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Maquiavel, o mais arguto e sagaz dos observadores do cenário político naquela Itália do início do Renascimento, encantou-se com Savonarola. Admiração mais espantosa levando-se em conta que de início tinha a missão de espioná-lo para o Duque Valentino, filho do papa Cesar Bórgia. O enredo, impossível não associar a relação de Marlow e Kurtz em “Coração das Trevas” de Conrad e seu avatar cinematográfico “Apocalypse Now”, se aprofunda na medida em que tão profundo e sincero em sua avaliação dos “players” da luta pelo poder na Itália quanto a suas qualidades e defeitos olhados sem hipocrisia, a partir de um ponto de vista estritamente pragmático, ainda assim, Maquiavel é generoso com Savonarola condenando-o apenas ter superestimado a sua capacidade de criar um novo governo apenas com a força das palavras e não pela força, a mesma acusação que se poderia fazer a Thoreau, Gandhi, Martin Luther King.

O epíteto dado por Maquiavel a ele atravessou os séculos – O Profeta Desarmado – e com o tempo e o avanço da civilização perdeu muito de seu caráter pejorativo ainda que conserve o seu sentido analítico, ainda que o postulado evocado na frase do florentino “os profetas desarmados perdem”, tenha perdido parte da capacidade de previsão. Mesmo em relação a Savonarola a sentença é discutívle porque apesar de derrotado ao fim a República do Povo de Savonarola foi o estado fundado em um pensamento utópico mais duradouro por vários séculos ainda. Em certo sentido, que quero discutir melhor adiante, a prórpia República Florentina de Julio Soderinni, da qual Maquiavel foi um dos eminentes líderes, não deixa de ser uma continuação, mesmo que secularizada e atenuada, do governo de Savonarola na medida que mantém várias das reformas democráticas relativas à ampliação dos direitos de cidadania aos segmentos mais pobres.

Todo homem é fruto de seu tempo e dos valores que imperam naqueles tempos, julgá-los a luz dos valores correntes contemporâneos é ser incapaz de compreendê-los e portanto avaliar incorretamente suas ações. Savonarola com ceerteza estava a frente de seu tempo e compreendia melhor os movimentos que começavam a se formar, por conta disto é com certeza um precursor da Reforma Protestante que daria um fim à Idade das Trevas. Da mesma forma é um dos precursores da democracia moderna e um dos primeiros a pensar a sério e a partir de um ponto de vista prática sobre as instituições necessárias para adaptar a Democracia Direta da Grécia Clássica à uma democracia representativa que não exigisse que o povo fosse todos os dias à assembleia tomar suas decisões, mas que garantisse que o Conselho eleito para representar a população fosse grande o suficiente para não ser facilmente subornado, diverso o suficiente para representar os diversos segmentos da cidade. Também pioneiro do Welfare State e dos direitos sociais na medida em que considerava essencial garantir que todas as famílias tivessem trabalho e recebessem por ele o suficiente para sobreviver com dignidade.

Do ponto de vista da democracia é surpreendente o resgate do costume grego clássico de atribuir as funções públcias, a aprtir do segundo escalão, por sorteio. Por paradoxal que possa ser a visão grega que Savonarola apoia é revolucionária na medida em que se baseia na ideai de que só pelo sorteio se teria um governo realmente democratico pois cada cidadão teria a mesma chance de ocupar um posto, ainda que tantos gregos quanto florentinos tenha resguardado as funções mais relevantes e técnicas – especialmente aquelas relacionadas à guerra – para profissionais experiemtnados.

É evidente que ele expressava estas visões de uma nova sociedade no universo simbólico religioso-apocaliptico-platônico, porque era neste universo que ele foi formado e pensava. Seriam ainda necessários cinco séculos antes que a Utopia se libertasse por completo deste modelo e se secularizasse, esperar outra coisa de Savonarola é ser incapaz de compreender a história.

Parte das críticas a ele – tanto em termos teóricos quanto práticos – se deve a esta incompreensão. Do ponto de vista prático a que mais choca os contemporâneos é a “Fogueira das Vaidades”, imensa destruição de livros e obras de arte ‘profanos’. É impossível apreciar Savonarola neste momento em que o frei dominicano – a Ordem responsável pela Inquisição – falou mais forte que o reformador social, mas não é de todo impossível de compreender seu foco naquilo que representava a ostentação da aristocracia enquanto a maioria da população passava fome. Consta que o próprio Boticceli persuadido pela pregação levou alguns de seus quadros à fogueira.

Do ponto de vista teórico o frei esforçasse para tentar conciliar sua visão política de uma república florentina com toda a doutrina política bem estabelecida pelos doutores da Igreja e filósofos de que a Monarquia era a melhor forma de governo. É uma enorme ginástica teórica, mas a sua preocupação de fazê-la demonstra seu apreço pela legitimidade, coisa rara naqueles tempos de conclaves subornados e governos obtidos pela violência e traição. No processo resgata algumas ideias do Arquétipo de todas as utopias – e de muitas dispotias também – a República de Platão e até pensa em uma classe de guardiães, que abdicariam de suas posses para exercer as funções críticas de governo.

Nem nas qualidades nem nos defeitos, nem em erros nem em acertos, nem na visão de mundo nem no exercício prático de poder fica possível encontrar qualquer paralelo entre Savonarola e Sergio Moro. Pelo contrário, o frei é que é foi vítima de um julgamento – efetuado pelos seus rivais freis franciscanos e a mando do homem mais vil de seu tempo escolhido pela Igreja para representar Deus na Terra. Julgamento este destinado a condená-lo para viabilizar os planos políticos do filho do papa. Transposto para os tempos modernos, Savonarola seria réu e não juiz da Lava-jato.