Não sou católico, guardo a imagem de uma igreja que coroou Rodrigo Bórgia, o homem mais vil de seu tempo, enquanto perseguia com a inquisição São Francisco e os franciscanos menores, Savonarola, São Nicolau de Cusa, Padre Vieira, entre tantos. Ao mesmo tempo impossível negar a imensa autoridade espiritual de tantos nomes com ligação essencial com o catolicismo, além dos já mencionados, o Brasil tem enorme dívida com ativistas católicos como D. Helder Câmara, Sobral Pinto e com o hoje falecido D. Paulo Evaristo Arns.

Nesses dias de barbárie no qual reinam os discursos furiosos e as gesticulações histéricas à moda do Fuhrer, a tranquila e serena intransigência com a qual Arns enfrentou tempos sombrios dão um testemunho da força de ideais universais, de valores que transcendem as preocupações conjunturais. Esta firme convicção de, nas palavras do filósofo português Agostinho da Silva “não quebrar as leis eternas, as não-escritas, ante a lei passageira ou os caprichos do momento” ilumina estes nossos tempos de contingência e demonstra a pouca eficiência da enérgica violência frente à firmeza da convicção.

Assim como é verdade que a barbárie ganhe tantas batalhas com seus tanques, campos de concentração, gulags, gestapos, doi-codis, paredões, censura, tortura também é verdade até hoje ter perdido ao final todas as guerras apesar de seus meios superiores. Todo o aparato da Ditadura, apesar de todo o sofrimento causado no processo, não foi suficiente para abafar a voz cândida de Arns.

Esta perfeita demonstração da enorme distinção entre Poder e Autoridade que emana de D. Paulo Evaristo Arns traz o exemplo e a lição de como a transformação sólida e persistente deve vir de dentro, da coragem serena que prescinde da agressividade, da arrogância para se impor.

É possível discordar do programa de Arns, mas é impossível negar que qualquer mudança necessária e duradoura virá de outros comportamentos que não aqueles que ele demonstrou com o exemplo.

Que este legado de respeito ao ser humano possa nos guiar e inspirar na noite escura que se fecha a nossa frente, como dizia seu brasão, “de esperança em esperança”