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Não quero, nem sou qualificado, para entrar nas discussões estéticas relativas a um poeta como Dylan ser agraciado com o Nobel de Literatura. No máximo, como leigo curioso, achei interessante a alusão feita pelos promotores do prêmio à poesia épica – fundamento da cultura ocidental e que também era oral e não lida – e vi a lógica da metáfora sinalizando uma outra mudança de meio perfazendo a volta do círculo que veio da oralidade e musicalidade e a ela agora retorna após poucos séculos de escrita. Não sei se foi esta a intenção dos curadores, nem se foi esta a intenção da premiação e da alusão, sei sequer se concordo, mas algum sentido faz e é coerente com a postura de vanguarda e representatividade sinalizados pelo prêmio.

Estranho a premiação de uma jornalista na edição anterior não ter gerado o mesmo furor, já que a poesia, mesmo oral, faz parte da literatura mas o jornalismo sequer pertence ao campo artístico É verdade que há bons anos Dylan não chega próximo da qualidade do passado, mas o Nobel não é um prêmio anual.

Dado o pitaco na questão estética a intenção deste texto era dizer que em mundo que está em um momento tão sombrio e desesperançado a premiação de um trovador de outros tempos no qual o sonho era não só possível mas plausível é uma brisa refrescante. É uma lembrança da época que o mundo ainda era jovem – para usar a expressão de tantas fábulas medievais resgatada por Umberto Eco – e não de um mundo que envelhece mal e parece desejar um apocalipse para por fim ao seu sofrimento.

É esta sensação que faz os versos de Dylan que servem de título terem, isolados do contexto da canção, um sentido inverso àquele da época em que foram escritos. Os tempos estão mudando, mas no sentido inverso, na destruição da mudança da época áurea de Dylan. Aquilo que na época em que foram escritos significam esperança hoje sinalizam um desalento.

Falo isto pensando não só na derrocada petista, embora ela seja um ingrediente, mas da situação geral. Trump, o sem-reputação como pontuou um jornal americano, correndo o risco de ganhar nos EUA, recorde de apatia do eleitor (em São Paulo 40% dos eleitores não escolheram um vereador, por exemplo), uma disputa das grandes potências na Síria na qual é difícil dizer qual das facções é pior entre o ditador sanguinário, os militantes tradicionalistas, os guerrilheiros stalinistas, com os psicóticos do Estado Islâmico correndo por fora, o crescimento do racismo e da xenofobia na Europa, o desencantamento geral com as utopias.

Embora tenha se tornado o discurso padrão – a ponto de uma pessoa que me é cara e é culta dizer que o PSDB tem o direito de roubar a merenda das crianças porque o PT fez pior – não posso ser acusado de ter simpatia pelo PT. Por sinal enquanto a maioria dos antipetistas mais empedernidos da atualidade, em especial o PMDB, estava mamando nas gordas tetas de todas as esferas de governo nas três esferas de governo e em especial naquelas comandadas pelo PT, eu estava colaborando com o controle de danos, tentando no parlamento em conjunto com o mandato que eu atuo corrigir o que dava para ser corrigido e criando formas de dar mais transparência e impor maior controle ao que era feito. Há poucas coisas que se diz do PT hoje que eu já não tivesse escrito há dez anos ou mais quando por oportunismo, covardia ou despreparo e falta de visão muitos dos críticos ferrenhos de hoje se calavam.

Mais do que merecer o PT armou a arapuca na qual caiu. Alimentou as forças políticas arcaicas, em especial aquela fundadas no patrimonialismo ao invés de esforçar-se por elevar o nível de consciência da sociedade, porque era mais fácil e prático. Refundou o mito tecnocrático do gestor para eleger postes em todo lugar ao mesmo tempo em que fomentou o anti-intelectualismo. Escolheu lutar no campo adversário ao escolher as táticas nazifascistas de desconstruir adversários e rebaixar o debate político a detalhes e bobagens sem maior significância Sabotou e expurgou suas bancadas dos elementos mais recalcitrantes para garantir mais docilidade a suas alianças e políticas. Enfim,, uma lista exaustiva de tudo seria extensa demais para caber aqui.

No meio do cenário de certa histeria reinante neste momento, dominado por uma irracionalidade fomentada, mas não totalmente controlada, pelas forças obscura fica um tanto difícil demonstrar a profunda falácia do discurso que aponta o fracasso petista como fracasso da esquerda e lança esperança para outros campos políticos. Ainda assim é necessário assinalar que se a política efetivamente implementada pelo PT – e até mesmo partes substanciais de seu discurso – nada tinham de esquerda não foi um projeto de esquerda que falhou. Da mesma forma se a diferença entre estas ações do PT e daqueles que os sucederam está fundada nas mesmas alianças e compromissos tecnocrático-coronelistas não há expectativa de que se faça muito diferente.

Impossível pensar em um argumento menos de esquerda do que o que a fúria petista vem martelando nas redes nos últimso tempos de que o povo pobre é burro demais para saber o que é bom para eles e vota em seus inimigos. Em priemiro lugar o corolário óbvio deste argumento é que alguém deve escolher em nome desta pobre massa de ignorantes e, em segundo lugar, se 12 anos de governo petista fizeram retroagir a consciência política da sociedade e em especial dos mais pobres é porque o partido errou e feio.

A pergunta que salta é “e daí, o que fazer”? Fiel ao princípio que quem aponta o problema deve dar a solução preferi o silêncio por muito tempo porque falta vislumbrar um outro futuro, perceber mesmo lá no horizonte distante uma sombria nuvemzinha de poeira que aponte que os tempos, os tempos mudarão novamente em algum momento. Se rendo-me a escrever sem ter esta resposta é pela angústia de saber o quanto a esperança é necessária e que alguém em algum lugar tenha algum sonho que seja possível sonhar. Enquanto isto resta o cotidiano de reduzir os danos, não sofrer do desalento.