“A forma que na política representou a mais alta vontade de convivência é a democracia liberal. Ela leva ao extremo a resolução de contar com o próximo e é protótipo da “ação indireta”.(…) Proclama a decisão de conviver com o inimigo; mais ainda, com o inimigo débil. Era inverossímil que a espécie humana houvesse chegado a uma coisa tão bonita, tão paradoxal, tão elegante, tão acrobática, tão antinatural. Por isso, não deve surpreender que tão rapidamente pareça essa mesma espécie decidida a abandoná-la. E um exercício demasiado difícil e complicado para que se consolide na terra. ” (Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas)

 

Os mitos nórdicos, menos racionalizados, rotinizados e reinterpretados pela literatura e filosofia, conservam mais da crueza original que seus parentes gregos, romanos ou indianos. Mas para além desta sua primordialidade beirando o bizarro reina uma sutileza ímpar de todos os atores executarem fielmente seus papéis no enredo para gerar o desenlace que é o fim do mundo e dos deuses.

Assim os menores detalhes da trama necessários a dar a um evento com ínfima chance de acontecer a necessária probabilidade concretizam-se, em parte pelas intrincadas artimanhas de Loki – talvez o mais interessante personagem lendário de todas as mitologias – mas também pela sistemática ação e omissão dos demais envolvidos. Era preciso que ao menos uma árvore não prestasse o juramento de não ferir o deus, era preciso que que o outro deus de perfeita pontaria acertasse o primeiro naquele único ponto vulnerável com um dardo feito daquela madeira, era preciso que deuses e monstros se enfrentassem em batalhas nas quais ambos morrerão, enfim, toda a conjunção dos fatos que desaguam no desastre precisam acontecer segundo o script para causar a tragédia e todos colaboram para que assim seja, mesmo sabendo do objetivo.

A atual crise política não começou ontem, nem foi inesperada. Gestou-se há mais de década e foi sendo postergada a custos cada vez mais altos ao longo dos últimos meses, sem o enfrentamento dos elementos estruturais que a geram, sem nem mesmo a solução de elementos mais conjunturais que a podiam ter amenizado. O Ragnarök está às portas e todos continuam a seguir seus roteiros.

Necessário enxergar para além dos cenários limitados de mera tática na qual tantos parecem estar se perdendo. A questão vai muito além de se manter ou perder o poder, ascender a ele ou ser dele defenestrado. O Ragnarök é a destruição da estabilidade de um sistema mais amplo sustentado por um tecido social esfarrapado, balizado por valores universais que perdem rapidamente o sentido, mediado por regras absolutas cada vez menos reconhecidas e expresso em uma linguagem da persuasão progressivamente substituída pela mera força.

É da crueza primal do Ragnarök e da elaboração sofisticada e civilizada de Ortega y Gasset que surge o cenário capaz de tentar fazer a crise gerar um salto qualitativo à frente e não um gigantesco tropeço no caos ou, pior ainda, no atraso. Impossível discutir aqui o paradoxo de evocar um autor conservador para defender uma posição progressista, espero em outro momento poder aprofundar esta discussão, bem como refletir sobre toda a hipocrisia da pretensa direita quem vem surgindo.

Atendo-me então ao essencial de Gasset, ele alerta que a democracia longe de ser um movimento inercial exige esforço – e esforço significativo – mesmo para se manter. Ela contradiz os instintos mais baixos da barbárie, confronta o homem-massa – e desabafo: elite uma ova, nada mais homem-massa no sentido gassetiano do que as mobilizações de coxinhas – e nos desafia.

É este o nosso drama neste momento: deixar correr os acontecimentos de forma descuidada leva ao Ragnarök porque o caminho do ciclo virtuoso requer aquela atenção e cuidado – e mais do que isto a generosidade e elegância de que fala Gasset. A crença de que há suficiente sensatez em todos os lados destas disputas, a crença de que há sensatez em todos os níveis da sociedade, a crença de que há lideranças que honram o título é a esperança de um desenlace no qual não cumpram todos os papéis fortuitos que levam à tragédia, mas tornem-se protagonistas de uma história nova ainda a ser construída.