“Quem não gosta de política corre o risco de passar a vida inteira sendo mandado por quem gosta” (Lula)

A atual crise política não é produto da política, pelo contrário é causada, em especial nos seus aspectos mais tenebrosos como a intolerância e a impossibilidade de diálogo, justamente pelo crescente e progressivo afastamento da política dos processos decisórios e do poder. A cova foi cavada quando os políticos descobriram como era difícil eleger-se através da política e de todas as suas regras, complicações, consumo de tempo e saliva, reflexão, esforço tanto físico quanto mental, frente a toda a pirotecnia da comunicação de massa oferecida pelos marqueteiros.

Já mencionei em outro post , mas volto ao exemplo pela clareza do exemplo. Nas conversas grampeadas Lula fala de sua vontade de reeditar as caravanas da cidadania, de andar por este Brasil discutindo política, conversando com a população, ouvindo e explicando. Imediatamente tentam convencê-lo de que isto é uma bobagem, que ele deve “dar coletivas” e coisas do tipo, mantendo-se naquela arena que é dominada pelos adversários.

As caravanas da cidadania devem ter sido um dos pontos mais altos de qualquer campanha política já realizada, talvez nem tanto pelo que se esperava que fosse e com certeza não pelo seu pouco resultado eleitoral. Não foram concebidas, como as frágeis tentativas de réplica que de tempos em tempos algum candidato tenta reeditar, como uma forma das pessoas conhecerem o candidato, era pelo contrário uma forma do candidato conhecer o país e ela encontrou muito mais soluções que podiam ser generalizadas nas estratégias de sobrevivência e desenvolvimento do que problemas.

Viagens estas que ele fez com gente de conhecimento como Azis Ab´Saber e de sensibilidade como Ricardo Kotscho, em condições precárias e com pouca atenção da mídia. Não as fez com todo um aparato cinematográfico e alguma  Leni Riefenstahl a filmar grandes planos para utilizar no horário eleitoral com uma musiquinha de fundo.

Mas as caravanas da cidadania não ganharam eleições, o que ganhou eleição foi aderir aos marqueteiros – e já disse um milhão de vezes mas nunca é demais utilizam as técnicas do nazismo para a comunicação com a massa. A política ia sendo tirada de cena na medida em que a questão não era forjar um argumento, encontrar uma forma de convencer, garantir a elevação da consciência e o protagonismo, era simplesmente a questão logística de alavancar os recursos financeiros para pagar a conta das despesas.

Ganha a eleição a questão também deixa de ser a construção de um projeto sólido e o convencimento e negociação com os diversos setores da sociedade, era uma questão apenas de conseguir a qualquer custo um número de votos necessários e apresentar a ideia com uma bela roupagem. Para tal era inclusive de bom alvitre afastar os colegas mais reticentes ou escrupulosos que insistiam em continuar a debater questões já definidas em outra esfera e se hoje o PT se queixa de mal ter quem o defenda nos parlamentos em tão profunda crise é porque o próprio partido resolveu ir expurgando os recalcitrantes que teimavam em ainda debater politicamente as decisões.

O PT e as demais forças políticas sérias de todos os campos ideológicos enterram-se ao aceitar disputar em uma arena que não era a da política, que não era a do debate racional encadeado pela lógica, feito com o devido rigor de método e com as regras de convivência necessárias à vida em grupo. Preferiram dirigir-se às massas evocando e invocando o inconsciente coletivo e os impulsos primários. Ainda mais baixos os meios necessários para fazer com que esta máquina diabólica opere.

Ao fazerem isto deixaram de ser protagonistas da história, ficaram presos ao roteiro de uma tragédia que agora se desenlaça. Talvez o PT se safe, no momento em que isto é escrito difícil saber qual será o prognóstico, e até faça a necessária autocrítica.

O Problema é que caso ele não se safe o que se desenha à frente é tão terrível que não há nem como não reagir com asco.