Vencer e Convencer

“Vencereis, mas não convencereis. Vencereis porque possuem a força bruta de sobra. Mas não convencereis, porque convencer significa persuadir. E para persuadir precisam de uma coisa que lhes falta – razão e direito na luta.” (Miguel de Unamuno respondendo ao Bolsonaro da época que gritava “Viva a morte”)
Vários tiros sairam pela culatra, armou-se o circo para transmitir o impeachment em horário nobre, os deputaods do baixo clero preparam-se com suas fantasias para seus 5 minutos de fama, os empresários colocaram seus jatinhos à disposição, a midia pôs todo seu foco na transmissão do espetáculo, os votos foram contados corretamente.
Mas erraram a dose e acabou sendo transmitido um show de horrores que chocou o país que finalmente conheceu o seu Congresso. No meio de muita palhaçada, poucos argumentos e um nível tão primário dos parlamentares sob o comando infame – temperado com a simonia e a hipocrisia – nasceu não o clima favorável ao rompimento institucional que se queria, mas, pelo contrário, a dúvida sobre as intenções e a seriedade daquele show, ao menos na mente de todos os que tinham preocupação real com o país.
Venceram no placar, mas fizeram o contrário de convencer a nação.

Síndrome de Coriolano

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 “CORIOLANO – (…) A inveja e a má vontade do povo, consentidas pelos nossos nobres bastardos, que me abandonaram, tudo o mais consumiram. Sim, deixaram que de Roma eu chegasse a ser expulso pela voz dos escravos. (…)combater pretendo minha pátria gangrenada com toda a odiosidade dos demônios do inferno” (Shakespeare, Coriolano)

BRUTUS — Recordai-vos de março! Recordai-vos dos idos desse dia! O grande Júlio não sangrou com justiça? Que malvado pôs nele as mãos e o apunhalou, se a causa justa não defendia? Como! Dá-se que tenhamos matado o mais notável homem do mundo, só por haver ele protegido ladrões, e que ora os dedos tenhamos de sujar com vis presentes e de trocar o círculo imponente de nossa dignidade por uns poucos tarecos que na mão fechar podemos? Prefiro ser cachorro e uivar à lua, a ser romano de tão baixa marca.”( Shakespeare, Julio Cesar)

Há qualidades no Brutus de “Julio Cesar” ausentes no protagonista de outra das Tragédias de Shakespeare situada na República Romana, Coriolano. Brutus crê na finalidade mais elevada de salvar a República como mais elevada do que a vileza da traição aos profundos laços pessoais necessária a sua consecução. Percebe rapidamente o erro quando já tarde demais ao ver instaurar-se a mais completa corrupção, na palavras do bardo, através de Marco Antonio; “Foi o mais nobre dos romanos. Todos os mais conspiradores, tirante ele, o feito realizaram por inveja de César. Bruto, apenas, foi levado por uma ideia honesta e o bem de todos a ligar-se aos demais.”:

Coriolano, por sua vez, sempre me pareceu patético, cômico até, em seu minucioso ódio ao povo, sua indignação em ter de compartilhar qualquer parcela de poder, mesmo simbolicamente, com a plebe. Ambos são levados à própria perda pela manipulação de suas vaidades realizada pelos que conspiram nos bastidores, mas Brutus é levado pela vontade de fazer grandes coisas, Coriolano apenas pelo seu massivo orgulho.

Desde a primeira vez que li Coriolano há vários anos enxerguei com clareza que havia ali um bom retrato da nossa “elite” e daqueles segmentos que acham pertencer a ela. Sinal dos tempos é que aquele discurso que era meio velado, cochichado em conversas privadas, hoje venha à tona como voz corrente e sem freios, nem digo mais de bom senso, mas de educação mesmo.

Tal como Coriolano abundam aqueles que preferem ver a pátria destruída e de joelhos perante uma potência estrangeira a ter de compartilhar o poder com a plebe. Cartazes em inglês pedindo para serem salvos pelo Tio Sam não deixam dúvida de que tal como general traidor romano por causa do desprezo ao povo desprezam o país e a ele voltam as costas.

Esta visão segundo a qual é melhor ser escravo de uma potência estrangeira a ter de aceitar a existência de um Tribuno da Plebe ou ter de pedir votos à plebe há alguns anos, não muitos, era caricata a ponto de poder ser utilizada até pela comunicação de massa – usualmente conservadora – em personagens que faziam rir como o Justo Verísismo de Chico Anísio ou o Caco Antibes de Falabella e fazia rir até quando era sério como nas declarações de Mario Amato de que 800 mil empresários deixariam o país se Lula ganhasse em 89. Transformado em discurso pretensamente sério este ódio ao povo que hoje aflora não merece risos mas sim deve fazer chorar.

Só como breve sinopse, Coriolano é um general romano que após grande vitória contra os volscos tomando a cidade de Coriolos – que lhe rende o cognome de Coriolano – é instado pela mãe e por aqueles que lhe querem a perda a candidatar-se a Cônsul, principal cargo da República.

O voto na República Romana era por classe e centúria. A plebe tinha um único voto, mas a tradição, desde as guerras sociais que haviam dado a ela o direito a este único voto e a eleger dois tribunos da plebe, exigia que o candidato humildemente pedisse votos nas ruas e exibisse seus ferimentos em batalhas em defesa de Roma.

Coriolano considera tal procedimento incompatível com a sua dignidade e tenta furtar-se a ele de todo jeito. Não conseguindo faz o ritual de má vontade, a todo instante tecendo comentários jocosos para os nobres que o acompanham enquanto faz enorme esforço hipócrita para tentar agradar ao povo. Um exemplo:

CORIOLANO — Que votos agradáveis! Antes morrer de fome,alarvemente, do que ter de pedir a tanta gente quanto já nos pertence. Como logo vestido, assim, que faço — grande bobo! — pedindo a Pedro e a João o voto estulto? (…)Já consegui vencer meio intervalo. Ora, tendo sofrido uma metade, a outra, por isso, perecer não há de. Eis outros votos que nos chegam. (Voltam mais três cidadãos.) Vossos votos, senhores. Foi por vossos votos que eu combati; velei por vossos votos; recebi duas dúzias de feridas, ou mais, por vossos votos. Vi batalhas e ouvi três vezes seis; só pelos vossos votos fiz muitas coisas; umas, grandes; outras, pequenas. Bem; os vossos votos. Desejara ser cônsul”

Derrotado na eleição Coriolano desabafa contra os “sempre mal cheirosos” e insta os colegas no Senado a não aceitar mais “dividir” o poder com a plebe. “Esse governo de dois poderes” diz o general, “no qual uma parte sente desprezo, com razão, da outra, sendo por ela, sem nenhum motivo, coberta só de injúrias; em que os títulos, a experiência, a nobreza não conseguem decidir coisa alguma sem que alcancem o sim ou o não da estupidez dos muitos”

Também condena as distribuições de trigo feitas à população durante a guerra. Extrapola tanto que incorre em crime de traição à República. Oferecem a ele a opção de dirigir-se ao povo pedindo perdão e se retratando para ser anistiado. Coriolano até tenta, mas à última hora seu orgulho de classe fala mais alto, e ele desiste de salvar-se mesmo que isto custasse dar um “bom dia” a algum malcheiroso do povo.

Banido por traição, vai a capital dos Volscos pedir apoio de seu maior adversário para destruir Roma, com o discurso que está citado na epígrafe. Surdo aos diversos apelos, acaba, por fim a ceder aos pedidos da mãe complementados por pesado tributo pago pelos romanos para poupar a cidade. Voltando a Coriolos, contudo, é chamado de “memino chorão” e executado por não ter cumprido o prometido de entregar toda a Roma.

Mas para além do cômico do discurso anti-povo de Coriolano e seus modernos seguidores há uma dimensão trágica. Em Roma a rejeição a qualquer reforma social que garantisse a sobrevivência dos agricultores recrutados para as legiões, arruinados por fazer a riqueza e a glória de Roma enquanto a elite patrícia auferia todos os benefícios acabou por levar ao fim da República – momento retratado nas outras peças de Shakespeare do Período. Cesar, adepto na juventude dos Gracos reformistas caídos em desgraça, fez com seus espólios de guerra aquilo que o Estado se recusava a fazer e trouxe para si, mais do que para Roma, a lealdade das legiões.

Também seria necessário investigar de forma mais profunda como se consolidou esta Síndrome de Coriolano não nas verdadeiras elites, mas principalmente nos segmentos abaixo dela. Falta a estes segmentos tanto o ethos de guerreiro como a antiguidade da estirpe que tinha Coriolano e os patrícios romanos; falta também a crença em um rígido sistema repúblicano e focado no mérito e no preparo para o exercício da função pública, falta a distinção da cultura e da educação que por tantos séculos legitimou as antigas elites européias, nem mesmo a riqueza, porque proveniente em grande parte do saque ao Estado pelo antigo e novo patrimonialismo. O show de horrores das declarações de votação durante a sessão que aprovou o impeachment demonstrou com muita clareza a indigência mental da elite política.

Meu palpite, que prometo desenvolver melhor em outra ocasião, é que a síndrome de Coriolano dos “donos do poder” – tanto os antigos tão bem descritos por Faoro, como dos novos que ainda precisam de uma análise clássica – é que nada os distingue – nem mesmo como representação simbólica ou ideológica – das amplas massas que governam. Portanto é só pela exacerbação um tanto quanto caricata dos preconceitos é que ela pode tentar construir uma muralha simbólica para legitimar sua posição. Ela precisa gritar desesperadamente contra o resto do povo para que ninguém exija deles o exercício de alguma qualidade de elite das quais são desprovidos.

A culpa não é da política

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“Quem não gosta de política corre o risco de passar a vida inteira sendo mandado por quem gosta” (Lula)

A atual crise política não é produto da política, pelo contrário é causada, em especial nos seus aspectos mais tenebrosos como a intolerância e a impossibilidade de diálogo, justamente pelo crescente e progressivo afastamento da política dos processos decisórios e do poder. A cova foi cavada quando os políticos descobriram como era difícil eleger-se através da política e de todas as suas regras, complicações, consumo de tempo e saliva, reflexão, esforço tanto físico quanto mental, frente a toda a pirotecnia da comunicação de massa oferecida pelos marqueteiros.

Já mencionei em outro post , mas volto ao exemplo pela clareza do exemplo. Nas conversas grampeadas Lula fala de sua vontade de reeditar as caravanas da cidadania, de andar por este Brasil discutindo política, conversando com a população, ouvindo e explicando. Imediatamente tentam convencê-lo de que isto é uma bobagem, que ele deve “dar coletivas” e coisas do tipo, mantendo-se naquela arena que é dominada pelos adversários.

As caravanas da cidadania devem ter sido um dos pontos mais altos de qualquer campanha política já realizada, talvez nem tanto pelo que se esperava que fosse e com certeza não pelo seu pouco resultado eleitoral. Não foram concebidas, como as frágeis tentativas de réplica que de tempos em tempos algum candidato tenta reeditar, como uma forma das pessoas conhecerem o candidato, era pelo contrário uma forma do candidato conhecer o país e ela encontrou muito mais soluções que podiam ser generalizadas nas estratégias de sobrevivência e desenvolvimento do que problemas.

Viagens estas que ele fez com gente de conhecimento como Azis Ab´Saber e de sensibilidade como Ricardo Kotscho, em condições precárias e com pouca atenção da mídia. Não as fez com todo um aparato cinematográfico e alguma  Leni Riefenstahl a filmar grandes planos para utilizar no horário eleitoral com uma musiquinha de fundo.

Mas as caravanas da cidadania não ganharam eleições, o que ganhou eleição foi aderir aos marqueteiros – e já disse um milhão de vezes mas nunca é demais utilizam as técnicas do nazismo para a comunicação com a massa. A política ia sendo tirada de cena na medida em que a questão não era forjar um argumento, encontrar uma forma de convencer, garantir a elevação da consciência e o protagonismo, era simplesmente a questão logística de alavancar os recursos financeiros para pagar a conta das despesas.

Ganha a eleição a questão também deixa de ser a construção de um projeto sólido e o convencimento e negociação com os diversos setores da sociedade, era uma questão apenas de conseguir a qualquer custo um número de votos necessários e apresentar a ideia com uma bela roupagem. Para tal era inclusive de bom alvitre afastar os colegas mais reticentes ou escrupulosos que insistiam em continuar a debater questões já definidas em outra esfera e se hoje o PT se queixa de mal ter quem o defenda nos parlamentos em tão profunda crise é porque o próprio partido resolveu ir expurgando os recalcitrantes que teimavam em ainda debater politicamente as decisões.

O PT e as demais forças políticas sérias de todos os campos ideológicos enterram-se ao aceitar disputar em uma arena que não era a da política, que não era a do debate racional encadeado pela lógica, feito com o devido rigor de método e com as regras de convivência necessárias à vida em grupo. Preferiram dirigir-se às massas evocando e invocando o inconsciente coletivo e os impulsos primários. Ainda mais baixos os meios necessários para fazer com que esta máquina diabólica opere.

Ao fazerem isto deixaram de ser protagonistas da história, ficaram presos ao roteiro de uma tragédia que agora se desenlaça. Talvez o PT se safe, no momento em que isto é escrito difícil saber qual será o prognóstico, e até faça a necessária autocrítica.

O Problema é que caso ele não se safe o que se desenha à frente é tão terrível que não há nem como não reagir com asco.

Hegel e o flautista

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Hegel disse logo no início de seu Curso de Estética que qualquer disparate que passe pela mente humana é formalmente superior a qualquer produto natural, pois mesmo a ideai enviesada é produto de uma liberdade inexistente na beleza natural. Há uma dimensão nesta afirmação cuja profundidade sobre o estado atual da cultura erodida de forma tão faminta pela indústria cultural não se pode desdenhar.

A “música que gruda no ouvido” – só para usar um exemplo mais evidente – não é um produto casual ainda que efêmero. É o efeito da utilização de técnicas sofisticadas para provocar reações diretamente no cérebro, da forma mais eficiente e sem nenhuma mediação da razão ou de um sentido consciente. A rigor ela não fala ao humano, mas ao animal que nos habita, aos nossos mecanismos de resposta instintivos muito mal envernizados nestes nossos poucos segundos de civilização que se seguiram a milhões de anos de animalidade.

Não é estranho que tal tipo de manipulação tome lugar primeiro na música, mais formal das artes e portanto mais sujeita a um processamento que dela retire aquela espiritualidade e liberdade vistas por Hegel como a própria essência do Belo. Aldous Huxley, talvez o primeiro e um dos poucos pensadores fora do campo estético a se dedicar a uma reflexão mais séria sobre esta industrialização da arte – e o vazio dos filmes estereoscópicos do cinema sensível na qual a qualidade dos filmes se mede pelo número de fragrâncias ou pela quantidade dos pelos de urso visíveis individualmente do Admirável Mundo novo refletem esta preocupação.

Huxley considerava já abusiva a crescente utilização destes mecanismos que tentam contornar a razão na propaganda e temia seu crescente uso na propaganda política. A Escola de Frankfurt, abordando por outro ângulo a indústria cultural temia a crescente substituição da arte pela mercadoria sem aura, enfocava a perda da qualidade e do espírito, mas talvez não tenha pensado o suficiente sobre esta natureza mecânica, automática, ouso dizer científica, que rouba o livre arbítrio de quem a frui, a bem dizer, não só é uma arte sem alma, mas também rouba a nossa.

O escritor de ficção científica Robert Silverberg, em um conto de 1956, fala de um computador cujas capacidades crescente de produzir música até chegar o ponto de não precisar mais de nenhuma programação humana, proclama: “senhores, estamos todos obsoletos”. Embora não diretamente relacionado com o tema em si – ao menos o comptador do Circuito de Macaulay produzia música de qualidade, é mais uma peça últi para a reflexão na medida em que aponta a prevista e previsível complexidade crescente da técnica que a habilita a driblar e contornar aquele verniz de civilização e falar ao animal, excluindo nossa consciência humana – portanto nossa fruição de fato – do processo.

Impossível refletir mesmo sobre pequena parte das consequências desta desumanização em poucas linhas, mesmo para traçar o avanço de um domínio técnico nos levando a ser crescentemente manipulados. A música, mesmo com a extrema formalidade, ainda assim não é processo simples de demonstrar esta desumanização. Mas evoco a preocupação essencial que o processo ilustra que é a perda crescente da nossa liberdade, dimensão que extrapola o mero exercício estético ou a implicância ranzinza com “a melhor música de todos os tempos da última semana” para pensarmos no admirável mundo novo que vai nascendo e para qual vamos sendo conduzidos por um flautista de Hamelin da técnica.

 

 

Nem mortadelas nem coxinhas

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 “ (…)agora, quando a intervenção direta das massas na vida pública passou de casual e infrequente a ser o normal, apareça a “ação direta” oficialmente como norma reconhecida. (…) Toda a convivência humana vai caindo sob este novo regime em que se suprimem as instancias indiretas. No trato social suprime-se a “boa educação”. A literatura, como” ação direta”, constitui-se no insulto. (…)Trâmites, normas, cortesia, usos intermediários, justiça, razão! de que veio inventar tudo isso, criar tanta complicação? Tudo isso se resume na palavra “civilização”, que, através da ideia de civis, o cidadão, descobre sua própria origem. Trata-se com tudo isso de fazer possível a cidade, a comunidade, a convivência. (…) Todos, com efeito, supõem o desejo radical e progressivo de cada pessoa contar com as demais. Civilização é, antes de tudo, vontade de convivência. ” (Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas)

 

Começo pontificando com uma provocação: o futuro da política não pertence a mortadelas ou coxinhas.

O exercício da política pressupõe como sua ferramenta essencial a persuasão, para persuadir é necessário estudar, refletir, debater com a sinceridade de quem busca a verdade mais do que a vitória em uma assembleia de iguais na qual a autoridade deriva do conteúdo e não se impõe pela hierarquia. Esta assembleia não existe sem regras, não sobrevive sem a distinção entre o amor à verdade e a superação das vaidades, sem a profunda separação do que discussão de ideais e conflito pessoal. Mais do que regras de convivência exige regras do próprio processo mental, lógica, exercício da razão, eliminação das falácias e de todos os elementos que interferem com a busca pela verdade, partindo do pressuposto que só ao encontra-la será possível tomar a decisão adequada ao bem público.

Na origem o termo elite referia-se a estes poucos dotados destas capacidades necessárias à tomada de decisão que produzisse os melhores resultados. O conceito de oposição entre a elite e o homem-massa em Ortega y Gasset não só retira alguns séculos de poeira da ideia de elite dirigente como dá a ele uma definição suficientemente afastada das veleidades políticos a ponto de tornar-se bem mais universal – e até de ser usado aqui para defender uma posição progressista.

Só como exercício de retórica populista muito enferrujada se poderia chamar aos “coxinhas” vestidos de verde-amarelo ou de Batman – ou despidas na esperança de virar musa – e seus patéticos líderes e ideólogos de “Elite”. Na sua “Ação Direta” de homens-massa está lá a mesma rejeição pelas normas mais básicas de convivência, a redescoberta do insulto intolerante, a intimidação física, o apelo às agressões mais vis e nenhuma, absolutamente  nenhuma disposição para debater qualquer ideia porque “o homem médio tem as “ideias” mais taxativas sobre quanto acontece e deve acontecer no universo”, como diz Gasset ou “já tem opinião formada sobre tudo” como disse Raul Seixas.

Também a triste massa amorfa carregada daqui para ali em uma era na qual mobilizar a população deixou de significar conviver com as comunidades pobres para contribuir através da educação e do debate a elevar seu grau de consciência para que ascendesse da sua condição de massa a de conjunto de cidadãos. Tornou-se mera tarefa logística de lotar ônibus e providenciar lanches. Casos há em que sequer há a complicação adicional de explicar com muitos detalhes qual é o objetivo da manifestação ou entrar em detalhes além da hora da partida, chegada e alimentação. Tal desprezo pela conscientização, que Lula jamais teve – e faço questão de destacar que jamais ouvi alguém falar tão bem, de maneira tão convincente e com tanto resultado sobre a necessidade de cada um se engajar na política.

O momento no qual estive mais triste lendo a violenta violação de privacidade dos telefonemas de Lula foi quando amigos tentavam demovê-lo da ideia de retomar as caravanas da cidadania e sair pelo país fazendo política de fato, conversando com a população, convencendo-o a “dar coletivas”, “emitir notas” e enfim a continuar utilizando todos estes meios impessoais e superficiais de comunicação de massa do qual ele é vítima. Nenhum dos mais ferrenhos adversários de Lula poderia ter dado melhor conselho, do ponto de vista deles mesmo, do que este de deixar de lado a arena da luta política e voltar as cordas do marketing.

Retorno então à provocação. O futuro da política não pertencerá a mortadelas ou coxinhas, mas não porque não há chance de uns ou outros serem vitoriosos na batalha que se trava no país. Há, sim, probabilidades crescentes, mesmo que ainda pequenas, de um quadro tão caótico que destrua a tal ponto a estrutura política e social que acabe resultando em um coxinhismo e ou mortadelismo – e até em um misto de ambos porque foi da improvável junção de uma classe média falida e do lumpenproletariado que nasceu o nazismo. E que o aspecto histriônico dos seus líderes não nos enganem, muito mais patético era um cabo alemão que só foi participar de certas reuniões porque o único emprego que encontrou com seus parcos talentos foi de informante da polícia.

A frase da provocação tem, portanto, outro sentido, o futuro da política não pertence a mortadelas ou coxinhas porque o domínio deles não pertence ao campo da política, na hipótese nefasta de seus líderes conseguirem chegar ao poder a política é que deixa de ter futuro, se é que futuro haverá.

A Crise Política e o Ragnarök

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“A forma que na política representou a mais alta vontade de convivência é a democracia liberal. Ela leva ao extremo a resolução de contar com o próximo e é protótipo da “ação indireta”.(…) Proclama a decisão de conviver com o inimigo; mais ainda, com o inimigo débil. Era inverossímil que a espécie humana houvesse chegado a uma coisa tão bonita, tão paradoxal, tão elegante, tão acrobática, tão antinatural. Por isso, não deve surpreender que tão rapidamente pareça essa mesma espécie decidida a abandoná-la. E um exercício demasiado difícil e complicado para que se consolide na terra. ” (Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas)

 

Os mitos nórdicos, menos racionalizados, rotinizados e reinterpretados pela literatura e filosofia, conservam mais da crueza original que seus parentes gregos, romanos ou indianos. Mas para além desta sua primordialidade beirando o bizarro reina uma sutileza ímpar de todos os atores executarem fielmente seus papéis no enredo para gerar o desenlace que é o fim do mundo e dos deuses.

Assim os menores detalhes da trama necessários a dar a um evento com ínfima chance de acontecer a necessária probabilidade concretizam-se, em parte pelas intrincadas artimanhas de Loki – talvez o mais interessante personagem lendário de todas as mitologias – mas também pela sistemática ação e omissão dos demais envolvidos. Era preciso que ao menos uma árvore não prestasse o juramento de não ferir o deus, era preciso que que o outro deus de perfeita pontaria acertasse o primeiro naquele único ponto vulnerável com um dardo feito daquela madeira, era preciso que deuses e monstros se enfrentassem em batalhas nas quais ambos morrerão, enfim, toda a conjunção dos fatos que desaguam no desastre precisam acontecer segundo o script para causar a tragédia e todos colaboram para que assim seja, mesmo sabendo do objetivo.

A atual crise política não começou ontem, nem foi inesperada. Gestou-se há mais de década e foi sendo postergada a custos cada vez mais altos ao longo dos últimos meses, sem o enfrentamento dos elementos estruturais que a geram, sem nem mesmo a solução de elementos mais conjunturais que a podiam ter amenizado. O Ragnarök está às portas e todos continuam a seguir seus roteiros.

Necessário enxergar para além dos cenários limitados de mera tática na qual tantos parecem estar se perdendo. A questão vai muito além de se manter ou perder o poder, ascender a ele ou ser dele defenestrado. O Ragnarök é a destruição da estabilidade de um sistema mais amplo sustentado por um tecido social esfarrapado, balizado por valores universais que perdem rapidamente o sentido, mediado por regras absolutas cada vez menos reconhecidas e expresso em uma linguagem da persuasão progressivamente substituída pela mera força.

É da crueza primal do Ragnarök e da elaboração sofisticada e civilizada de Ortega y Gasset que surge o cenário capaz de tentar fazer a crise gerar um salto qualitativo à frente e não um gigantesco tropeço no caos ou, pior ainda, no atraso. Impossível discutir aqui o paradoxo de evocar um autor conservador para defender uma posição progressista, espero em outro momento poder aprofundar esta discussão, bem como refletir sobre toda a hipocrisia da pretensa direita quem vem surgindo.

Atendo-me então ao essencial de Gasset, ele alerta que a democracia longe de ser um movimento inercial exige esforço – e esforço significativo – mesmo para se manter. Ela contradiz os instintos mais baixos da barbárie, confronta o homem-massa – e desabafo: elite uma ova, nada mais homem-massa no sentido gassetiano do que as mobilizações de coxinhas – e nos desafia.

É este o nosso drama neste momento: deixar correr os acontecimentos de forma descuidada leva ao Ragnarök porque o caminho do ciclo virtuoso requer aquela atenção e cuidado – e mais do que isto a generosidade e elegância de que fala Gasset. A crença de que há suficiente sensatez em todos os lados destas disputas, a crença de que há sensatez em todos os níveis da sociedade, a crença de que há lideranças que honram o título é a esperança de um desenlace no qual não cumpram todos os papéis fortuitos que levam à tragédia, mas tornem-se protagonistas de uma história nova ainda a ser construída.