“ (…)agora, quando a intervenção direta das massas na vida pública passou de casual e infrequente a ser o normal, apareça a “ação direta” oficialmente como norma reconhecida. (…) Toda a convivência humana vai caindo sob este novo regime em que se suprimem as instancias indiretas. No trato social suprime-se a “boa educação”. A literatura, como” ação direta”, constitui-se no insulto. (…)Trâmites, normas, cortesia, usos intermediários, justiça, razão! de que veio inventar tudo isso, criar tanta complicação? Tudo isso se resume na palavra “civilização”, que, através da ideia de civis, o cidadão, descobre sua própria origem. Trata-se com tudo isso de fazer possível a cidade, a comunidade, a convivência. (…) Todos, com efeito, supõem o desejo radical e progressivo de cada pessoa contar com as demais. Civilização é, antes de tudo, vontade de convivência. ” (Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas)

 

Começo pontificando com uma provocação: o futuro da política não pertence a mortadelas ou coxinhas.

O exercício da política pressupõe como sua ferramenta essencial a persuasão, para persuadir é necessário estudar, refletir, debater com a sinceridade de quem busca a verdade mais do que a vitória em uma assembleia de iguais na qual a autoridade deriva do conteúdo e não se impõe pela hierarquia. Esta assembleia não existe sem regras, não sobrevive sem a distinção entre o amor à verdade e a superação das vaidades, sem a profunda separação do que discussão de ideais e conflito pessoal. Mais do que regras de convivência exige regras do próprio processo mental, lógica, exercício da razão, eliminação das falácias e de todos os elementos que interferem com a busca pela verdade, partindo do pressuposto que só ao encontra-la será possível tomar a decisão adequada ao bem público.

Na origem o termo elite referia-se a estes poucos dotados destas capacidades necessárias à tomada de decisão que produzisse os melhores resultados. O conceito de oposição entre a elite e o homem-massa em Ortega y Gasset não só retira alguns séculos de poeira da ideia de elite dirigente como dá a ele uma definição suficientemente afastada das veleidades políticos a ponto de tornar-se bem mais universal – e até de ser usado aqui para defender uma posição progressista.

Só como exercício de retórica populista muito enferrujada se poderia chamar aos “coxinhas” vestidos de verde-amarelo ou de Batman – ou despidas na esperança de virar musa – e seus patéticos líderes e ideólogos de “Elite”. Na sua “Ação Direta” de homens-massa está lá a mesma rejeição pelas normas mais básicas de convivência, a redescoberta do insulto intolerante, a intimidação física, o apelo às agressões mais vis e nenhuma, absolutamente  nenhuma disposição para debater qualquer ideia porque “o homem médio tem as “ideias” mais taxativas sobre quanto acontece e deve acontecer no universo”, como diz Gasset ou “já tem opinião formada sobre tudo” como disse Raul Seixas.

Também a triste massa amorfa carregada daqui para ali em uma era na qual mobilizar a população deixou de significar conviver com as comunidades pobres para contribuir através da educação e do debate a elevar seu grau de consciência para que ascendesse da sua condição de massa a de conjunto de cidadãos. Tornou-se mera tarefa logística de lotar ônibus e providenciar lanches. Casos há em que sequer há a complicação adicional de explicar com muitos detalhes qual é o objetivo da manifestação ou entrar em detalhes além da hora da partida, chegada e alimentação. Tal desprezo pela conscientização, que Lula jamais teve – e faço questão de destacar que jamais ouvi alguém falar tão bem, de maneira tão convincente e com tanto resultado sobre a necessidade de cada um se engajar na política.

O momento no qual estive mais triste lendo a violenta violação de privacidade dos telefonemas de Lula foi quando amigos tentavam demovê-lo da ideia de retomar as caravanas da cidadania e sair pelo país fazendo política de fato, conversando com a população, convencendo-o a “dar coletivas”, “emitir notas” e enfim a continuar utilizando todos estes meios impessoais e superficiais de comunicação de massa do qual ele é vítima. Nenhum dos mais ferrenhos adversários de Lula poderia ter dado melhor conselho, do ponto de vista deles mesmo, do que este de deixar de lado a arena da luta política e voltar as cordas do marketing.

Retorno então à provocação. O futuro da política não pertencerá a mortadelas ou coxinhas, mas não porque não há chance de uns ou outros serem vitoriosos na batalha que se trava no país. Há, sim, probabilidades crescentes, mesmo que ainda pequenas, de um quadro tão caótico que destrua a tal ponto a estrutura política e social que acabe resultando em um coxinhismo e ou mortadelismo – e até em um misto de ambos porque foi da improvável junção de uma classe média falida e do lumpenproletariado que nasceu o nazismo. E que o aspecto histriônico dos seus líderes não nos enganem, muito mais patético era um cabo alemão que só foi participar de certas reuniões porque o único emprego que encontrou com seus parcos talentos foi de informante da polícia.

A frase da provocação tem, portanto, outro sentido, o futuro da política não pertence a mortadelas ou coxinhas porque o domínio deles não pertence ao campo da política, na hipótese nefasta de seus líderes conseguirem chegar ao poder a política é que deixa de ter futuro, se é que futuro haverá.