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Há mais de 12 anos chegou às telas uma versão “desencantada” – no sentido weberiano – da Ilíada. Preocupada em não contrariar a epopeia – salvo em alguns poucos pontos como a morte de Agamenon em Troia, que nos privaria do Complexo de Electra, do voto de Minerva e outros episódios derivados do retorno de Agamenon a Esparta – mas ao mesmo tempo retirando da narrativa todos os elementos sobrenaturais.

O exercício é bastante interessante e sobrevive mesmo há algumas más atuações. Destaca-se, sobretudo, a facilidade com que a atuação dos deuses é facilmente extirpada da narrativa e ainda assim ela mantém a sua força dramática. Não é inusitado, uma vez que uma questão que emerge da Ilíada e da Odisseia é que os homens são muito melhores que os deuses. Enquanto os primeiros lutam com coragem e honra, demonstram respeito pelos seus adversários e seguem um código de conduta bastante rígido, até nas suas fúrias, sendo a de Aquiles a mais que serve de mote a Ilíada mas não é de forma alguma a única, os deuses trapaceiam, são mesquinhos em suas susceptibilidades e fazem um lado ou outro triunfar não pelos seus méritos mas pelos simples caprichos divinos; mais do que sito um Zeus autoritário não demonstra nenhum respeito pelos seus iguais ao contrário dos heróis gregos e troianos.

Também digno de nota é quem em meio a toda a carnificina e guiados por uma ética de violência a guerra é ganha pela inteligência de Ulisses, o de muitos ardis para citar o epíteto, e não pelos heroísmos de Aquiles e Heitor. A mesma inteligência que na maior parte das vezes o auxilia na sua volta narrada na Odisseia. Necessário destacar também que parte da força de Ulisses é não ostentar sua sabedoria, nem parecer-se sábio a despeito de sua generalizada fama. Quando Helena o descreve a Príamo no Canto III aponta suas habilidades ardilosas apesar da sua aparência e Antenor corrobora a descrição dela ao lembrar-se de como Ulisses lhe pareceu rústico e até louco até que após longa pausa de cabeça baixa começou a falar e as palavras lhe fluíam com profundo efeito sobre a plateia, truque por sinal que até pouco tempo alguns oradores tentavam mimetizar.

De um ponto de vista tradicional seria possível fazer toda uma crítica quanto à incompreensão do papel do mito, entendido de forma subjacente nos tempos modernos, como no filme em questão, como uma amplificação e uma mistificação de fatos reais ao longo dos séculos. ‘A parte esta incompreensão de um sentido mais profundo do mito como representação de supra realidades que não podem ser transmitidas em sua complexidade pela palavra e portanto necessitam de uma encenação simbólica, ainda assim a compreensão dos valores humanos expressos pela revisitação “desencantada” da mitologia tem muito a nos dizer na medida que em que elas não só expressam mas também criam uma visão de mundo.

Os heróis gregos triunfam a despeito da contrária vontade dos deuses, os gregos vencem Troia apesar da disposição de Zeus, Ulisses retorna apesar da perseguição de Posseidon. A inteligência triunfa sobre a força e a mágica, os homens desafiam seu destino. Tal desafio sobressai quando se contrasta as narrativas homéricas com, por exemplo, as infindáveis narrativas das Mil e Uma Noites, na qual as desgraças e bem aventuranças são distribuídas por um destino cego. Ainda que nas Mil e uma noites a astúcia esteja presente no ardil de encadear histórias na qual alguém tem de contar uma história para salvar a vida em um looping potencialmente infinito, o protagonismo das histórias é sempre dado pelo acaso.

Há algo nisso tudo que interessa a esta nossa e´poca contemporânea para além de mera curiosidade literária. O homem parece hoje de novo muito pequeno perante as inabaláveis muralhas de Troia, com poucas chances de vencer uma batalha contra forças muito além dele. Suplantando por uma realidade comandada por máquinas poderosas e de crescente complexidade, incapaz de encontrar caminhos e soluções para confrontar um poder inexpugnável não é impossível que o homem se sinta incapaz de escapar ao destino que lhe é imposto.

A resposta não virá da força ou do sobrenatural, virá, talvez, de se perguntar o que Ulisses de muitos ardis faria.