“CORIOLANO – (…) A inveja e a má vontade do povo, consentidas pelos nossos nobres bastardos, que me abandonaram, tudo o mais consumiram. Sim, deixaram que de Roma eu chegasse a ser expulso pela voz dos escravos. (…)combater pretendo minha pátria gangrenada com toda a odiosidade dos demônios do inferno” (Shakespeare, Coriolano)

BRUTUS — Recordai-vos de março! Recordai-vos dos idos desse dia! O grande Júlio não sangrou com justiça? Que malvado pôs nele as mãos e o apunhalou, se a causa justa não defendia? Como! Dá-se que tenhamos matado o mais notável homem do mundo, só por haver ele protegido ladrões, e que ora os dedos tenhamos de sujar com vis presentes e de trocar o círculo imponente de nossa dignidade por uns poucos tarecos que na mão fechar podemos? Prefiro ser cachorro e uivar à lua, a ser romano de tão baixa marca.”( Shakespeare, Julio Cesar)

Há qualidades no Brutus de “Julio Cesar” ausentes no protagonista de outra das Tragédias de Shakespeare situada na República Romana, Coriolano. Brutus crê na finalidade mais elevada de salvar a República como mais elevada do que a vileza da traição aos profundos laços pessoais necessária a sua consecução. Percebe rapidamente o erro quando já tarde demais ao ver instaurar-se a mais completa corrupção, na palavras do bardo, através de Marco Antonio; “Foi o mais nobre dos romanos. Todos os mais conspiradores, tirante ele, o feito realizaram por inveja de César. Bruto, apenas, foi levado por uma ideia honesta e o bem de todos a ligar-se aos demais.”:

Coriolano, por sua vez, sempre me pareceu patético, cômico até, em seu minucioso ódio ao povo, sua indignação em ter de compartilhar qualquer parcela de poder, mesmo simbolicamente, com a plebe. Ambos são levados à própria perda pela manipulação de suas vaidades realizada pelos que conspiram nos bastidores, mas Brutus é levado pela vontade de fazer grandes coisas, Coriolano apenas pelo seu massivo orgulho.

Desde a primeira vez que li Coriolano há vários anos enxerguei com clareza que havia ali um bom retrato da nossa “elite” e daqueles segmentos que acham pertencer a ela. Sinal dos tempos é que aquele discurso que era meio velado, cochichado em conversas privadas, hoje venha à tona como voz corrente e sem freios, nem digo mais de bom senso, mas de educação mesmo.

Tal como Coriolano abundam aqueles que preferem ver a pátria destruída e de joelhos perante uma potência estrangeira a ter de compartilhar o poder com a plebe. Cartazes em inglês pedindo para serem salvos pelo Tio Sam não deixam dúvida de que tal como general traidor romano por causa do desprezo ao povo desprezam o país e a ele voltam as costas.

Esta visão segundo a qual é melhor ser escravo de uma potência estrangeira a ter de aceitar a existência de um Tribuno da Plebe ou ter de pedir votos à plebe há alguns anos, não muitos, era caricata a ponto de poder ser utilizada até pela comunicação de massa – usualmente conservadora – em personagens que faziam rir como o Justo Verísismo de Chico Anísio ou o Caco Antibes de Falabella e fazia rir até quando era sério como nas declarações de Mario Amato de que 800 mil empresários deixariam o país se Lula ganhasse em 89. Transformado em discurso pretensamente sério este ódio ao povo que hoje aflora não merece risos mas sim deve fazer chorar.

Só como breve sinopse, Coriolano é um general romano que após grande vitória contra os volscos tomando a cidade de Coriolos – que lhe rende o cognome de Coriolano – é instado pela mãe e por aqueles que lhe querem a perda a candidatar-se a Cônsul, principal cargo da República.

O voto na República Romana era por classe e centúria. A plebe tinha um único voto, mas a tradição, desde as guerras sociais que haviam dado a ela o direito a este único voto e a eleger dois tribunos da plebe, exigia que o candidato humildemente pedisse votos nas ruas e exibisse seus ferimentos em batalhas em defesa de Roma.

Coriolano considera tal procedimento incompatível com a sua dignidade e tenta furtar-se a ele de todo jeito. Não conseguindo faz o ritual de má vontade, a todo instante tecendo comentários jocosos para os nobres que o acompanham enquanto faz enorme esforço hipócrita para tentar agradar ao povo. Um exemplo:

CORIOLANO — Que votos agradáveis! Antes morrer de fome,alarvemente, do que ter de pedir a tanta gente quanto já nos pertence. Como logo vestido, assim, que faço — grande bobo! — pedindo a Pedro e a João o voto estulto? (…)Já consegui vencer meio intervalo. Ora, tendo sofrido uma metade, a outra, por isso, perecer não há de. Eis outros votos que nos chegam. (Voltam mais três cidadãos.) Vossos votos, senhores. Foi por vossos votos que eu combati; velei por vossos votos; recebi duas dúzias de feridas, ou mais, por vossos votos. Vi batalhas e ouvi três vezes seis; só pelos vossos votos fiz muitas coisas; umas, grandes; outras, pequenas. Bem; os vossos votos. Desejara ser cônsul”

Derrotado na eleição Coriolano desabafa contra os “sempre mal cheirosos” e insta os colegas no Senado a não aceitar mais “dividir” o poder com a plebe. “Esse governo de dois poderes” diz o general, “no qual uma parte sente desprezo, com razão, da outra, sendo por ela, sem nenhum motivo, coberta só de injúrias; em que os títulos, a experiência, a nobreza não conseguem decidir coisa alguma sem que alcancem o sim ou o não da estupidez dos muitos”

Também condena as distribuições de trigo feitas à população durante a guerra. Extrapola tanto que incorre em crime de traição à República. Oferecem a ele a opção de dirigir-se ao povo pedindo perdão e se retratando para ser anistiado. Coriolano até tenta, mas à última hora seu orgulho de classe fala mais alto, e ele desiste de salvar-se mesmo que isto custasse dar um “bom dia” a algum malcheiroso do povo.

Banido por traição, vai a capital dos Volscos pedir apoio de seu maior adversário para destruir Roma, com o discurso que está citado na epígrafe. Surdo aos diversos apelos, acaba, por fim a ceder aos pedidos da mãe complementados por pesado tributo pago pelos romanos para poupar a cidade. Voltando a Coriolos, contudo, é chamado de “memino chorão” e executado por não ter cumprido o prometido de entregar toda a Roma.

Mas para além do cômico do discurso anti-povo de Coriolano e seus modernos seguidores há uma dimensão trágica. Em Roma a rejeição a qualquer reforma social que garantisse a sobrevivência dos agricultores recrutados para as legiões, arruinados por fazer a riqueza e a glória de Roma enquanto a elite patrícia auferia todos os benefícios acabou por levar ao fim da República – momento retratado nas outras peças de Shakespeare do Período. Cesar, adepto na juventude dos Gracos reformistas caídos em desgraça, fez com seus espólios de guerra aquilo que o Estado se recusava a fazer e trouxe para si, mais do que para Roma, a lealdade das legiões.

Também seria necessário investigar de forma mais profunda como se consolidou esta Síndrome de Coriolano não nas verdadeiras elites, mas principalmente nos segmentos abaixo dela. Falta a estes segmentos tanto o ethos de guerreiro como a antiguidade da estirpe que tinha Coriolano e os patrícios romanos; falta também a crença em um rígido sistema repúblicano e focado no mérito e no preparo para o exercício da função pública, falta a distinção da cultura e da educação que por tantos séculos legitimou as antigas elites européias, nem mesmo a riqueza, porque proveniente em grande parte do saque ao Estado pelo antigo e novo patrimonialismo. O show de horrores das declarações de votação durante a sessão que aprovou o impeachment demonstrou com muita clareza a indigência mental da elite política.

Meu palpite, que prometo desenvolver melhor em outra ocasião, é que a síndrome de Coriolano dos “donos do poder” – tanto os antigos tão bem descritos por Faoro, como dos novos que ainda precisam de uma análise clássica – é que nada os distingue – nem mesmo como representação simbólica ou ideológica – das amplas massas que governam. Portanto é só pela exacerbação um tanto quanto caricata dos preconceitos é que ela pode tentar construir uma muralha simbólica para legitimar sua posição. Ela precisa gritar desesperadamente contra o resto do povo para que ninguém exija deles o exercício de alguma qualidade de elite das quais são desprovidos.