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Sobral Pinto, que estaria completando 123 no início do mês, era um advogado, liberal e cristão sincero, tão sincero que celebrizou-se na defesa do devido processo legal, da legalidade e do respeito intransigente dos direitos humanos de vítimas das Ditaduras de Getúlio e de 64. Apontado como advogado dativo de dirigentes comunistas presos pela revolta de 35 e mantidos no cárcere em condições precárias provavelmente salvou a vida de Prestes, e conseguiu resgatar dos campos de concentração nazistas a filha de Prestes e Olga Benário. Mas tornou-se legendário pela defesa de Harry Berger, ex-deputado alemão e dirigente da III Internacional, sem uma base legal para exigir um tratamento mais humano o advogado apelou para o decreto contra maus tratos aos animais – o decreto 24.645/34 redigido pelo então presidente da UIPA, joão Calaffa – e na jurisprudência que já havia condenado um homem por maltratar um cavalo para obter o habeas corpus de Berger.

Quase 80 anos depois fica a sensação de que regredimos na nossa humanidade. Há dois anos, em uma reunião com um movimento de moradia havia dito como era muito mais fácil, simpático à opinião pública e eleitoralmente positivo apresentar como defensor da causa animal, em especial se ficasse limitada a pets do que defender um direito básico, elementar e constitucional a moradia digna. Quando as urnas se abriram as palavras foram quase proféticas, tanto que logo o espaço de defesa animal vai ficar congestionado, enquanto a pauta da reforma urbana esvazia-se.

Não vamos entender mal. Não só tenho o maior carinho pelas minhas gatas – e o maior orgulho que uma delas nos adotou ao invés de ter sido adotada – como preciso de muito autocontrole para não virar um “louco dos gatos”. A maior parte das minhas primeiras reportagens foram sobre questões referentes à defesa animal. Tenho orgulho de ter participado da elaboração e defesa de legislação sobre o assunto, ainda me lembro de uma reunião no qual os donos de circo ameaçavam soltar os animais na porta do deputado Ricardo Trípoli pouco antes da lei estadual dele sobre o assunto ser aprovada.

A questão não é de forma alguma desmerecer, contestar ou considerar excessiva os avanços de civilização que vem reduzindo este importante sinal de psicopatia que é a violência contra os animais. É, sim, estranhar que não sejamos incapazes da mesma empatia também com os outros humanos porque eles tem religião, etnia, opção sexual, ideologia ou classe social diferente da nossa.

Uma sociedade na qual as pessoas se consideram mais ligadas ao seu cachorrinho que a outro ser humano, para a qual há mais compaixão com o beagle do laboratório do que com a criança de rua é uma sociedade que está tão doente quanto a que institucionaliza a crueldade contra os animais. O que dizer para quem está preocupado em achar um lar para os gatinhos, eu próprio já estive preocupado com isto várias vezes, mas acha que os sem-teto deveriam ser todos colocados em paus de arara e mandados para outro lugar, quem se lamenta pelo cachorrinho abandonado mas está pouco se lixando com as 1,5 mil crianças que “sobraram” na “Selva” de Calais.

Não é, de forma alguma uma desvalorização hierárquica das outras formas de vida é a revolta pela desvalorização desta forma de vida que é o homem. Mas também é uma preocupação com a superficialização da questão ambiental e da própria defesa animal na medida em que rebaixa complexas discussões ambientais ao tema fácil de proteger cãezinhos e gatinhos.

Se alguém duvida da gravidade que o tema atingiu, faça o teste. Escreva uma linha contra a recente chacina de 5 jovens da periferia em São Paulo no Facebook e receberá dezenas de comentários criticando sua linha e o acusando com os xingamentos mais diversos de estar defendendo bandidos. Poste algumas linhas sobre as ameaças do aquecimento global e o risco de extinção dos ursos polares e terá um público dividido entre aqueles que vão manifestar apoio e aqueles que vão dizer que aquecimento global é besteira. Relate uma ninhada de de cachorrinhos abandonados por alguém irresponsável e tirando algum eventual psicopata (e não é exagero retórico) todos vão deplorar o episódio.

Também acho que quem maltrata, abandona, não cuida ou cuida mal dos animais deve ser punido, não contesto isto. Só quero que os cinco jovens ao menos tenham uma isonomia de compaixão com o cachorrinho e o gatinho.

Quando estava quase terminando o texto a intolerância política destes tempos bicudos me dá dois exemplos. Um do repórter caco Barcelos agredido por manifestantes, não assisto à Globo já devem fazer mais de 10 anos, mas nem se fosse o Roberto Marinho eu acho que se justificaria uma agressão. Outra a de Anthony Garotinho, claramente passando mal, com rosto afoqueado, sendo empurrado para a maca enquanto sua mulher grita desesperada, jamais votaria em Garotinho e com certeza comemoro a prisão dele como a de qualquer outro corrupto, mas só posso deplorar, enquanto ser humano, tanto a cena como a sua comemoração.

Envergonha-me ter de vir aqui evocar o exemplo do velho advogado católico, conservador, quase reacionário, para pedir que algum eventual leitor lembre-se, ao menos, que o ser humano também é um animal, na esperança de que nós tenhamos direito também a alguma compaixão.