Casa de Chá

Poesia

Sumário

Cinzas da Cidade

Casca

Soldado

Pintura Rupestre

Beatitude

Sonhos

Rochedo na praia

Além das palavras

Despindo as palavras

Sat sanga

Olhos de céu

Sol e lua

Símbolos

Céu

Assistindo a peça Eleanor Rigby de Johnny Kagin

Saraswati

Névoa

Jardim das cerejeiras

Intuição

Acidentes acontecem

Eclipse

Elementos

Chuva

Voa

Superstição

Lendo Pessoa

Centro

Revolução

A poesia em meu coração

Não sou

Encruzilhadas

Meditação sobre alguns poemas de Schuon

Meditação sobre um rubai de Pessoa

Meditação sobre um trecho de Rumi

Este poeta tardio em mim

Voz, não eco

Eu me sei oásis

Memória Emotiva

Maestria

Poeta eu!

Respostas

Gatos

Flor de ipê

Geometria

For one who seeks the Light or the light seeking the One

Corcel

Cinzas da Cidade

Sampa em seu 457o. Aniversário

É fácil admirar o colorido,

Mas seus tons de cinza,

Feitos de chumbo e carvão,

Só podem ser apreciados

Em movimento.

É fácil apreciar o silêncio,

Mas seus sons de mil vozes,

Feitos de sussurros de cobiça ou gritos de miséria

Só soam como música

Em movimento.

Esta sua fuligem não é como a poeira dos tempos

Cobrindo ruínas outrora sagradas,

Esse seu manto cinza é cosido pela velocidade

Lembrando como tudo que é moderno

Termina em cinzas.

Se a metafísica é uma trilha na floresta antiga

Pela qual se anda a pé e com vagar

Então a dialética é este explodir de sons

da sua multidão tropeçando em si mesma.

Pela qual atravessamos rápidos e atentos.

Mas para nunca esquecer,

Mesmo os que falaram daquilo que é eterno

E imutável, insuflaram ou condenaram o progresso,

Só puderam fazê-lo nas cidades que eram

Como você.

É cinza porque na sua paleta

Só há Luz e Trevas

Misturadas de todas as formas.

Suas cinzas são o que restou do homem,

E ninho aonde ele renasce todos os dias.

quarta-feira, 26 janeiro, 2011 – 17:25

  • Casca

  • O tempo do silêncio vai se quebrando

  • As últimas chuvas da estação

  • Libertarão a torrente

  • Ávida da palavra

  • Como algum profeta apocalíptico
    O silente sabe

  • Que seu tempo de regência se finda

  • Tentará usurpar o trono

  • Ou cederá o cetro?
    Será o silêncio dos covardes

  • Ou dos prudentes?

  • terça-feira, 31 março, 2009 – 13:39
  • Soldado

  • Envolto na floresta à beira da fogueira

  • O velho soldado pensa que lutou

  • Guerras demais para ainda acreditar nelas
    Olhando as estrelas e as chamas

  • Só pensa se o aço gasto da espada,

  • Único instrumento de trabalho que conheceu,

  • Servirá a um mercenário ou a um salteador.

  • terça-feira, 31 março, 2009 – 13:48
  • Pintura Rupestre

  • Queria escrever como
    Um pintor paleolítico,
    Dotado da profunda ignorância
    Capaz de não enxergar diferenças
    Entre a fera que pinta na caverna
    E a que pasta lá fora,
    Abatendo ambas
    Com a mesma lança mágica.

  • sábado, 6 dezembro, 2008 – 09:1
  • Beatitude

  • O artista
    Compartilha da beatitude do santo;
    Seu mérito é não estar lá,
    Ser taça vazia,
    Não se debate tentando nadar
    Nas corredeiras,
    Apenas se deixa afogar
    por alguns instantes.

  • sábado, 6 dezembro, 2008 – 09:19
  • Sonhos


  • Para onde vão os sonhos

    Quando Morrem?
    Será a realidade
    O Inferno dos sonhos?

  • sexta-feira, 7 novembro, 2008 – 16:28
  • Rochedo na praia

  • Já fui um rochedo na praia,
    Suas ondas foram me dissolvendo
    A cada maré, me levando grão a grão
    Me deixando espalhado em tantas
    Outras praias.
    Espalhados pelo mundo
    Cada grão de areia que sou
    Ainda se lembra que um dia foi um rochedo
    E com saudade espera ansioso
    Ser envolvido e banhado
    Quando sua maré sobe.

  • sexta-feira, 10 novembro, 2006 – 11:32
  • Além das palavras

  • Transcender as palavras,
    Ir além dos sentidos,
    Ignorar tempo e espaço,
    Enfrentar os medos,
    Enfim,
    Perder-me entre seus braços,
    Me encontrar em seu beijo!

  • quinta-feira, 19 outubro, 2006 – 14:20
  • Despindo as palavras

  • Nossas almas vão se despindo
    das palavras,
    elas vão sendo jogadas pelo caminho,
    como estorvo
    ao contato dos sentimentos
    entre si

  • quinta-feira, 19 outubro, 2006 – 18:17
  • Sat sanga

  • “Na companhia daqueles que buscam a Verdade, nasce o desapego.
    Com o desapego, a ilusão se vai.” (Shankara)
    Se encontraram em um oásis
    O derviche, o discípulo do mestre zen,
    O jninasu, o noviço e o aprendiz do xamã.
    Passaram a noite debatendo os enigmas
    propostos por seus mestres e
    As crenças da sua fé.
    Quando o Sol já despontava,
    Um olhou para o outro
    E todos sorriram
    Entenderam que as perguntas
    Eram uma só e,
    uma só,
    Era também a resposta.

  • quarta-feira, 18 outubro, 2006 – 14:29
  • Olhos de céu

  • A lembrança de seus olhos
    Ocupa minha visão
    E a enche do céu
    Que está neles.

  • segunda-feira, 9 outubro, 2006 – 16:10
  • Sol e lua

  • De que adiantaria
    Ao Sol brilhar
    Se não houvesse a Lua
    Para que ele se visse
    No reflexo.
    De que adiantaria
    A beleza da Lua
    Se não houvesse o Sol
    Para lançar sobre ela
    Seu holofote.
    Por isto no sagrado encontro dos dois
    Até os sátiros fogem escandalizados!

  • segunda-feira, 9 outubro, 2006 – 17:35
  • Símbolos

  • Caminho em meio aos símbolos
    Como se andasse em um mapa astral
    E de tanto relatar o real
    Através deles
    Penso que talvez a metáfora seja eu próprio!

  • segunda-feira, 9 outubro, 2006 – 18:30
  • Céu

  • Para que preciso do Céu
    Se posso contemplar
    Seus olhos de tigre.

  • domingo, 8 outubro, 2006 – 13:46
  • Assistindo a peça Eleanor Rigby de Johnny Kagin

  • A minha peça sobre o amor. O meu indispensável exercício sobre o nada. – [Johnny Kagin]
    Só sem temer a solidão é possível amar,
    Só sem temer o amor é possível ser só,
    Nada me assusta ou atemoriza,
    Nem a incapacidade de ver o sentido do mundo,
    Nem o que faz os sentidos aflorarem.
    Se o destino é um camelo cego que ri,
    Então eu sigo os passos dele na areia,
    Vou com prazer onde ele me conduz
    E fico feliz de ao menos uma vez
    sermos nós a rirmos dele e
    Não ele de nós.

  • domingo, 8 outubro, 2006 – 15:16
  • Saraswati

  • Choveram letras e letras,
    Algumas gotas sumiram pelo chão seco
    Outras foram se juntando em poças de palavras
    Das poças maiores saiu um filete de frases e versos
    E estas enxurradas buscaram o leito seco do antigo rio
    Quando vi novamente o rio correndo
    Peguei meu barco e remei com minha pena
    Sem saber se foz estava próxima ou distante
    Mas com a certeza de desaguar no oceano!

  • quinta-feira, 5 outubro, 2006 – 14:31
  • Névoa

  • Quando era criança gostava das manhãs com neblina
    Mas ficava triste de por mais que ela fosse densa
    Jamais a alcançava, a cada passo ela se desfazia.
    Hoje me alegra saber que a cada passo a névoa some!

  • terça-feira, 3 outubro, 2006 – 15:07
  • Jardim das cerejeiras

  • Percorro as montanhas
    Cobertas de neve
    Até encontrar as cerejeiras

  • terça-feira, 3 outubro, 2006 – 19:49
  • Intuição

  • “Rumos opostos ao redor do círculo
    São um rumo certo de Encontro” (DH Lawrence)
    Quando a intuição falou
    Fiquei pasmo de não ter visto
    Tantas placas de aviso,
    O tempo todo estava lá.
    Percorri o círculo
    E voltei ao início
    Senti o sol em mim
    E fui convidar a lua
    Para um Eclipse

  • sexta-feira, 22 setembro, 2006 – 04:43
  • Acidentes acontecem

  • O Sol e a Lua viviam se cruzando
    Nas idas e vindas pelo céu.
    Em alguns dias de chuva
    A conversa ia se alongando.
    As conversas Iam se estendendo,
    Nem precisava estar nublado,
    Houve até quem olhasse para o céu
    E visse os dois conversando.
    Um dia o Sol não aguentou,
    Clareou tudo,
    A Lua de Nova passou a Cheia,
    E no beijo dos dois não se soube se era dia ou noite.

  • sexta-feira, 22 setembro, 2006 – 12:53
  • Eclipse

  • Um dia o Sol tomou coragem
    E disse pra Lua:
    Desde o início dos tempos
    Olhei você,
    Mas estava tão bela no céu
    Que julguei que nunca olharia para mim.
    A Lua sorriu e disse
    E eu vi você tão luminoso
    Que também pensei o mesmo.
    Seguiu-se um eclipse!

  • sexta-feira, 22 setembro, 2006 – 12:55
  • Elementos

  • Meu mapa astral brinca comigo
    Dizendo que a emoção transborda
    E me asfixia a falta do pensamento,
    Sobra água e falta ar.
    Graças a deus não creio nestas coisas,
    Senão ia achar que não sou
    Um jornalista que nas horas vagas brinca de ser poeta
    Mas um poeta que para ganhar o pão banca o jornalista!

  • quinta-feira, 21 setembro, 2006 – 13:13
  • Chuva

  • Ontem choveu tanto,
    Aproveitei a chuva
    E ela levou meu medo
    Dos crepúsculos,
    Das noites de sexta-feira,
    Dos silêncios,
    Das sombras,
    Das ervas daninhas no jardim,
    Dos segredos.
    Quando me olhei no espelho
    Molhado ainda da chuva
    Assustei-me
    Enxergando eu mesmo.

  • terça-feira, 19 setembro, 2006 – 12:56
  • Voa

  • Cheguei na exposição de ikebana por acaso,
    Um dos arranjos chamou minha atenção
    E fiquei contemplando o verso acima dele
    Como se tivesse visto a pena do Rei dos Pássaros
    Caida na terra, como a poupa de Attar.
    Sai atrás de qualquer um que me traduzisse
    Desesperado em saber o que diziam os ideogramas
    Perguntava a um, a outro, a um terceiro, ninguém sabia
    Era como se fosse uma antiga arte perdida e sagrada
    Enfim me indicaram o professor que me diriam
    Sobre o que falava aquele poema visual
    Meio envergonhado e sem jeito, perguntei
    Só o sorriso dele ao ver alguém perguntar
    Já teria me feito ganhar o dia
    Ele recita a combinação mágica de palavras
    Meio desconfiado se um ocidental pode ver beleza nelas
    Mas alegre porque parecia que ninguém nunca quis saber
    Me emociono, mas não me surpreendo em saber que sim:
    No poema há um grande pássaro que voa!

  • domingo, 17 setembro, 2006 – 20:40
  • Superstição

  • Confesso a superstição primitiva
    De minha alma pelos livros
    Em cada um deles que meus olhos se pousam
    Procuro algum oráculo, sentido, sinal.
    Até as pessoas, para mim,
    São associadas a algum livro,
    Através do qual tento entendê-las
    Ou ser entendido

  • quinta-feira, 7 setembro, 2006 – 15:43
  • Lendo Pessoa


  • “Quer pouco: terás tudo.
    Quer nada: serás livre.” (Fernando Pessoa)

    Não, não consigo acreditar
    Na inexistência de sentido
    Do universo, da vida, de mim próprio.
    Apenas vou achando que este sentido
    É como se não existisse,
    Porque não saberemos qual é.
    Mas, se é assim,
    Porque continuo sempre buscando
    Esta porta emperrada
    A qual minha força
    Não poderá abrir?
    A liberdade, vocês dizem,
    Esta em nada querer.
    Meu Deus, como é difícil!

  • quinta-feira, 7 setembro, 2006 – 16:20
  • Centro

  • Uma vez combinei com um amigo
    De encontrá-lo em uma cidadezinha
    – Nos vemos na praça em frente a Igreja!
    Curioso eu perguntei como sabe que há uma praça
    Se como eu nunca esteve lá?
    – Todas as cidadezinhas são iguais,
    Há sempre uma igreja com uma praça na frente.
    Fiquei pensando na lição,
    Imaginando que em cada parte do mundo
    Há sempre uma igrejinha com uma praça
    E no próprio mundo há de haver também
    Uma igrejinha com uma praça na frente
    Onde sempre se pode encontrar os amigos

  • quarta-feira, 6 setembro, 2006 – 17:26
  • Revolução

  • Até minha poesia de repente se encheu
    Deste meus burburinhos e correntes
    Desembestou a escrever sozinha
    E a fazer uma faxina na minha alma
    Ali no meu canto eu ficava apavorado
    E rodava as contas da masbaha orando
    A cada verso que voava como uma flecha
    Quando exausta ela parou
    Respirei com duplo alívio,
    Por ela encerrar e por ter começado.

  • quarta-feira, 6 setembro, 2006 – 18:45
  • A poesia em meu coração

  • Ao amor
    Ensinou-me a compreender os versos
    A entender tantos poetas que só conhecia
    Pelos olhos e não no coração
    Abriu-me as portas de novos mundos
    E me deu a visão que atravessa os véus.
    Sou seu, não como barganha nem peso,
    Mas como um donativo de quem nada pede
    Só se lembre daqueles versos e não peça
    Mais sol do que eu tenho em mim.

  • quarta-feira, 6 setembro, 2006 – 19:20
  • Não sou

  • Quanto mais nego ser um sábio
    Inclusive com minhas ações
    Mais as pessoas acham ser modéstia
    E reforçam o epíteto e a crença delas
    Às vezes dá vontade de proclamar
    Sou sim um grande sábio, sigam-me,
    Daí quem sabe todos entenderiam
    Que só penso sobre mim por escrito
    Mas este mundo anda tão louco e vazio
    Que mesmo assim era capaz de aparecer
    Algum doido ainda maior que eu
    E decidir me seguir!

  • terça-feira, 5 setembro, 2006 – 15:21
  • Encruzilhadas

  • “Não queiras, com submissa segurança,
    Ter saudade de ter esperança.
    Tem antes saudade de a não ter.”(Fernando Pessoa)
    Não tenho mais sims,
    Sou só um talvez
    Na encruzilhada
    Onde não há placas.
    Aquela angústia fundamental,
    De Adão e Eva
    Pisando a primeira vez
    Fora do Paraíso.
    Mas me agrada ser um talvez,
    Livra-me das correntes do fado,
    De especular sobre Aquilo
    Que só a Deus compete saber.
    O talvez me obriga a superar-me,
    Ultrapassar as dualidades,
    Decidir por mim mesmo
    E não enredar-me em ilusões.
    Mas o talvez inquieta,
    Entre ser livre e estar desperto
    ou embriagar-me de amor
    E vislumbrar os jardins.

  • sábado, 2 setembro, 2006 – 13:47
  • Meditação sobre alguns poemas de Schuon

  • Sagrado é o Amor/Porque nele dorme a luz do Amor Divino” (Frithjof Shuon)
    No jogo de espelhos
    Do labirinto entre mim
    E minha casa
    Vejo o amor à luz
    Ai meu Deus
    Faça-me cristalino
    Para conduzir
    Sua imagem
    Sou só um caquinho de espelho
    Do Altíssimo
    Quanta luz
    Posso refletir?

  • quinta-feira, 31 agosto, 2006 – 16:29
  • Meditação sobre um rubai de Pessoa

  • “Não queiras, com submissa segurança,
    Ter saudade de ter esperança.
    Tem antes saudade de a não ter.
    Sê anónimo, súbito e criança.” (Fernando Pessoa)
    É bendito
    Tudo que nos liberta
    Do Reino da Ilusão
    E suas servas.
    Quando as sereias entoam
    Seus cânticos tristes
    Para colher náufragos
    Ouve apenas o silêncio em si.
    Segue adiante
    Com os olhos no infinito
    Sem amargor, nem medo
    Apenas as lições que te tornam
    Mais próximo da fonte.

  • quarta-feira, 23 agosto, 2006 – 11:10
  • Meditação sobre um trecho de Rumi

  • Conforme o sheikh vai lendo uma história do Masnavi
    Lá naquela tekke distante, na qual me acolhem
    Vou ficando impressionado com os sinais do Altíssimo
    Que dão a resposta exata, no momento correto.
    O sheikh apenas segue a sequência da lição,
    Iniciada nas semanas em que não estive lá,
    Mas o nosso mestre Rumi, ele não,
    ele fala diretamente a mim
    Naquelas respostas tão diretas
    Vejo os muitos erros, os poucos acertos
    Mas, acima de tudo, entendo que mais uma vez
    Minhas orações foram aceitas
    Mesmo mecânicas e numa lingua que entendo pouco
    Elas enchem meu coração de paz, falam da verdadeira saudade,
    Aquela do retorno a Deus, da dissolução na unidade
    Entre uma recitação e outra, volto um instante a Ele.

  • sexta-feira, 18 agosto, 2006 – 17:42
  • Este poeta tardio em mim

  • “Não tenho ambições nem desejos./ Ser poeta não é uma ambição minha./ É a minha maneira de estar sozinho” (Fernando Pessoa)
    Este poeta despertou em mim
    Inesperado, tardio
    Intenso, patético
    Confuso, iluminado
    Justo em mim
    Que nunca soube ou quis,
    Conformado com exercícios mediocres
    Ele resolveu despertar
    Mando ele se calar
    Mas ele não obedece
    Sorri com os olhos
    E fica mais patético
    Fico enredado no labirinto
    Que ele arquiteta…
    Quando o julgo perdido,
    Se mostra sábio,
    Quando o julgo esclarecido,
    Ele me precipita em disparates!
    Nesta confusão
    E nestes esclarecimentos
    Me sinto vivo
    E agradeço a ele!

  • quinta-feira, 17 agosto, 2006 – 14:23
  • Voz, não eco

  • Prefiro dizer bobagem,
    Escrever períodos confusos
    Expor parágrafos caóticos
    Mas ser eu mesmo a escrever
    Ao menos o leitor
    Ouvirá ali uma voz
    Não mero eco
    De outros
    Não me atraem os sistemas
    E clubes, e patotas
    Eles sempre só me aceitam
    Se hasteio a bandeira deles
    Não escrevo para ser aceito
    Ou convidado
    Escrevo para compartilhar
    O que não sei

  • quarta-feira, 16 agosto, 2006 – 17:22
  • Eu me sei oásis

  • Eu me sei oásis
    Alento dos peregrinos cansados
    Ponto de passagem das caravanas
    No qual saciam a sede
    Eu me sei oásis
    De fontes cristalinas
    Palmeiras frondosas
    E defesa contra os saqueadores
    Sei também
    Que a fonte às vezes se torna salobra
    As palmeiras não contém a tempestade
    Nem só de saqueadores é o sangue no chão
    Mas, acima de tudo eu sei
    Que ao ser usada a fonte se purifica
    A cada ano as palmeiras crescem
    E me torno melhor guerreiro a cada batalha
    Mesmo que nada disto soubesse
    Sei que sou oásis
    Neste deserto do mundo
    E não miragem

  • terça-feira, 15 agosto, 2006 – 12:39
  • Memória Emotiva

  • Somos Só
    A memória emotiva
    De um Deus esteta
    Que precisa de nós
    Para se ver
    Caquinho de espelho
    Do Altíssimo.
    A lua reclama
    Por sua luz ser só reflexo
    do Sol?

  • terça-feira, 8 agosto, 2006 – 16:00
  • Maestria

  • Aquele que é mestre
    De si mesmo
    É também escravo
    De si próprio.
    Como reconhecer
    O mestre de Verdade?
    Nada mais fácil
    Para quem é livre
    Os falsos mestres
    Andam catando discípulos
    Ao preço módico
    De sua alma
    Já os mestres
    Dirão que o caminho
    É duro e desnecssário
    Mesmo quando você implora.

  • terça-feira, 8 agosto, 2006 – 17:39
  • Poeta eu!

  • Poeta, eu!
    Só há imagens complexas demais para serem escritas nesta nossa linguagem racional, lógica, estruturada e pobre
    Então gaguejo na linguagem dos pássaros
    Como estrangeiro em país distante
    Tentando descobrir com urgência
    Onde pode conseguir um hotel barato.

  • quinta-feira, 6 julho, 2006 – 14:28
  • Respostas

  • Quando era jovem
    Tinha todas as respostas
    Do mundo
    Elas foram indo embora
    Me deixando Só
    Com as perguntas

  • terça-feira, 30 maio, 2006 – 12:54
  • Gatos


  • Jamais gostei de cães
    Sempre preferi os felinos
    Ter um cachorro
    me parece vil
    como ter um escravo
    já os gatos são livres
    Um gato faz o quer quer
    não brinca quando quer dormir
    não dorme quando quer brincar
    seu carinho é livre
    se está no seu colo
    é só porque ele quer.
    Ele não precisa de você
    gerações de caçadores furtivos
    habitam dentro dele
    se está no seu colo
    não é por necessidade,
    mas por querer.
    O cão é a força bruta,
    o poder da matilha,
    a tirania do líder.
    O gato é a astúcia,
    o poder da sutileza,
    o domínio do indivíduo.
    Não importa se são enormes persas,
    com seu ar de aristocrata enfastiado;
    ou loquazes siameses esbeltos
    intimando-nos a lhes dar atenção;
    Mas prefiro os vira-latas
    nos quais está intacto o sobrevivente
    Se a alma é o gordo cão negro do desejo,
    como ensinam os sufis,
    então o espírito deve ser como um esguio gato negro,
    que, depois de longas abluções,
    vê o infinito em uma bola de papel
    com a qual se entretêm por horas.

  • terça-feira, 28 fevereiro, 2006 – 16:53
  • Flor de ipê

  • Flor de ipê
    Uma flor amarela cai do ipê
    Acompanho com interesse
    Seu lento rodopio ao chão
    Um pedaço da eternidade.
    Um dirá:
    Este instante foi único
    Jamais haverá outro igual
    A flor dançou a intensidade do efêmero
    Outro dirá:
    No próximo ano, e no outro
    e ainda pelas décadas
    O balé fatal da flor reviverá em outras
    Qual estará certo
    Talvez ambos, talvez nenhum,
    Mas o que importa
    Esta resposta
    Ela não retardará sequer em um segundo
    A queda da flor
    Ou fará a primavera
    chegar mais cedo no próximo ano.

  • terça-feira, 28 fevereiro, 2006 – 16:58
  • Geometria

  • Platão vetou a entrada na Academia
    aos ignorantes da geometria
    Imaginaram compassos e esquadros
    Mas não enxergaram o jardim
    Outros depois multiplicaram
    Inúmeras dimensões daqui
    Até as profundezas abissais
    Mas não olharam para o céu
    Bastaria ter começado aqui mesmo
    Corte uma dimensão do hipercubo
    entenderá, então, a eternidade
    E terá tempo para Deus
    Sobra então um cubo
    Ignore a profundidade
    tenta ver o que está oculto
    e assim poderá se elevar às altitudes
    Do quadrado que restou
    Suprime a altura
    perceba então a omnipresença
    e assim tem o mapa do real
    Siga a trilha assinalada
    Imagine o centro da reta
    Atingiu afinal o ponto
    Onde tudo está contido

  • terça-feira, 28 fevereiro, 2006 – 17:07
  • For one who seeks the Light or the light seeking the One

  • Para um que busque a Luz
    Ou a luz que busca ao Um
    A jornada é muito curta
    basta encontrar o caminho
    Não vá pelo labirinto seguindo a fera
    mas pela alameda do seu peito
    Ele está mais próximo que sua jugular
    basta olhar o centro do mapa
    A senda reta, contudo,
    não é percorrida
    pelo som dos passos
    basta o silêncio do coração

  • terça-feira, 28 fevereiro, 2006 – 17:19
  • Corcel

O luminoso corcel do meu espírito
não mais será vil escravo
do negro cão do meu desejo
Mas para isto precisa guerrear
O terrível clangor da espada
de nada adiantará para você
basta o silêncio do coração
para transpassar a armadura
Ignore o som dos passos
Não vá pelo labirinto seguindo a fera
mas pela alameda do seu peito
basta relembrar o caminho
Chegue ao centro
encontre a liberdade
cure a saudade
voltando ao lar

terça-feira, 28 fevereiro, 2006 – 17:24