stock-photo-print-the-seventeenth-century-leviathan-hobbes-vintage-engraved-illustration-magasin-pittoresque-445154257Duas referências me são muito caras em todos os momentos nos quais busco refletir sobre algum problema grave. Uma delas é o prefácio de Aldous Huxley ao Admirável Mundo Novo no qual ele diz que “a ideia segundo a qual o livre-arbítrio foi concedido aos seres humanos para que pudessem escolher entre a demência, por um lado, e a loucura, por outro, era uma noção que eu achava divertida e considerava como podendo perfeitamente ser verdadeira”. A outra é uma passagem de Samarcanda, de Amin Maalouf, na qual o técnico de finanças americano que tanta organizar as finanças persas ignora todos os ataques pessoais e pequenas mesquinharias dos adversários, em sua maioria corruptos tentando desmoralizá-lo, afirmando que deseja tratar os cidadãos persas como adultos e capazes, não como crianças as quais não é possível falar racionalmente.

Sempre acredito que há um ponto de equilíbrio possível no qual é possível estar distante tanto da demagogia quanto da tecnocracia, por mais difícil que seja de ser encontrado este ponto. E esta dificuldade é crescente na medida em que as decisões requerem crescente complexidade enquanto o nível de informação do cidadão médio decai. O debate é antigo e já opunha democratas e filósofos na Grécia e de lá pra cá não só as decisões ficaram mais intrincadas quanto as multidões cresceram em tamanho, felizmente, mas continuaram excluídas do acesso a uma educação adequada que estimule o senso crítico essencial a estas tomadas de decisão.

Como agravante, muitas das previsões de Huxley em Admirável Mundo Novo e nos ensaios que comentaram a obra anos (Regresso ao Admirável Mundo Novo) sobre a crescente capacidade do Poder de escravizar a opinião pública pela aplicação de técnicas de propaganda ampliaram-se, em particular pelo acúmulo de experiências empíricas da propaganda nazista, raiz e matriz do que hoje se chama de “marketing político”.

A agenda política sofre com esta dualidade. De um lado quase tudo se apresenta como uma escolha de sim ou não, na maior parte das vezes se mobiliza contra algo, tudo é dominado pelo maniqueísmo rasteiro enquanto se invocam razões técnicas para isto ou aquilo como armas que só são brandidas contra o adversário, mas em geral pouco apontam sobre a necessidades de decisões entre alternativas concretas e no mais das vezes são ignoradas enquanto instrumentos de real convencimento.

Todo debate acaba sendo dominado por duas falácias das mais primárias, ataca-se a pessoa ao invés dos argumentos que ela expõe – vileza conhecida pelo eufemismo de “desconstrução” – e a evocação de “especialistas” como se o credencialismo fosse capaz de substituir a demonstração e, sobretudo, o convencimento pelos argumentos. A verdade é que qualquer decisão hoje não é fácil, os recursos são escassos, as consequências são complexas, as relações devem ser medidas e avaliadas em uma escala global, difícil que tudo isto caiba em alguma enquete maniqueísta.

Mas o inverso é também verdadeiro, admitir que as questões complexas, como são quase todas, não possam ser tomadas pela sociedade e legitimar o tecno-fascismo. Assumir uma posição, como no protótipoo de todas as outras Utopias, a República de Platão, que o povo precisa ser enganado para ser feliz e que a melhor coisa que pode lhe acontecer é ser servo de iluminados. A história já provou como isto sempre acaba mal.

Um dos dramas desta contradição entre demagogia e tecnocracia é que ela só poderia ser resolvida em definitivo por uma situação tal na qual houvesse um sistema educacional robusto, crítico no qual as pessoas deixassem de ser “massa” para se tornarem de fato cidadãos, com todas as prerrogativas e responsabilidades inerentes a esta condição”. A dificuldade é que difícil imaginar qual Estado desejaria ter cidadãos assim, uma vez que isto dispersaria ao extremo todo o poder político.

Resta a resistência, quase desobediência civil, de continuar discutindo as grandes questões em toda a sua complexidade com os públicos mais amplos que se possa obter. Propor e defender todas as políticas que for possível construir de forma responsável, embasada. Enfim, tentar permanecer sendo ao menos uma luzinha no breu tenebroso na esperança de que avance.

De tantos e tantos anos de atividade política o que aprendi foi que é mais producente focar em cada tema, em cada projeto, em cada mudança, com detalhamento, debate, humildade para verificar que toda ideia sempre pode ser aprimorada e que em todo ambiente pode se encontrar soluções interessantes mas ao mesmo tempo a coragem de defender aquilo que se tem convicção de ser a melhor resposta no momento. Evocar os grandes temas, os grandes modelos, os grandes sistemas tornam as sínteses quase impossíveis, mas as respostas concretas aos problemas cotidianos podem sim ser construídas pelo consenso.

Isto implica em parte na admissão de que um novo modelo tem muito mais chances de nascer nas pequenas escalas de decisão, em especial nas cidades onde a presença do Estado é bem menos abstrata e as decisões a serem tomadas tem um efeito mais direto e concreto na vida das pessoas. Embora pareça paradoxal, porque vivemos em um sistema político no qual o Executivo é muito superior em poder efetivo que os parlamentos, também acho que estas mudanças são mais passíveis de acontecer através dos parlamentos. Há uma certa covardia inerente aos cargos executivos derivada da sua necessidade de obter a grande maioria dos votos que os parlamentares não deveriam ter.

Hoje este mecanismo funciona no sentido reverso na maior parte dos casos, Como um parlamentar não precisa da maioria, só de uma pequena parcela do eleitorado, pululam as iniciativas extremas, demagógicas, irreais – e não raro surreais. Em grande parte isto acontece porque a sociedade em si não está muito preocupada com o que acontece no parlamento, houvesse um respaldo maior ao menos de uma maior parte dela e se poderiam construir muitas agendas positivas. Mesmo com todas as dificuldades consigo listar uma boa dezena de ações parlamentares muito importantes com as quais colaborei nos últimos 20 anos e em especial nestes últimos sete anos com uma atuação mais orgânica. Infelizmente a maior parte delas teve pouco reconhecimento por parte da sociedade, mas sem que jamais esta insensibilidade às agendas construtivas fosse desmotivadora porque o foco era nos resultados concretos.

A grande questão que permeia esta discussão é se as mudanças demoradas exigindo empenho, abnegação até, acontecerão em em um horizonte de tempo suficiente capaz de impedir que a destruição de toda estrutura política e toda capacidade crítica jogue a sociedade em um admirável mundo novo do qual já não seja possível escapar. Ou seja, ainda há esperança, mas ela não é infinito ou eterna.