soldiers_demonstration-february_1917Muito pouco referenciado nestes ásperos tempos, o aniversário de 99 anos da Revolução Russa aponta um importante descaso com um dos momentos mais importantes da história do mundo, momento que ainda tem muito a ensinar para o conjunto da humanidade. A barbárie e o domínio da “nomenklatura”, bem posteriores à Revolução – ainda que dela derivados – não podem ofuscar que por muito tempo a luz de esperança que por lá brilhou iluminou o mundo, assim como o Terror e Napoleão não invalidam a Revolução Francesa.

É injustiça listar fracassos sem levar em consideração o cenário extremamente desfavorável em que a Revolução Russa se dava. Em primeiro lugar era uma experiência nova, sabia-se que era preciso buscar uma forma nova de administrar o governo, conceber o Estado, produzir, distribuir, planejar. Havia escassos e heterogêneos recursos humanos disponíveis para esta tarefa, de um lado um punhado de militantes e lideranças populares sem experiência, de outro uma camada burocrática proverbialmente corrupta e incompetente, herdada da máquina czarista, mas que ao menos sabia como as coisas funcionavam. Do lado do povo, por sua vez, imensas expectativas, condição que por si só já contribuiu muito no fracasso de qualquer realização porque cada vitória alcançada parece insuficiente frente à esperada.

Este desafio de moldar o Estado que conduziria ao fim do Estado havia deixado de ser o desafio teórico, passava a ser o exercício prático e urgente de criar rotinas que não se rotinizassem, de romper a alienação através do debate desde o chão de fábrica.

Intempestivamente o nome com o qual este novo tipo de Estado foi batizado por um militar prussiano, militante comunista, oficial da União na Guerra Civil Americana e importante liderança do que viria a ser o Partido Democrata americano (na época em que ele ainda tinha o nome de seu hoje rival, Partido Republicano)- Arnold Weydemeyer – e adotado por Marx – Ditadura do Proletariado – parece infeliz. O grande problema é semântico, mais do que político, à época de Marx os termos ditador e ditadura não tinham consolidado o mesmo sentido que vieram a ter depois. Os caudilhos latino-americanos que tomavam o poder nas Banana Republics e desmoralizam o até então honroso título de Ditador estavam apenas começando a surgir. A verdadeira referência do sentido dado ao termo pelos marxistas é à Ditadura da República Romana.

A Ditadura era a magistratura que concedia poderes excepcionais a um único cidadão em situação de grave crise, por tempo determinado – e em geral o ditador abdicava dos poderes especiais superada a dificuldade ou era reconduzido caso ela continuasse. Dos quase 100 ditadores que a República Romana, muita zelosa de suas prerrogativas de cidadania, a maior parte foi nomeada para conduzir guerras externas ou reformar as leis internas em caso de comoção social.

A instituição em si não chega a ser uma novidade romana, os gregos tanto dos tempos homéricos quanto clássicos tinham figura similar, assim como as tribos germânicas elegiam um Rei para dirigir a guerra e as tribos indígenas davam poderes excepcionais aos caciques que na maior parte do tempo só exerciam funções cerimonias para ter um comando único e forte na batalha.

Mas a preocupação dos romanos com a legitimidade, como já foi dito ciosos que eram da sua cidadania, era bastante complexa e passava pela aprovação tanto da autoridade aristocrática do Senado quanto pelas assembleia de todos os cidadãos. O último destes ditadores foi também o último governante da República Romana, Julio Cesar, assassinado pela aristocracia senatorial sob a alegação que ele queria ser rei e cuja morte, por paradoxo, acabou extinguindo a República.

Também de muita importância é a atribuição deste poder excepcional a uma classe: o proletariado, termo também tirado da tradição romana, designação no Estado Romano daqueles que estavam abaixo da plebe, portanto desprovidos de direitos econômicos, políticos e sociais, “aqueles que só tinham a sua prole” como bens. Marx, pensador rigoroso, rejeita esta categoria metafísica de “povo”, que o discurso de esquerda contemporâneo herdou do que havia de mais reacionário, tampouco utilizava outras categorias imprecisas ou “classe trabalhadora”, “oprimidos” e similares. A visão dele da força libertadora do proletariado vinha de uma base objetiva, material, derivada de seu modelo econômico complexo e abstrato – sob o qual se diz muita bobagem, algumas das quais desculpáveis pela sua complexidade e extrema abstração.

Resumindo com extrema superficialidade, a visão de Marx era de que como o proletariado – definido objetivamente por Marx como o operariado. Como a maior parte do valor no sistema capitalista era produzida pelo trabalho do proletário, então o caminho lógico para eliminar a exploração seria dar a esta classe – e o conceito classe para Marx tinha um sentido muito preciso de papel no processo produtivo – os poderes excepcionais para conduzir a um nova situação sem exploração e portanto sem classes.

O debate sobre se ainda existe um proletariado hoje e se ele ainda teria este papel ainda está longe de qualquer conclusão, mas em qualquer caso o progressiva redução demográfica do operariado e sua profunda mudança de perfil – a qual não deixa de ser possível e previsível no modelo marxista – tornam a questão política muito mais complexa. A evolução tecnológica que levou à superação do taylorismo e do fordismo e ao processo de desmassificação, por um lado, tornam mais compreensível e viável uma das dimensões mais “filosóficas” do pensamento marxista que é a superação da alienação, mas trazem em si o problema de imensas populações que já não se qualificam mais como “exército industrial de reserva”.

É evidente que este debate sobre a existência de um papel de um proletariado e de outras classes sociais ainda fará correr muitos rios de tinta para usar o clichê, mas a reflexão sobre o tema parece ser de fundamental importância.

Ao contrário da definição conceitual precisa deixada por Marx a estrutura e mecanismos de funcionamento do que seria esta “Ditadura do Proletariado” não vai além de alguns poucos pontos vagos observando algumas boas práticas da efêmera Comuna de Paris. As contribuições posteriores também são muito vagas e genéricas, apontando que esta materialização era ainda um desafio vago que o novo Estado soviético teria de construir em seu cotidiano

E que cotidiano era aquele, o país devastado pela guerra, com problemas de abastecimento, atacado por 17 outros países, em guerra civil, com as finanças destruídas e isolado do resto do mundo, com pouca ou nenhuma estrutura administrativa em que se pudesse confiar. Em tal cenário de fragmentação qualquer regime que fosse capaz de fazer o “feijão-com-arroz” da administração mereceria ser estudado e respeitado, quanto mais um que buscasse no meio desta confusão encontrar uma forma nova de gerir uma máquina administrativa tão pesada sob um legado de autoritarismo, corrupção e ineficiência que era o deixado pelo czarismo.

Em um momento no qual as formas tradicionais de Estado demonstram sua caducidade, com as engrenagens representativas enferrujadas, sua viabilidade econômica seriamente comprometida e sua legitimidade seriamente posta em dúvida a experiência soviética de tentar fazer algo novo merece um olhar mais cuidadoso e generoso, senão complacente, porque talvez lá se encontrem algumas ideias.