Já falei em outra oportunidade (https://poderdapalavra.com.br/2016/01/24/mandinga/) sobre as condições sociais, econômicas e políticas que não só tornaram a Revolta dos Malês possível mas que garantiram a Salvador um espaço privilegiado de uma cultura realmente africana menos aculturada. Neste aniversário da Revolta dos Malês queria aproveitar para outra discussão tão relevante neste momento em que o choque de civilizações se infiltra dentro de cada civilização e ameaça esfarrapar tecidos sociais já rotos: qual é o ponto de equilíbrio de uma minoria, qualquer uma seja étnica, religiosa, de gênero e até política, dentro de uma sociedade para que ao mesmo tempo conserve sus identidade e defenda seus interesses e ainda faça parte desta sociedade.

Os Malês dão dois importantes testemunhos desta discussão em momentos diversos. Ainda que de forma discreta viviam a vida própria de sua comunidade em uma terra hostil, alguns como escravos-de-ganho, outros como libertos pobres e discriminados e, muito provavelmente outros como escravos em condição mais severa nos engenhos do Recôncavo.

Eram prisioneiros em uma terra estranha onde tinham de ocultar sua fé, seu conhecimento e até seus verdadeiros nomes, em relação hostil mesmo com a maior parte daqueles que compartilhavam o mesmo destino, em especial com aqueles que eram nascidos no Brasil e exerciam as funções da classe média baixa, capataz da multidão negra..

Documentos em caracteres árabes apreendidos ou encontrados depois sugerem um desejo de volta a sua terra, ainda que convulsionada, em um primeiro momento. Depois a construção da revolta, o libertar-se e assumir o local do opressor e seus servos, a reconstrução daquela sociedade segundo a visão que traziam da África.

Derrotada a revolta, mortos, presos e degredados seus líderes, assustados todos os demais, lentamente a identidade vão se tornando menos refratária. O fio da memória ainda é suficiente para que no final do século passado ainda se encontrem descendentes daqueles velhos malês guardando seus relicários e tendo uma noção, ainda que imprecisa sobre os motivos, da importância daqueles amuletos que no século anterior podiam gerar pena de morte ou degredo, mas que são apssados de geração a geração. Os malês não sumiram, pelo contrário foram deixando suas marcas em áreas diversas de Salvador, sendo incorporados em coisas tão baianas como os abadás ou as bainas, mas aquela sua identidade própria como muçulmanos, haussas, mandings foi se dissolvendo e se tornando não uma síntese – como tantas vezes ocorreu e vem ocorrendo no mundo islâmico – mas um sincretismo.

Entre os dois momentos há elementos positivos e negativos, há também explicações para eles e há, sobretudo, alguns ensinamentos e reflexões que nos podem ser muito úteis para pensar a questão do conflito entre identidade e diversidade proposto no início do texto. Aprofundar todas as questões com certeza extrapolaria tanto a capacidade quantitativa do texto quanto qualitativa do autor, então o foco será em algumas das questões mais relevantes para contribuir com a resposta buscada.

Em primeiro lugar é necessária uma definição conceitual de se apegar à história e aos fatos históricos bem documentados e sinalizados. Compreendo a importância de se contrapor as narrativas dominantes outras narrativas igualmente fantasiosas ou pelo menos exageradas e se apegar a qualquer indício, mas isto pertence ao campo da política e da opinião, não ao do conhecimento no qual este texto, ainda que muito humildemente, tenta se colocar.

Um dos elementos que parecem mais essenciais nos dois momentos é a existência de um fluxo de mercadorias, ideais e pessoas entre Salvador e a África, em particular a importação praticada tanto pelos malês como pelo candomblé de “profissionais especializados”. A importância deste capital humano fica evidente tanto pelo fato do candomblé ter resistido à assimilação e ao sincretismo total mesmo em condições desfavoráveis como pela rápida assimilação dos malês sobreviventes quando eles ficam privados desta liderança espiritual. Da mesma forma como visão de mundo universalista e portanto agregadora os malês fazem conversos e embora seja difícil precisar a proporção uma parte significativa dos malês tornou-se muçulmana no Brasil, o que diferencia o grupo tanto de outros grupos de escravos como dos imigrantes posteriores.

Em maior ou menor grau fenômeno semelhante aconteceu posteriormente em todas as colônias de imigrantes que aportaram no Brasil, um esmaecimento da identidade é periodicamente sacudido por uma revivificação, e em geral mistificação, das origens patrocinadas nem tanto por novas levas de imigrantes mas principalmente pela importação de intelectuais, notadamente sacerdotes e professores, da origem. Processo este como comumente inclusive leva ao renascimento das hostilidades entre grupos cuja convivência pacífica e próxima tinha se estabelecido por aqui, caso por exemplo das diversas identidades italianas e do mosaico sirio-libânes-palestino.

O outro movimento vai, em geral, no sentido contrário na medida em que as gerações vão nascendo, se socializando na nova terra, se casando e assim o mundo exterior vai se tornando mais comrpeensível e menos hostil. Em particular entre a população negra este procedimento, embora mais difícil pela opressão da escravidão e do preconceito, tem elemento que vai faltar à maior parte dos imigrantes, comumente vindo de pequenas comunidades gentílicas ou semi-gentílicas, marcadas por longa tradição de casamentos consaguíneos. Assim exposto por um lado à redução das influências originais e sujeitos a uma maior mescla de culturas tem na maior parte dos lugares uma aceleração do processo de aculturação, mas, no caso específico de alguns poucos centros ubrnaos mais desenvolvidos como Salvador, tem a oportunidade de buscar a construção de uma identidade própria mesmo em um meio hostil.

Neste cenário o destino diverso dos sobreviventes malês e dos seus irmãos de etnia adeptos do candomblé parece ser explicado em grande parte pela supressão, nos primeiros, do centro espiritual e cultural que foi capaz de sobreviver nos segundos a ponto de no século seguinte ir muito além da sua origem étnica e genética, mesmo também sendo perseguido.

Não significa isto, porém, que não tenha havido uma síntese de influências de várias culturas, do sincretismo católico à incorporação de elementos de outras partes da áfrica e dos próprios malês, como atesta ampla etnografia identificando palavras e ritos de origem malê nos cultos afro-brasileiros, para não falar de vestimentas e outros pontos mais óbvios.

Há muitas fontes históricas que atestam uma sobrevivência dos malês enquanto muçulmanos por várias gerações, até aproximadamente o início do século XX, ainda que a maior parte destas fontes apresente sérios indícios de ser espúrias. Muito provavelmente a perda das lideranças políticas e espirituais, a extrema repressão e a necessidade de se ocultar entre outros grupos, fez com que aos poucos eles fossem assimilados e passasse a ser uma vaga referência familiar, esta atestada pela preservação por gerações dos relicários malês. Contudo a alta consideração e prestígio que os malês tinham na sociedade fez com que muitos dos seus símbolos de identidade permanecessem.

Os Malês fracassaram em sua revolta e uma das consequências deste fracasso foi seu desaparecimento, apesar de seu prestígio e força. O candomblé, , fundado nas mesmas origens étnicas – porque a maioria dos dois grupos eram yourubás – e também perseguido sobreviveu até mesmo aos sincretismos e foi capaz de produzir sínteses, a ponto inclusive de servir para um ponto de partida de alguma reconstituição de uma parte da herança malê que nele foi preservado. Um jamais conseguiu deixar de ser africano, o outro se tornou uma marca brasileira.