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Uma das superstições conservadas da minha formação e militância marxista e que sobreviveu 27 anos anos depois de ter adotado outras militâncias foi a crença no postulado leninista de que a verdade é sempre revolucionária. Não sei se alguém ainda acredita nisto, tão sujeita ás necessidades e emergências, às condições táticas ou estratégicas, enfim a todas estas limitações que se tornaram limitantes de qualquer ideia de verdade, em especial quando se trata de dizer a verdade às massas. Mas eu sigo crendo que só a verdade liberta e que esta verdade deve ser tão próximo do absoluto quanto possível e não destas verdades relativas – nome novo da Doxa, como os gregos chamavam à opinião. Meio nauseado e me sentido extemporâneo neste mundo de verdades pequenas e relativas tenho tido dificuldade de voltar às redes sociais, mas sigo tentando.

Reconheço que às vezes a verdade é tão complexa e profunda que requer recursos extras para sua apresentação, em especial quando ela é mais necessária. Precisamos daquela verdade dos bobos como o do Rei Lear, dos profetas loucos como Tirésias de Édipo e Antígona. O genial Glauber Rocha mostrou esta Verdade naquela linguagem enigmática e precisa dos Bobos em seus filmes e em especial em Terra em Transe.

Sofremos do mal do Realismo na nossa Estética, agravado pelo baixo nível cultural mesmo nas esferas da elite, doutrinado pela cultura das novelas globais. Nada em si contra o Realismo, tem seus momentos e suas finalidades e em grande parte a arte e a literaturam alternam ciclos de naturalismo e estilização, dialéctica que ajuda a manter os processos de renovação e contribuiu para o avanço da técnica, o descarte dos modelos que tendem a se tornar burocratizados, acadêmcios e com isto perdme a vitalidade. O problema em si é longa hegemonia realista que limita a compreensão de outras formas de narrativa.

Glauber já surge então prejudicado por ultrapassar o realismo vigente não só do público como dos próprios estetas. Utiliza a Alegoria, talvez o mais primitivo e primário sistema simbólico, ainda assim traz à sua visão ensadecida da sociedade brasileira aquelas verdades que orgulhariam ao Bobo de Shakespeare – cuja encarnação mais vibrante sme dúvida o Kioyamy de Kurosawa em Ran – e continuam a ter a aziaga capacidade de previsão de Tirésias mesmo que em linguagem sibilina.

Gosto mais de Terra em Transe a cada vez que assisto, ainda que a todo momento fique a sensação inquietante que apesar de todas em impressões em contrário, de todos os indicadores, de tudue se passou o Brasil continua o mesmo de há 50 anos. Esta verdade que desafia os dados tem algo de assustador.

Não nos assusta enxergar a atualidade dos dilemas de um personagem de Shakespeare ou Ésquilo. Mas assusta ver numa alegoria que pareceu tão datada aos seus contemporâneos uma profundidade de análise antropológica de uma nação que não foi capaz de superar aquele quadro em um mundo que se tornou completamente outro. Não duvido que alguém que asistisse o filme daqui a um ano, sme ter nenhuma referência sobre ele, imaginasse que se trtata de um retrato de acontecimentos muito mais recentes e não teria problemas em identificar os personagens da alegoria.

Não tenho qualificação para avaliar tecnicamente a obra de Glauber do ponto de vista da linguagem cinematográfica, só posso avalia-la como narrativa e como simples expectador, mas confrontada à realidade não há como negar a verdade profunda sobre nós mesmos que ela traz.

Sua força à época, e ainda mais hoje nestes tempos de verdades convenientes e partidárias, de fatiamento dos valores e rotulagens vazias de puro caráter retórico, é que ele não olha o quadro a aprtir de um ângulo, mas tenta enxergar a todos os atores e portanto a todos desaponta e enraivece.

Não vou narrar o filme, quem se interessar pode assisti-lo e compará-lo a nossa história passada e presente. Alguns acharão absurda as afirmações e analogias, outros se aproveitarão da análise.

Só digo que o que mais me chama a atenção a cada vez que escrevo é compreender a natureza mística de que se reveste o poder vitorioso, esta tradição que enquanto não superada nos empurarrá ao final e ao cabo aos mesmos desenlaces. Aomesmo tempo as sucessivas covardias que entravam as mudanças, os compromissos semrpe assumidos a limitar os passos no caminho de uma mudança efetiva.

Glauber fez a escolha de Aquiles e morreu jovem, vilipendiado, meio enlouquecido e complemamente empobrecido em uma praia distante do país que poucos como ele conseguiram retratar.