francois_dubois_001O fenômeno do crescimento e fortalecimento das bancadas evangélicas não é novo, o momento atual representa apenas um crescimento cujas tendências já podiam ser vistas há várias eleições e sua consolidação demonstra estar ainda longe do enfraquecimento da tendência e apesar da sobrerepresentação evangélica nas bancadas – em muitos lugares como na cidade de São Paulo a proporção de parlamentares evangélicos já é maior que a população destas religiões – ainda está longe do teto.
As reações a este movimento estão muito marcadas de um lado pela intolerância e de outro pela hipocrisia, ambas recheadas com o vazio conceitual e as rasas análises de conveniência pelas quais se caracteriza o debate político brasileiro neste momento. Hipocrisia porque será difícil encontrar um político que não tenha mordido ou tentado morder uma parte deste eleitorado, nem governo que não busque um compromisso com esta bancada, usualmente disciplinada, para garantir a governabilidade.
A intolerância é mais sutil, mesmo quando mais visível. Dá, ou deveria dar, enjoo a qualquer um comprometido com o humanismo a violência e veemência com a qual os evangélicos de uma forma geral são tratados, negando a eles a tolerância e liberdade de crença e opinião que se reivindica. Há, sem dúvida, uma centena de poréns contestando esta firmação, nenhuma delas contudo pode negar o direito de crença nem justificar os ataques verbais.
Na pior de todas as hipóteses, como no caso das comunidades de religiões de matriz afrobrasileiras agredidas, ainda assim é necessário dizer que a repetição dos métodos intolerantes só legitima a perpetuação da violência. Particularmente é necessário compreender que os evangélicos no Brasil são uma minoria e na sua maioria seus adeptos são das mesmas classes oprimidas, assim a noção de uma resistência a um grupo dominante não se aplica aqui. Mas faltaria espaço para discutir a multidão de casos e conflitos específicos, discussão também que seria pouco produtiva sem firmarem-se os conceitos.
Paradoxalmente praticamente todos só conceitos envolvidos na questão são um legado das religiões reformadas ao mundo. A necessidade de um Estado Laico não se metendo na opção religiosa de seus cidadãos e não torcendo para um ou outro grupo, a liberdade de credo como condição essencial do ser humano e as suas liberdades consequentes de opinião, reunião e imprensa, a condenação veemente da simonia – o problema concreto a inspirar Lutero na “Doutrina de Graça” foi contestar a venda de lugares no Paraíso, ou pelo menos no Purgatório para os menos afortunados, pelos católicos, só para fazer um breve levantamento, foram resultados da cosmovisão evangélica.
Ainda que alguém argumente que estamos muito longe de 1514 e 1876 o Movimento pelos Direitos Civis nos Estados Unidos, em grande parte uma mobilização religiosa não só evangélica mas pentecostal, demonstra a vitalidade destes conceitos quando revisitados apropriadamente. Talvez o rótulo mais inapropriada que se pode aplicar aos evangélicos é o de reacionários, ao menso na acepção estrita da palavra um católico, um muçulmano, um hindu ou um budista podem ser reacionários, ou seja alguém que deseja a volta a um estado da sociedade anterior à Revolução Francesa, mas a cosmovisão protestante já é a do mundo contemporâneo
É evidente que há conflitos e questões a serem debatidas com profundidade e sem meias palavras. A manipulação do eleitorado por sacerdotes, de todos os credos, picaretas que extrapolam sua autoridade espiritual para tornarem-se boiadeiros de currais eleitorais, por exemplo, ganhou previsões legais que ainda precisam ser endurecidas, bem como a exigência de mais transparência com relação aos recursos e a revisão da isenção fiscal para as religiões de forma a só abarcar de fato as atividades relacionadas à prática religiosa, só para citar algumas agendas.
Da mesma forma é necessário estabelecer alguns pontos de consenso, ou pelo menos regras de debate civilizado, com relação às agendas excludentes dos evangélicos – e de outros segmentos religiosos porque de forma estrategicamente silenciosa os setores reacionários (aqui sim o termo é historicamente adequado) da Igreja católica também vem operando máquinas eleitorais crescente – em relação aos homossexuais, mulheres, outras religiões e outros segmentos.
O Pentecostalismo nos deu Martin Luther King e a Ku Klux Klan, assim como os católicos nos deram Torquemada e São Francisco e os muçulmanos Rumi e Bin Laden, em todos os casos parece ser evidente que uma das variáveis mais importantes é se o conceito de humanidade é restrito ou ampliado. O debate é longo e difícil, mas é certamente possível. Não há nenhuma incompatibilidade absoluta e inamovível dos evangélicos com a modernidade, pelo contrário, muito dos valores desta modernidade derivam de conceitos originalmente evangélicos, ainda que em muitos casos estas linhas estejam meio emaranhadas e esquecidas.
Filosoficamente o pensamento progressista, de esquerda em particular, deveria estar buscando incentivar e alimentar este debate, deveria estar revoltando-se com a ira santa antievangélica que vai se criando no país. E deveria estar tomando esta posição por uma questão de princípios, independente se os evangélicos estão do mesmo lado eleitoral – como já estiveram até muito recentemente – ou se, como agora, estão na posição de buchas de canhão das forças conservadoras.
Mas, como questões de princípios estão muito fora de moda, o campo progressista também deveria dar atenção a estas questões por questões estratégicas e pragmáticas. Manter a hostilidade inaceitável dos discursos, fomentar os preconceitos, negar legitimidade à expressão política evangélica não só não produzirá o diálogo necessário como aumentará o insulamento das populações evangélicas, aumentando a força dos pastores picaretas e jogando este segmento no colo das forças conservadoras. Com estas, novo paradoxo, há muito menos afinidade conceitual – tanto que o astrólogo boca suja transformado em guru dos reacionários já disse que os protestantes devem estar quase tão abaixo na sua escala quanto só comunistas – mas há a afinidade mais fácil do discurso superficial que confunde conservadorismo moral com conservadorismo político.