ser aquela na qual a pessoa torna-se aquela que gostaria de ser, a não ser, claro, quando o fulano desejaria ser Napoleão ou coisa do tipo. Em outras palavras, quando os valores que a pessoa tem tornam-se mais possíveis de ser concretizados no espaço virtual, portanto ele pode libertar-se de mais algumas destas camadas de hipocrisia que são indispensáveis à vida em sociedade.

Há uma interessante dinâmica que ocorrer nestas relações entre criatura e criador. Independente do que aconteça ou de quão distintos sejam o personagem e a personalidade eles tendem sempre a lutar entre si, de forma aberta ou oculta. Em um dos meus hobbies, o micronacionalismo (o nome é terrível, mas fazer o que não fui eu que inventei) – simulação de países imaginários pela Internet, este processo de luta entre personagens e criadores muitas vezes gera episódios curiosos e bem visíveis.

Nas pessoas normais acho que em geral o personagem perde a batalha e acaba desaparecendo sendo reabsorvido pelo criador. Em outros o personagem acaba se tornando mais importante, às vezes até passa a invadir o mundo real gerando algum caso de mitomania. Conheço até um caso raro, que infelizmente aconteceu comigo, de um personagem de outra pessoa que era calcado em mim, catava minhas palavras e as reproduzia, mas era afinal um caso terminal de psicopatia.

Não concordo com certo preconceito existente sobre estas coisas que são “virtuais”. Os laços de amizade que se criam nestes veículos me parecem ser muitas vezes muito mais reais que os do mundo concreto, porque não baseados em relações quase casuais, resultado das proximidades físicas, coincidências e circunstâncias fortuitas, mas sim em afinidades de idéias, personalidades, valores, portanto fruto apenas da escolha, não tanto das coincidências limitadas pelo espaço físico.

Não me envergonha, por exemplo, que o número de meus amigos virtuais seja muito maior que o de reais, que alguns deles talvez eu jamais encontre pessoalmente. Afinal se o se comunica são os espíritos e as mentes o natural seria que as pessoas que tem afinidades se encontrem, não que estejamos limitados pelas circunstâncias históricas e geográficas. Caso se pense bem diria até que faz mais sentido do que ser amigo de alguém porque se é colega de trabalho ou escola. O termo de afinidade eletiva de Goethe ganha uma outra dimensão conforme as ferramentas de comunicação tornam-se mais sofisticadas.

sexta-feira, 26 maio, 2006 – 18:31

Perdei a esperança, vós que entrais

Depois de vários dias com posts “pesados” -tanto na temática quanto no tamanho – tentarei hoje ser mais leve e mais breve.

De novo peço hoje o gancho em um ensaio de George Orwell – do mesmo volume, Dentro da Baleia, por sinal recomendo a leitura. Em um dos textos ele fala sobre a sua experiência como livreiro de um sebo e como gerente de uma biblioteca ambulante que aluga livros e destaca justamente como estes públicos – incluir também o que observou nas bibliotecas públicas – comportam-se de forma diferente e lêem livros distintos.

O mais sincero de todos, diz ele, é o cliente que aluga livros. Este é o único que somente pega os livros que realmente lê, porque tem de pagar por eles, então a quase totalidade das obras retiradas é aquilo que se chama hoje de best sellers. Um outro ensaio do livro de Orwell – Bons Livros Ruins – fala justamente de alguns destes que são bons livros.

Já o leitor que retira livros em uma biblioteca tem certa preocupação com o “status” e retira, na opinião de Orwell, os livros que gostaria de ler. O principal público dos sebos, por outro lado, não seriam os ávidos ratos de biblioteca nem glamourosos pesquisadores de obras raras, mas principalmente estudantes pobres, pessoas em busca de presentes baratos e curiosos.

Quase já desisti de participar de comunidades do Orkut destinadas a livros e leitores de uma forma genérica. Nas que se dedicam a um autor específico costuma haver discussões muito interessantes e ao menos a possibilidade de conhecer outras pessoas apaixonadas por este ou aquele autor, mas nas comunidades mais genéricos como “Amo livros”, “Adoro Ler” e similares quase só há aqueles jogos ridículos e de vez em quando lendo alguns perfis, alguns comentários sobre os últimos ou mais importantes que leu acabo vendo algumas personificações daquele “leitor de biblioteca típico” retratado pelo autor inglês.

Pego apenas um pequeno exemplo como poderia pegar uma dezena ou centena de outros: alguém que disse estar lendo “A Divina Comédia” e comentando que “esta gostando muito, por enquanto está muito legal, mas não chegou no final ainda”.

Mesmo achando que o comentário fala por si, arrisco-me a tentar “explicar a piada” porque acho que o tema merece. Li algumas vezes a Divina Comédia e até discuti o livro várias vezes, inclusive com pessoas que tinham trabalhos acadêmicos sobre o assunto, mas de forma nenhuma poderia dizer que é uma leitura leve, muitas vezes fiquei meio perdido tentando decodificar os símbolos, perdido no labirinto das referências históricas e biográficas, tentando entender os diversos níveis de leitura, enfim se não chegou a ser uma leitura desagradável certamente foi penosa. É evidente que pode ser que seja alguma deficiência minha, algo que uma pessoa com maior compreensão não teria, então admita-se este primeira possibilidade.

O resto do comentário, contudo, é mais difícil de ser salvo. “Legal” é um dos poucos adjetivos que não consigo enxergar associado à obra de Dante. Ainda mais quando a referência se faz às primeiras partes da obra, ou seja O Inferno e o Purgatório. Sem dúvida o Inferno é a seção mais citada da DC, ainda que o paraíso seja mais rico de símbolos, mas todo o caráter sombrio do Inferno com seu ambiente de masmorra, seus castigos atrozes, Salvo no caso de alguém com alguma fixação sádica parecer ser bem estranho que alguém ache o horror dos círculos infernais como “legal”, dá até vontade de falar para tão estranha leitora para não se preocupar porque no final tudo termina bem, mas cheguei à conclusão que seria um comentário ainda mais desnecessário.

quinta-feira, 25 maio, 2006 – 17:01

Síndrome de Mowgli

No ensaio “O abate do elefante” o escritor George Orwell fala de seu drama pessoal quando servia na Birmânia tendo em vista o conflito entre a visão anti-imperialista que já tinha e a clara sensação de que enquanto estrangeiro era tão odiado pelos nativos que bastaria deixar de ter a proteção por um segundo para ser massacrado. De imediato lembrei-me de outro inglês que viveu no Sudeste Asiático, Ruyard Kipling, em particular da parte final do conto de Mowgli, quando o menino-lobo sente que não tem lugar nem na sociedade dos homens nem na alcatéia e prefere seguir o caminho sozinho com alguns poucos amigos, trecho do livro editado no famoso desenho por motivos óbvios.

Os indianos cunharam uma expressão pejorativo “Brown Sahibs” para designar certa elite ocidentalizada de seu país que não só acabou no governo na maior parte do mundo descolonizado pós-independência como, em ainda maior escala, assumiu para si muitos valores culturais do ocidente. O termo foi se expandindo, em especial em sua dimensão cultural visto que em geral produziu governos desastrosos, e hoje paradoxalmente é mais aplicado a alguns escritores e pensadores de esquerda, alguns até voltados para certo resgate cultural “nativo”, quase todos condenando o “imperialismo”.

Em uma aplicação mais ampla do termo poderiam ser classificados nele personalidades muito distintas, de Saddam Hussein – cuja história e programa partidário sempre foi a defesa da ocidentalização, laicização e modernização da região – e Nasser – entre outros partidários do “nacionalismo (categoria completamente ocidental) árabe” – a Edward Saïd – que utiliza-se das ferramentas do pensamento ocidental para criticá-lo em um linguagem essencialmente ocidental, passando por diversos escritores tanto popularescos, como Tariq ‘Ali, quanto de vanguarda como Salman Rushdie.

É evidente que uma categoria que se torna assim tão ampla acaba perdendo o próprio sentido, perdendo precisão e portanto utilidade. Ainda assim eu restringir ia o “modelo” como sendo o “personagem” que aceitando certa roupagem típica, parte dos valores tradicionais da sua cultura, para disseminar uma visão de mundo que é essencialmente ocidental. Não e uma classificação fácil, ainda mais porque corre o risco de cair em um certo relativismo cultural que pro si só é um pouco um dos veículos deste processo.

Mas a questão que mais me interessa neste texto e pelo qual eu comecei a escrevê-lo, ainda que meio perdido na longa introdução, é o “brown sahib” de segunda mão, dizendo melhor, aquele que vivendo em alguma outra parte do mundo toma a visão apresentada pelo “brown sahib” original como um retrato válido daquela região e se espelha nela para criar uma identidade.

É evidente que o processo é mais forte nas comunidades que tem raízes entre imigrantes da região. Diria até que o “caso ideal” que me inspirou o conceito foi dos descendentes de árabes que em busca de algo de suas raízes lêem o que lhes cai em mão e a parti disto formam a sua imagem da terra dos ancestrais.

Auxilia muito este processo o fato de que em geral estes autores escrevem em línguas ocidentais, inglês como Tariq ‘Ali, francês como Amin Maalouf, portanto são mais facilmente traduzidos e acessíveis do que os autores que escrevem nas linguagens “nativas”. Como há poucos livros disponíveis então acabam se baseando naquilo que tem em mãos. Vendo o sucesso que Paulo Coelho tem em alguns países, em especial o Irã, imagino que processo análogo também deve ocorrer por lá. Penso que efeito semelhante também ocorra, ainda que não tenha um conhecimento mais preciso para generalizar a observação, em comunidades de descendentes de japoneses, chineses e de várias outras linguagens cuja disponibilidade de boas traduções e edições não seja muito presente, ainda que nestas culturas a proporção de “brown sahibs” deva ser menor visto não terem experimentado a colonização direta.

Mas é evidente que o processo não se limita às colônias. Vejo que é muito comum, por exemplo, entre boa parte dos muçulmanos de diversas origens, daqueles que simpatizam pelo hinduísmo ou budismo, de todos que tem uma atração pelo que há de exótico nas outras culturas, porque ma das armas literárias deste processo todo é justamente este exotismo, justamente aquilo que Saïd mais condena como uma ferramenta do discurso imperial.

Nos últimos tempos em especial tem ocorrido um fenômeno idêntico com sinal inverso – ou seja a utilização do discurso imperial mas como uma discriminação positiva – através de uma certa idealização do terceiro-mundo por certas correntes à esquerda. De minha parte lastimo esta mentalidade porque ela acaba por jogar no lixo algo que havia de bom no “contrabando intelectual” ocidentalizante de muitos destes “brown Sahibs” – a condenação da tirania e da demagogia, a crítica à manipulação da religião para servir a interesses políticos e sociais, a defesa dos direitos individuais e pelo Estado de Direito – para ir ao poucos se transformando em mais um meio de legitimação das tiranias, visto que elas afinal lutam contra o “imperialismo”.

Analisando os tumultuados debates no Irã no período anterior à Revolução Iraniana de 79 o pensador e mártir Murtada Mutahari dizia que a política do Islam como devoção privada defendida então pelos setores pró-ocidentais significa, em termos políticos e estratégicos, que eles queriam que os iranianos fossem muçulmanos o suficiente para não se aliar aos comunistas, mas jamais ao ponto de buscarem uma forma própria de organizar sua sociedade. Hoje julgo que ocorre uma estratégia idêntica por parte de segmentos de esquerda, dos “red Sahibs” que quer que o terceiro mundo seja muçulmano – ou qualquer outra identidade do tipo – o suficiente para odiar os Estados Unidos e Israel, mas não o bastante para resgatar suas tradições próprias.

Ou seja, é uma corrente de pensamento que ao mesmo tempo tenta tirar aquilo que é típico de cada cultura, destruir sua visão de mundo reduzindo-a mero “exotismo”, idiossincrasia cultural, tornando-a portanto estéril e inofensiva, ao mesmo tempo em que nega aquilo que era positivo em muitas reivindicações inspiradas pelo ocidente. Ao invés de se “buscar o que há de melhor nos dois mundos”, como dizia um poeta paquistanês, tentando construir uma síntese que de alguma forma possa ser tanto universal quanto particular, se tenta amalgamar em uma massa amorfa e não criativa diversas antíteses que só compartilham ódios por meio de táticas políticas.

Não posso dar um juízo político absoluto sobre a questão porque tenho muitas dúvidas e raras certezas, mas do ponto de vista estético ao menos posso dizer que os “brown sahibs” escrevem melhor, até porque mais sinceros nas suas palavras nas quais se confunde o amor á identidade e o respeito pelos efeitos de alguns valores ocidentais.

quarta-feira, 24 maio, 2006 – 12:49

O Sheikh e os djins

Não aguentei esperar até quarta, dia no qual costuma escrever sobre literatura, tão presente estava o livro na minha cabeça.

Eu não sou um leitor preconceituoso, leio quase tudo que me cai na mão – até os panfletos que voam pela rua, como dizia Cervantes – mas como nem sempre se tem tempo para ler tudo o que se deseja muitas vezes acaba-se por fazer um pré-julgamento de algum autor e colocando-o no final da fila. Foi este o meu caso com Naguib Mahfouz, tão saudado em críticas e resenhas como defensor da modernização do mundo islâmico e vítima dos extremistas, que ainda que me despertasse alguma curiosidade ia sempre adiando a leitura por imaginar tratar-se de mais um daqueles “brown sahibs”, ainda que goste de vários deles como Tariq ‘Ali e o próprio Amin maalouf.

Tirou-me desta visão equivocada uma irmã muçulmana que insistiu para que eu o lesse e indicou um livro “Noites das Mil e Uma Noites” – em inglês, onde as Mil e Uma Noites são mais conhecidas como “Noites Árabes” ele tem o também sugestivo título de “Arabian Nights and days”, dias e noites árabes, menos fiel ao título original árabe mas preservando em parte o espírito, ainda que não destaque justamente o aspecto de trevas expresso no original.

Mal consegui largar o livro até terminá-lo e cheguei à conclusão que tanto extremistas muçulmanos quanto os que o elogiam, pelos motivos errados, no Ocidente não devem tê-lo lido ou se leram não entenderam. O mesmo diria de um crítico que disse que ele tentava ser árabe mas só conseguia ser egípcio, epigrama reciclado há décadas que talvez possa ser aplicado a outros livros mas de forma alguma a este, que mais que árabe, esta ficção copiada pelos políticos demagogos do nacionalismo ocidental, é islâmico.

Não posso falar pelas outras obras, em especial Midaq Alley, a qual dizem ter sido condenada por blasfêmia, mas também serviu de base a um belo filme mexicano, mas se houve algo que me impressionou no livro de Mahfouz foi justamente a profunda piedade e religiosidade. “Não se esqueça que terá de prestar contas Àquele que lê os corações”, diz um dos djins; “Quando chamados a fazer o bem se dizem fracos, quando comandados a fazer o mal dizem que cumpriram ordens”, diz outro.

Para usar uma expressão popular, diria que os críticos religiosos “passam recibo” – como aqueles que o esfaquearam em um atentado, e extremistas que tentam em bando matar um velhinho de 92 anos somam a habitual covardia dos terroristas uma dose adicional de vileza e falta de amor a Deus – ao condená-lo porque seu alvo não é a religião, mas a hipocrisia, a mesma hipocrisia que todas as pessoas que se voltaram verdadeiramente para Deus, em qualquer religião, sempre tentaram exorcizar de suas sociedades.

Quanto à obra em si, a despeito das outras considerações, considerei realmente brilhante a forma com a qual ele entrelaça diversas histórias tradicionais das mil e uma noites em histórias que podem ser lidas de várias formas, tanto pelo seu sentido filosófico, como pelo seu ensinamento religioso e até como fábula política. O entrelaçamento ocorre não só no eixo central da história – que tem como cenário justamente onde terminam as mil e uma noites, ou seja, quando Shariar, depois de ouvir as histórias de Sherazade, desiste em definitivo de matar as esposas, mas também nas histórias de diversos personagens, arriscaria dizer na de todos, nas quais estão enxertados cenários das Noites.

Algumas vezes este processo é evidente, como no caso de Sindbad, O Marujo. Mas ás vezes é oculto – até porque as múltiplas edições das Noites variam muito e as quatro que eu tenho chegam ás vezes a não se aparecer uma com a outra – como no caso do belo casal que os gênios transportam para passarem a noite juntos, no homem pobre que gasta um tesouro para criar uma falsa corte na qual, por oposição a real, é feita a justiça, nos passeios do soberano pelas noites. Para não falar nos djinns que tem papel relevante – ainda que nem tanto quanto pareça à primeira vista, no desenrolar das histórias, afinal com todos os seus poderes são coadjuvantes cujos planos dependem dos corações dos homens para serem bem ou mal sucedidos.

Nesta transposição o autor consegue manter muito do caráter cruel, arbitrário até, que existe no “original”, ainda que ás vezes tornadas mais prosaicas, e com isto mais humanas, como no caso das preocupações em esconder a gravidez da irmã de Sherazade, sujeita à brincadeira dos gênios mencionada acima. Em outros casos alguns símbolos velados nas Noites são colocados de forma mais evidente, em particular no caso do sheikh sufi que mesmo surgindo pouco é um dos centros e de certa forma o protagonista da história porque quase tudo gira de alguma forma em torno dele, inclusive como tendo sido ele a ensinar as histórias que Sherazade, sua antiga pupila, conta para conter Shariar.

A morte, a loucura, uma certa sensação de caráter inelutável do destino dão certo tom sombrio à obra em uma leitura inicial, mas a mensagem geral pareceu-me muito otimista porque de uma forma geral diz que o homem sempre pode libertar-se e salvar-se, dependendo apenas de si e de sua capacidade de enfrentar a falsidade e as conveniências com a Verdade. Que um dia os governantes, em especial os do mundo islâmico mas também os de toda parte, possam ter o destino de Shariar.

É evidente que sem ler outros livros não posso traçar um perfil mais preciso, mas pelo que pude sentir em Noite das Mil e Uma Noites – assim como em Akhnaton, o Faraó Herege, que no título original tem o subtítulo relacionado à morador da verdade – no qual mergulhei em seguida, onde um jovem escriba entrevista diversos personagens para tentar descobrir a verdadeira história do Faraó proscrito – há um profundo amor do autor pela verdade, combinado com um grande estilo de contador de histórias, assim como a preocupação de não ser nem do Oriente, nem do Ocidente, mas do lugar onde more a verdade.

terça-feira, 23 maio, 2006 – 14:22

A reação necessária

Tenho tentado dedicar os posts de segunda do blog à política. Nesta área o grande assunto ainda é o ataque do PCC e o debate das formas de reagir e evitar que coisas similares voltem a ocorrer. Assim com grande satisfação li os dois artigos na sessão Tendências e Debates da Folha de São Paulo, que com grande clareza e coragem destacavam a importância de medidas duras e do apoio da sociedade às polícias, justamente os pontos que considero como eixos principais da reação necessária.

Os artigos em questão são “Não é hora de prejulgar a polícia” de Eduardo Capobianco e “O Crime Organizado” de IVES GANDRA DA SILVA MARTINS, os quais recomendo a leitura a todos que querem informar-se sobre as reflexões sérias sobre o assunto, equidistantes tanto da histeria quanto daquele tipo de discurso fantasioso politicamente correto que, a meu ver, é um dos grandes responsáveis por esta crise.

Por sinal penso que uma das poucas coisas que surgiu de bom desta crise toda foi o desgaste deste tipo de discurso que em nome da defesa da democracia a deixa cada vez mais desarmada e incapaz de reagir às ameaças ao Estado de Direito. Antes da segunda-feira negra passada qualquer um que falasse sobre a necessidade de medidas duras contra o crime organizado acabava sendo tachado de fascista, direitista, defensor das piores coisas, em particular nestas comunidades e listas de discussão no qual certas correntes de ultra-esquerda impõem sua ditadura como se estivessem em algum dos regimes ditatoriais e autoritários que admiram. Hoje já é possível às pessoas de esquerda e centro debater estas questões porque a patrulha ficou desmoralizada.

Em termos de propostas concretas os dois artigos mencionados são pródigos. Algumas questões são emergenciais, ainda que como exigem legislação específica precisarão de tempo até serem implementadas de fato. A principal delas é a criminalização da posse de celular em presídios, a qual não só dá uma ferramenta para punir o abuso como ainda permitirá prender também advogados e familiares que servem de veículos para estes aparelhos, coisa que não ocorre hoje. Aumentar o risco que correm estes mensageiros do crime pode até não ser suficiente para eliminar o risco de celulares e comunicação, mas certamente desencorajará muitas pessoas se houver um processo de fiscalização mais rigoroso.

Com o tempo espero que se caminhe para que não haja contato físico entre visitantes e presos, como ocorre nos lugares civilizados sem criar grita de ninguém. Também mais do que necessária é a extinção de um conceito absurdo que permeia nossa legislação segundo a qual o preso tem o direito de fugir, não sendo punível por tentativas de fuga ou rebeliões. Que tal determinação esteja presente nos códigos de guerra até é aceitável, visto ser um dever do soldado, mas que seja aplicado pro extensão aos criminosos comuns é mais do que um disparate.

O outro artigo também destaca a importância fundamental da sociedade dar todo apoio à polícia, a qual afinal de contas está no front desta batalha entre o Estado de Direito e a bárbarie, portanto precisa e deve sentir que a sociedade civil que está na sua retaguarda se mantém como um firme suporte às suas ações. Este processo é essencial para que se consiga reverter o imenso trabalho feito para desmoralizar a polícia ao longo dos últimos anos, em geral pelas mesmas pessoas que defendiam direitos de criminosos.

Não deixa d ser curioso e sintomático que fatos isolados tenham sido sistematicamente utilizados por muitos para desacreditar a polícia, em especial desde o caso da Favela Naval, mas as mesmas pessoas fazem questão de dizer que os ataques do PCC são um caso isolado e não podem ser utilizados para julgar todos os criminosos. Como sempre, a tática dos dois pesos e duas medidas para julgar conforme as conveniências e a rotulação de fascista para qualquer um que aponte o absurdo do julgamento. Também não se deve ignorar todos aqueles que esforçam-se para desmoralizar a polícia para poder alimentar ainda mais a indústria da segurança privada, entre os quais há por sinal muitos dos comentaristas, críticos e especialistas que deram entrevistas nestes dias.

Como disse Cesar maia em seu blog na sexta-feira, os bandidos tem de ter medo da polícia e não o contrário. E que isto ocorra não é interesse apenas daqueles que arriscam a vida para nos proteger, mas de toda a sociedade que é protegida.

segunda-feira, 22 maio, 2006 – 15:29

Redes de idéias

Na tentativa de dar um pouco de ordem nos assuntos do meu blog estou tentando destinar os posts das sextas à Internet, comunicação, questões pessoais e coisas do tipo, assim como dedico as segundas à política e as quartas à literatura; deixando os dois outros dias livres para repicar algum tema ou falar de algum outro assunto.

Engraçado que os avanços da informática e telecomunicações parecem ter sido sempre o ponto mais subestimado na ficção científica, até mesmo nos últimos anos quando o enorme avanço da área fez com que eles se tornassem objetos de vários livros e filmes sobre o assunto. Uma avaliação simples pode ser vista no fato de nem sequer estarmos próximos do padrão de viagens estelares e exploração do espaço retratadas em muitos destes cenários, mas já jogamos no lixo há tempos as telas de fósforo verde que aparecem em muitos deles.

A velocidade com a qual a tecnologia se espalha e se desenvolve tem sido muito maior mesmo do que o previsto na ficção científica e não consigo imaginar nenhum outro setor no qual isto ocorra. Mesmo o ponto chave da ficção científica mais terrível, a ameaça da Inteligência Artificial, não parece estar muito distante.

Sempre fui grande entusiasta da informática. Lembro-me que na época da universidade era praticamente o único de todo o departamento – era um curso da área de Humanidades – que tinha intimidade com hadware e principalmente com software. Naquele tempo, final dos 80 e início dos 90, acho que as pessoas eram mais conservadores em termos de tecnologia que eram hoje. Lembro que muitos odiaram o primeiro 386 que chegou ao departamento com Windows porque nele não dava para usar o Wordstar, único programa com o qual tinham se acostumado.

Hoje acho que é mais comum as pessoas se entusiasmarem com novos programas, novos recursos, novas versões. Até diria que é um pouco até preocupante um conceito que se incorpora com força no nosso imaginário: tudo que é novo é melhor. Esta visão de mundo com conseqüências preocupantes só conseguiu entrar no nosso cotidiano devido a tecnologia.

Também estou on-line desde 94, numa época em que a Internet ainda era uma coisa meio misteriosa. Certamente ela ainda guardou muito de uma certa imagem mágica, mas felizmente já não é mais uma ferramenta de opressão ou status como era. O que sempre vi de interessante na Internet foi a capacidade de comunicar-se com pessoas de interesses similares sem o limite das barreiras físicas.

É evidente que também sempre usei a rede como a grande biblioteca que ela é, mas sempre achei a perspectiva de interação muito mais relevante, até porque sem a intermediação de relações pessoais físicas, portanto orientada apenas em função das afinidades mentais, como se as idéias é que se comunicassem entre si.

Pude testemunhar bastante isto esta semana, tanto debatendo com inúmeras pessoas esta situação de insegurança, quase guerra civil, em São Paulo e, ainda mais, tendo a satisfação de trocar impressões sobre Amin Maalouf com a grande especialista neste autor que é Monica Kalil e com Antonio Moreira, como eu leitor assíduo e apaixonado de Maalouf, ou ainda de debater a Tradição Primordial em Guénon com Maria Olga. Experiências gratificantes estas que certamente não seriam possíveis dentro dos limites restritos de espaço e tempo do mundo real.

A perspectiva de um lado de encontrar pessoas de interesses similares, por menor que seja o “nicho” ou segmentação que se possa imaginar, de outro a possibilidade de trabalhar em conjunto – no qual imagino que deva haver o maior avanço tecnológico nos próximos anos. Esta combinação trás um imenso potencial de cooperação e construção de laços em torno de idéias, ainda que por vezes seja necessário dar uns “sumiços” para elaborar tantas coisas, pois como disse Gibbon em O Declínio e a Queda do Império Romano, “a conversação estimula amente, mas a solidão é a escola do gênio”.

sexta-feira, 19 maio, 2006 – 19:18

Política e poesia: linguagens opostas

Em vários posts anteriores mencionei o fato de julgar que a poesia e a política pertencem a linguagens distintas, portanto qualquer mistura de ambos não me agrada. Evidente que cada um tem o direito de gostar daquilo que quiser, mas me senti na necessidade de justificar esta posição tendo em vista alguns comentários que recebi. É evidente que há uma enorme diferença com a litaratura em prosa, na ual não só o processo racional é uma parte importante da linguagem em si como também é possível separar e distinguir a qualidade do trabalho em si das preocupações políticas do autor, como tentei fazer ontem com Maalouf.

A meta da política, ao menos da verdadeira, é o convencer, enquanto a da poesia é impressionar. Uma poesia não pode ser feita com argumentos, sob o risco de na melhor das hipóteses ser muito medíocre – como a minha, digo de passagem, que é apenas um exercício de linguagem. Em paralelo o discurso político não pode ser feito de impressões e sentimentos, sob o risco de na melhor das hipóteses ser este oposto da política que é a demagogia.

É evidente, como disse Orwell, que escrever é sempre um ato político, mesmo quando parece não ser e ainda mais quando nega que seja. Mas é preciso distinguir aqui uma série de coisas. A primeira é que uma poesia não pode ser julgada pela nobreza dos temas pelos quais ela fala tanto como por qualquer outro fator externo a ela própria, a segunda que é próprio da linguagem da poesia que a avaliação se dê sobre o olhar do autor sobre o objeto, não sobre o objeto em si, tampouco sobre as motivações não estéticas ou emotivas vinculadas a este olhar.

Não é, assim, por falar das pobres crianças carentes, da libertação dos escravos, dos direitos da mulher, das belezas do amor ou de qualquer outro tema por mais relevante que possa ser que uma tentativa de poema deixa de ser medíocre. Há, por sinal, uma enorme chance de que ele seja infeliz na medida em que tente ser didático, porque, como disse acima, a função da poesia é impressionar, não ensinar, processo que está diretamente ligado – ou deveria estar – ao processo racional.

Traço um paralelo entre a poesia política e aquela que é uma das grandes matrizes de toda poesia moderna, a poesia mística. No caso da última, embora não deixe de ter um certo caráter que poderia ser rotulado de “didático”, a meta é justamente ser capaz de contornar os processos mentais, falar muito além dos nossos sentidos, dizer coisas que não podem ser compreendidas com a nossa razão e os nossos valores, visto que tem a intenção de pertencer a um outro mundo diverso do nosso. Há aqui uma perfeita identidade de métodos e linguagem porque o que se tenta dizer pertence, ou ao menos tenta pertencer, ao mesmo universo de sensações daquilo que é dito.

Já no campo da política ambos não apenas não pertence ao mesmo conjunto simbólico, como pertence a opostos. É evidente que há uma dose de paixão, uma forte carga emotiva que faz alguém dedicar-se a política, enfrentar dificuldades, lutar pelos seus ideais, morrer e até matar por eles. Mas no universo da verdadeira política não há espaço para a emoção enquanto linguagem, até porque uma discussão verdadeiramente política, e dentre as múltiplas definições de política a disposição eu escolheria aquela que diz que é o processo de tomada de decisão sobre assuntos públicos baseada estritamente na persuasão, só pode ser travada quando as partes que debatem estabelecem a razão como linguagem e a persuasão como método.

Se duas pessoas tem posições distintas mas não estão dispostas a debater até as diferenças até que ambos estejam convencidos da verdade não se tem um verdadeiro consenso. Quando há uma negociação na qual a única coisa que se leva em conta é a força de cada lado não se tem um verdadeiro consenso, se tem apenas um ponto de equilíbrio instável, sujeito ás variações e acasos dos momentos. No meu entendimento isto não é política, tanto como não é política todas estas campanhas eleitorais cuja intenção é causar uma imagem favorável do candidato, ao invés de debater a sério e demonstrar que ele é a pessoa mais qualificada para exercer determinada função.

Assim me parece curioso, mas facilmente explicável, que a “poesia política”que me parece aceitável é justamente aquela que não é engajada, que não tem a intenção de defender esta ou aquela idéia, que não corre o risco de tornar-se um santinho distribuído na boca de urna. Enfim uma poesia que sem deixar de ser poesia – portanto sem a preocupação de convencer e argumentar – é capaz de falar sobre as convicções políticas, denunciar fatos, descobrir vocações políticas utilizando a linguagem da poesia, ou seja, falando diretamente ao espírito sem ter de passar pelos sentidos. Não tenho conhecimento para avaliar, mas julgo que raciocínio similar é válido também para as artes plásticas.

quinta-feira, 18 maio, 2006 – 14:10

O périplo de Maalouf

Tenho uma relação passional com os livros, às vezes até me sinto como aquele personagem de Hesse, nas fábulas, que vive cercado por uma muralha de livros. Não consigo viver sem eles e descobrir um bom livro é sempre uma grande fonte de felicidade.

Tento ler cada um de forma ingênua, esforçando-me para deixar o autor me convencer de seu ponto de vista, lição que aprendi de Lobato, capaz de produzir artigos e resenhas maravilhando-se com livros totalmente opostos, com igual entusiasmo, a ponto de muita gente ainda hoje confundir-se sobre alguma pretensa filiação de Lobato a algum sistema dos mais diversos. Mas já falei um bocado sobre isto na semana passada e não quero repetir.

Há muita coisa a julgar em um livro, mas certamente ele precisa ser avaliado pela sua qualidade, mais do que por circunstâncias históricas ou biográficas, menos ainda pela posição política de seu autor. Como disse alguém, acho que Borges, na arte e na literatura só a mediocridade é reacionária, motivo pelo qual por sinal tolero muito pouco poesia política, termo que por si só é contraditório.

Pego como exemplo um dos meus autores preferidos, Amin Maalouf, aproveitando que tenho tido a oportunidade de discutir o autor em correspondência com uma amiga que o estuda em profundidade. Com exceção, talvez, daqueles autores que não consigo deixar de reler, como Borges e Lobato, acho que não li e reli mais nenhum outro autor do que ele. Contabilizo umas 20 leituras de Samarkanda, sem contar a releitura de algum trecho para checar alguma história.

Cada um vê em um livro aquilo que gosta, assim não faz muito sentido falar que um livro seja melhor que outro, mas eu gosto de boas histórias, de enredos, enquanto costumam me irritar os perfis psicológicos que ao invés de serem incidentais tornam-se o centro da história, como se andássemos por ai com as neuroses às vistas e não como se elas pudessem ser percebidas apenas aos olhares atentos nos detalhes reveladores.

Assim admiro a capacidade com a qual Maalouf constrói uma história, como seus romances históricos – até mesmo As Cruzadas vistas pelos Árabes que a rigor não é um romance – assemelham-se a livros de contos, tal a profusão de pequenas histórias interessantes com as quais são tecidos. Acho até que em alguns casos as pequenas histórias compensam um conjunto ruim, assim – de todos estes pequenos contos – a história do funcionário otomano que precisa fingir-se de corrupto é meu preferido apesar de estar em um livro – O Périplo de Baldassare – que considero fraco no conjunto, como se o autor tivesse cansado dele antes de terminá-lo.

Admiro, também, como não precisa recorrer a psicologismos para construir personagens de grande solidez e complexidade, em grande parte usando as pequenas histórias que mencionei do que sessões de psicanálise.

Quem lê um livro traduzido não tem muito como avaliar a forma propriamente dita, mesmo conhecendo a língua é difícil avaliar estas questões não sendo um falante nativo, sobra assim quase que só o conteúdo para ser pesado. Não sei se isto explica porque meus amigos persas, e até alguns franceses, ficam muito irritados quando se fala mal de Paulo Coelho, talvez o gosto persa pela repetição das velhas histórias, a saturação dos franceses com os romances psicológicos, uma reconstrução do tradutor que salve a construção original pobre tenha o tornado motivo de admiração. O pequeno tamanho da comunidade de Amin Maalouf no Orkut – grande parte deles brasileiros, por sinal, me deixa com a pulga atrás da orelha se não ocorre o mesmo. Enfim, em qualquer caso, abstenho-me de emitir qualquer comentário sobre a questão formal e fico apenas no conteúdo, vendo em Maalouf um grande contador de histórias, qualidade que mais aprecio em quem leio.

Colocado tudo isto, admirar profundamente Maalouf como escritor não me leva em momento nenhum a compartilhar da visão política – e em certa medida histórica – que ele expressa em seus livros, a meu ver muito marcada por certa visão “orientalista” e sobretudo comprometida com algum tipo de “ocidentalização” do mundo islâmico como salvação para o mundo muçulmano. O fato dele ser muito popular entre tantos muçulmanos brasileiros – assim como Tariq ‘Ali, outro ocidentalizante, e até mesmo Nagib Mahfouz, odiado pelos mais tradicionais (que ainda preciso ler para ter uma opinião,como fiquei devendo a uma amiga) e quase arrisco que não fosse o incidente bem conhecido de Versos Satânicos, até Salman Rushdie estaria nesta lista – é por si só um fenômeno socio-cultural que merece uma análise à parte.

É evidente que os personagens centrais de Maalouf serem, sem exceção, indivíduos que sentem-e deslocado no meio, não compartilhando as idiossincrasias das suas comunidades ou buscando mundos novos, para não dizer o fato dele escrever em francês, não em árabe, é em si um manifesto político, sem que isto prejudique a obra, a não ser talvez no caso de Baldassare.

O combate à intolerância religiosa, a denúncia da manipulação política utilizando a fé, a luta pelas liberdades e direitos individuais, a importância dada à modernização, a condenação da intriga política nas cortes, enfim todos os grandes temas políticos de Maalouf estão lá, desde As Cruzadas, alcançando, na minha visão, o auge em Samarkanda, chegando a um ponto crítico em Leão, o Africano – no qual parece prevalecer a função de que nenhum mundo se salva – e chega a um certo declínio no Périplo de Baldassare, no qual pareço sentir um protagonista cansado de buscar esperanças, decidindo aportar em um porto seguro estabelecido como próspero comerciante. Aguardo a oportunidade de ler o último livro para ver se acho argumentos contra ou a favor desta linha evolutiva.

Simpatizo com algumas destas causas, desconfio de outras e vejo com antipatia várias outras, nenhuma destas três opiniões é suficiente para me fazer gostar ou desgostar do livro porque uma obra não pode ser julgada em função de nossos conceitos e preconceitos políticos. Maalouf tem o mérito de não imiscuir as coisas de uma forma tal que cada coisa possa ser julgada separadamente, por si só isto lhe dá um mérito que justifica lê-lo.

quarta-feira, 17 maio, 2006 – 17:18

Um pais de verdade

Ontem, esta segunda-feira negra dominada pelo pânico, tive esperanças de que o Brasil pode sim virar um país de verdade qualquer dia destes. Entre os sintomas o que mais me chamou a atenção é que pelo menos por onde estive ninguém tinha ligado a mínima para a divulgação da lista de convocados para a Copa do Mundo. Só no final do dia o assunto começou a ganhar alguns comentários, demonstrando assim que ao menos às vezes ainda somos capazes de estabelecer prioridades.

A velocidade e variedade dos boatos que circularam pelo dia, a grande maioria sem ter nenhuma base real, demonstrou que a informação também é parte da guerra. A Internet, em particular, mostrou como pode ser útil – servindo de instrumento de comunicação, mobilização, expressão de idéias, tanto quanto inútil, ampliando e divulgando boatos, gerando pânico e servido para a expressão de idéias mais do que extremistas, de um lado ou de outro. É o preço a ser pagar pela liberdade de informação e no final das contas o balanço foi bem positivo, na minha opinião.

O fato mais lamentável de toda a crise – a mesquinhez daqueles que preocupam-se mais com a próxima eleição – acabou gerando um dos fatos mais positivos que foi o repúdio geral, o asco, a este tipo de oportunismo cego. Quem investiu neste caminho perdeu pontos de credibilidade junto à opinião pública e devem ter percebido isto porque á noite quase não havia mais vestígios deste tipo de discurso.

As entidades de Direitos Humanos; que tem sua parcela de culpa por conta de seu esforço para desmoralizar as forças de segurança, por conta de seu discurso antiquado e bitolado sobre segurança pública, e por desarmar o Estado de Direito na sua capacidade de defender-se; convocaram diversas manifestações pela paz. Deveriam, como naquela famosa piada de Garrincha, ter combinado com o PCC, afinal para falar em paz quando há uma guerra em andamento é necessário que os agressores estejam presentes. Também devem colher a perda de credibilidade e poder de mobilização por conta de ter ficado evidente o erro da sua política.

O grande desafio agora é começar a pensar de fato em uma política e um discurso de segurança pública com uma base realista, jogando fora de uma vez por todas aquele baú de frases feitas para o período militar e que não faz o menor sentido em um regime democrático. Fiquei contente em ver que este ponto de vista, foi expresso em um comentário da cientista política Lucia Hippolito na CBN, segundo li no blog do Noblat (http://noblat1.estadao.com.br/noblat/index.html).

Algo que vi pouco mas que é muito mais necessário neste momento é o apoio e solidariedade às forças de segurança, afinal são as polícias Civil e Militar que estão na frente de batalha desta guerra, portanto precisam e merecem sentir que na retaguarda contam com o apoio ativo e solidariedade por parte da sociedade. Mesmo agora que a situação, graças a Deus, começa a tranqüilizar-se, não se pode esquecer que há uma guerra em andamento, a qual só estará concluída quando a repetição de tais ataques não puder mais ocorrer com a mesma facilidade.

terça-feira, 16 maio, 2006 – 14:58

Não se trata câncer com argumentos

Só por este dia tumultuado, confuso e amedrontado em São Paulo já pude imaginar como deve ser terrível viver em um país em guerra, com este terror tornado cotidiano e ampliado diversas vezes. É mais do que suficiente para quem já é pacifista tornar-se ainda mais e para quem não é tanto assim começar a repensar em seus valores. Uma história que sempre conto quando falo de liderança é a do pugilista Muhammad ´Ali.

Na segunda metade dos anos sessenta perdeu título, fama, amigos (bom, a menos os falsos amigos) e quase perdeu a liberdade por recusar-se a responder ao alistamento, mesmo após ofertas generosas de acordo. Teve a coragem de ir contra a guerra do Vietnã em uma época na qual a maioria ainda a considerava patriótica e necessária e a sua objeção de consciência como um ato vil e covarde. Começou a luta praticamente sozinho, contra tudo e contra todos, mas quando a concluiu, vitorioso o país todo endossava sua aversão à guerra e ele voltava a ser um herói. Penso que a verdadeira liderança é esta, não a de ser líder às custas de ser um servo da opinião pública, dizendo apenas o óbvio, mas tendo a coragem de ousar desafiar a voz corrente.

É evidente que o verdadeiro líder não tenta impor esta sua vontade à força, caso no qual seria apenas um tirano sem valor. Resiste, teima, argumenta, persevera, tenta convencer até o momento no qual seu ponto de vista ser reconhecido pelos outros. Alguma hora, em algum momento – ainda que às vezes tarde demais – se a sua visão tiver valor será finalmente compreendida. Não tenho a pretensão de ter este papel, mas sinto necessidade de dizer algo a respeito deste caso de quase guerra civil que São Paulo vivencia nestes dias.

Faço esta longa introdução para dizer que a despeito de todo meu amor à paz sinto que ás vezes a hora é de lutar. De tanto se martelar discursos estereotipados sobre segurança pública, a maior parte reciclados desde a época do Regime Militar, talvez mesmo anteriores, praticamente não temos mais há tempos muito que dizer sobre o assunto a não ser repetir chavões. Enquanto o crime organizado se expandiu, se modernizou, espalhou seus tentáculos por aí continuamos a repetir a lengalenga que segurança pública é uma questão de combate à desigualdade social.

Falamos muito sobre Direitos Humanos, mas esquecemos que a própria Declaração dos Direitos Humanos diz que os artigos dela constante não podem ser usados contra os princípios dela. Até agora fomos nos desarmando em nome destes direitos, quem sabe achando que nossa atitude comoveria os gângsteres. Falar de qualquer cosia que significasse uma repressão firme ao crime organizado era ganhar um rótulo de direitista, de fascista. Enquanto sito a verdadeira barbárie, o verdadeiro fascismo, foi se armando e a cada vez mais colocando as garras para fora.

Esteve presente no episódio, por exemplo, a família dos presos do lado de fora dos presídios apedrejando a vigilância e em plena sintonia com os motins, comprovando algo que muitas vezes foi dita e rebatida com vigor. Estavam lá os 12 mil pesos beneficiados com o Indulto do Dia das Mães ajudando na articulação e na ação da grande quadrilha. Estavam lá os celulares e armas que sempre conseguem chegar aos presídios. Estava lá a perseguição aos policiais, até mesmo nas suas próprias casas. Não estavam lá, nos enterros dos policiais nenhuma das entidades de Direitos Humanos, como foi tantas vezes reclamado. Não estavam em lugar nenhum todos aqueles que reclamavam da truculência policial a qualquer ação firme da polícia (a questão tendo de ser discutida caso a caso, não transformada em panfletagem política).

Pela manhã a grande vítima do ataque da barbárie era o povo mais pobre, como sempre, e faço questão aqui de usar pobre ao invés destes eufemismos todos que na verdade insinuam que ser pobre é vergonha. Privados de ônibus, com medo, confusos, sem saber muito a quem apelar. Leio o comentário mais do que infeliz de que isto acontece porque não temos doutores o suficiente, vindo de alguém que por sinal sempre fez marketing da sua ignorância como prova de bondade e confiabilidade e quase deixo de lado os princípios e fico com muita raiva do sujeito.

A maior parte da população não teve condições de estudar e tornar-se doutor. Nem por isto sai por aí de metralhadora em punho assassinando policiais a sangue frio. Outros, felizmente muito menos, puderam estudar, tornaram doutores de porta de cadeia e servem de pombos-correio ou cosia pior para o crime organizado, outros freqüentaram as universidades como estudantes profissionais e acabaram fazendo parte do Mensalão. Penso no que há de cruel nesta visão de mundo de que as pessoas precisam ser subornadas com o acesso aos serviços públicos para não se tornarem marginais.

Muitos acharão que este é um raciocínio conservador, direitista, mas não penso assim, afinal o que há de mais nobre no pensamento de esquerda é a crença na bondade essencial do ser humano, esta é talvez a mais perene de todas as distinções possíveis entre esquerda e direita, que não é soterrada sob os muros ou serve a retóricas vazias. Certamente o crime organizado se aproveita dos vazios do Estado, tanto como os grupos extremistas do Oriente Médio, mas de nada agora que eles estão fortes e consolidados dizer que só resgatar a dignidade das pessoas dando a elas os seus direitos fundamentais vai resolver. Não se cura um câncer argumentando com ele ou fazendo uma dieta saudável depois que ele está implantado e pode ter certeza que não vai confortar nem um pouquinho o paciente falar que ele devia ter se preocupado com a saúde desde alguns anos.

É preciso, claro, pensar nos erros cometidos, refletir sobre os enganos, verificar onde se falhou, tomar medidas preventivas, mas antes é preciso extrair o câncer senão o paciente morre durante o seminário da junta médica. E eu acho que agora é essencial que a sociedade se una, faça com que a Polícia se sinta segura e legítima para agir com a dureza que a ocasião exige, antes que a metástase torne-se incontrolável contaminando as instituições e então nada mais poderá ser feito senão administrar doses de morfina e rezar.

segunda-feira, 15 maio, 2006 – 14:03

Mr. Slang e o Orkut

Eu confesso que pouco visito a maior parte das comunidades do Orkut que participo. A maior parte delas não conseguiu ainda encontrar um meio de comunicação e eu acho que o próprio veículo não é muito apropriado. Se eu fosse do Google sugeriria que a parte dos fóruns fosse linkada a algum tipo de lista de discussão, talvez por email, dando mais agilidade e facilidade ao processo de participação. Do ponto de vista técnico não é algo tão difícil e até eu que não sou nenhum expert em programação utilizo um sistema assim nos sites que gerencio.

Além da limitação técnica, precisa ter paciência para ir percorrendo as comunidades, postando mensagens, rezando para o servidor não dar pane e privar você dos donuts. Acho que pouca gente consegue realmente fazer isto a não ser que tenha realmente um grande interesse no assunto ou algum distúrbio psicológico que exige que ele faça qualquer esforço para chamar a atenção.

É evidente que as comunidades tem outra utilidade, que é a de se encontrar pessoas com interesses afins. Nem sempre funciona, visto que muitos inscrevem-se por algum tipo de impulso e as mais variadas motivações devem estar presente. Às vezes sinto-me frustrado comigo mesmo por minha lista de comunidades ser maior do que a de amigos – sinal que não fui capaz de fazer pelo menos um amigo novo a cada uma delas – mas também não tenho a menor intenção de adicionar alguém só para fazer número.

Ando muito com Monteiro Lobato na cabeça, em grande parte talvez por conta da Comunidade dele no Orkut, uma das poucas ás quais tenho conseguido dar uma atenção razoável e assim peço desculpas por voltar a falar dele nesta mesma semana. Relacionando este comentário com o que eu estava dizendo acima, lembrei de uma das conversas de Lobato com Mr. Slang – amigo inglês que é uma espécie de versão adulta da Emília – na qual o inglês diz que deveria haver no máximo uns 30 homens no sentido estrito do termo pelo país e uns 2000 pelo mundo todo.

Antes que as mulheres concordem com a frase esclareço rapidamente que o vocábulo se refere, nas palavras da Emília anglo-saxônica, a “unidade de força social construtora, elemento propulsivo, engenheiro do dia de amanhã”. Não é preciso dizer que está se referindo ao seres humanos – homens e mulheres – que fazem a diferença, que não são “burocratas da biologia” nas palavras de Lobato ou, como diria Pessoa, “cadáver adiado que procria”.

Também não tem nenhuma relação com o super-homem de Nietzsche (e só posto esta observação porque infelizmente o “profeta” alemão está na moda e eu acho uma moda mais do que perigosa), afinal uma das coisas que distingue estes homens é o amor pela humanidade, a disciplina moral, o desejo de progresso. Mas certamente tem muito a ver com a “minoria seleta” de que fala Ortega y Gasset (ouro autor que estou citando muito por conta da releitura recente que fiz de A Rebelião das Massas) quando discute quem manda no mundo.

Digo isto para lançar a pergunta: quantos seres humanos há no Orkut…

As estatísticas registram um monte, já vi comunidades com meio milhão de pessoas. Mas quantos realmente estão fazendo alguma diferença eu não saberia dizer. Ter um milhão de amigos para mim equivale a não ter nenhum, afinal é impossível no curso de uma vida dar toda a atenção que realmente justifique o nome de amigos a um milhão de pessoas.

sexta-feira, 12 maio, 2006 – 14:59

Mr. Slang e o Orkut

Aos meus amigos do Orkut

Eu confesso que pouco visito a maior parte das comunidades do Orkut que participo. A maior parte delas não conseguiu ainda encontrar um meio de comunicação e eu acho que o próprio veículo não é muito apropriado. Se eu fosse do Google sugeriria que a parte dos fóruns fosse linkada a algum tipo de lista de discussão, talvez por email, dando mais agilidade e facilidade ao processo de participação. Do ponto de vista técnico não é algo tão difícil e até eu que não sou nenhum expert em programação utilizo um sistema assim nos sites que gerencio.

Além da limitação técnica, precisa ter paciência para ir percorrendo as comunidades, postando mensagens, rezando para o servidor não dar pane e privar você dos donuts. Acho que pouca gente consegue realmente fazer isto a não ser que tenha realmente um grande interesse no assunto ou algum distúrbio psicológico que exige que ele faça qualquer esforço para chamar a atenção.

É evidente que as comunidades tem outra utilidade, que é a de se encontrar pessoas com interesses afins. Nem sempre funciona, visto que muitos inscrevem-se por algum tipo de impulso e as mais variadas motivações devem estar presente. Às vezes sinto-me frustrado comigo mesmo por minha lista de comunidades ser maior do que a de amigos – sinal que não fui capaz de fazer pelo menos um amigo novo a cada uma delas – mas também não tenho a menor intenção de adicionar alguém só para fazer número.

Ando muito com Monteiro Lobato na cabeça, em grande parte talvez por conta da Comunidade dele no Orkut, uma das poucas ás quais tenho conseguido dar uma atenção razoável e assim peço desculpas por voltar a falar dele nesta mesma semana. Relacionando este comentário com o que eu estava dizendo acima, lembrei de uma das conversas de Lobato com Mr. Slang – amigo inglês que é uma espécie de versão adulta da Emília – na qual o inglês diz que deveria haver no máximo uns 30 homens no sentido estrito do termo pelo país e uns 2000 pelo mundo todo.

Antes que as mulheres concordem com a frase esclareço rapidamente que o vocábulo se refere, nas palavras da Emília anglo-saxônica, a “unidade de força social construtora, elemento propulsivo, engenheiro do dia de amanhã”. Não é preciso dizer que está se referindo ao seres humanos – homens e mulheres – que fazem a diferença, que não são “burocratas da biologia” nas palavras de Lobato ou, como diria Pessoa, “cadáver adiado que procria”.

Também não tem nenhuma relação com o super-homem de Nietzsche (e só posto esta observação porque infelizmente o “profeta” alemão está na moda e eu acho uma moda mais do que perigosa), afinal uma das coisas que distingue estes homens é o amor pela humanidade, a disciplina moral, o desejo de progresso. Mas certamente tem muito a ver com a “minoria seleta” de que fala Ortega y Gasset (ouro autor que estou citando muito por conta da releitura recente que fiz de A Rebelião das Massas) quando discute quem manda no mundo.

Digo isto para lançar a pergunta: quantos seres humanos há no Orkut…

As estatísticas registram um monte, já vi comunidades com meio milhão de pessoas. Mas quantos realmente estão fazendo alguma diferença eu não saberia dizer. Ter um milhão de amigos para mim equivale a não ter nenhum, afinal é impossível no curso de uma vida dar toda a atenção que realmente justifique o nome de amigos a um milhão de pessoas.

sexta-feira, 12 maio, 2006 – 15:00

Passagens

Escrevo pouco hoje pela falta de tempo. Passei boa parte do dia hoje no triste compromisso de acompanhar um grande amigo no velório do pai dele. Digo triste – sem muita preocupação em estar repetindo um chavão ou lugar comom, nem tanto por conta de quem parte, mas principalmente por causa de quem fica por aqui, sofrendo com a ausência e a saudade.

Lembrei-me de vários livros que li falando sobre os inconvenientes da imoratalidade. O infinito tédios do Imortais retratados por Borges, nas quais se anula a humanidade e se perde o interesse pela vida; os decrépitos imortais de uma das ilhas visitadas por Gulliver descritos por Swift, o robô bicentenário de Asimov que quer morrer para assim atingir a plena condição humana; algumas reflexões de Garaudy sobre a necessidade da morte para que o homem seja solidário, pois ela permite que o homem supere o egoísmo e tenha planos mais ambiciosos e busque convencer os outros a compartilhá-los para que depis de sua morte as coisas continuam (infelizmente estou sem o livro à mão aqui); Uma bela passagem de Amin Maalouf em Leão, o Africano no qual um sheikh diz que sem amorte o homem não ousaria nunca proque se houvesse a menor possibildiade dele não morrer ele não correria riscos.

Claro que é muito mais fácil falar isto sendo o pai de outra pessoa, deve ter pensado o leitor, provavelmente com razão. Perdi diversos amigos, alguns parentes, três avõs, quatro tiosmas não tive nenhuma perda no meu círculo mais íntimo de familiares e amigos, então não estou certo como reagiria. De qualquer forma é mais difícil para quem fica, que tem de acostumar-se a viver sme aquela pessoa, para quem por longo tempo os atos da rotina se tornarão diversas vezes dolorosos por relembrarem quem partiu.

Há alguns meses li um daqueles bons raros livros de sociologia no qual o texto e o enfoque conseguem escapar do árido, para não dizer estéril, dialeto acadêmico falando sobre alguns rituais e crenças da França Medieval a respeito dos mortos. O aspecto central do livro é uma tese antropológica bem conhecida, a de que os rituais de exéquias são necessários para manter a separação simbólica entre o mundo dos vivos e dos mortos, mas o autor destaca as ocasiões ans quais este equilíbrio é desequilibrado e então surgem boas histórias. Delas eu destacaria a de que na épcoa a Igreja acreditava em fantasmas, talvez porque a principal função das aparições era intimidar herdeiros que não cumpriam as disposições testamentárias de legatários que doavam seus bens à Igreja.

Infelizmente hoje, como disse, estou com pouco tempo…

quinta-feira, 11 maio, 2006 – 20:52

Chaves de Lobato

Quantos assuntos eu teria para falar hoje por conta de conversar e trocar correspondências com os amigos e debater em algumas listas. Mas o tempo é curto e assim tenho de centrar-me em um só ponto. Das várias questões, então, escolho comentar o livro infantil de Monteiro Lobato, A Chave do Tamanho, talvez uma das mais radicais histórias dele. A idéia me surgiu depois de ver na Comunidade do Orkut dedicada a Monteiro Lobato (http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=367610) uma curiosa interpretação de que esta história seria devida ao fato de Lobato ser discípulo de Nietzsche. Aproveito o texto e o tempo também para finalmente fechar o comentário sobre Ortega y Gasset da semana passada que acabou ficando em aberto.

Em primeiro lugar se tomada em seu sentido literal a história está entre as mais atrozes da literatura não apenas infantil, mas de qualquer tipo ou gênero. Afinal no livro boa parte da população mundial morre quando tem seu tamanho reduzido e tal genocídio ainda se dá com requintes de crueldade, com pessoas morrendo devoradas por porcos, inclusive por Rabicó, sufocadas no meio das próprias roupas que não encolheram, atacadas por insetos, de fome ou susto. Emília, justamente a responsável pela hecatombe, diz em vários momentos que a humanidade ficou bem melhor com o novo tamanho e satisfeita com a limpeza dos menos adaptáveis e por pouco a humanidade não fica daquele tamanho minúsculo mesmo.

Que a intenção de tal história, mesmo que não fosse dirigida a crianças, deva ser vista literalmente e que o próprio Lobato – reconhecido humanista – realmente queria o extermínio de quase toda a raça humana é uma idéia que só podia mesmo passar pela cabeça de quem, como Hitler, admira Nietzsche. Não houvesse o risco de alguém estranhar o anacronismo e diriam que também Swift – o qual é referenciado inúmeras vezes em inúmeras obras e de quem Lobato era reconhecidamente admirador – baseou-se no profeta alemão para escrever Modesta Proposta para que os Filhos dos Pobres da Irlanda não Pesem sobre seus Pais ou sobre o Pais. Ironia e sátira, como as piadas, não se explicam, ou o interlocutor entende ou nem vale a pena manter diálogo.

Além desta questão do absurdo da interpretação literal para qualquer um que conheça a obra de Lobato há outros argumentos. Tentar filiar Lobato a qualquer “sistema” ou considero discípulo de qualquer pensador é um disparate saído de alguma torneira de asneiras, nem de si mesmo ele pode considerar-se discípulo porque não tinha a preocupação de ser coerente – e muitas vezes fala sobre isto. Se há alguma referência a Nietzsche na obra de Lobato, particularmente não me lembro, ela só pode ser discreta e, como pensador que rejeitava os sistemas, é possível achar referências aos mais variados pensadores.

Não deixaria de ser curioso que um adepto de Nietzsche vertesse obras de cientistas e pensadores humanistas, como Wells, para a literatura infantil, na qual se diz, pro exemplo, que a diferença entre os bandidos, piratas, saqueadores e os grandes guerreiros, tão ao gosto daqueles que admiram Nietzsche, é apenas uma questão da quantidade pilhada. Se há um personagem “nietzschiano” em Lobato é o Elias Turco, citado várias vezes como exemplo do uso da força bruta, da violência, da falta de moral.

Igualmente não sei de onde se concluiu que Emília é amoral, algum protótipo de super-boneca. Para mim ao menos parece bem claro que a falta de limitações de Emília deve-se a ela considerar as regras existentes inadequadas para as finalidades. Ela comete erros, engana e oprime diversos outros personagens, em particular o Visconde, mas faz isto pelo ímpeto do que é novo e certamente não é algo que fica “recomendado” na obra. Ela é em grande parte a personificação do capitalismo selvagem e modernizante que vai se expandindo e controlando as coisas, uma boneca-de-negócios ao melhor estilo dos bussinesman americanos.

Também é fato mais do que notório a postura pacifista de Lobato e toda a preocupação que há na sua obra, ainda mais na infantil, em criar aquilo que hoje se chama de “Cultura da Paz”. Para não falar que Lobato era amante da democracia sim, apenas considerava que democracia de verdade não era, no Brasil, mais do que uma rosa artificial de papel que copiava modelos corretos da democracia parlamentar européia sem ter a mesma base histórica e solidez daqueles, tornando-se portanto apenas um simulacro de democracia, na qual as pessoas não são eleitas por seus méritos, sabedoria e reconhecimento público – para utilizar o conceito que ousei nos outros posts, sem ter Autoridade. Entravam, isto sim, “por debaixo da lona como os garotos no circo”.

Criada as condições de educação, cultura, saneamento básico, cuidados de saúde então existiram as condições para fazer com que as eleições não fossem mais um “índice de papeluchos jogados num recipiente por uma plebe ignara”. A dificuldade, portanto, está nas condições do povo e na incapacidade e ilegitimidade dos dirigentes, jamais em alguma teoria heróica. É verdade que há até elogios a Primo de Rivera no mesmo texto, mas como uma reação necessária às forças que impediam a modernização.

É nesta questão da modernização, da industrialização, da necessidade de adaptar as instituições a um novo mundo que está surgindo que está, no meu entendimento, a chave da Chave do Tamanho. Em um mundo no qual as mudanças desencadeadas pelas forças empreendedoras são rápidas e drásticas ou o Brasil se modernizava ou se extinguiria. Evidente que cada um pode fazer a leitura que quiser, inclusive eu.

quarta-feira, 10 maio, 2006 – 15:03

Arqueologia pessoal

Arqueologia pessoal

Acho que este é o primeiro post que tem realmente cara de blog, os demais devem ser algo como blog daquele personagem de Hesse que vive cercado por uma muralha de livros. Mas não é uma “mudança de linha editorial”, apenas uma variação aleatória…

Procurando alguma outra coisa encontrei o fotolog de uma antiga colega de escola, lá daquela época na pré-história que morava em São Carlos, estudava no Álvaro Guião, mais conhecido como “Instituto” e era adolescente – ou seja, estava ferrado. Não tenho nenhuma saudade da minha adolescência, nem de São Carlos e muito menos do “Instituto” – aliás até hoje tenho um pesadelo recorrente de que por algum problema burocrico sou obrigado a volar a estudar lá, o que talvez indique que há alguns traumas não superados. Mas tenho saudades de alguns poucos amigos e colegas com os quais convivi talvez menos do que deveria.

Então tive a idéia de vasculhar os artefatos do meu passado e fazer uma arqueologia pessoal tentando encontrar velhos colegas e amigos. Não tive muito sucesso com os colegas de escola, encontrei apenas alguns poucos, mas chegando a uma época nem tão antiga assim encontrei vários colegas de trabalho e grandes amigos que não via há tempos, em especial da época do jornal Primeira Página.

Também aproveitei para encontrar os parentes queridos, como a minha irmã e a minha prima, que por sinal casou-se neste sábado passado.

Mesmo sempre tendo sido entusiasta da tecnologia e da Internet desde a idade do chip lascado até eu fiquei surpreso com a facilidade de encontrar pessoas que há séculos não via e com a rapidez das respostas que recebi. Até achei que devo me dedicar mais a minha conta do Orkut, que criei há meses mas nunca dei muita bola.

terça-feira, 9 maio, 2006 – 12:24

Eminências podres

Eminências podres

Leio na crônica de Cony hoje na Folha i a frase de que “Todos os petistas envolvidos no esquema de corrupção, lá atrás, nos começos das militâncias, foram idealistas, (…)Tudo boa gente, disposta a sacrificar a própria vida pelo ideal de justiça social e pela ética na vida pública”. Mesmo sem levar em conta a hipérbole da afirmação, gentileza que o cronista faz para ressaltar o argumento, há algo de mais preocupante naqueles cujo amor por uma idéia é tão grande que não há obstáculos que não julguem-se no direito de transpor.

O grande protótipo deste tipo de personagem é o Padre José, chanceler de Richelieu, retratado de forma brilhante em “Eminência Parda” de Aldous Huxley. Na defesa dos interesses da França e Fé Católica o padre José disseminou o horror, a fome, a guerra pela Europa, em particular através da Guerra dos Trinta Anos. É sem dúvida o tipo de coisa que aqueles que tem uma fé cega, que acham que qualquer meio se justifica em nome da causa – sempre lembrando que o infeliz maquiavel levou indevidamente a fama por este conceito dos meios justificarem os fins – costumam fazer, muitas vezes sem pensar na conseqüência.

Cony, e a maioria dos analistas, vê na crise atual algum tipo de desvio de percurso, de perda de valores. Penso o contrário, os métodos, mesmo os mais espúrios, foram a conseqüência lógica de um determinado modo de ver o mundo que sobrepõe a tudo uma determinada causa. Se houve desvios foi apenas daqueles que deslumbraram-se pelo luxo, pela boa vida, é de se temer mais aqueles que como o Padre José tem disciplina férrea em sua vida pessoal e são mais rigorosos consigo do que com qualquer outro, porque para estes não haverá nenhum obstáculo – físico, político ou moral – que os impedirá de semear a iniqüidade e ceifar os adversários.

O contraponto da Eminência Parda, o padre Urbano Grandier, pode ser encontrado em outro romance histórico de Huxley – Os demônios de Loudon – outro aristocrata de muito talento, mas vítima de suas paixões e falta de disciplina. Grandier talvez participasse das orgias na Mansão do Lago, aceitasse caros veículos importados como presente, não chegaria a encher a cueca de moedas – ação vulgar demais até para os vis – mas se divertiria com os sinais exteriores de riqueza. O Padre José não, mesmo quando obrigado a mudar-se para Versalhes a pedido de Richelieu, que o queria por perto para qualquer consulta de emergência, transformou o apartamento que lhe foi destinado em uma cópia de sua cela no Convento dos Capuchinhos.

Temos certa tendência, quase natural, a revoltarmos contra os Grandiers e admirarmos os Josés. A opulência vindo de fontes excusas dos Urbanos nos choca, talvez porque também no fundo gostaríamos de estar no lugar deles. Mas é justamente por serem escravos de suas paixões não são tão perigosos e caem por si ou levam à ruína o regime que apoiam já que o gosto pelo luxo custa curo e exige sempre mais impostos – em um processo que ninguém ainda descreveu melhor do que Ibn Khaldun. Mas os padres Josés espalham a destruição, embelezando-a como a construção de um novo mundo e muitas vezes se esquece que também Hitler era vegetariano, moderado em todos os outros apetites que não o de sangue e poder.

Admiramos aqueles cujo desprendimento demonstra disciplina porque sabemos que são seres feitos de outra têmpera que não a dos mortais comuns. Às vezes, quase sempre diria, esta disciplina está a serviço de uma obsessão à causa – qualquer que seja ela – que se transforma na cegueira que faz com que não se veja outra cosida senão o fim último desejado. Nada é mais perigoso do que este tipo de sentimento porque não há nele nenhum tipo de freio, é disto que são feitas as ditaduras, os conflitos mais terríveis, os regimes mais terríveis, os homens mais cruéis.

Mais perigosos são aqueles que até mesmo da vaidade de estarem eles no poder estão livres, tanto que o apelido dado ao nosso protótipo deste tipo de personagem – eminência parda – tornou-se um sinônimo daquele que se move por detrás das cortinas, tomando de fato as decisões que outros representam no palco. Curiosamente também se verá muito comumente que é um personagem associado a algum tipo de vivência espiritual, como no caso de Huxley e muitos outros, ou em algum modelo que tenta copiar alguns destes métodos de auto-controle, observação minuciosa, planejamento detalhado.

Com todos os defeitos que a democracia possa ter – e certamente tem muitos – só ela é capaz de lidar de forma satisfatória com este tipo de obsessão, pois ao dispersar o poder de decisão torna mais difícil o acesso e mais improvável a manutenção de algum destes loucos no controle. Qualquer outro regime ou método de escolha dos líderes sempre gerará mais oportunidades. Resta-nos a esperança de acreditar, como maquiavel, que o povo pode se enganar nas questões particulares, mas acerta nas gerais. Claro que a chance de se evitar os danos é maior quanto mais difuso estiver o poder de decisão pela sociedade e pelo Estado.

segunda-feira, 8 maio, 2006 – 13:20

Poder e Autoridade

Poder e autoridade

“A Massa esmaga todo o diferente, egrégio, individual, qualificado e seleto. Quem não seja como todo mundo, quem não pense como todo mundo, corre o risco de ser eliminado” (Ortega y Gasset, A Rebelião das massas)

Dizia ontem que um dos maiores mal entendidos em relação à questão das “elites” é a confusão entre Estado e Sociedade, o qual por sua vez leva a se confundir a noção de elite com as múltiplas oligarquias que tem usurpado o poder ao longo da história em nome de algum tipo de pretensa legitimação aristocrática. Certamente este abuso do conceito de elite tem grande parte da culpa pela degradação que hoje transforma o termo em ofensa, tanto quanto certa aversão e desconfiança da massa àquilo que não se conforma a seus gostos.

O sentido original de elite é o da fração especializada, seleta, de um grupo e todas as comunidades, por mais vulgares que sejam, sempre tem uma “minoria seleta”. A Aristocracia, em seu emprego original, era a defesa de que aos melhores da sociedade deveria ser entregue a pesada e severa responsabilidade de governar. É neste sentido que praticamente todos os filósofos gregos são inimigos da democracia e defensores da aristocracia.

Sócrates sempre destacava que era necessário preparar-se para comandar um cavalo, mas não um povo, Platão idealizou uma sociedade ideal governada por uma elite austera duramente selecionada e diariamente provada, Aristóteles considerou a aristocracia como a melhor forma de governo. É necessário dizer que se há um grande responsável pela degradação e desmoralização do conceito sempre foram aqueles que transformaram aquilo que era um dever de mérito em um privilégio de nascença, desde a Grécia clássica até os tempos de hoje.

Penso que Tocqueville foi o primeiro a dizer que o espaço político ocupado pelas aristocracias, “cujos privilégios a tornaram odiosa”, precisava ser preenchido ou se teria um Estado Tirãnico e absoluto. Ele via, já no inicio do Século XIX, na sociedade civil organizada o mais promissor substituto de uma força que detinha autoridade por si mesma e portanto poderia enfrentar o Estado a condição essencial para a defesa da liberdade. Mas outro dia comento melhor isto.

Interessa agora mais discutir outra coisa, que é a distinção entre dois conceitos fundamentais para se compreender esta questão das elites: Poder e Autoridade, normalmente confundidos. Se fosse preciso distingui-lo em uma única questão diria que o Poder é algo atribuído a alguém ou a um grupo, enquanto a autoridade reside em si própria, nos méritos de quem a detém.

Certamente quem detém a Autoridade – por conta de seus méritos, qualificações, disciplina, enfim, por algum motivo que o distingua da massa, pode e em geral tem algum poder. Já a posse do Poder, ainda mais nestes tempos de hoje, não dá a ninguém alguma autoridade, podendo até em geral retirá-la na medida que o exercício do poder sempre revela o que de mais profundo existe no espírito. Nenhum exemplo talvez possa ser melhor do que a recente passagem pelo poder de Lula e do PT, no qual toda a autoridade moral como defensores da ética, acumulado em duas décadas, dissolveu-se nos escândalos do exercício do Poder.

Também coisa similar ocorreu com as diversas “elites” – no sentido e com a conotação que o termo tem hoje, de simplesmente um grupo que detém o poder e não dos melhores – as quais por conta de seu egoísmo, ignorância, arrogância, privilégios, conseguiram tornar odioso ao termo e transformar idéias como as de aristocracia, nobreza, como sinônimo de corrupção, degeneração, putrefação. É mais que evidente que as qualidades que dão a autoridade não se transmitem pelo DNA, pelo contrário, em geral a transmissão hereditária do Poder, ao invés da seleção pelos méritos, causa uma degeneração rápida de qualquer qualidade porque retira do beneficiado a necessidade de aprimorar-se e competir para ocupar a posição de destaque. Desta degenerescência à transformação daquilo que era dever em um privilégio oligárquico é apenas um pequeno passo e assim qualquer nobreza hereditária, monarquia, oligarquia, pretensão de superioridade pelo sangue ou nascimento só pode ser estúpida e ser defendida pro estúpidos ainda maiores que através destes argumentos falaciosos buscam ocupar uma posição para a qual não estão qualificados por suas qualidades.

Assim penso que só a Democracia oferece o ambiente adequado de competição que promova a seleção natural das lideranças realmente aptas. A dificuldade disto é apenas ser capaz de dar à democracia a objetividade necessária para julgar aqueles que tem autoridade suficiente para exercer o poder.

Aos verdadeiramente dotados de mérito a aversão da massa ao “seleto” não é um obstáculo, mas um desafio e uma prova de sua Autoridade. Por mais problemas que esta aversão represente – e neste sentido me sinto oposto ao de Ortega y Gasset – a capacidade de lutar apesar dela é um filtro muito mais apropriado do que qualquer outro que a história registrou.

Boa noite e até amanhã, quando espero ser capaz de concluir este texto.

quinta-feira, 27 abril, 2006 – 18:01

A Aversão às elites

A aversão às elites

“Eu não disse nunca que a sociedade humana deve ser aristocrática, senão muito mais do que isto. Já disse e sigo crendo, cada dia com mais enérgica convicção, que a sociedade humana é aristocrática sempre, queira ou não, pela sua própria essência” (Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas)

Descobri com muita satisfação o pensamento do filósofo conservador espanhol do início do século XX Ortega y Gasset. Avesso a sistemas que de forma mais ou menos aleatória tentam classificar as idéias em boas ou ruins costumo ler coisas diversas para formar meu próprio juízo a respeito e sem dúvida qualquer coisa bem escrita merece ser lida de mente aberta. Mas no caso específico de Ortega y Gasset o autor conseguiu superar a mera barreira da curiosidade interessante e ao menos em algum grau foi capaz de convencer-me e despertar algumas identidades com meu ponto de vista.

Ao contrário daquela outra vertente conservadora representada por Nietzche – a qual vem se tornando popular nos últimos tempos – Ortega y Gasset frisa sobretudo a superioridade da disciplina moral das verdadeiras elites.

Talvez seja por isto que enquanto o pensador alemão jamais atingiu a elite, mas pelo contrário só encontra adeptos no seu oposto, na escória, em todos aqueles que sem a qualidade para liderar tentam impor-se pela força ou aparente desprezo pela massa que não os aceitou, o pensador espanhol só consiga partidários de fato em círculos cada vez menores. O primeiro falava ao lompesinato – como o monte de vagabundos que formava o corpo principal das tropas de choque do partido nazista e o cabo que os liderava – enquanto o segundo fala a um tipo de aristocracia – no sentido original e estrito do termo – que cada vez tem menos condições de existir.

Para evitar mal entendidos é preciso ser preciso na caracterização de elite e aristocracia, termos que chegaram ao ponto de se tornarem pejorativos pelo lado dos que criticam o que estas distinções representam e distorcidos até o grotesco por aqueles que dizem defendê-los. O próprio Gasset deixa bem claro que quando fala de aristocracia não está se referindo à nobreza de aparência e privilégio na qual só restava de verdadeiramente aristocrático “ a graça digna com que sabiam receber em seus pescoços a guilhotina” e cujo grande símbolo que era Versalhes era apenas “a morte e a putrefação de uma magnífica aristocracia”. Também distingue Ortega y Gasset com furor alguma confusão entre o seu conceito de elite do grupo que chama a si mesmo de sociedade e “não se parece em nada” com a verdadeira aristocracia”. Esta mediocridade “que vive simplesmente de convidar-se ou não convidar-se”, fazendo a felicidade de todos os gigolôs da vaidade alheia que proliferam na TV.

A distinção entre elite e massa na visão de Gasset não é portanto, para que fique bem claro, de classe social. Pelo contrário ele destaca justamente que grupos sociais que no passado eram predominantemente de elite pro conta de sua tradição seletiva, na época dele (o livro Rebelião das massas foi escrito em 1933), tornaram-se refúgio dos inqualificáveis e desqualificado, citando expressamente o meio intelectual e os sobreviventes da nobreza. Ao mesmo tempo destaca que “não é raro encontrar hoje entre os operários espíritos egregiamente disciplinados”.

Outra distinção essencial feita por ele, e sobre a qual me prolongo porque é a partir deste ponto que chego a conseguir aceitar Ortega y Gasset é que numa advertência à frase que serve de epígrafe a este texto é que ele se refere sempre à sociedade e não do Estado. Esta distinção é mais do que fundamental, porque todas as tentativas de associar algum tipo de elite automática a qual se entrega o poder costuma resultar em degeneração, estagnação ou desastres variados.

Bom, amanhã discuto esta questão. Boa noite a todos.

quarta-feira, 26 abril, 2006 – 18:56

A Aposta da inconsciência

A aposta na inconsciência

A enorme pizza servida como desfecho da crise política no lugar da grande reforma política com a qual os otimistas sonharam quando os fatos começaram a surgir é muito mais que descarada impunidade, muito maior do que mero desafio à opinião pública. Ela é, sobretudo, a aposta de alguns políticos, especialmente do PT, na inconsciência do cidadão.

Um dos cálculos envolvidos nesta aposta é a alta probabilidade de ter mais valor uma boa estrutura de campanha com recursos materiais – de algum dos valeriodutos disponíveis – que uma boa imagem pública. Sem dúvida todos aqueles cujas imagens aparecem à opinião público ostentando sua vileza e infâmia aguardam algum tipo de compensação por parte daquilo que foi defendido, até porque pensar o contrário seria imaginá-los ingênuos.

Grosso modo, é bem possível que o sistema perverso de transformação do Estado em máquina política e financeira não seja desmantelado pelos escândalos. Pelo contrário a própria máquina deve girar mais um dente da sua engrenagem e avançar no seu processo de esmigalhamento de consciências para produzir meios de acesso ao poder.

A despeito de qualquer coisa que se diga dos políticos, é preciso dizer que ao menos a grande maioria deles entra no “jogo político” movido por algum tipo de preocupação idealista. O problema é que p caminho até o poder é tão árduo, às vezes o reconhecimento é tão limitado, o que pode ser feito tão parco que a tentação de pegar alguns atalhos que pavimentem o caminho, promovam as ações mesmo quando são irrelevantes. Neste atalho em geral perde-se a noção do destino da viagem, do fim que se busca. Para repetir a expressão que se tornou chavão nas análises dos últimos anos, mas sobre a qual ainda vale a pena refletir, os meios tornaram-se um fim em si mesmo.

Esta percepção de que o atalho vale a pena porque facilita o acesso e manutenção no poder, mesmo ao custo do sacrifício da própria consciência não será mudado em definitivo e integralmente por nenhuma Reforma Política, nenhuma medida mágica, nenhum salvador da pátria. Ela só pode ser mudada a sério através do centro de decisão que move todo o mecanismo: o eleitor.

É evidente que mudanças na legislação podem colaborar, aumento da fiscalização para fazer com que a lei seja cumprida também, o atual descrédito do “marketing político” – termo por si só contraditório – e avanço ainda mais promissor enfim, uma Reforma Política é um passo salutar, mas não suficiente. A solução definitiva vem do avanço na consciência do eleitor, do aperfeiçoamento da racionalidade do voto, do estudo e reflexão sobre os candidatos, da superação final do deslumbramento ou ofuscamento pela pirotecnia dos marqueteiros.

Um primeiro passo diz respeito justamente aos mais indignados. Não há dúvida que entra no cálculo daqueles que optam pela infâmia remunerada o fato dos mais enojados com os resultados da podridão do sistema tendem não a lutar para mudá-lo, mas expressar sua raiva através de inútil voto nulo ou branco. Tanto entre neste cálculo que o principal esforço daqueles pegos chafurdando na lama tem sido atacar todo o resto para consolidar a imagem que todos são iguais. Anular o voto, por mais que esta tentação se torne cada vez mais forte, não é um protesto, mas um endosso da estratégia dos mais cínicos dentre os ladrões.

Uma segunda tarefa seria descartar todos aqueles que fazem campanhas caras, que enchem as ruas de placas, faixas, cabos eleitorais, carros, muros, é mais que evidente que o dinheiro que paga isto vem de algum lugar. Quanto maior visibilidade o candidato tem maior a probabilidade dele já ter tomado o atalho de algum valerioduto. A consagração do conceito de que uma campanha vistosa é ou pode vir a ser uma campanha corrupta é parte da salvação da política nacional e quem quer que vote em candidatos “vistosos” está pedindo para ser roubado, portanto merece ter maus políticos, visto sua falta de discernimento.

Outro aspecto diretamente relacionado ao anterior é que a multiplicação do visual, portanto do apelo emocional para votar no fulano ou no beltrano, é sempre uma negação do racional, da argumentação, enfim daquilo que legitimamente faz parte do processo de decisão política. É por esta contradição entre a razão que deveria guiar a decisão eleitoral e as tenativas de conquistar o voto através de apelos emocinais e irracionais que disse acima que o termo “marketing eleitoral” é uma aberração e um paradoxo. Ou a decisão é política – portanto racional e voltada ao interesse público – ou é motivada por alguma outra coisa.

Haverá tempo para mudar isto nestas eleições? É difícil saber, porque há pouco tempo, mas também há uma insatisfação como nunca houve, agravada pelas afrontas dos mensaleiros e seus defensores. Mas só o eleitor poderá dizer se foi correta a aposta feita pelos vis – garantindo recursos para a campanha em detrimento da imagem pública – ou se o descaramento levado a extremo será capaz de gerar uma reação positiva.

segunda-feira, 24 abril, 2006 – 12:27

O autoritarismo das Utopias

O autoritarismo das Utopias

Alexandre Gomes

“Seja quais forem as suas qualidades artísticas e filosóficas, um livro sobre o futuro só nos pode interessar na medida que suas profecias nos pareçam originariamente capazes de virem a realizar-se” (Huxley, Prefácio do Admirável Mundo Novo)

Pode passar despercebido à maioria dos leitores, mas o horrível cenário do Admirável Mundo Novo não é senão em parte criação de Huxley. A estrutura fundamental do Brave New World – e boa parte de seu conteúdo – não vem do escritor inglês, mas da sociedade desejada por Platão na sua República.

A única diferença substancial é que Huxley escreveu Brave New World como uma crítica feroz, enquanto Platão escreveu sua República pensando num modelo ideal de sociedade. Mas ambos se encontram no fato de que a sociedade do livro de Huxley seria apontada por Platão como o mais próximo que se poderia chegar do seu modelo de sociedade.

No livro de Huxley é evidente o caráter autoritário da sociedade, no de Platão ele disfarça-se como um controle da sociedade pelos melhores do povo, que revelaram talentos inatos e capacidade de aprendizagem. Mas em ambos se exerce um domínio absoluto sobre a sociedade, eliminam-se as fronteiras entre o público e o privado, estabelece-se funções bem definidas para todos, limita-se a função de pensar a um grupo de eleitos.

É evidente que nos dois autores o método de escolha deste mínima elite pensante é diferente, mas nem tanto. Para Platão a decisão sobre quem comporia a “classe guardiã” seria definida dando-se a todos as mesmas oportunidades e escolhendo os de melhor desempenho. Para Huxley se limita a capacidade de pensar dando-se total capacidade mental para uns poucos.

A legitimação, contudo é a mesma, o mesmo velho discurso sobre a necessidade de se dividir as diferentes funções na sociedade e sobre a importância dos melhores comandarem. Ademais em ambas a religião – essencialmente comunitária – tem a mesma função de fazer os espíritos se conformarem com o destino que lhes é imposto e é utilizada de forma cínica. Platão não tem um equivalente ao soma, mas certamente aprovaria mais este método de livrar o homem das paixões e desejos.

Não se esquecendo que Platão era adepto radical da eugenia, portanto mesmo que ele não fale de castas – e de certa forma seja avesso à idéia por defender oportunidades iguais para todos – a radical seleção no nascimento não seria tão distante do mundo pensado pelo filósofo grego. Além do que, note-se a semelhança, nos dois mundos não existem mais, filhos, esposas – aliás nada mais parecido com a “comunidade de esposas” do modelo platônico que os relacionamentos essencialmente temporários do Mundo de Huxley.

Que as semelhanças notáveis entre os dois jamais confundam o leitor: os dois livros tem o objetivo exatamente inverso. Platão na República proclama como a sociedade deveria ser para tentar torná-la possível um dia; Huxley imagina como a sociedade poderia ser para tentar evitar que ela um dia chegue a acontecer.

Teria Huxley imaginado o Brave New World ao ler Platão? Não há qualquer referência que legitime esta idéia, mas as similaridades são muitas para se imaginar que não há relação entre os dois. Talvez ela seja indireta, através da Utopia de Morus que é tributária em larga escala de Platão – só que neste caso visto de um ângulo favorável que produz, igualmente um mundo terrível sem liberdades e vida privada.

Falar em Utopia voltou à moda depois do fracasso do “Socialismo Real” se tornar muito evidente para ser negado até pelos mais fanáticos. Naufragadas as presunções de um socialismo que “tinha de vir” porque assim estava cientificamente determinado pelo “Materialismo Histórico” – pintado como a única Ciência Social e ornado com hieráticos dogmas teológicos – buscou-se o refúgio em se resgatar a Socialismo como uma Utopia – idéia que fermentou até em mentes sérias e brilhantes como a de Florestan Fernandes.

Há muito tanto de Platão como de Huxley nesta concepção. Por detrás dela há o projeto de impor à sociedade um modelo pensado por alguma mente fantástica, pouco preocupada não só com a individualidade dos cidadãos desta Utopia como com as abstrações que forem necessárias à sua implementação. Incapazes de dar todas as respostas aos anseios humanos simplesmente se suprime estas vontades rebeldes – pelo convencimento ou pelo soma e, sempre, mais cedo ou mais tarde pela violência.

Platão nos diz como este projeto deve ser pensado, Huxley nos diz como ele termina. Um é a teoria deste projeto, outro a prática. Toda Utopia, percebeu Huxley, é a tentativa de impor aos homens o desejo de alguém ou de algum grupo ao invés de confiar na sabedoria dos próprios homens.

O Brave New World como a República platônica e a Utopia de Morus é uma sociedade estagnada, não por acaso ou por alguma contingência, mas sobretudo porque são sociedades cuja concepção e realização exclui o movimento. Em Platão e Morus esta supressão dos antagonismos é um desejo inconsciente, uma deficiência da visão de mundo dos autores, já em Huxley é um projeto proposital dos governantes. Felizmente o movimento é algo tõa natural na sociedade, como na natureza, que não será a vontade de algum pensador que será capaz de suprimi-lo.

segunda-feira, 17 abril, 2006 – 10:10

Casa de Chá

É raro que eu me expresse através da poesia, algumas vezes, contudo, acontece. Não acho que o resultado seja de grande qualidade porque certamente é uma linguagem que não domino com perfeição. Não deixa de ser curioso que eu escreva artigos sob uma inspiração que beira o êxtase em alguns poucos minutos, mas fique horas tentando costurar alguns versinhos. Parece-me que o processo natural deveria ser justamente o inverso, mas enfim é a única forma que sei fazer e assim os resultados são estes poemas medíocres, ainda que talvez ainda capazes de dar algum prazer a quem se arriscar a lê-los.

terça-feira, 28 fevereiro, 2006 – 17:56

A Aniquilação

A aniquilação

Alexandre Gomes

“As opiniões dos homens sobre Deus surgem apenas na imaginação deles; e é absurdo tentar deduzir alguma coisa do que dizem: bem ou mal eles o disseram de si mesmos” ( Farid Attar, Mantiq ut-tair)

O homem sempre tentou entender a natureza da divindade, mas ao refletir sobre isto está condenado a limitar esta compreensão ao seu próprio universo de idéias e símbolos e portanto condenado ao fracasso. Aliás o termo refletir parece ser mais do que adequado porque em praticamente todos os casos o homem pensa ter visto Deus quando na verdade vê apenas o reflexo de si mesmo, de seus valores, paixões e personalidade.

Um conhecido texto sufi diz que Deus é como um espelho que partiu-se em milhares de pedaços e caiu sobre a terra, cada homem ao examinar a parte do espelho que encontrou olha para ele e diz: É Deus.

Numa simplificação extrema tal percepção gerou o panteísmo – a noção de uma unidade intrínseca de todos os homens entre si e entre eles e a divindade – que certamente é uma das idéias mais estranhas já produzidas pela filosofia. Não estranha naquele sentido mencionado por Swift – que por sua vez baseou-se nos romanos – de que qualquer idéia por mais estapafúrdia que fosse seria capaz de encontrar algum filósofo que a defendesse, mas estranha justamente porque não pode ser provado ou tampouco refutada em definitivo.

A noção que o conjunto da espécie humana forma um todo superior às partes produziu tanto belas páginas da literatura como os regimes totalitários – que essencialmente baseiam-se no ponto de vista que o todo deve controlar as partes e estas devem se submeter àqueles que se legitimam dizendo representar o todo. Mas o panteísmo é mais radical do que isto na medida que estabelece um laço direto entre todos os homens e a divindade no qual a percepção da diversidade não é nada mais que uma ilusão.

Por esta noção o verdadeiro objetivo do homem seria alcançar esta unidade, o que implica – para os adeptos mais radicais do panteísmo como o polêmico filósofo medieval Ibn Arabi – na aniquilação da individualidade aparente para eliminar os obstáculos que impedem a integração na realidade da Unidade.

Para além deste misticismo de boutique que anda na moda – e que na verdade não só Não é misticismo como é a própria negação do conhecimento esotérico: a superstição – as mais variadas correntes místicas tem, de uma forma ou de outra, apresentado variações sobre este mesmo tema. As variantes em geral referem-se ou ao caminho para se chegar a esta unidade ou ao grau de aniquilação do indivíduo para que se chegue à Unidade, mas não raro usam as mesmas metáforas.

Borges, sempre impressionado com metáforas e idéias estranhas, dedica um dos textos do seu Outras Inquisições, a uma delas: a esfera de Pascal. Traçando a genealogia da descrição de Deus como uma esfera cujo centro está em todas as partes e o centro em nenhuma. A Noção original parece ter vindo de Platão, mas ela só ganha forma consistente no pensamento ocidental no Século XII. Quase quatro séculos antes a poetisa muçulmana Rabi’a, contudo, já usava a mesma imagem em um verso: “Eu sou a Realidade do mundo, o centro e a circunferência, sou suas partes e o todo” e mais adiante: “É por Meu olho que tu Me vês e tu te vês, não por teu olho poderás Me conceber”.

Em artigo recente comentei uma das últimas encarnações desta metáfora, o filme Matrix, tão pouco compreendido por aqueles que julgaram tratar-se apenas de mais um filme de ação e ficção científica. Um dos avatares mais conhecidos da mesma metáfora panteísta: o mantiq ut-tair (conferência dos pássaros) do poeta persa do século XII Farid Attar.

O texto é personagem frequente dos textos de Borges que chega a esboçar alguns contos vagamente inspirados nele como a falsa resenha “a aproximação a Almotasin” ou o curioso texto “as ruínas circulares”.

A história é simples, uma pena do simurgh cai no centro da China e os pássaros – que naquela ocasião procuravam um rei – concluem que o dono de tão esplendida pena deveria reinar sobre eles. É evidente aqui a assimilação entre uma única pena e o tanto que os homens são capazes de conhecer da divindade, ainda assim o suficiente para que A admirem.

Inicia-se então uma expedição destinada a encontrar o Simurgh para tentar convencê-lo a reinar sobre eles. A longa jornada enfrenta adversidade e ao traspassar sete abismos – o último dos quais se chama justamente aniquilação – só restam 30 pássaros. Descobrem eles então que o Simurgh não é outro pássaro senão eles mesmos, mas este aprendizado só veio aos que tiveram a coragem de enfrentar os perigos da senda e a aniquilação.

segunda-feira, 2 maio, 2005 – 06:03

O que é um Líder?

O que é um Líder?

Alexandre Gomes

As pesquisas de opinião surgiram na melhor das intenções como um instrumento auxiliar da formulação de políticas, definição de estratégias e concretização dos potenciais de liderança. Mas enganos comuns – provocados por ausência de personalidade ou excesso de demagogia – perverteram seu sentido original de “saber como a população pensa para saber que rumo tomar” para um amorfo “vamos dizer o que eles querem ouvir”.

A chamada “opinião pública” é algo muito recente na história da humanidade, no máximo remontando à revolução francesa. Talvez por isto ela tenha sido negligenciada pelos mais diversos filósofos que pensaram no que deveria ser a democracia. Quando a descobriram imaginaram-na como um dos pilares do Estado Democrático, uma força maior capaz de vigiar e dirigir os detentores do poder, mas logo se viu que esta uma ilusão ingênua.

Ao pretensamente “materializar” a opinião pública as pesquisas passaram a levar aos líderes a volatilidade de opiniões e a ausência de perspectivas menos imediatistas diretamente às lideranças políticas. Com isto destruíram estas lideranças que ou deixaram de ser verdadeiros líderes pois pararam de decidir quais eram os caminhos a tomar ou passaram a se tornar líderes demagógicos que só falam aquilo que interessa à massa.

Mercador de esperanças

O líder não é aquele que faz o que esperam dele, mas sim aquele que é capaz de convencer a sociedade que aquilo que ele pode fazer é o que deve ser feito. Napoleão disse que o líder é um “mercador de esperanças” e neste papel está implícito a idéia de convencer a sociedade de seus projetos. Não é possível construir qualquer coisa concreta sobre o castelo de areia da “opinião pública” porque hoje ela quer uma coisa, amanhã outra e não se preocupa com o futuro a não ser de uma forma muito vaga.

Isto não significa que a “Opinião Pública” não deva ser levada em consideração, ou que não tenha nenhum valor, apenas que não é suficiente para levar qualquer sociedade para algum lugar. O verdadeiro líder é capaz de identificar o que a população pensa tanto quanto de estabelecer um projeto próprio de sociedade e exercício do poder, a partir da interação destes dois dados chega então a um certo meio termo que nem ignore a opinião popular nem desvirtue os seus projetos.

O líder autoritário que insista na realização de seus projetos ignorando a vontade geral está fadado ao fracasso, ao ostracismo e no máximo será saudado pelas gerações posteriores como visionário, mas será incapaz de chegar e manter-se no poder. O líder demagógico que insista em apenas seguir as aspirações da massa será levado a mil becos-sem-saída, envolver-se-á em tantos conflitos grandes e pequenos, mudará tanto de opinião que está igualmente fadado ao fracasso e ao descrédito, inclusive junto à massa que o guiou.

Caminho do meio

A alternativa das lideranças reais, tão escassas na cidade, é a capacidade de sentir os anseios da multidão, analisar suas tendências, projetar suas aspirações e a partir destes dados estabelecer um plano estratégico para colocar seu projeto, sempre com algumas concessões. Maquiavel determinou com exatidão que o público se engana com questões gerais, mas normalmente acerta em questões particulares, o que parece ser facilmente demonstrado pela história.

Assim um vasto projeto geral dificilmente seria compreendido pela maioria da população, mas dividindo-o em pequenas partes oportunamente apresentadas, defendidas com bons argumentos, justificadas por necessidades concretas que todos podem enxergar, habilmente trazidas à agenda do cidadão em momentos adequados quase sempre serão entendidas e apoiadas.

Evidente que há dois perigos que o líder deve estar disposto a correr ao fazer isto, o primeiro é que sua idéia inicial estará sujeita a ser modificada no decorrer da discussão e ele deve estar preparado para negociar estas mudanças. A segunda que ele corre o risco de se perder nas partes e esquecer o todo se não tiver uma visão estratégica de longo prazo, portanto um planejamento eficaz e de longo prazo.

Carisma e intuição

Toda esta avaliação sobre liderança pode dar a impressão que o papel do líder é um papel técnico, mas isto não é verdade até porque em geral os técnicos são péssimos políticos e líderes fracos no mais das vezes. Para que não se corra o risco deste mal entendido, ou de imaginar que qualquer um pode tornar-se um líder se dotado de algum conhecimento específico é preciso levar algumas coisas em consideração.

Para a imensa maioria das lideranças de fato o conhecimento da opinião pública e as estratégias a seguir é algo intuitivo. Sem precisar analisar uma única pesquisa ele sabe o que a população quer e pode usar este conhecimento tanto para fazer demagogia como para alavancar saltos mais altos rumo a um poder mais permanente que o do demagogo.

A esta intuição soma-se o que se convencionou chamar de carisma, esta mal definida capacidade hipnótica que faz o líder ser capaz de convencer a massa que o que ele propõe é o que ela quer e ser capaz de convencer a sociedade a segui-lo. Sem este poder de persuasão tão mal definido dificilmente alguém se tornará líder sem o recurso das técnicas, até porque o carisma não é algo que possa ser aprendido, mas um dom que pode no máximo ser treinado e turbinado com a técnica e a estratégia.

segunda-feira, 2 maio, 2005 – 07:05