Hegel disse logo no início de seu Curso de Estética que qualquer disparate que passe pela mente humana é formalmente superior a qualquer produto natural, pois mesmo a ideai enviesada é produto de uma liberdade inexistente na beleza natural. Há uma dimensão nesta afirmação cuja profundidade sobre o estado atual da cultura erodida de forma tão faminta pela indústria cultural não se pode desdenhar.

A “música que gruda no ouvido” – só para usar um exemplo mais evidente – não é um produto casual ainda que efêmero. É o efeito da utilização de técnicas sofisticadas para provocar reações diretamente no cérebro, da forma mais eficiente e sem nenhuma mediação da razão ou de um sentido consciente. A rigor ela não fala ao humano, mas ao animal que nos habita, aos nossos mecanismos de resposta instintivos muito mal envernizados nestes nossos poucos segundos de civilização que se seguiram a milhões de anos de animalidade.

Não é estranho que tal tipo de manipulação tome lugar primeiro na música, mais formal das artes e portanto mais sujeita a um processamento que dela retire aquela espiritualidade e liberdade vistas por Hegel como a própria essência do Belo. Aldous Huxley, talvez o primeiro e um dos poucos pensadores fora do campo estético a se dedicar a uma reflexão mais séria sobre esta industrialização da arte – e o vazio dos filmes estereoscópicos do cinema sensível na qual a qualidade dos filmes se mede pelo número de fragrâncias ou pela quantidade dos pelos de urso visíveis individualmente do Admirável Mundo novo refletem esta preocupação.

Huxley considerava já abusiva a crescente utilização destes mecanismos que tentam contornar a razão na propaganda e temia seu crescente uso na propaganda política. A Escola de Frankfurt, abordando por outro ângulo a indústria cultural temia a crescente substituição da arte pela mercadoria sem aura, enfocava a perda da qualidade e do espírito, mas talvez não tenha pensado o suficiente sobre esta natureza mecânica, automática, ouso dizer científica, que rouba o livre arbítrio de quem a frui, a bem dizer, não só é uma arte sem alma, mas também rouba a nossa.

O escritor de ficção científica Robert Silverberg, em um conto de 1956, fala de um computador cujas capacidades crescente de produzir música até chegar o ponto de não precisar mais de nenhuma programação humana, proclama: “senhores, estamos todos obsoletos”. Embora não diretamente relacionado com o tema em si – ao menos o comptador do Circuito de Macaulay produzia música de qualidade, é mais uma peça últi para a reflexão na medida em que aponta a prevista e previsível complexidade crescente da técnica que a habilita a driblar e contornar aquele verniz de civilização e falar ao animal, excluindo nossa consciência humana – portanto nossa fruição de fato – do processo.

Impossível refletir mesmo sobre pequena parte das consequências desta desumanização em poucas linhas, mesmo para traçar o avanço de um domínio técnico nos levando a ser crescentemente manipulados. A música, mesmo com a extrema formalidade, ainda assim não é processo simples de demonstrar esta desumanização. Mas evoco a preocupação essencial que o processo ilustra que é a perda crescente da nossa liberdade, dimensão que extrapola o mero exercício estético ou a implicância ranzinza com “a melhor música de todos os tempos da última semana” para pensarmos no admirável mundo novo que vai nascendo e para qual vamos sendo conduzidos por um flautista de Hamelin da técnica.